domingo, dezembro 18, 2005

Canção Nórdica


O vento gélido da estepe açoitava o rude rosto de Thornsteinn. Os primeiros flocos da nevasca que se aproximava tocaram o solo sobre o qual aquele homem corria sem rumo. Em seu braço pendia a lâmina ensangüentada com a qual havia ferido mortalmente seus inimigos.

Ele se ajoelhou na neve, encolheu a cabeça entre os joelhos e chorou.

Thornsteinn era um homem rude, acostumado com os mares cálidos e com o aço assassino. Aquele homem conhecia todos os povoados daquela região; era o comandante de uma embarcação e havia participado de muitas batalhas no continente. Homens fortes e amedrontadores haviam sucumbido pela espada de Thornsteinn e oponente algum fazia com que aquelas pernas tremessem ou que aqueles braços hesitassem.

No entanto, uma longa guerra começou contra um exército vindo do sul. Suas armaduras reluziam sob o sol de verão que nunca se punha. Bandeiras tremulavam e as formações rigidamente mantidas surpreendiam. O povo de Thornsteinn se preparou para um confronto duradouro e pesaroso, pois o inimigo era em grande número e determinado. Tribos vizinhas foram convocadas: algumas vieram, outras se abstiveram covardemente.

No primeiro dia de luta, mal dava para divisar qual dos oponentes sofrera mais baixas, de tantos corpos que haviam sido encontrados inertes sob a fina camada de neve. O irmão de Thornsteinn, Halldórr, foi transpassado por uma lança, mas sobreviveu. Inutilizado para a peleja, Halldórr ficou sob os cuidados da diligente cunhada, enquanto o embate prosseguia.

Dia após dia os guerreiros do norte defenderam seus lares. Em menor número, enfraquecidos, desbaratados, eles recuaram, atraindo as implacáveis legiões cada vez mais para as profundezas da estepe.

Após meses de batalhas, a situação se alterou. Os romanos, distantes de sua pátria, oprimidos pelo clima, começaram a esmorecer. As temíveis formações deixaram de ser indestrutíveis; as máquinas de guerra atolavam na neve ou desapareciam em fissuras de lagos congelados. Tanto quanto pelos braços valentes do povo de Thornsteinn, milhares foram dizimados pelo frio.

Exausto, mas vitorioso, o guerreiro retornou ao seu povoado. Sentia falta do corpo quente de Gudrún, de seu úbere aconchegante, de seus cabelos ruivos, de sua comida saborosa.

No entanto, ao se precipitar, eufórico, no interior de sua choupana, Thornsteinn flagrou Gudrún, nua, enlaçada nos braços de seu irmão Halldórr.

Jamais, nem ante os martelos de guerra dos bávaros, dos arcos normandos, dos machados germanos, dos gládios romanos, das lanças vândalas, da cavalaria rúgia, das alabardas burgúndias ou das lâminas bretãs Thornsteinn sentiu seu coração titubear e seu braço fraquejar.

Porém, aquilo não estava certo. Sua esposa e seu irmão? Bem que ele havia notado alguns risinhos maliciosos logo ao pisar na vila.

Enfurecido, Thornsteinn estraçalhou os dois com a lâmina ainda embebida em sangue latino.

O guerreiro mergulhou na nevasca. Desorientado, ele se perdeu na noite sem fim do inverno.

(Publicado em Crônicas Romanas)

terça-feira, novembro 22, 2005

Tupsărru


Benedictus percorria os corredores da gigantesca biblioteca sabendo que o dia chegaria.

Os boatos deviam ser verdadeiros, pois há quase um século era repetido de bibliotecário a bibliotecário. Numas das prateleiras, havia um livro que quem lesse jamais morreria.

Não se sabia se este poder provinha do livro — o que por si só já seria um problema, pois se teria de ler várias vezes à mesma obra, mas em cópias diferentes para se ter acesso ao misterioso texto —, se provinha das palavras inscritas ou se era originado a partir destas duas coisas. Além disso, havia outra questão: “Como saber se já havia lido tal livro, se não somente ao se descobrir imortal? Ou haveria uma marca, algo que pudesse identificá-lo?”

