quarta-feira, dezembro 01, 2004

Improvisação em Tom Maior


Dedicado à minha fiel esposa, Denise e ao caro amigo, Flávius Meschke.

Nasci em outubro de 1872 em Viena, as folhas amarelecidas das árvores forravam o chão e O Nascimento da Tragédia era publicado. Meu pai era um humilde artesão, contratado por Ludwig Bösendorf. O trabalho na indústria de piano era minucioso e apaixonado. Não bastava ser apenas um artesão habilidoso, mas sim um amante incondicional da arte e da técnica de criar os melhores instrumentos da Áustria e, alguns diriam, até mesmo da Europa. A tradição legava que o filho deveria dedicar-se a profissão paterna, meu destino seria, no entanto, diferente. Eu não seria um artesão, pois não era dotado de nenhuma das qualidades necessárias para esta atividade. Seria um companheiro de muitos músicos e um grande amigo da música.
Em 1884, mudei-me para Nice, na Itália. O filósofo Friedrich Nietzsche havia solicitado minha presença. Em meados deste ano, ele concluía sua obra-prima Assim Falava Zarathustra e eu acompanharia passo a passo o término dessa obra. Num canto afastado, presenciei o filósofo sentado em sua mesa de mogno, escrevendo freneticamente. Linha após linha, páginas e mais páginas. Só tive a oportunidade de presenciar tanta dedicação na profissão de meu pai, que passava dias a fio a conseguir a forma perfeita para um instrumento, a sonoridade sublime. O que Nietzsche fazia era semelhante, ele buscava as palavras adequadas, a linguagem derradeira. Em certos momentos tocava algumas melodias ao piano. Sentava sobre um banco que rangia ao menor movimento, alisava seu espesso bigode, posicionava seus dedos calejados e borrados com a tinta preta da pena, e acariciava o teclado de marfim. O filósofo não era nenhum virtuose, sabia, no entanto, como extrair belas melodias e sonoras harmonias de um piano. Tocava com a mesma paixão que escrevia. Até mesmo arriscava alguma composição própria, alguns noturnos ou um impromptu. Eu sentia a força de sua interpretação, risível em certos pontos, profunda em outros. Esses breves momentos de divertimento musical eram subitamente substituídos por um novo ímpeto filosófico, nos quais Nietzsche lançava-se novamente à sua grande obra. Escrevia noite à dentro, com uma pequena chama sobre a mesa, e o ruído seco da pena sobre as folhas virgens podia ser ouvido. Algumas vezes, atravessava a noite a escrever. E, ao raiar do sol, levantava-se e observava a paisagem costeira, as oliveiras que cresciam nos aclives, o sol nascente sob o mar prateado, as aves marítimas sobrevoando as pequenas embarcações de pescadores locais, as ondas chocando-se contra uma escarpa rochosa. Em dez dias ele encerrou a quarta parte do Zarathustra e dispensou meus serviços.

Fui transferido para Weimar por um curto período de tempo, onde tive contato com vários estudantes de música, e fui cercado por uma aura de criação artística. As peças de Wagner, Beethoven, Schumman podiam ser ouvidas incessantemente pelos corredores da Escola da Corte de Weimar. Ademais, um célebre encontro ocorreria em 1885. Franz Liszt visitou a cidade e deu uma série de recitais. Já estava idoso, na casa dos setenta e cinco anos, com os cabelos longos totalmente brancos, a face repleta de verrugas, com as linhas do rosto demarcadas pela idade. Mas suas mãos e seu talento permaneciam intactos, sua força física havia se esvaído com a velhice, mas havia uma força interior, um conflito não resolvido, que o fazia atacar o teclado do piano de cauda. Liszt foi o primeiro showman, ele era a música, transparecia cada sentimento em sua expressão corporal, era uma dança sentimental. Dança que o grande compositor dominava como poucos, jogava seus cabelos contra o piano, encurvava-se todo nos pianissimos, jogava a cabeça para trás e lançava suas mãos pesadamente contra as teclas nos fortissimos, aproximava seu ouvido ao piano enquanto sussurrava uma tímida e melancólica melodia. Tocava e abria seus sentimentos a uma platéia seleta; agraciados eram aqueles que tiveram acesso ao coração de um gênio. Liszt morreria no ano seguinte, sozinho, a caminho de Bayreuth.

