quarta-feira, dezembro 22, 2004

Dança Macabra


“É muito cômodo transferir a outrem a culpa por nossas escolhas. A verdadeira medida da responsabilidade é como o Homem compreende e lida com seus atos”. (Henry Alfred Bugalho)

José — também conhecido José da Kombi, ou simplesmente Zé Carreteiro — entrou no boteco, logo ali, quase na esquina da Saldanha Marinho, a ruela dos malandros, com a Visconde de Nácar, a avenida das prostitutas, e cumprimentou seus amigos. No balcão estavam sentados Jonas de barbas grisalhas, Ronaldo ou Rony — o mecânico truculento —, o Mário da construção — exímio pedreiro que carregava pinga na garrafa-térmica para firmar o pulso logo de manhã —, Paolo da Sicília — italiano mal-encarado que adorava cuspir no chão, no copo, no balcão, fosse onde fosse —, e Pedro — sinuqueiro e pinguço profissional; uma das duas mesas ainda permanecia vazia, na outra estava sentado sozinho o eloqüente João, contador de causos que deixara o interior do estado para procurar emprego na cidade. Malograda tentativa. Ocupação atual: degustador de cerveja. Jogavam sinuca o Chico da Luz, excelente eletricista, e Paulo Véio, um polido e circunspeto senhor na casa dos cinqüenta anos, freguês do boteco há mais de quinze.
José entrou e se sentou ao lado de João. Pediu uma caninha. Apenas uma, para começar. Uma televisão monocromática transmitia o jornal das oito, mas ninguém lhe dava importância. Alguns comentavam a derrota do Coritiba no último jogo, outros reclamavam do calor, sempre acompanhado de um pedido — Manda uma loura gelada pra refrescar.
O dono do bar, Bartolomeu, atendia de pronto, sempre atencioso e sorridente, mesmo com o bêbado mais inconveniente. José segurou o seu copo e entornou-o num gole só. Deu uma bafora de satisfação — Ah! Essa é da boa! — recebendo a aprovação de João, que o olhava curioso e ansioso, talvez tentando recordar-se de alguma história mais ou menos interessante que fosse digna de ser posta na roda. Com o cérebro anuviado, desistiu — “Quem sabe mais tarde?”, pensou, esquecendo-se, logo em seguida, daquilo que pensara há dez segundos atrás. José pediu mais uma rodada. Uma terceira. Uma quarta. Uma décima.
Por que ele fazia aquilo?, José pensou, olhando filosoficamente para o reluzente copinho vazio. Não quero voltar pra casa. Não agüento aquele nenê que não pára de chorar nunca. Os dois meninos já eram suficientes, não entendo porque a Lúcia quis um terceiro filho. Realmente, não suporto mais essa vida. Ou será que ela pensa que o dinheiro dos carretos é suficiente pra dar o que comer para aqueles pançudinhos? Ela que se vire! Aposto que a cobra da mãe dela deve estar lá em casa. Maldito aquele que inventou a sogra! Os pais deveriam morrer quando duas pessoas se casam. Que pensamento horrível este! Concentre-se no copo. Por que ele está vazio? — Enche aqui, Bartolomeu! — Aí vem ele, meu Salvador! Como é belo o líquido que desce pelo gargalo da garrafa e preenche o copo vazio, e, depois, como eu estendo o meu braço, apanho o copo cristalino, suspendo-o até a minha boca, e como, virando-o rapidamente, sinto aquele líquido cálido e inebriante descendo por minha goela abaixo, caindo gostosamente sobre o meu estômago semivazio, onde o resto de lanche da tarde ainda está sendo digerido, e como ele entorpece o meu cérebro boçal, quase analfabeto. O boteco é belo. A minha casa é o inferno. Adoro as histórias do João, mas esta eu já conheço. É sobre o dia que os sem-terras tentaram invadir a fazenda do seu antigo patrão, e sobre o tiroteio que aconteceu lá quando o fazendeiro resolveu reagir. Deve ser bom morar no campo, longe deste caos que é a cidade, longe do trânsito. Até hoje não sei porque resolvi fazer carretos. Claro que me lembro! Foi quando eu perdi o meu emprego na construção. Se não fosse aquele pequeno acidente. Não foi minha culpa ter derrubado aqueles tijolos na cabeça do negão. Eu não queria ter machucado ninguém. Bons eram os tempos que eu jogava futebol. Eu podia ter sido melhor que Pelé! Foi Lúcia quem me perdeu. Embarrigou bem quando minha carreira de jogador estava começando a deslanchar. Eu estaria na seleção brasileira no máximo em dois anos. Eu seria um grande jogador, sem dúvida! Mulher é bicho ruim, não gosta de ver homem feliz. Se bem que eu ainda amo Lúcia; adoro aqueles olhinhos pretos que me recepcionam quando chego em casa. Então ela vem e me beija na bochecha e diz que sentiu saudades. Sinto falta do seu corpo contra o meu, juntos, entrelaçados, sob os lençóis. Mas isso foi há muito tempo atrás. Agora é só choro e criança berrando, e sogra reclamando que eu tirei sua filha de casa para deixá-la na miséria. Só que ela tem é uma vida de rainha, isso sim! Fica o dia inteiro em casa, sem fazer nada, enquanto eu labuto todo santo dia pra levar comida pra casa. O único luxo que eu tenho é a minha cachacinha de vez em quando. Também sou filho de Deus, caramba!