Em vinte anos naquele lugar, Benedictus havia lido mais de nove mil volumes do acervo de todas as áreas dos saberes humanos: Física, Filosofia, Matemática, Química, História, Geografia, Literatura, Medicina, Direito, Gramática, Retórica...

O que ele havia lido contradizia, porém, os boatos. “Todo homem é mortal” era a mensagem que perpassava a totalidade do que havia sido criado pelas mãos humanas; cada homem, gênio, boçal, rico, pobre, cristão, gentio, belo ou feio feneceria.

Foi quando Benedictus encontrou um antigo manuscrito sumério, enrolado numa capa de couro. A primeira sentença revelou que o projeto de imortalidade não era tão simples quanto parecia. Escrito em cuneiforme caldeu, dizia o seguinte:

“Apenas a leitura não basta; é preciso compreensão”.

Convencido de que aquele escrito era o que procurava, o bibliotecário se debruçou sobre seu estudo. Entretanto, os caracteres bailavam diante de seus olhos e, a cada vez que ele relia o texto, o sentido era diferente.
Seus colegas se espantaram com sua determinação e, por mais de um qüinqüênio, admiraram seu esforço em compreender aquele frágil pergaminho.

Numa manhã, ao descerrarem as portas da biblioteca, encontraram o corpo sem vida de Benedictus debruçado sobre a mesa. Ao seu lado, havia uma anotação sua:

“Que tolo fui! Passei todo esse tempo buscando o que já me pertencia”.

sábado, agosto 06, 2005

Purgatório


“Antes ter mil sentimentos a ter um pensamento”. (Henry Alfred Bugalho)