Nessa platéia encontrava-se Hans von Bülow. Ele havia sido aluno de Liszt em 1850, e prestigiou seu antigo mestre e sogro nesses memoráveis recitais. Fazia alguns anos que sua ex-esposa o havia largado para casar-se com Richard Wagner, e como fuga dessa profunda decepção, Bülow entregou-se de corpo e alma à música. Era diretor de uma das melhores orquestras de Europa, a Orquestra de Meiningen. Insistiu enfaticamente pela minha transferência com a Direção da Escola de Weimar, requeria minha integração à Orquestra por ele conduzida. Um novo ambiente abria-se diante de mim. Pude assistir da coxia a apresentação de grandes sinfonias, com Bülow regendo, de maneira enérgica e fria. Num tempo inalterado e constante, com uma precisão técnica estupenda. Às vezes, quando permanecia sozinho no teatro, Bülow tocava algumas peças pianísticas, tinha mãos extremamente pequenas, as quais, mesmo apesar do tamanho, eram de uma agilidade sem precedentes. Possuía um estilo preciso e desprovido de sentimentalismo, demonstrava através de suas interpretações a beleza da exatidão. Contrariava assim, todo o período romântico, que concebia a música como expressão dos sentimentos do compositor, como poesias sonoras.

No ano que se seguiria, uma reviravolta ocorreria em minha existência. Uma figura extremamente importante de um Império Sul-americano assistiu uma das apresentações de Bülow. Realmente não sei que espécie de magnetismo exerço sobre os amantes da música, mas este grande representante dos bárbaros foi atraído até mim. E graças a sua influência, Bülow foi convencido a desfazer-se de mim. Assim, em 1888, desembarquei na Baía de Guanabara, com o Cristo Redentor me observando e saudando-me com seus braços abertos. Fui levado até o Palácio Imperial, mas a boa vida sob a proteção da realeza não duraria muito. Dom Pedro II seria exilado na França pelo Partido Republicano em 1889. A partir desse momento, eu levaria uma vida desventurada. Pois a criadagem e os pertences da família imperial foram espoliados.
Um rico republicano levou-me para sua residência. Eu acompanharia os estudos musicais de sua filha, uma bela donzela totalmente desprovida de talento. Ela aprendia piano, certamente para a satisfação de seus pais. Possuía uma técnica medonha e era incapaz de tocar compassos mais complexos. Sujeitei-me a essa enfadonha atividade. Os sons emitidos eram frios e inexpressivos. Sempre acreditei que a interpretação de um músico era um reflexo da sua natureza interior. A força com a qual um virtuose tocava era uma energia intrínseca violenta em busca de manifestação. Podia ser uma pequena pedra lançada em um lago, no começo seu efeito era pequeno, mas à medida que os círculos concêntricos afastavam-se da sua origem, sua força de expressão aumentava. Assim são os músicos, tocam ou cantam, não porque gostam ou para se divertirem, mas porque é necessário. A arte é uma válvula de escape, é um vulcão em erupção, é uma tormenta. E Clarice não era nada disso, era uma jovem republicana permeada de uma cultura aristocrática. Talvez se tornasse uma boa esposa e mãe dedicada, mas jamais sentiria a necessidade essencial da música. E mesmo apesar de sua inaptidão, apresentava freqüentes recitais a alguns amigos da família. Recebia elogios forçados e enrubescia presunçosamente. Casou-se em 1895, ao 22 anos. Não houve quase nenhum desenvolvimento em suas faculdades musicais e ela partiu para seu novo lar sem pesares por me deixar. Seus pais, percebendo a inutilidade da minha presença, dispensaram meus serviços.


