quinta-feira, junho 09, 2005

Promenade (1)



“Cegueira d’olhar, vislumbre d’alma”. (Henry Alfred Bugalho)

Os pombos flapflaparam suas asas. Centenas deles. Odor peculiar de columbiformes. Eles transmitem doenças, leptospirose. Passos. Petit-pavet. O farfalhar das árvores. O uivar do vento. O som de saxofone se esgueirando pela multidão. Vozes à minha direita, talvez vindo da escadaria da Universidade. 16 degraus. Sax contralto, acho. Está tocando Memory, do musical Cats. Também a toco ao piano. Teclas frias, do lado esquerdo das duas teclas pretas é o dó, ao lado das três pretas é o fá. Sempre cometo alguns erros, mas é um pouco complicado tocar de ouvido. Moeda tilintando em moeda, a caixinha do saxofonista. Ele está virando a página da partitura. Não gosto de caminhar pelo meio fio, os carros passam muito perto de nós, até parece que os motoristas fazem questão de assustar os pedestres. Um ônibus se aproxima ruidoso. Dióxido de carbono, CO2, causa buraco na camada de ozônio. Cheiro de óleo e combustível queimado. Fumaça negra, dizem. Buzina e cantar de pneus. Xingamentos. Quase ocorreu um acidente ali atrás. Estou na esquina. Será que posso atravessar a rua? Melhor do outro lado. Os carros estão parados no sinal. Acelerando, acelerando. Mais uma razão para pensar que eles gostam de nos assustar. O biarticulado passa veloz. O chão vibra, folhas de papel e poeira voam sobre mim. Esperar. Sinto pessoas a minha volta, também aguardam o momento para atravessar. O aviso sonoro para cegos está apitando. Pi-pi-pi (semínima). Esperar. O sinal acelera, pipipi (colcheia). Todos se movimentam, arrastando-me com eles. Procurar a guia. Melhor para nós. Pessoas indo e vindo, passos rápidos. Vozes. Ouço uma gaita muito mal-tocada. O som é interrompido e ouço um grito de um velho rouco — Dá um dinheirinho pra mim! Dá um dinheirinho pra mim! — a gaita continua. Algum ritmo nordestino, pois o sotaque do velho não nega sua origem. Bato com a guia no pé de alguém. — Desculpe-me.
— Não foi nada. — um senhor me responde.
Continuo no meu caminho. Ruído dos passos da multidão, uma marcha rítmica e acelerada. Sons de sacolas e de conversas. “... daí, quando eu fui até o almoxarifado...”, “... eu acho que as coisas estão perdidas...”, “...e o cara me disse que eu estava me esforçando, mas...”, as pessoas passam por mim. Chiq-chiq; um gari chiquechaqueava o chão com sua vassoura. Varre na minha direção. Estaco, esperando ser notado. O som cessa e eu prossigo. De uma lanchonete vem um cheiro gostoso, salgadinhos e hambúrgueres, além de som de pratos, copos e talheres. Quem sabe mais tarde, parar e tomar um chocolate quente e comer um sanduíche. Um declive no caminho e o som do sinal — Pi-pi-pi. O som da motocicleta fere meus ouvidos. Pipipi, avanço. Há um acordeão adiante, uma tarantela, bom para dançar, música alegre. Alguém esbarra no meu ombro. Mal-educado! Finge que nem aconteceu nada. Homem, certamente. Cheiro de charuto e corpanzil. O acordeão está próximo, bem em cima da guia, na verdade. Acerto na caixinha do músico, o dinheiro reverbera, mas o acordeonista não interrompe a tarantela. A cidade está infestada desses músicos de rua cegos. A falta de um sentido acentua os outros, é o que dizem. O blues, por exemplo, foi um movimento musical originado pelos negros cegos, manetas, aleijados em geral. O sofrimento aumenta o sentimento. A cegueira aumenta a audição e o tato... Não exatamente. Na verdade, estes sentidos são o que nos resta, por isso temos de nos fiar neles. Tudo é som, aroma, sensação. Cores são abstrações quase incompreensíveis. O que é o azul? Um efeito luminoso com comprimento de onda entre 450 e 500 nanômetros. E o vermelho? É igualmente um efeito luminoso com comprimento de onda entre 610 e 780 nanômetros. Mas o que diabos é um nanômetro??! Como compreender aquilo que não temos sequer idéia? Se as cores ou as percepções visuais estivessem vinculadas com algum outro tipo de percepção, então seria mais fácil para se apreendê-las. Alguns dizem que o vermelho é quente e que o azul é frio, mas não existe um frio tão frio que não chega a ser quente? E será que as pessoas não fazem essas relações porque associam, por exemplo, o sol com o vermelho e o gelo com o azul? Mas o sol é apenas quente e o gelo é apenas frio, pois não existe algo que seja frio e quente ao mesmo tempo. Mas o sol, dizem, é vermelho quando nasce e quando se põe, e amarelo quando está alto no meio céu. Já o gelo pode ser transparente, branco ou azul. Como confiar naquilo que pode ser e não ser de alguma cor? Não existe algo duro e mole ao mesmo tempo, mas existem certos objetos que, dependendo da incidência de luz, podem variar de cor. Ao menos, quando se diz que uma cor tem tantos nanômetros, isso é invariável. A linguagem matemática é simples justamente por isso, aqui ou em Marte ela será igual. Mas porque, afinal de contas, eu estou pensando nisso? Ah, os músicos cegos, isso mesmo! Mas eles estão longe agora. O que ouço são sons de jogos eletrônicos, fliperamas. Vozes, passos, sacolas, um