Pedro saiu correndo pelo portão da escola. Era apenas mais uma cabecinha naquele bloco formado pelos alunos frenéticos, ansiosos pelo ar puro, bastante diferente daquele cheiro de mofo e de erudição que a escola e os livros exalavam. Corriam ao seu lado Rafael e Jorge, amigos seu, os quais comentavam sobre a bomba que levariam na prova de matemática. Eu também não fui bem, recordou-se Pedro, mas não deu importância a isto, pois agora estava fora daquele presídio intelectual e, por isso, não precisava se preocupar com nada que dissesse respeito à escola.
Eles se aproximaram, subindo pela avenida João Gualberto, do tubo do ônibus, abarrotado de gente. Falatório. Confusão. O sol do meio dia queimava a cuca da criançada e dentro do tubo deveria estar uns vinte graus mais quente do que os trinta de fora. Infernal. Pedro retirou o blusão do agasalho — Por que ainda estou vestindo essa coisa? Tô louco! — e o amarrou na cintura. Revirou, então, o bolso da calça à procura do vale-transporte. Tinha que procurar bem, porque, no meio da papelada e do lixo que lá havia, ficava difícil encontrar qualquer coisa que fosse. Revirou. Remexeu. Revistou. Todavia, nenhum sinal daquela ficha cinzenta, que era às vezes usada para comprar lanche na cantina, e que era sua única garantia de retorno para casa. Que calor! Cadê a porcaria do vale? Decidiu, finalmente, retirar tudo que havia no interior do bolso a fim de facilitar a procura. Bilhetinho da Amanda. Papel de bala. Chaves. Papel de bala. Cola de matemática. Papel de chiclete. Cinco centavos. E ali estava o vale perdido no meio daquela bagunça.
Ele e seus amigos subiram os primeiros degraus do tubo de ônibus, mas estacaram quando ouviram a freada súbita do ônibus e uma gritaria desesperada. — Ela foi atropelada! — alguém berrou.
Algumas meninas mais sensíveis desmaiaram e logo todos estavam em torno da acidentada. Olhos curiosos vindo do interior do biarticulado procuravam a vítima e o motorista desembarcou apavorado. — Não foi minha culpa! — ele se defendia acuado — Foi ela quem entrou na minha frente! —, enxugava o suor da testa e ainda estralava os dedos da mão em sinal de nervosismo, enquanto andava de um lado para o outro.
Pedro e seus amigos tentaram abrir caminho pelo meio da multidão, forçando uma aproximação para verem a menina. A desafortunada garota havia sido colhida pelas rodas do biarticulado, de modo que o estrago fora grande. Pedro viu, por entre as duas cabeças na sua frente, o braço ensangüentado estendido no asfalto logo abaixo do veículo. A mão estava semicerrada e expressava toda a dor que a vítima deveria ter padecido naquela instante infinitesimal entre o impacto no pára-choque dianteiro do ônibus e a morte. Pedro sentiu um forte incômodo e um frio na boca do estômago; sentia vontade de se aproximar, ao mesmo tempo em que era impelido a fugir, ir embora, esquecer este trágico episódio.
O professor de educação física — o senhor Osvaldo — deixou a escola e correu para tentar socorrer a aluna acidentada. Ele atravessou, impetuoso, a aglomeração burburinhante dos curiosos e se ajoelhou ao lado da aluna, embebida do sangue que jorrava. As feições do professor eram das mais desanimadoras e todos já concluíam que a menina não havia sobrevivido — Quem agüentaria ser atropelado por este ônibus? — perguntou um, — Estas crianças deveriam prestar mais atenção ao atravessar as ruas. — comentou uma velha, — ... eu pude ver os miolos dela esparramando... — era o que um menino exagerado contava para outro, — Ela era da minha classe. — relatava uma garota, — Alguém já avisou os pais dela? — perguntava uma mãe aflita que viera buscar o filho na porta da escola. Nisso o som da sirene do SIATE começou a se aproximar. A ambulância vermelha despontou na ladeira e estacionou sobre a calçada, repelindo os curiosos que cercavam o local do acidente. Quatro para-médicos saltaram da ambulância, dois traziam consigo uma maca e os outros dois os equipamentos médicos emergenciais. — Ela vai ficar bem? Vocês demoraram! Ela está aqui! Ajudem-na, por favor! — a multidão bombardeou os para-médicos. Sem darem importância aos comentários, eles se aproximaram da vítima e iniciaram os procedimentos. Constataram que ela ainda vivia, mas que se não fosse transportada imediatamente para algum hospital, certamente ela não sobreviveria. Os médicos retiraram, por fim, a garota de sob o ônibus e, colocando-a sobre a maca, amarrando-a e imobilizando o pescoço dela, levaram-na rapidamente para o interior da ambulância, para em seguida, partir em disparada para o hospital mais próximo.
O público ainda ficou alguns minutos por ali, comentando e relatando aos outros o ocorrido. Os alunos debandaram, mas o biarticulado permaneceu parado, à espera da polícia. Em meia hora já não havia mais ninguém ali, apenas o apavorado motorista e os policiais.

O sol havia se posto e Pedro retornou, após as brincadeiras com os amigos, para casa. Tinha de fazer a tarefa de casa. Que droga!, pensou ele, que detestava matemática. Retirou os cadernos da mochila e sentou-se na sua escrivaninha para preencher os exercícios. De súbito, lembrou-se da atropelada, do braço estendido no asfalto e da morte que ronda as pessoas. Deixou de lado os exercícios e abriu a janela do quarto. Ficou Pedro admirando as estrelas e lua, ora coberta por nuvens, ora obscurecida por elas. Notou a calça do uniforme largada sobre a cama e revirou os bolsos dela. Encontrou o bilhetinho da Amanda.

Pedrinho,
Temos que marcar um dia para estudarmos juntos. Acho que vou ligar para você hoje à noite para combinarmos.
Beijinhos,
Amanda.