Zé Carreteiro deixou o boteco trançando as pernas, tropeçando nos próprios pés. Estava alto. Longe. Muito longe. Só não bebeu mais porque o dinheiro que recebera naquele dia havia terminado; se tivesse mais, não teria saído tão cedo de lá. Virou à direita na rua Fernando Moreira e, cambaleante, passou ao lado do tubo de ônibus. Zé Carreteiro caminhou uns cinqüenta passos de bêbado (frente, esquerda, direita, trás, frente, frente, direita, esquerda, trás, frente...). Estacou. Onde estou? Olhou para os lados, para baixo, para cima. Ficou rodando no lugar, tentando distinguir algum ponto de referência, algum rosto conhecido, a sua Kombi. Sua cabeça rodopiava, carros passavam de um lado, ônibus vermelhos e compridos do outro. Onde estou? Cadê a minha perua? Mantinha-se de pé com esforço. Soluçava. Sentiu uma ânsia de vômito, mas ainda não era a hora para isso; talvez em casa. Zé olhou para cima e viu, com pouquíssima distinção, alguém o observando na janela de um prédio. Maldito bisbilhoteiro! Desce aqui embaixo pra eu te dar uma surra e ensinar a não espionar as pessoas! Onde estou? Ele sentiu suas pernas fraquejarem e a cabeça pesou. Deu três passos para trás e tombou, chocando a cabeça violentamente no chão. Toc!
Ninguém se importou com aquele homem inconsciente largado na calçada. As pessoas que passava por ali ou desviavam ou fingiam que não havia ninguém aos seus pés. Se Zé estava morto ou vivo, isto a pessoa alguma importava. O seu corpo inerte era algo semelhante a um saco de lixo a espera do caminhão de coleta. Isto até que uma viatura da polícia apareceu; não se sabe se ela simplesmente circulava pela região ou se alguém, compadecendo-se ou enojando-se com aquele bêbado despejado na calçada, ligou para a polícia para que eles tomassem alguma providência.
A viatura estacionou sobre a calçada e dois soldados da polícia militar desembarcaram. Olharam com desdém para o vagabundo e ordenaram que ele se levantasse, porém, sem resultado. Trocaram algumas palavras entre si, maldições, talvez, sobre a ingrata profissão deles. Soldado Moraes tentou despertar Zé Carreteiro empurrando-o com os pés. Zé resmungou. Abriu os olhos vagarosamente e viu o vulto uniformizado dos grandalhões. Quem são essas pessoas? Por que estão olhando para mim?, divagou o bêbado, que sentia uma forte dor-de-cabeça, terrível combinação da queda com a embriaguez. Os dois policiais se olharam e decidiram carregar o bêbado até o outro lado da rua e deixá-lo sentado no ponto do ônibus metropolitano. Ergueram-no, suspendendo-o pelos braços (não sem antes ter tentado