quarta-feira, novembro 16, 2016

A Metamorfose

Henry Alfred Bugalho

Certa manhã, após sonhos inquietantes, Luís de Almeida Neto despertou metamorfoseado num repugnante trabalhador braçal. Ao seu lado na cama não havia nenhuma modelo capa da última edição da Vogue, nenhuma ex-coelhinha da Playboy, mas sim Jurema, uma mulata descabelada que o chacoalhava com desprezo e, talvez, até com um pouco de ódio.

Não acredito que você vai se atrasar de novo pro trabalho, Claudomir! Andou bebendo de novo, seu desgraçado? Se você for despedido mais uma vez, juro que vou me embora. Juro por Deus.
Luís, agora conhecido como Claudomir, se levantou e cambaleou até a cozinha, ainda se adaptando àquele novo corpo bronzeado e àquelas mãos grossas e calejadas.
Não tinha café na cama trazido por uma empregada. Era café preto e pão com margarina, sempre sob o olhar severo de Jurema.
Seu bêbado desgramado… Ela sibilava.

Na porta do casebre, não havia nenhum Aston Martin, mas sim um esgoto à céu aberto. Pelo que Jurema lhe dissera, ainda tinha de pegar três conduções e o sol começava a despontar no horizonte.
Projetou-se para o interior do ônibus lotado, todos espremidos, coagidos a enfrentar o sovaco alheio. Roubaram os dez reais que Claudomir tinha no bolso, mas pelo menos deixaram os documentos.
No canteiro de obras, todo estabanado, Claudomir levou uma comida de rabo atrás da outra.
O que que tá acontecendo contigo hoje, homem? Tá parecendo uma dondoca carregando estes sacos de cimento. Vai lá, cabra, apure nisto aí.
E Luís, agora chamado de Claudomir, trabalhou duro como nunca antes na vida. Queria chorar. Queria ligar para o pai que agora devia estar nas Bahamas em seu veleiro. Mas Claudomir não tinha papaizinho milionário, o dele tinha sido morto numa troca de tiro entre polícia e traficantes, evento que até foi noticiado nos jornais.
Na hora do almoço, sentou para comer sua marmita e lhe bateu uma profunda tristeza.
Tá de bode, é? Um dos colegas de trabalho perguntou.
Você já sentiu como se estivesse vivendo a vida errada, como se fosse outra pessoa e estivesse dentro de um corpo que não é seu? Claudomir tentou expressar a estranha experiência, mas as frases lhe saíram entrecortadas e confusas.
Todos os dias. Na verdade, sou o Brad Pitt, mas nasci no lugar errado. O colega riu. Porra, Claudomir, cala esta tua boca e come! Desde quando você deu para filosofar?
E a tristeza foi se aprofundando ao longo dia, até um ponto insuportável. Claudomir se sentia pequeno, insignificante e vazio.

A primeira coisa que fez ao sair do serviço foi passar no boteco e beber com os amigos. Chegou tarde da noite em casa e Jurema o recebeu com aquela cara de cu.
O que foi, porra? Um homem não pode ter um pouco de alegria nesta vida de merda? Ele gritou.
Cê não muda nada mesmo. Um dia, me perde e verá falta que faço.


E assim se transcorreu um mês. Claudomir acordando cedo, pão com margarina, três conduções, trabalho duro na obra, marmita, aguardente e as brigas, algumas violentas, com Jurema.
Então, algo mudou dentro de Claudomir, talvez a constatação do inexorável destino que havia recaído sobre si. Ele jamais voltaria a ser Luís de Almeida Neto, aquela era uma página virada em sua vida, talvez fosse até um devaneio, talvez nunca houvesse sido outra pessoa de fato, mas sim e sempre Claudomir Silva, aquele pobre diabo sem futuro. E esta dura constatação foi libertadora. Se ele era aquilo e não havia solução, por que se entristecer?
Assim, aos poucos, Claudomir foi se tornando cada vez mais Claudomir, e a memória de Luís de Almeida Neto foi desvanecendo, até sumir por completo. A metamoforse havia sido integralmente internalizada.
Então, numa noite de sexta-feira, Claudomir chegou à casa com um ramalhete de flores.
São pra você, Jurema. Tinha uma coisa errada comigo aqui dentro. Algum demônio tentando me convencer que isto aqui não era real. Mas ele se foi…
Eles se amaram naquela noite como há muito não faziam.

Então, por um instante, Claudomir se deu conta de que, bem no fundinho, ele era feliz. Uma felicidade oprimida e tímida, que surgia pelas brechas do sofrimento, mas felicidade mesmo assim.

Felicidade apesar de.

Conto para o ciclo 6 da Oficina de Contos Temáticos do Vlog do Escritor