Por que será que ela não ligou ainda?, pensou Pedro, intrigado. Amanda sempre foi pontual. Será que ela se esqueceu?
Pedro se convenceu, então, que ela havia, de fato, esquecido e decidiu ele mesmo ligar. O pai dela quem atendeu. Sua voz estava embargada e enfraquecida.
— Está tudo bem, Senhor Levi? — perguntou o garoto, atencioso.
Surpreso, o pai da Amanda respondeu — Você não soube o que aconteceu com ela? Vocês não estudam juntos?
— Não fiquei sabendo de nada. — respondeu Pedro — Nós tivemos aula normalmente e ela escreveu para mim um bilhete, dizendo que ligaria para mim mais tarde. Mas estou esperando até agora.
— Ela foi atropelada na saída da escola. — disse o preocupado pai, quase desabando em choro.
Pedro desligou desesperado o telefone. Havia sido Amanda quem fora atropelada. Como ele não percebeu isto? Bem que aquele braço lhe recordava alguém... Aquele anel no polegar. Por isso que ele não a encontrou no ônibus de volta para casa. Por isso que ela não ligou. Pedro limpou com as costas da mão o suor que escorria. Sentou-se na cama e ficou refletindo. Pensando em nada, talvez. Depois, contou para sua mãe, a qual tapou com a mão a boca e soltou um soluço de choro. — Que horrível, filho! Os pais dela devem estar abalados com isto!

Pedro vestiu o seu pijama e deitou-se para dormir. As trevas trouxeram fantasmas e as roupas penduradas no encosto da cadeira assumiram formas sombrias. A porta aberta do guarda-roupa abrigava muito mais do que meras roupas, vultos negros manifestavam mistérios. Um silêncio perturbador ressaltava o menor dos ruídos, um ranger da cama, o uivar do vento, o cricrar dos grilos, as gotas que pingavam do chuveiro, um ou outro automóvel que passava lá fora, o tiquetaquear do relógio, o silvo macabro do apito do guarda noturno, o farfalhar das folhas das árvores. Pedro sentiu medo. Cobriu num reflexo a cabeça, mas o lençol era curto e descobriu os pés. Sentiu mais medo ainda; e se algum fantasma puxasse o seu pé? Cobriu-o rapidamente. Em seguida, encolheu-se numa posição fetal, de modo que tanto o seu pé quanto a cabeça podiam ficar encobertos. Lembrou-se da amiga atropelada. Sentiu a sua presença e os seus pelos se eriçaram. Ouviu a voz dela e imaginou-a após o atropelamento: o crânio esfacelado e o rosto macerado, as fraturas expostas, o sangue, muito sangue. E, quanto mais tentava afastar tal imagem, mais ela se fortalecia. Rezou um pai-nosso e um Credo. Tentou visualizar um prado verdejante, assim como no salmo, mas Amanda também estava lá, apascentando as ovelhas com seus ossos à mostra e deixando atrás de si um rastro de sangue sobre a grama. O silêncio era enlouquecedor e o estalar da madeira da cama aumentava a sensação de temor. Pedro passou a noite acordado, mumificado no lençol, sem coragem para olhar em direção ao guarda-roupa, nem sequer para tirar sua cabeça de baixo do efêmero escudo tecido de algodão que o recobria.

No dia seguinte, logo que o sinal tocou e os alunos entraram nas salas de aula, a diretora do colégio pediu permissão aos professores para entrar e conversar com os alunos. Muito reservada e séria, ela iniciou o seu comunicado — Queridos alunos, Amanda, uma aluna da 6ªA, da mesma turma de vocês, foi atropelada, ontem, pelo biarticulado, como todos devem saber. Ela foi transportada com traumatismo craniano para a CTI de um hospital aqui perto. Fomos informados, nesta manhã, que ela não conseguiu resistir. — algumas meninas começaram a chorar, bem como a professora, mas a diretora prosseguiu impassível — Ela faleceu há alguns minutos atrás. Por isto, estamos dispensando os alunos das aulas de hoje, para quem quiser ir ao velório da colega. Estamos com um ônibus aqui fora, esperando para nos levar até o local onde ela será velada.
Os alunos guardaram, em silêncio, suas coisas e deixaram, cabisbaixos, a sala de aula. Pedro preferiu não ir, saiu do colégio e caminhou para o ponto de ônibus. Passou pela poça coagulada de sangue. Aquela mancha negra lhe trouxe novamente recordações. Vieram à sua mente lembranças de Amanda, das brincadeiras na hora do recreio e do sorriso dela. Pediu a Deus que cuidasse da alma dela e que não a deixasse sofrer. Enxugou a lágrima que escorria e depois continuou o seu caminho até a parada do coletivo.
A mancha de sangue ainda permaneceu no asfalto por vários meses, como uma memória terrível daquela que partiu. Uma marca indelével da passagem de apenas mais uma garota no mundo.


(Extraído do livro "Retratos da Província")

quinta-feira, junho 09, 2005

Promenade (1)



“Cegueira d’olhar, vislumbre d’alma”. (Henry Alfred Bugalho)

Os pombos flapflaparam suas asas. Centenas deles. Odor peculiar de columbiformes. Eles transmitem doenças, leptospirose. Passos. Petit-pavet. O farfalhar das árvores. O uivar do vento. O som de saxofone se esgueirando pela multidão. Vozes à minha direita, talvez vindo da escadaria da Universidade. 16 degraus. Sax contralto, acho. Está tocando Memory, do musical Cats. Também a toco ao piano. Teclas frias, do lado esquerdo das duas teclas pretas é o dó, ao lado das três pretas é o fá. Sempre cometo alguns erros, mas é um pouco complicado tocar de ouvido. Moeda tilintando em moeda, a caixinha do saxofonista. Ele está virando a página da partitura. Não gosto de caminhar pelo meio fio, os carros passam muito perto de nós, até parece que os motoristas fazem questão de assustar os pedestres. Um ônibus se aproxima ruidoso. Dióxido de carbono, CO2, causa buraco na camada de ozônio. Cheiro de óleo e combustível queimado. Fumaça negra, dizem. Buzina e cantar de pneus. Xingamentos. Quase ocorreu um acidente ali atrás. Estou na esquina. Será que posso atravessar a rua? Melhor do outro lado. Os carros estão parados no sinal. Acelerando, acelerando. Mais uma razão para pensar que eles gostam de nos assustar. O biarticulado passa veloz. O chão vibra, folhas de papel e poeira voam sobre mim. Esperar. Sinto pessoas a minha volta, também aguardam o momento para atravessar. O aviso sonoro para cegos está apitando. Pi-pi-pi (semínima). Esperar. O sinal acelera, pipipi (colcheia). Todos se movimentam, arrastando-me com eles. Procurar a guia. Melhor para nós. Pessoas indo e vindo, passos rápidos. Vozes. Ouço uma gaita muito mal-tocada. O som é interrompido e ouço um grito de um velho rouco — Dá um dinheirinho pra mim! Dá um dinheirinho pra mim! — a gaita continua. Algum ritmo nordestino, pois o sotaque do velho não nega sua origem. Bato com a guia no pé de alguém. — Desculpe-me.
— Não foi nada. — um senhor me responde.
Continuo no meu caminho. Ruído dos passos da multidão, uma marcha rítmica e acelerada. Sons de sacolas e de conversas. “... daí, quando eu fui até o almoxarifado...”, “... eu acho que as coisas estão perdidas...”, “...e o cara me disse que eu estava me esforçando, mas...”, as pessoas passam por mim. Chiq-chiq; um gari chiquechaqueava o chão com sua vassoura. Varre na minha direção. Estaco, esperando ser notado. O som cessa e eu prossigo. De uma lanchonete vem um cheiro gostoso, salgadinhos e hambúrgueres, além de som de pratos, copos e talheres. Quem sabe mais tarde, parar e tomar um chocolate quente e comer um sanduíche. Um declive no caminho e o som do sinal — Pi-pi-pi. O som da motocicleta fere meus ouvidos. Pipipi, avanço. Há um acordeão adiante, uma tarantela, bom para dançar, música alegre. Alguém esbarra no meu ombro. Mal-educado! Finge que nem aconteceu nada. Homem, certamente. Cheiro de charuto e corpanzil. O acordeão está próximo, bem em cima da guia, na verdade. Acerto na caixinha do músico, o dinheiro reverbera, mas o acordeonista não interrompe a tarantela. A cidade está infestada desses músicos de rua cegos. A falta de um sentido acentua os outros, é o que dizem. O blues, por exemplo, foi um movimento musical originado pelos negros cegos, manetas, aleijados em geral. O sofrimento aumenta o sentimento. A cegueira aumenta a audição e o tato... Não exatamente. Na verdade, estes sentidos são o que nos resta, por isso temos de nos fiar neles. Tudo é som, aroma, sensação. Cores são abstrações quase incompreensíveis. O que é o azul? Um efeito luminoso com comprimento de onda entre 450 e 500 nanômetros. E o vermelho? É igualmente um efeito luminoso com comprimento de onda entre 610 e 780 nanômetros. Mas o que diabos é um nanômetro??! Como compreender aquilo que não temos sequer idéia? Se as cores ou as percepções visuais estivessem vinculadas com algum outro tipo de percepção, então seria mais fácil para se apreendê-las. Alguns dizem que o vermelho é quente e que o azul é frio, mas não existe um frio tão frio que não chega a ser quente? E será que as pessoas não fazem essas relações porque associam, por exemplo, o sol com o vermelho e o gelo com o azul? Mas o sol é apenas quente e o gelo é apenas frio, pois não existe algo que seja frio e quente ao mesmo tempo. Mas o sol, dizem, é vermelho quando nasce e quando se põe, e amarelo quando está alto no meio céu. Já o gelo pode ser transparente, branco ou azul. Como confiar naquilo que pode ser e não ser de alguma cor? Não existe algo duro e mole ao mesmo tempo, mas existem certos objetos que, dependendo da incidência de luz, podem variar de cor. Ao menos, quando se diz que uma cor tem tantos nanômetros, isso é invariável. A linguagem matemática é simples justamente por isso, aqui ou em Marte ela será igual. Mas porque, afinal de contas, eu estou pensando nisso? Ah, os músicos cegos, isso mesmo! Mas eles estão longe agora. O que ouço são sons de jogos eletrônicos, fliperamas. Vozes, passos, sacolas, um avião passando. Cheiro bom de pipoca com bacon, pipoca doce também. O som do semáforo; posso passar. Toco na perna de alguém. — Desculpe-me. — sem resposta. Deve ter sido em algum poste. Mas que diferença isso faz aqui, onde as pessoas são mais frias do que os postes? Não sabem pedir por favor nem agradecer nem se desculparem. Todos apressados e preocupados demais para se deterem em poucas e essenciais regras da boa educação. Ninguém cede o lugar no ônibus, ninguém ajuda ninguém, ninguém respeita ninguém. Cheiro de lixo. Forte. Nauseante. Asqueroso. Restos de comida podre ou algo de gênero, ou quem sabe um montículo de excrementos humanos, tão comum de se encontrar, de se cheirar ou de se pisar hoje em dia, ainda mais eu. Há regiões na cidade onde eu evito passar, atrás da Matriz, por exemplo, pois para quem possui o olfato um pouco mais apurado aquilo ali é o inferno. Urina e todos os tipos de odores repugnantes. É capaz de matar alguém intoxicado se permanecer muito tempo no local. Outra rua para eu atravessar, perigoso ser atropelado por algum motoqueiro, todos tão velozes e barulhentos. Estou do lado de alguma mulher, perfumada, cheiro bom, lavou os cabelos com um agradável xampu; do meu outro lado está um senhor fumando, ou senhora, quem sabe? O cigarro transforma todos os cheiros no mesmo. Minha garganta fica irritada e, às vezes, fico horas sem sentir cheiro algum. Alguém se aproxima por trás e segura meu braço — Quer ajuda? — uma mocinha pergunta para mim e, sem que eu responda, ela me arrasta pela rua adentro. Vou tropeçando, sem graça. Agradeço-a e me recomponho. Não há coisa