sábado, agosto 06, 2005

Purgatório


“Antes ter mil sentimentos a ter um pensamento”. (Henry Alfred Bugalho)

Pedro saiu correndo pelo portão da escola. Era apenas mais uma cabecinha naquele bloco formado pelos alunos frenéticos, ansiosos pelo ar puro, bastante diferente daquele cheiro de mofo e de erudição que a escola e os livros exalavam. Corriam ao seu lado Rafael e Jorge, amigos seu, os quais comentavam sobre a bomba que levariam na prova de matemática. Eu também não fui bem, recordou-se Pedro, mas não deu importância a isto, pois agora estava fora daquele presídio intelectual e, por isso, não precisava se preocupar com nada que dissesse respeito à escola.
Eles se aproximaram, subindo pela avenida João Gualberto, do tubo do ônibus, abarrotado de gente. Falatório. Confusão. O sol do meio dia queimava a cuca da criançada e dentro do tubo deveria estar uns vinte graus mais quente do que os trinta de fora. Infernal. Pedro retirou o blusão do agasalho — Por que ainda estou vestindo essa coisa? Tô louco! — e o amarrou na cintura. Revirou, então, o bolso da calça à procura do vale-transporte. Tinha que procurar bem, porque, no meio da papelada e do lixo que lá havia, ficava difícil encontrar qualquer coisa que fosse. Revirou. Remexeu. Revistou. Todavia, nenhum sinal daquela ficha cinzenta, que era às vezes usada para comprar lanche na cantina, e que era sua única garantia de retorno para casa. Que calor! Cadê a porcaria do vale? Decidiu, finalmente, retirar tudo que havia no interior do bolso a fim de facilitar a procura. Bilhetinho da Amanda. Papel de bala. Chaves. Papel de bala. Cola de matemática. Papel de chiclete. Cinco centavos. E ali estava o vale perdido no meio daquela bagunça.
Ele e seus amigos subiram os primeiros degraus do tubo de ônibus, mas estacaram quando ouviram a freada súbita do ônibus e uma gritaria desesperada. — Ela foi atropelada! — alguém berrou.
Algumas meninas mais sensíveis desmaiaram e logo todos estavam em torno da acidentada. Olhos curiosos vindo do interior do biarticulado procuravam a vítima e o motorista desembarcou apavorado. — Não foi minha culpa! — ele se defendia acuado — Foi ela quem entrou na minha frente! —, enxugava o suor da testa e ainda estralava os dedos da mão em sinal de nervosismo, enquanto andava de um lado para o outro.
Pedro e seus amigos tentaram abrir caminho pelo meio da multidão, forçando uma aproximação para verem a menina. A desafortunada garota havia sido colhida pelas rodas do biarticulado, de modo que o estrago fora grande. Pedro viu, por entre as duas cabeças na sua frente, o braço ensangüentado estendido no asfalto logo abaixo do veículo. A mão estava semicerrada e expressava toda a dor que a vítima deveria ter padecido naquela instante infinitesimal entre o impacto no pára-choque dianteiro do ônibus e a morte. Pedro sentiu um forte incômodo e um frio na boca do estômago; sentia vontade de se aproximar, ao mesmo tempo em que era impelido a fugir, ir embora, esquecer este trágico episódio.
O professor de educação física — o senhor Osvaldo — deixou a escola e correu para tentar socorrer a aluna acidentada. Ele atravessou, impetuoso, a aglomeração burburinhante dos curiosos e se ajoelhou ao lado da aluna, embebida do sangue que jorrava. As feições do professor eram das mais desanimadoras e todos já concluíam que a menina não havia sobrevivido — Quem agüentaria ser atropelado por este ônibus? — perguntou um, — Estas crianças deveriam prestar mais atenção ao atravessar as ruas. — comentou uma velha, — ... eu pude ver os miolos dela esparramando... — era o que um menino exagerado contava para outro, — Ela era da minha classe. — relatava uma garota, — Alguém já avisou os pais dela? — perguntava uma mãe aflita que viera buscar o filho na porta da escola. Nisso o som da sirene do SIATE começou a se aproximar. A ambulância vermelha despontou na ladeira e estacionou sobre a calçada, repelindo os curiosos que cercavam o local do acidente. Quatro para-médicos saltaram da ambulância, dois traziam consigo uma maca e os outros dois os equipamentos médicos emergenciais. — Ela vai ficar bem? Vocês demoraram! Ela está aqui! Ajudem-na, por favor! — a multidão bombardeou os para-médicos. Sem darem importância aos comentários, eles se aproximaram da vítima e iniciaram os procedimentos. Constataram que ela ainda vivia, mas que se não fosse transportada imediatamente para algum hospital, certamente ela não sobreviveria. Os médicos retiraram, por fim, a garota de sob o ônibus e, colocando-a sobre a maca, amarrando-a e imobilizando o pescoço dela, levaram-na rapidamente para o interior da ambulância, para em seguida, partir em disparada para o hospital mais próximo.
O público ainda ficou alguns minutos por ali, comentando e relatando aos outros o ocorrido. Os alunos debandaram, mas o biarticulado permaneceu parado, à espera da polícia. Em meia hora já não havia mais ninguém ali, apenas o apavorado motorista e os policiais.