Um animado Café brilhava ao som da música popular brasileira. Eu observava as mesas com toalhas brancas e belos arranjos florais. Elegantes garçons anotavam os pedidos e rostos alegres conversavam em tom elevado. O maxixe, o choro e a seresta invadiam o ambiente. Cabeças balançavam e pés marcavam o tempo, enquanto ouvintes saboreavam o ritmo tipicamente brasileiro, com suas síncopes e jeito molenga e moleca de improviso. A música marcadamente percussiva, com um piano martellato, e com intérpretes mestiços. A melodia agradável da orquestra, com o violão, a flauta, o cavaquinho e o gran piano cantando canções cariocas. As pessoas dançavam e cantavam através das noites quentes de verão. Tudo era diferente daquela Europa comportada e fria, o sangue latino miscigenado com o africano dotava os brasileiros de um senso rítmico e de um calor humano inexistente em outra parte do globo. O modo descompromissado e alegre de tocar aquecia os corações e aproximava as pessoas. Esse foi o tempo mais feliz para mim, pois nunca havia me divertido tanto. Nunca a música havia se mostrado como mera diversão para mim, ela era séria e presa a regras formais de harmonia, mas esse povo, que era visto como bárbaros incultos ou como índios selvagens, mostrou-me como a música pode ser séria sem perder a liberdade criativa. A música brasileira era uma criança comparada com a européia, mas, por isto mesmo, possuía uma liberdade de crescimento há muito esquecida pela esterilidade clássica. Ritmos alternantes e sobrepostos, melodias cativantes, pessoas com uma disposição alegre e informal.

Infelizmente houve uma nova troca de ambiente. Por razões financeiras o Café teve de ser fechado. Eu não poderia mais permanecer lá. Uma viagem levou-me até o Cine Smart, em Santa Rita do Passa Quatro, no interior de São Paulo. O cinema era mudo nessa época e acompanhado por música ao vivo. O pianista improvisava à medida que o filme se desenrolava. Conheci então, José Maria de Abreu, mais conhecido como Zequinha de Abreu. Era um dos pianistas que acompanhavam as sessões cinematográficas e também um grande compositor. As pessoas eram atraídas ao cinema, mais por suas interpretações do que pelo filme em si. Confesso que eu também fazia parte desse grupo, pois não lembro de nenhum dos filmes projetados, mas ainda posso sentir a vibração da delicada e trágica música, ou do rápido e cômico improviso, das cadências deslizantes que acompanhavam as chanchadas.
Em 1921, Zequinha de Abreu mudou-se para São Paulo, e sem a sua grande estrela, o Cine Smart não demorou muito até fechar suas portas.

Uma vez mais, eu não tinha um lar.

O valor de aquisição de um piano Bösendorf era além do poder aquisitivo de muitas pessoas. A taxa de transporte para a Europa era equivalente ao preço de um piano recém-fabricado. A qualidade era inegável, teclado de marfim proveniente das colônias africanas, não que eu concordasse com a matança dos elefantes, mas tal material era o que de melhor havia, as cordas de metal da Inglaterra, a madeira das Filipinas, fruto de um trabalho quase escravo dos lenhadores, e os martelinhos de Hamburgo. Eu era uma obra-prima da construção de pianos e não havia mais lugar para mim. Fui transportado para um depósito no porto de Santos, à espera de algum comprador. O preço exigido era absurdo e em pouco tempo a poeira acumulou sobre mim. Em dois anos, minha situação era lamentável, completamente desafinado e com as traças e cupins devorando minha estrutura. Em cinco anos, não restava mais nada do filho mais ilustre de um anônimo artesão da Familie von Bösendorf. O meu perecimento solitário era o primeiro indício da falência musical. Os instrumentos elétricos tomariam o lugar dos acústicos e até o ano dois mil, os intérpretes seriam substituídos pelos computadores. A música como um legado criativo de homem seria superada como um processo lógico das máquinas e da tecnologia. Não havia mais espaço para mim, assim como não haveria em breve espaço para os gênios da música. Beethoven, Mozart, Chopin ou qualquer outro compositor encontrariam suas mortes definitivas nos século XXI. A tecnologia representaria a morte da alma da música.
Meus restos foram queimados e algumas ligas metálicas fundidas, mas minha alma acompanharia todos aqueles que um dia acariciaram meus teclados, pois eu também havia escrito Zarathustra, também havia composto as Rapsódias Húngaras, também havia regido a Orquestra de Meiningen, havia participado dos esforços desesperados de uma jovem burguesa, havia dançado ao som dos chorinhos e sambas, havia composto os mais singelos e animados improvisos no Cine Smart.
Eu, um piano inanimado, haveria de viver. Eu, um objeto inanimado, haveria também de subir até o paraíso. Pois minha alma é a música.

Curitiba, 2001.

(Extraído da obra "Ciclos: A Vida e suas Variações")

Nenhum comentário: