domingo, novembro 14, 2004

O Vôo de uma Alma



Dedicado a minha amada esposa, Denise, a minha irmã, Uelshe, e a todos aqueles que estão condenados à liberdade.

O Pássaro

Voar. O grande sonho do homem. A liberdade suprema. A ruptura com a lei mais rígida da natureza: a gravidade.
Annabela conhecia o doce sabor de estar entre as nuvens. Desde de filhote, havia se acostumado com seu papel de predadora na natureza. Acostumou-se também com a hierarquia, sabia que os mais temíveis possuíam as maiores regalias.
Além de ser uma caçadora, possuía um ninho no pico mais alto. Uma visão absolutamente estonteante, num pico nevado, com ar rarefeito, donde podia ver distâncias imensuráveis: o vale verdejante — colorido com a multiplicidade de tons que a primavera proporciona —, a vida animal, convivendo numa frágil estabilidade, o lago cristalino e imaculado onde deslizavam patos selvagens, e sob tal superfície nadavam peixes multicoloridos, um riacho cascateante rasgava a singela paisagem, picos longínquos proporcionavam a este espetáculo uma moldura. Era um mundo cercado por muralhas naturais intransponíveis e, por isto, muito dos animais que ali viviam jamais veriam, em suas breves existências, outro panorama.
Mas com Annabela isso não ocorria. Ela voava alto e para muito longe, havia boatos de que até teria visto o mar, mas nada comprovado. No entanto, todos aceitavam como patente uma verdade: Annabela era a mais livre de todas as criaturas do vale.
Apesar disso, poucos sabiam do desejo de Annabela de ser, ao menos uma vez, igual a eles. Ver o mundo com os olhos de alguém que tem os pés firmes no chão e que extrai seu alimento da terra. Ela invejava o homem, que construía coisas e que plantava, invejava a lebre veloz que saltitava pela planície, invejava os peixes que podiam respirar sob a água. Contudo, ela sabia, no seu íntimo, que jamais seria capaz de deixar seu pico distante, pois era onde se sentia protegida. De onde era respeitada e temida.

A Presa

Um pequeno roedor escondia-se no meio da relva. Sabia que a vegetação baixa era perigosa e que não devia arriscar-se em campo aberto, mas era jovem e impetuoso. Brincava com pequenos insetos que pretendia em breve devorar, mas um cheiro estranho invadiu suas pequenas narinas. Ergueu-se sobre as duas patas traseiras e farejou o ar, movimentando a ponta do focinho. Balançava-se ao vento acompanhando o ritmo da grama e dos dentes-de-leão. Não conhecia aquele odor, mas um calafrio percorreu seu frágil corpúsculo. Ouviu então, um agudo grito nos céus. Percebeu o risco que corria e pôs-se em fuga. Saltitou agilmente em direção às frondosas árvores que serviriam de proteção e em pouco tempo alcançaria sua quente e úmida toca.
Um segundo grito, mais perto.
Um terceiro, mais próximo ainda.
O imprudente roedor sentiu o toque entrópico da morte em seu pêlo castanho-claro e rolou pela relva, ainda molhada com o orvalho. Abatido pelo impacto, ainda tentou se virar, apenas para encarar seu suplício. Annabela descia impiedosamente sobre aquele animalzinho ousado e descuidado. Ele possuía uma profunda ferida em suas costas e o sangue jorrava abundantemente. Com suas garras, Annabela levou-o até seu ninho. O roedor ainda vivia quando foi depositado sobre o capim seco e a palha, mas Annabela não estava com fome. Deixou-o agonizando enquanto iria dar seu passeio matinal. Não tinha mais que se preocupar com comida naquele dia, podia então se divertir, voar até as montanhas mais distantes, dar um rasante no lago e talvez visitar o único habitante humano do vale.

