terça-feira, março 14, 2006

Beatriz


Finados. Cemitérios lotados.

Multidões pranteavam seus mortos, mas os mortos não pranteavam ninguém.

Diante do túmulo do esposo, Beatriz e o filho, cabisbaixos. Ramalhete de flores na mão, roupas pretas.

Sem aviso, Beatriz desatou a chorar, murros no peito, lamúrias.

— Não fique assim, mamãe. — o filho a trouxe de encontro a si.

— Não estou triste, filho. Só não quero que pensem que sou uma má viúva.

domingo, janeiro 22, 2006

Nada pessoal


Zé saiu para caçar calangos, mas encontrou um urubuzinho ferido.

A pobre ave remexia-se no chão, asa machucada e bico pronto para se defender.

Com cuidado, Zé se acocorou e embrulhou o pássaro no alforje.

— Credo, Zé! Que bicho é esse? — Maria estava nervosa. Sem janta, crianças com fome e um carniceiro empoleirado na janela, também aguardando alimento.

Onde comiam quatro bocas, também podia um bico.

Um bebezinho, Zé cuidou bem do urubu, que se recuperou e voltou a voar. Como gratidão animal, o urubu sempre retornava à casa de Zé. E quando este saía para a caatinga, era secundado pela ave.

Numa manhã, Zé foi emboscado numa trilha; paga de uma rixa antiga. O urubu precipitou-se sobre o pistoleiro, atacando-o, e fê-lo fugir.

O pássaro posou, então, ao lado do amigo, que agonizava.

Grasnou com força, clamando por ajuda. Ninguém apareceu. Viu o sangue se esvaindo e o olhar embaciado do amigo, porém, sentiu o chamado da natureza. Timidamente, bicou o ferimento de Zé.

— Que isso? É assim que agradece o que fiz por você? — o moribundo murmurejou.

Mas a ave prosseguiu em seu instinto, com cada vez mais voracidade.

“Amigos, amigos. Negócios à parte”, o urubu pensou, enquanto os de sua espécie pousavam para refestelarem-se com seu banquete.

domingo, janeiro 15, 2006

Liberdade Duradoura


(Hoje, ao assistir Fahrenheit 11/9, lembrei-me desse conto, escrito há dois anos atrás)

O sargento Stevenson (nome de batismo William Stevenson) sentia, de sobre o jipe de reconhecimento, o bafo quente do deserto iraquiano contra o rosto. Eles haviam deixado, há três horas atrás, Karbalah, rumo a Najaf, para ajudar a conter um grupo de guerrilheiros que já haviam causado severas baixas nas milícias americanas naquela cidade.

Bill Stevenson não compreendia porque o mundo odiava tanto a América. Justamente a América, o lar da liberdade. Haviam sido os ideais humanistas dos iluministas franceses que motivaram a guerra de independência dos Estados Unidos da América e que haviam movido as mãos dos redatores da Declaração de Independência de 1776, na qual todos os homens seriam livres e iguais. Seria a busca pela liberdade que conduziria à Guerra Civil; uma luta pelos direitos humanos e abolição da escravatura. A liberdade americana havia proporcionado a grandes cientistas e artistas a possibilidade de crescimento e notoriedade; a valorização das conquistas dos americanos era também um modo de libertação. Libertar a Europa das mãos dos nazistas e fascistas também foi o argumento que fez com que os americanos deixassem sua amada pátria, cruzassem o Atlântico para combaterem os destacamentos alemães e navegassem o Pacífico para bombardearem as frotas e cidades japonesas. Foi em prol da liberdade mundial que Hiroshima e Nagasaki foram varridas do mapa por bombas atômicas. Em seguida, décadas de luta pela liberdade conteram a ameaça vermelha que se irradiava de Moscou. Livres também estavam os países latino-americanos, com a ajuda da CIA para derrubar governantes populistas. Os Estados Unidos haviam libertado a Coréia, o Afeganistão e agora libertavam o Iraque.

É claro que, nesta longa história de glória, houve momentos de decepção e amargura. Nem o Vietnam, nem a Baía dos Porcos em Cuba, conheceram o significado da liberdade americana. O 11 de setembro foi a amostra de que, mais do que nunca, o mundo precisava compreender a beleza e a magnitude de se viver num país democrático e livre. Pois o sargento Stevenson era um voluntário para estar no Iraque; ninguém o obrigava a defender sua amada América (não a América pobre e mestiça dos latino-americanos, nem a América desconhecida dos Grandes Lagos e da polícia montada canadense, nem a América negra e excluída dos guetos). Ele estava em solo inimigo porque acreditava com todo coração nas palavras do presidente, as quais diziam que o ditador iraquiano deposto era uma ameaça iminente. Mas onde estavam as armas químicas e biológicas? Ele não sabia, mas ainda as encontrariam.

Naquela manhã, do dia 5 de Muharram, cinco dias antes da maior festividade sagrada dos xiitas, o sargento Stevenson e seus companheiros foram emboscados e encontraram a liberdade sob o fogo de antigos fuzis soviéticos, nas mãos de esfomeados guerrilheiros iraquianos.

Curitiba, 2004.

segunda-feira, janeiro 09, 2006

A Bisbilhoteira


(imagem: http://www.wayneforte.com/index.htm)

Ah, minha filha, eu não sei contar histórias. E se fiz o que fiz foi porque achei que deveria.

Todo dia era a mesma coisa, aquela sem-vergonhice, aquela violência, aquele mundo perdido. Até crianças, meu Deus!

Sabe, eu sou aposentada. Trabalhei cinqüenta anos, professora de primário. Sempre amei as crianças, o futuro do nosso país. Por isso, meu coração se apertava ao ver aquilo.