despertá-lo mais uma vez). As pernas de Zé, semiestendidas, roçavam com o peito dos pés no chão, ao mesmo tempo em que a calça, dois números maior que o manequim do usuário (presente da sua sogra), escorregava lentamente, exibindo sua cueca bege com três dias de uso. Zé se esforçou para erguê-la novamente, mas como era carregado pelos braços, não conseguia segurar a peça de roupa que caía. Os policiais depositaram o bêbado, cujas calças já estavam na altura dos joelhos, na porta de um estabelecimento comercial em construção, localizado logo em frente do ponto de ônibus. Eles embarcaram, então, no automóvel policial e partiram carrancudos.
Uma senhora se aproximou e, postada à espera do coletivo, olhava de soslaio, bastante desconfiada, para o embriagado que estava sentado, com o torso levemente reclinado para a direita, justamente atrás dela.
Onde está a minha Kombi?, procurou-a Zé, desanimado. — A zenhora zabe onde ixtá a minha berua?, murmurou, miando, o ébrio. — Eu acho que iztacionei aqui berto. E soluçou, sentindo o gosto acre dos líquidos gástricos que tentavam voltar. Será que esta gorda não vai me responder? Zé Carreteiro se levantou e, ainda em passos de bêbado, prosseguiu em sua busca pela Kombi. Atravessou a rua, quase sendo atropelado, e caminhou até o tubo do biarticulado. Distinguiu o cobrador e também lhe perguntou sobre a perua. Recebeu apenas um olhar de desdém e continuou em sua marcha. Os pensamentos ainda rodopiavam e mais uma vez não pôde manter-se de pé. Ao contrário da primeira vez, porém, esta queda foi mais amena; Zé Carreiro caiu de joelhos, regurgitou líquido somente, e beijou o solo. Olhava as pedras da calçada formando um mosaico, viu uma barata passando, e viu os pés de um rapaz. Um ônibus passou, ruidoso, estremecendo o chão e ferindo os ouvidos. Zé sentiu vergonha de si próprio, pois estava literalmente na sarjeta. Tal sentimento contribuiu para clarear os pensamentos, de tal modo que, num esforço descomunal, Zé se levantou e esforçou-se para caminhar em linha reta. Viu o seu veículo estacionado e, contente, foi até ele.
Zé Carreteiro dirigiu para casa. Subiu na calçada três vezes, furou cinco sinais vermelhos e quase atropelou um casal de velhinhos. Ao chegar em casa, espancaria sua esposa e seus dois filhos, vomitaria na cama e sujaria todo o banheiro com urina. Quando deitasse sua cabeça na cama para dormir, pensaria apenas em como sua família estragara sua vida, sem refletir em nenhum momento em como ele destruía, dia após dia, as pessoas que mais o amavam.
Eu podia ter sido melhor que Pelé! Ah, se podia!