O Homem

Heinrich havia suado muito para construir sua pequena cabana no vale. Fugia da vida e da miséria. Todas suas empresas no mundo civilizado foram frustradas pelo destino. Tinha a impressão de que tudo que tocava decaía. Não fora capaz de cuidar de sua mulher, que morreu de tuberculose. Sua filha mais jovem foi levada pela escarlatina, e o Supremo Tribunal julgou-o incapaz de cuidar do seu primogênito. Arrancaram-no de seus braços e o alojaram num orfanato. Heinrich não tinha mais nada a perder; não tinha dinheiro; não tinha família; não tinha futuro. Reuniu seus parcos pertences, alguns livros, um violino, sua mochila e embrenhou-se nas montanhas para viver como um eremita. Desejava conhecer a natureza e os animais, pois sabia que jamais compreenderia os homens. Ele admirava a águia que voava sobre sua cabana e batizou-a com o nome de sua filha, Annabela. Às vezes, ela pousava sobre uma árvore, uns quinhentos metros de distância aproximadamente e ficava observando-o fixamente. Havia um fascínio mútuo. Annabela representava a liberdade plena; Heinrich representava a razão. Eles se amaram desde o primeiro momento. Heinrich ficava fascinado com o plaino suave de Annabela e ela, por sua vez, não compreendia o homem com seus apetrechos: aquele galho de árvore com uma ponta que reluzia ao sol que era usada para cortar madeira, ou aquela caixa de madeira que emitia belos sons quando era esfregada com uma vara. Cada um representava um enigma em seus respectivos mundos. Talvez fossem enigmas até para si próprios.

O Vôo

As correntes de ar em seu corpo eram mais agradáveis do que qualquer outra sensação. Romper seus limites diariamente, subir acima das nuvens, observar aquele misterioso mundo terrestre, cíclico em seu crescimento e organizado em sua evolução. Como era gostosa a chuva de verão em suas penas. Em seu vôo, Annabela sentia seu Criador. Em seu vôo, Annabela unia-se a todos os seres vivos.
Entretanto, há alguns meses ela não sentia mais essa alegria de voar. Caçar, voar até distâncias longínquas, mergulhar através do ar rarefeito, pousar em seu ninho e observar o vale, tudo isto era penoso. Não compreendia qual era a sua função no ecossistema. Sentia sua inutilidade diante da vida. Qual era a sua razão de ser? Sua mãe havia sido uma grande caçadora e jamais deixou faltar alimento para seus filhotes. Mas Annabela era diferente de seus irmãos e de sua mãe. Ela buscava feitos maiores, queria desenvolver-se e atingir um nível superior. Por isso, ainda filhote, afastou-se de seu lar e voou para muito longe. Voou até encontrar um nicho satisfatório e lá fez seu novo lar. Inconscientemente, começou a seguir seu impulso natural. Utilizando-se dos materiais disponíveis, teceu um confortável ninho. Começou a caçar, e nesse momento sentia o sangue de sua mãe correndo em suas veias. Os projetos de elevação foram sendo esquecidos e passou a voar à procura de um companheiro, pois esperava, em breve, poder alimentar alguns filhotes também.
Mas não contava com o advento do homem. Ela jamais havia visto um antes. E a presença dele havia lhe dado novamente esperança de alçar vôos mais altos e mais ousados.

A música

Do violino brotavam lindas melodias. O som metálico e agudo ecoava pelo vale e harmonizava com o canto dos sabiás, com o ruído das árvores centenárias crescendo, com o pequeno e apressado córrego. E harmonizava com Annabela. As músicas tristes de Heinrich eram o canto de desespero de Annabela. Ambos haviam acreditado no mundo e haviam perdido suas esperanças.
Eles jamais haviam conversado, pois isto era inviável. Mas Heinrich compreendeu que a orgulhosa e imponente águia gostava de sua música. Sempre quando ele tocava as primeiras notas, Annabela descia velozmente do seu pico e pousava cada vez mais próximo da humilde cabana. Era uma conquista demorada e perigosa. Heinrich dependia cada vez mais da sua ouvinte. Quando queria uma companhia, sabia que podia recorrer ao violino para obtê-la. Desejava mostrar-lhe seu mundo, por isto, lia, algumas vezes, poemas para Annabela. Lia Filosofia. E quando ela partia, sentia-se um ignorante e deslocado. Havia perdido completamente a razão. Ler poesias para um pássaro? Soava absurdo. Mas considerava ser tudo isso parte da conquista. Pois a águia também mostrava seus truques. Fazia acrobacias aéreas, trazia animaizinhos e os deixava na porta da sua cabana para que ele pudesse se alimentar.
Dependiam cada dia mais um do outro. E a convivência trazia luz a aspectos cada vez mais profundos da personalidade deles.