avião passando. Cheiro bom de pipoca com bacon, pipoca doce também. O som do semáforo; posso passar. Toco na perna de alguém. — Desculpe-me. — sem resposta. Deve ter sido em algum poste. Mas que diferença isso faz aqui, onde as pessoas são mais frias do que os postes? Não sabem pedir por favor nem agradecer nem se desculparem. Todos apressados e preocupados demais para se deterem em poucas e essenciais regras da boa educação. Ninguém cede o lugar no ônibus, ninguém ajuda ninguém, ninguém respeita ninguém. Cheiro de lixo. Forte. Nauseante. Asqueroso. Restos de comida podre ou algo de gênero, ou quem sabe um montículo de excrementos humanos, tão comum de se encontrar, de se cheirar ou de se pisar hoje em dia, ainda mais eu. Há regiões na cidade onde eu evito passar, atrás da Matriz, por exemplo, pois para quem possui o olfato um pouco mais apurado aquilo ali é o inferno. Urina e todos os tipos de odores repugnantes. É capaz de matar alguém intoxicado se permanecer muito tempo no local. Outra rua para eu atravessar, perigoso ser atropelado por algum motoqueiro, todos tão velozes e barulhentos. Estou do lado de alguma mulher, perfumada, cheiro bom, lavou os cabelos com um agradável xampu; do meu outro lado está um senhor fumando, ou senhora, quem sabe? O cigarro transforma todos os cheiros no mesmo. Minha garganta fica irritada e, às vezes, fico horas sem sentir cheiro algum. Alguém se aproxima por trás e segura meu braço — Quer ajuda? — uma mocinha pergunta para mim e, sem que eu responda, ela me arrasta pela rua adentro. Vou tropeçando, sem graça. Agradeço-a e me recomponho. Não há coisa pior do que não ter noção do que lhe está acontecendo, ser arrastado por uma pessoa estranha, mais preocupada em parecer boa diante da sociedade do que pelo mérito da própria caridade. Eu penso que as pessoas que mais tentam ajudar as outras são as que possuem os demônios interiores mais fortes. Elas temem o inferno, por isso se esforçam em direção ao Céu. Eu também tenho os meus... Provocadores, incitadores. Sempre me propõem questões que não posso responder: Se Deus é tão bom, por que ele permite que seus filhos sofram? Por que existe tanto aleijado, cego, surdo, deficiente mental num mundo criando por um Deus benevolente? Por que Deus enviou seu filho Jesus para curar apenas meia dúzia de pessoas e não para curar toda a humanidade de todas as enfermidades que a acomete? Não sei responder as minhas inquietações. Às vezes, revolto-me contra minha condição, contra o meu estigma. Sinto vontade de morrer, de partir deste mundo em busca de um outro, onde os meus olhos não farão diferença. Mas eu vejo as pessoas de uma outra maneira. É estranho como eu sinto coisas que elas não sentem. Percebo o medo pelo o tom de voz, noto a angústia, sinto a felicidade. Os sentimentos também estão nos cheiros. Os toques também são mais agradáveis ou repugnantes. Um aconchego carinhoso é um bálsamo assim como um tabefe é uma navalhada na alma. As mãos de uma mulher são delicadas, finas, macias, excitantes; o aperto de mão de um amigo é seguro, firme, constante, perene, assim como uma amizade deve ser. Crianças gritando, água esguichando, respingos na minha face e nas mãos, líquido congelante, suave precipitar-se do chafariz, eterno devir. Uma mulher com voz rouca e retumbante vende o jogo do bicho — Olha a cobra, trinta e três! — Outra bicheira está vendendo no lado oposto. Última rua a ser atravessada. Devo virar à direita, um ônibus passa colado em mim, quase levando minha guia com ele. Estremeço. Ouço buzinas e motos. Sacolas, passos, falatório. Um palhaço corneteando, mas, felizmente, não vou passar por ele. Subo um discreto aclive, estou perto agora. Subo a rampa da biblioteca. Uma menina sussurra para a colega — Sai do caminho, sonsa. Tem um ceguinho aí atrás. — Ceguinho? Por que as pessoas têm a mania de chamar pelo diminutivo quem possui algum diferencial? É o ceguinho, a gordinha, o magrinho, o velhinho. Começo a crer que o sufixo inho é a marca do excluído. Se lhe chamarem com diminutivo pode ter certeza que é algo pejorativo, só pode ser! A biblioteca enfim, um burburinho rompe o cálido silêncio do reduto. Viro à esquerda e novamente à esquerda. Desço a escada que me leva ao subsolo, à direita, à direita. Vozes dos estagiários. À esquerda na seção de Braile. Sou saudado pelo simpático atendente, também cego. Indaga-me pelo meu desejo, Sertões, de Euclides da Cunha. Ver o mundo pelos olhos de outrem. Viver a vida pelas palavras de outros, mas minhas palavras são saliências numa folha de cartolina. Nada de “a” ou de “b”, mas uma, duas, várias rugosidades. No entanto, o mesmo mistério, o mesmo segredo que se desvela pelas palavras, também jaz ali. O enigma que traz o outro, alegoria, símbolo. A viagem mais plena e metafísica. A leitura. Meus olhos.


Nota:
(1) Do inglês, caminhar em espaço público; marcha dos convidados num salão para abrir formalmente o baile

(Extraído do livro "Retratos da Província")

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