terça-feira, novembro 22, 2005

Tupsărru


Benedictus percorria os corredores da gigantesca biblioteca sabendo que o dia chegaria.

Os boatos deviam ser verdadeiros, pois há quase um século era repetido de bibliotecário a bibliotecário. Numas das prateleiras, havia um livro que quem lesse jamais morreria.

Não se sabia se este poder provinha do livro — o que por si só já seria um problema, pois se teria de ler várias vezes à mesma obra, mas em cópias diferentes para se ter acesso ao misterioso texto —, se provinha das palavras inscritas ou se era originado a partir destas duas coisas. Além disso, havia outra questão: “Como saber se já havia lido tal livro, se não somente ao se descobrir imortal? Ou haveria uma marca, algo que pudesse identificá-lo?”

Em vinte anos naquele lugar, Benedictus havia lido mais de nove mil volumes do acervo de todas as áreas dos saberes humanos: Física, Filosofia, Matemática, Química, História, Geografia, Literatura, Medicina, Direito, Gramática, Retórica...

O que ele havia lido contradizia, porém, os boatos. “Todo homem é mortal” era a mensagem que perpassava a totalidade do que havia sido criado pelas mãos humanas; cada homem, gênio, boçal, rico, pobre, cristão, gentio, belo ou feio feneceria.

Foi quando Benedictus encontrou um antigo manuscrito sumério, enrolado numa capa de couro. A primeira sentença revelou que o projeto de imortalidade não era tão simples quanto parecia. Escrito em cuneiforme caldeu, dizia o seguinte:

“Apenas a leitura não basta; é preciso compreensão”.

Convencido de que aquele escrito era o que procurava, o bibliotecário se debruçou sobre seu estudo. Entretanto, os caracteres bailavam diante de seus olhos e, a cada vez que ele relia o texto, o sentido era diferente.
Seus colegas se espantaram com sua determinação e, por mais de um qüinqüênio, admiraram seu esforço em compreender aquele frágil pergaminho.

Numa manhã, ao descerrarem as portas da biblioteca, encontraram o corpo sem vida de Benedictus debruçado sobre a mesa. Ao seu lado, havia uma anotação sua:

“Que tolo fui! Passei todo esse tempo buscando o que já me pertencia”.

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