A Liberdade

Um grande conflito havia se instaurado em Annabela. Não que ela compreendesse o que Heinrich lia em voz alta, mas, no seu âmago, uma tênue consciência se desenvolvia. Percebia cada vez mais como sua liberdade era restrita.
Ela era condenada à liberdade. Jamais teria uma vida comum, enquanto fosse águia. Teria que acordar sempre olhando o mundo de cima. Seria sempre a caçadora e a dona das montanhas. A vida na terra significaria seu perecimento. Não sentir o vento em suas asas significaria o abandono da existência. Invejava o homem, pois ele podia criar, plantar, cortar, ler, tocar violino. Invejava os animais que não precisavam caçar. Eles podiam se alimentar de plantas e sempre tinham alimento em abundância, mas se ela falhasse na sua empreitada, passaria fome. A natureza havia escolhido assim.
Não compreendia o que Heinrich lia, mas sabia que era algo importante, talvez crucial, para os homens. Não entendia os ruídos que Heinrich fazia com aquela enigmática caixa de madeira, mas à noite, tentou imitá-los. E Annabela cantou pela primeira vez. Cantou ao pôr-do-sol, que nas montanhas eram os mais lindos que existiam. Cantou ao crepúsculo avermelhado, às nuvens douradas pelos últimos raios do luminar de fogo, à sombra que cobria rapidamente o vale. Cantou para Heinrich. Cantou seu amor por ele.

A Escravidão

Um grito agudo ecoou pelo vale. Heinrich jantava um castor que a águia havia lhe trazido. A pequena cabana era alumiada por um lampião enferrujado. A vida nas montanhas acabava quase ao mesmo tempo em que o sol se punha. Assim, tinha-se de aproveitar a salutar luz solar. Heinrich ouviu aquele canto agudo e abriu a janela.
Era um canto de amor pela vida. Um canto jamais ouvido. Nenhum ouvido humano havia presenciado tamanha beleza. Não que fosse exatamente agradável, mas era sincero, puro. Nenhum humano, em meio a uma vida gananciosa e miserável, poderia cantar daquele modo. Mesmo ele, quando tocava seu violino, não se desprendia da sua miséria, tocava sua decepção, sua inferioridade. Mas Annabela cantava o sublime, cantava a liberdade.
A vida nas montanhas não havia sido uma escolha para ele. Era escravo da sociedade e, mesmo longe dela, ainda era dependente. Se não fosse o dinheiro, a propriedade privada, os valores familiares, a justiça, ele não seria um exilado. Mesmo fugindo, permanecia um escravo da sociedade e jamais seria livre. Por isto invejava Annabela. Ela podia voar para onde quisesse, porque ninguém a subjugava. Não dependia de dinheiro para obter o que precisava, não tinha família.
Lembrou-se de sua esposa e de seus filhos. Chorou, ouvindo o canto da vida.

A Humanidade

Muitas primaveras passaram. Annabela havia enfraquecido nos últimos meses. Manteve-se fiel a Heinrich e não teve filhotes. Eles possuíam um relacionamento muito peculiar. Às vezes, deixava Heinrich alimentá-la em suas mãos. Mas, voar era cada vez mais difícil e não conseguia mais caçar com tanta habilidade.
Heinrich por sua vez, havia contraído uma gripe, a qual, pouco a pouco, tornou-se uma tosse crônica que tomou conta do seu pulmão.
O homem e a águia pereciam. Pereciam não por fraqueza, mas por insatisfação com suas vidas. Um sentia-se escravo e queria ser livre, a outra era livre e desejava ser escrava.
Ele não mais tocava seu violino, mas Annabela cantava para ele. Para Heinrich não havia mais Filosofia nem poesia, mas a vida de Annabela era sua resposta. O amor deles era impossível, pois cada um representava um papel diferente no drama da vida. Heinrich era o homem, Annabela era o animal. Mas conviviam, e mesmo apesar da impossibilidade, se amavam.