(Extraído do livro "Retratos da Província")

quarta-feira, dezembro 01, 2004

Improvisação em Tom Maior


Dedicado à minha fiel esposa, Denise e ao caro amigo, Flávius Meschke.

Nasci em outubro de 1872 em Viena, as folhas amarelecidas das árvores forravam o chão e O Nascimento da Tragédia era publicado. Meu pai era um humilde artesão, contratado por Ludwig Bösendorf. O trabalho na indústria de piano era minucioso e apaixonado. Não bastava ser apenas um artesão habilidoso, mas sim um amante incondicional da arte e da técnica de criar os melhores instrumentos da Áustria e, alguns diriam, até mesmo da Europa. A tradição legava que o filho deveria dedicar-se a profissão paterna, meu destino seria, no entanto, diferente. Eu não seria um artesão, pois não era dotado de nenhuma das qualidades necessárias para esta atividade. Seria um companheiro de muitos músicos e um grande amigo da música.
Em 1884, mudei-me para Nice, na Itália. O filósofo Friedrich Nietzsche havia solicitado minha presença. Em meados deste ano, ele concluía sua obra-prima Assim Falava Zarathustra e eu acompanharia passo a passo o término dessa obra. Num canto afastado, presenciei o filósofo sentado em sua mesa de mogno, escrevendo freneticamente. Linha após linha, páginas e mais páginas. Só tive a oportunidade de presenciar tanta dedicação na profissão de meu pai, que passava dias a fio a conseguir a forma perfeita para um instrumento, a sonoridade sublime. O que Nietzsche fazia era semelhante, ele buscava as palavras adequadas, a linguagem derradeira. Em certos momentos tocava algumas melodias ao piano. Sentava sobre um banco que rangia ao menor movimento, alisava seu espesso bigode, posicionava seus dedos calejados e borrados com a tinta preta da pena, e acariciava o teclado de marfim. O filósofo não era nenhum virtuose, sabia, no entanto, como extrair belas melodias e sonoras harmonias de um piano. Tocava com a mesma paixão que escrevia. Até mesmo arriscava alguma composição própria, alguns noturnos ou um impromptu. Eu sentia a força de sua interpretação, risível em certos pontos, profunda em outros. Esses breves momentos de divertimento musical eram subitamente substituídos por um novo ímpeto filosófico, nos quais Nietzsche lançava-se novamente à sua grande obra. Escrevia noite à dentro, com uma pequena chama sobre a mesa, e o ruído seco da pena sobre as folhas virgens podia ser ouvido. Algumas vezes, atravessava a noite a escrever. E, ao raiar do sol, levantava-se e observava a paisagem costeira, as oliveiras que cresciam nos aclives, o sol nascente sob o mar prateado, as aves marítimas sobrevoando as pequenas embarcações de pescadores locais, as ondas chocando-se contra uma escarpa rochosa. Em dez dias ele encerrou a quarta parte do Zarathustra e dispensou meus serviços.

Fui transferido para Weimar por um curto período de tempo, onde tive contato com vários estudantes de música, e fui cercado por uma aura de criação artística. As peças de Wagner, Beethoven, Schumman podiam ser ouvidas incessantemente pelos corredores da Escola da Corte de Weimar. Ademais, um célebre encontro ocorreria em 1885. Franz Liszt visitou a cidade e deu uma série de recitais. Já estava idoso, na casa dos setenta e cinco anos, com os cabelos longos totalmente brancos, a face repleta de verrugas, com as linhas do rosto demarcadas pela idade. Mas suas mãos e seu talento permaneciam intactos, sua força física havia se esvaído com a velhice, mas havia uma força interior, um conflito não resolvido, que o fazia atacar o teclado do piano de cauda. Liszt foi o primeiro showman, ele era a música, transparecia cada sentimento em sua expressão corporal, era uma dança sentimental. Dança que o grande compositor dominava como poucos, jogava seus cabelos contra o piano, encurvava-se todo nos pianissimos, jogava a cabeça para trás e lançava suas mãos pesadamente contra as teclas nos fortissimos, aproximava seu ouvido ao piano enquanto sussurrava uma tímida e melancólica melodia. Tocava e abria seus sentimentos a uma platéia seleta; agraciados eram aqueles que tiveram acesso ao coração de um gênio. Liszt morreria no ano seguinte, sozinho, a caminho de Bayreuth.