O sol havia se posto e Pedro retornou, após as brincadeiras com os amigos, para casa. Tinha de fazer a tarefa de casa. Que droga!, pensou ele, que detestava matemática. Retirou os cadernos da mochila e sentou-se na sua escrivaninha para preencher os exercícios. De súbito, lembrou-se da atropelada, do braço estendido no asfalto e da morte que ronda as pessoas. Deixou de lado os exercícios e abriu a janela do quarto. Ficou Pedro admirando as estrelas e lua, ora coberta por nuvens, ora obscurecida por elas. Notou a calça do uniforme largada sobre a cama e revirou os bolsos dela. Encontrou o bilhetinho da Amanda.

Pedrinho,
Temos que marcar um dia para estudarmos juntos. Acho que vou ligar para você hoje à noite para combinarmos.
Beijinhos,
Amanda.

Por que será que ela não ligou ainda?, pensou Pedro, intrigado. Amanda sempre foi pontual. Será que ela se esqueceu?
Pedro se convenceu, então, que ela havia, de fato, esquecido e decidiu ele mesmo ligar. O pai dela quem atendeu. Sua voz estava embargada e enfraquecida.
— Está tudo bem, Senhor Levi? — perguntou o garoto, atencioso.
Surpreso, o pai da Amanda respondeu — Você não soube o que aconteceu com ela? Vocês não estudam juntos?
— Não fiquei sabendo de nada. — respondeu Pedro — Nós tivemos aula normalmente e ela escreveu para mim um bilhete, dizendo que ligaria para mim mais tarde. Mas estou esperando até agora.
— Ela foi atropelada na saída da escola. — disse o preocupado pai, quase desabando em choro.
Pedro desligou desesperado o telefone. Havia sido Amanda quem fora atropelada. Como ele não percebeu isto? Bem que aquele braço lhe recordava alguém... Aquele anel no polegar. Por isso que ele não a encontrou no ônibus de volta para casa. Por isso que ela não ligou. Pedro limpou com as costas da mão o suor que escorria. Sentou-se na cama e ficou refletindo. Pensando em nada, talvez. Depois, contou para sua mãe, a qual tapou com a mão a boca e soltou um soluço de choro. — Que horrível, filho! Os pais dela devem estar abalados com isto!

Pedro vestiu o seu pijama e deitou-se para dormir. As trevas trouxeram fantasmas e as roupas penduradas no encosto da cadeira assumiram formas sombrias. A porta aberta do guarda-roupa abrigava muito mais do que meras roupas, vultos negros manifestavam mistérios. Um silêncio perturbador ressaltava o menor dos ruídos, um ranger da cama, o uivar do vento, o cricrar dos grilos, as gotas que pingavam do chuveiro, um ou outro automóvel que passava lá fora, o tiquetaquear do relógio, o silvo macabro do apito do guarda noturno, o farfalhar das folhas das árvores. Pedro sentiu medo. Cobriu num reflexo a cabeça, mas o lençol era curto e descobriu os pés. Sentiu mais medo ainda; e se algum fantasma puxasse o seu pé? Cobriu-o rapidamente. Em seguida, encolheu-se numa posição fetal, de modo que tanto o seu pé quanto a cabeça podiam ficar encobertos. Lembrou-se da amiga atropelada. Sentiu a sua presença e os seus pelos se eriçaram. Ouviu a voz dela e imaginou-a após o atropelamento: o crânio esfacelado e o rosto macerado, as fraturas expostas, o sangue, muito sangue. E, quanto mais tentava afastar tal imagem, mais ela se fortalecia. Rezou um pai-nosso e um Credo. Tentou visualizar um prado verdejante, assim como no salmo, mas Amanda também estava lá, apascentando as ovelhas com seus ossos à mostra e deixando atrás de si um rastro de sangue sobre a grama. O silêncio era enlouquecedor e o estalar da madeira da cama aumentava a sensação de temor. Pedro passou a noite acordado, mumificado no lençol, sem coragem para olhar em direção ao guarda-roupa, nem sequer para tirar sua cabeça de baixo do efêmero escudo tecido de algodão que o recobria.

No dia seguinte, logo que o sinal tocou e os alunos entraram nas salas de aula, a diretora do colégio pediu permissão aos professores para entrar e conversar com os alunos. Muito reservada e séria, ela iniciou o seu comunicado — Queridos alunos, Amanda, uma aluna da 6ªA, da mesma turma de vocês, foi atropelada, ontem, pelo biarticulado, como todos devem saber. Ela foi transportada com traumatismo craniano para a CTI de um hospital aqui perto. Fomos informados, nesta manhã, que ela não conseguiu resistir. — algumas meninas começaram a chorar, bem como a professora, mas a diretora prosseguiu impassível — Ela faleceu há alguns minutos atrás. Por isto, estamos dispensando os alunos das aulas de hoje, para quem quiser ir ao velório da colega. Estamos com um ônibus aqui fora, esperando para nos levar até o local onde ela será velada.
Os alunos guardaram, em silêncio, suas coisas e deixaram, cabisbaixos, a sala de aula. Pedro preferiu não ir, saiu do colégio e caminhou para o ponto de ônibus. Passou pela poça coagulada de sangue. Aquela mancha negra lhe trouxe novamente recordações. Vieram à sua mente lembranças de Amanda, das brincadeiras na hora do recreio e do sorriso dela. Pediu a Deus que cuidasse da alma dela e que não a deixasse sofrer. Enxugou a lágrima que escorria e depois continuou o seu caminho até a parada do coletivo.
A mancha de sangue ainda permaneceu no asfalto por vários meses, como uma memória terrível daquela que partiu. Uma marca indelével da passagem de apenas mais uma garota no mundo.


(Extraído do livro "Retratos da Província")