O homem despedia-se da vida. A pneumonia havia se tornado insuportável. Annabela não podia mais voar e passava fome no seu elevado ninho.
Sentiam muita falta um do outro. Pois Heinrich havia aprendido a ser livre com ela. Depois de um certo tempo, ele a acompanhava em seus vôos, até havia escalado a montanha, a fim de saber onde era o ninho de Annabela. Subiu e viu o mundo com os olhos de uma águia em repouso, e era exatamente isso que ele era, uma águia em potência. Gritou com toda a força dos seus pulmões. Um grito solitário, um grito de libertação. Mas agora não podia mais escalar.
Enquanto estava saudável, a águia descia todos os dias até a cabana do seu amado. Pousava no parapeito da janela e observava o cotidiano humano. Também criou uma rotina para si. Acordava cedo, caçava para ela e para Heinrich, voava em torno das montanhas, pousava junto ao seu companheiro e depois, à tardezinha, cantava. Era seu modo de sentir-se humana. E era mais humana do que muitos homens.


A Libertação

Chovia muito. Ventos fortes batiam nas janelas da cabana. Uma dor percorria o corpo do moribundo. Gotas geladas pingavam sobre a cama e sobre a mesa. Heinrich não tinha forças nem para acender o lampião. A noite caía e as trevas dominaram o ambiente. Era difícil respirar, uma tosse sanguinolenta o matava.

No alto da montanha, um pássaro indefeso perecia de fome. Não se alimentava há dias e não tinha forças para voar. Seu momento derradeiro havia chegado e ela começou a cantar. Celebrava a vida, pois viveria na natureza. Retornaria para o local de onde havia vindo um dia. Celebrava a chuva, as nuvens e o céu. Não era mais uma mera espectadora que ficava em cima da montanha, com seu canto se tornara criadora.

O homem e a águia morreram juntos. Pois eles eram o Mesmo. Faziam parte do mesmo Universo e compartilhavam a mesma Vida. O homem soube respeitar a natureza e por isso se libertou. A águia compreendeu o homem e, assim, também se libertou. Ambos haviam sido escravos um dia, mas no momento que eles se conheceram, a vida deixou de ser um fardo.

Foi no momento em que eles se amaram que o caminho da Libertação se abriu.
Curitiba, 2001.
(Conto publicado na Antologia 2001 do Grupo Pórtico da Bahia; extraído da obra "Ciclos: A Vida e suas Variações")

Um espaço para meus contos

Eu hesitei muito antes de publicar os meus contos na internet. Duas questões me perturbavam: a propriedade autoral e a existência de leitores.
Nenhum escritor escreve para que não se reconheça o seu mérito como escritor. Quando alguém se senta diante de uma folha em branca (ou do prompt do Word), ele não está imbuído de pensamentos altruístas como:
- Vou fotocopiar meus textos e distribuir na rua para quem quiser ler.
À princípio, um escritor quer ser lido, mas também quer ganhar dinheiro com o que escreve. Não é à toa que existe o registro de autoria realizado pela a Biblioteca Nacional. Ninguém quer que sua obra seja copiada, plagiada ou seja reconhecida como obra de outrem. Contudo, à medida que o tempo vai passando e que a grana não vai surgindo, a necessidade de ser lido passa a ser maior do que o desejo de lucrar com isto.
Além disto, o mercado literário para publicação de contos é algo bastante restrito. São poucos os autores que conseguem o seu espaço nesta área e muito menos os que conseguem ser campeões de venda.
O leitor brasileiro ainda não descobriu o valor da narrativa curta, apesar de ser esta a grande linguagem contemporânea (apesar de o conto ser um dos gêneros literários mais primitivos), numa época onde ninguém mais tem tempo e concentração para ler um romance com mais de 200 páginas. A concisão e a objetividade do conto faz com que, neste gênero, as verdades mais essenciais possam se desvelar com uma potência que no romance está diluída.
Aqui estarão os meus erros e os meus acertos literários.
Divirtam-se, apreciem ou destestem.
Abraços.