Nessa platéia encontrava-se Hans von Bülow. Ele havia sido aluno de Liszt em 1850, e prestigiou seu antigo mestre e sogro nesses memoráveis recitais. Fazia alguns anos que sua ex-esposa o havia largado para casar-se com Richard Wagner, e como fuga dessa profunda decepção, Bülow entregou-se de corpo e alma à música. Era diretor de uma das melhores orquestras de Europa, a Orquestra de Meiningen. Insistiu enfaticamente pela minha transferência com a Direção da Escola de Weimar, requeria minha integração à Orquestra por ele conduzida. Um novo ambiente abria-se diante de mim. Pude assistir da coxia a apresentação de grandes sinfonias, com Bülow regendo, de maneira enérgica e fria. Num tempo inalterado e constante, com uma precisão técnica estupenda. Às vezes, quando permanecia sozinho no teatro, Bülow tocava algumas peças pianísticas, tinha mãos extremamente pequenas, as quais, mesmo apesar do tamanho, eram de uma agilidade sem precedentes. Possuía um estilo preciso e desprovido de sentimentalismo, demonstrava através de suas interpretações a beleza da exatidão. Contrariava assim, todo o período romântico, que concebia a música como expressão dos sentimentos do compositor, como poesias sonoras.

No ano que se seguiria, uma reviravolta ocorreria em minha existência. Uma figura extremamente importante de um Império Sul-americano assistiu uma das apresentações de Bülow. Realmente não sei que espécie de magnetismo exerço sobre os amantes da música, mas este grande representante dos bárbaros foi atraído até mim. E graças a sua influência, Bülow foi convencido a desfazer-se de mim. Assim, em 1888, desembarquei na Baía de Guanabara, com o Cristo Redentor me observando e saudando-me com seus braços abertos. Fui levado até o Palácio Imperial, mas a boa vida sob a proteção da realeza não duraria muito. Dom Pedro II seria exilado na França pelo Partido Republicano em 1889. A partir desse momento, eu levaria uma vida desventurada. Pois a criadagem e os pertences da família imperial foram espoliados.
Um rico republicano levou-me para sua residência. Eu acompanharia os estudos musicais de sua filha, uma bela donzela totalmente desprovida de talento. Ela aprendia piano, certamente para a satisfação de seus pais. Possuía uma técnica medonha e era incapaz de tocar compassos mais complexos. Sujeitei-me a essa enfadonha atividade. Os sons emitidos eram frios e inexpressivos. Sempre acreditei que a interpretação de um músico era um reflexo da sua natureza interior. A força com a qual um virtuose tocava era uma energia intrínseca violenta em busca de manifestação. Podia ser uma pequena pedra lançada em um lago, no começo seu efeito era pequeno, mas à medida que os círculos concêntricos afastavam-se da sua origem, sua força de expressão aumentava. Assim são os músicos, tocam ou cantam, não porque gostam ou para se divertirem, mas porque é necessário. A arte é uma válvula de escape, é um vulcão em erupção, é uma tormenta. E Clarice não era nada disso, era uma jovem republicana permeada de uma cultura aristocrática. Talvez se tornasse uma boa esposa e mãe dedicada, mas jamais sentiria a necessidade essencial da música. E mesmo apesar de sua inaptidão, apresentava freqüentes recitais a alguns amigos da família. Recebia elogios forçados e enrubescia presunçosamente. Casou-se em 1895, ao 22 anos. Não houve quase nenhum desenvolvimento em suas faculdades musicais e ela partiu para seu novo lar sem pesares por me deixar. Seus pais, percebendo a inutilidade da minha presença, dispensaram meus serviços.


Um animado Café brilhava ao som da música popular brasileira. Eu observava as mesas com toalhas brancas e belos arranjos florais. Elegantes garçons anotavam os pedidos e rostos alegres conversavam em tom elevado. O maxixe, o choro e a seresta invadiam o ambiente. Cabeças balançavam e pés marcavam o tempo, enquanto ouvintes saboreavam o ritmo tipicamente brasileiro, com suas síncopes e jeito molenga e moleca de improviso. A música marcadamente percussiva, com um piano martellato, e com intérpretes mestiços. A melodia agradável da orquestra, com o violão, a flauta, o cavaquinho e o gran piano cantando canções cariocas. As pessoas dançavam e cantavam através das noites quentes de verão. Tudo era diferente daquela Europa comportada e fria, o sangue latino miscigenado com o africano dotava os brasileiros de um senso rítmico e de um calor humano inexistente em outra parte do globo. O modo descompromissado e alegre de tocar aquecia os corações e aproximava as pessoas. Esse foi o tempo mais feliz para mim, pois nunca havia me divertido tanto. Nunca a música havia se mostrado como mera diversão para mim, ela era séria e presa a regras formais de harmonia, mas esse povo, que era visto como bárbaros incultos ou como índios selvagens, mostrou-me como a música pode ser séria sem perder a liberdade criativa. A música brasileira era uma criança comparada com a européia, mas, por isto mesmo, possuía uma liberdade de crescimento há muito esquecida pela esterilidade clássica. Ritmos alternantes e sobrepostos, melodias cativantes, pessoas com uma disposição alegre e informal.