pior do que não ter noção do que lhe está acontecendo, ser arrastado por uma pessoa estranha, mais preocupada em parecer boa diante da sociedade do que pelo mérito da própria caridade. Eu penso que as pessoas que mais tentam ajudar as outras são as que possuem os demônios interiores mais fortes. Elas temem o inferno, por isso se esforçam em direção ao Céu. Eu também tenho os meus... Provocadores, incitadores. Sempre me propõem questões que não posso responder: Se Deus é tão bom, por que ele permite que seus filhos sofram? Por que existe tanto aleijado, cego, surdo, deficiente mental num mundo criando por um Deus benevolente? Por que Deus enviou seu filho Jesus para curar apenas meia dúzia de pessoas e não para curar toda a humanidade de todas as enfermidades que a acomete? Não sei responder as minhas inquietações. Às vezes, revolto-me contra minha condição, contra o meu estigma. Sinto vontade de morrer, de partir deste mundo em busca de um outro, onde os meus olhos não farão diferença. Mas eu vejo as pessoas de uma outra maneira. É estranho como eu sinto coisas que elas não sentem. Percebo o medo pelo o tom de voz, noto a angústia, sinto a felicidade. Os sentimentos também estão nos cheiros. Os toques também são mais agradáveis ou repugnantes. Um aconchego carinhoso é um bálsamo assim como um tabefe é uma navalhada na alma. As mãos de uma mulher são delicadas, finas, macias, excitantes; o aperto de mão de um amigo é seguro, firme, constante, perene, assim como uma amizade deve ser. Crianças gritando, água esguichando, respingos na minha face e nas mãos, líquido congelante, suave precipitar-se do chafariz, eterno devir. Uma mulher com voz rouca e retumbante vende o jogo do bicho — Olha a cobra, trinta e três! — Outra bicheira está vendendo no lado oposto. Última rua a ser atravessada. Devo virar à direita, um ônibus passa colado em mim, quase levando minha guia com ele. Estremeço. Ouço buzinas e motos. Sacolas, passos, falatório. Um palhaço corneteando, mas, felizmente, não vou passar por ele. Subo um discreto aclive, estou perto agora. Subo a rampa da biblioteca. Uma menina sussurra para a colega — Sai do caminho, sonsa. Tem um ceguinho aí atrás. — Ceguinho? Por que as pessoas têm a mania de chamar pelo diminutivo quem possui algum diferencial? É o ceguinho, a gordinha, o magrinho, o velhinho. Começo a crer que o sufixo inho é a marca do excluído. Se lhe chamarem com diminutivo pode ter certeza que é algo pejorativo, só pode ser! A biblioteca enfim, um burburinho rompe o cálido silêncio do reduto. Viro à esquerda e novamente à esquerda. Desço a escada que me leva ao subsolo, à direita, à direita. Vozes dos estagiários. À esquerda na seção de Braile. Sou saudado pelo simpático atendente, também cego. Indaga-me pelo meu desejo, Sertões, de Euclides da Cunha. Ver o mundo pelos olhos de outrem. Viver a vida pelas palavras de outros, mas minhas palavras são saliências numa folha de cartolina. Nada de “a” ou de “b”, mas uma, duas, várias rugosidades. No entanto, o mesmo mistério, o mesmo segredo que se desvela pelas palavras, também jaz ali. O enigma que traz o outro, alegoria, símbolo. A viagem mais plena e metafísica. A leitura. Meus olhos.


Nota:
(1) Do inglês, caminhar em espaço público; marcha dos convidados num salão para abrir formalmente o baile

(Extraído do livro "Retratos da Província")