Infelizmente houve uma nova troca de ambiente. Por razões financeiras o Café teve de ser fechado. Eu não poderia mais permanecer lá. Uma viagem levou-me até o Cine Smart, em Santa Rita do Passa Quatro, no interior de São Paulo. O cinema era mudo nessa época e acompanhado por música ao vivo. O pianista improvisava à medida que o filme se desenrolava. Conheci então, José Maria de Abreu, mais conhecido como Zequinha de Abreu. Era um dos pianistas que acompanhavam as sessões cinematográficas e também um grande compositor. As pessoas eram atraídas ao cinema, mais por suas interpretações do que pelo filme em si. Confesso que eu também fazia parte desse grupo, pois não lembro de nenhum dos filmes projetados, mas ainda posso sentir a vibração da delicada e trágica música, ou do rápido e cômico improviso, das cadências deslizantes que acompanhavam as chanchadas.
Em 1921, Zequinha de Abreu mudou-se para São Paulo, e sem a sua grande estrela, o Cine Smart não demorou muito até fechar suas portas.

Uma vez mais, eu não tinha um lar.

O valor de aquisição de um piano Bösendorf era além do poder aquisitivo de muitas pessoas. A taxa de transporte para a Europa era equivalente ao preço de um piano recém-fabricado. A qualidade era inegável, teclado de marfim proveniente das colônias africanas, não que eu concordasse com a matança dos elefantes, mas tal material era o que de melhor havia, as cordas de metal da Inglaterra, a madeira das Filipinas, fruto de um trabalho quase escravo dos lenhadores, e os martelinhos de Hamburgo. Eu era uma obra-prima da construção de pianos e não havia mais lugar para mim. Fui transportado para um depósito no porto de Santos, à espera de algum comprador. O preço exigido era absurdo e em pouco tempo a poeira acumulou sobre mim. Em dois anos, minha situação era lamentável, completamente desafinado e com as traças e cupins devorando minha estrutura. Em cinco anos, não restava mais nada do filho mais ilustre de um anônimo artesão da Familie von Bösendorf. O meu perecimento solitário era o primeiro indício da falência musical. Os instrumentos elétricos tomariam o lugar dos acústicos e até o ano dois mil, os intérpretes seriam substituídos pelos computadores. A música como um legado criativo de homem seria superada como um processo lógico das máquinas e da tecnologia. Não havia mais espaço para mim, assim como não haveria em breve espaço para os gênios da música. Beethoven, Mozart, Chopin ou qualquer outro compositor encontrariam suas mortes definitivas nos século XXI. A tecnologia representaria a morte da alma da música.
Meus restos foram queimados e algumas ligas metálicas fundidas, mas minha alma acompanharia todos aqueles que um dia acariciaram meus teclados, pois eu também havia escrito Zarathustra, também havia composto as Rapsódias Húngaras, também havia regido a Orquestra de Meiningen, havia participado dos esforços desesperados de uma jovem burguesa, havia dançado ao som dos chorinhos e sambas, havia composto os mais singelos e animados improvisos no Cine Smart.
Eu, um piano inanimado, haveria de viver. Eu, um objeto inanimado, haveria também de subir até o paraíso. Pois minha alma é a música.

Curitiba, 2001.

(Extraído da obra "Ciclos: A Vida e suas Variações")