Quando me mudei para aquele prédio, não havia nada parecido. As pessoas passeavam tranqüilas na praia, turistas vermelhos de sol e a cidade era só maravilha. Mas daí os casebres se espalharam, subiram o morro, diante da minha janela. Que eu podia fazer, minha filha? O quê?

Não trabalhava pra prefeitura, não era responsável pelo planejamento urbano, nada... Enfim, chegaram aqueles bandidos miseráveis. Venderam drogas, armas e foi aí que o caos se instalou.

Acabou-se o sossego. Tiro dia e noite. Arrastão na praia e menino matando gente por cincos reais. Eu tinha medo; tão perto de uma senhora sozinha como eu. Meu filho mora longe, em outra cidade, foi embora por causa do medo. Mas eu não tinha condições; com muito custo tinha comprado meu apartamentinho. Pra onde eu iria?

No natal do ano passado, meu filho me deu uma câmera fotográfica. Linda! Dessas que não tem filme, olha no visorzinho e tchan!, já tirou a foto. Falou que era pra eu fotografar as belezas da cidade.

Só que a feiúra era mais aparente, moça. Como é que se pode ver beleza com tamanha desgraça por aí?

Vi tanta coisa ruim, tanto criança se drogando, roubando, matando. Elas andam com as armas por aí como se isso fosse normal, sabe?

E foi disso que tirei as fotos. À noite, aquilo lá parecia o Iraque, os tiros subindo no céu, acertando os prédios do lado. Um dia, uma bala entrou em minha casa, atravessou o vidro e fincou no teto. Que medo que eu tive naquele dia!

Certa vez, porém, teve uma discussão séria lá embaixo. Dava para ouvir gritos, procuravam por alguém. Correria. Trouxeram um rapaz, que eu já tinha visto noutras ocasiões conversando com as pessoas da região. Arrastaram o pobrezinho até lá em cima, numa laje e, depois, cinco ou seis moleques atiraram nele.

Desculpa se minha mão treme, mas é que foi uma cena horrível. Sim, eu fotografei tudo.

Mas, na hora do jornal, apareceu a foto do morto, dizendo que era um repórter. Morreu porque era curioso. Procuravam o bandido que tinha comandado essa crueldade. Eu sabia quem era, mas não tinha fotos dele.

Apaguei todas as luzes da minha casa e fiquei na janela, com a máquina na mão. Estava nervosa, eu podia ajudar a resolver um crime. Mas pensava se faria alguma diferença. Tantas pessoas morriam todos os dias, por que com aquele seria diferente?

Então, eu avistei o bandido. Ele não tinha cara de mau, mas mesmo assim eu tinha medo dele. Esperei até pegar um ângulo bom e tirei a primeira foto.

Só que eu havia me esquecido de desligar o flash e aquela luz branca brilhou. Lá embaixo, todos olharam para o meu prédio.

— Porra, estão tirando foto da gente! — gritaram lá embaixo.

Por uma fresta na cortina, eu vi que eles deram dois ou três tiros pra cima. Então todos correram em direção a minha casa.

Fiquei apavorada, moça! Achei que eles iam me matar.

Sim, liguei pra polícia, mas caiu na espera, dizia que todos os atendentes estavam ocupados mas que não era para desligar. Eu não podia esperar, eles deviam estar subindo, iriam quebrar minha máquina e depois fazer sei lá que atrocidades comigo. E eu sabia do que eles eram capazes, aqueles monstros!

Peguei minha máquina e corri escada acima. Ouvi gritos no corredor e som de tiros. Continuei subindo, meu sangue gelado e um cansaço, achei que iria desmaiar. Imagine só, uma senhora como eu subindo dez andares!

Cheguei ao terraço e me escondi atrás da caixa d’água. Eu sabia que não demoraria para eles me pegarem, me jogassem lá cima bem no meio da rua. E tudo continuaria a mesma coisa de sempre. Talvez a foto da minha identidade aparecesse na TV, mas amanhã, ninguém mais se lembraria de mim.

Foi quando ouvi passos e duas pessoas conversando. Eles estavam lá em cima.

— A véia fugiu, meu’rmão!

Incrivelmente, a polícia apareceu. Sons de sirenes na rua.

— Fodeu, véio! A polícia chegou. Vamos descer! Vam’bora!

E eu fiquei lá em cima, havia urinado nas calças, chorando e com medo de voltar para casa. Eles iam me matar, cedo ou tarde.

Mas a polícia me reconfortou, viram as fotos do bandido e me falaram que eu ficaria no programa de proteção à testemunha, que eu não tinha que ter mais medo.

As fotos que tirei apareceram nos jornais, mas o bandidão não foi preso.

Só não imaginei que os repórteres iriam vasculhar minha vida. Nunca pensei isso. Eles foram lá e descobriram que eu havia falsificado a assinatura do meu falecido esposo para receber a aposentadoria dele.

Tive que vender meu apartamento para pagar a dívida com a Previdência e de testemunha virei ré.

Se eu soubesse disso, moça, nunca teria tentado fazer o bem. Aqueles meninos faziam coisas ruim lá embaixo, mas nunca fizeram nada contra mim.

Eu devia ter ficado quieta no meu canto.

Aqui, nesse país, só se dá mal quem não merece.

sábado, janeiro 07, 2006

Campestre


(imagem: http://www.tca.com.br/tropeiros/imagens/tropeiros7.jpg)

A menina Rosa viu a tropa se aproximando do norte. Ela estacou curiosa e foi saudada pelos cavaleiros.

— Guria, onde encontramos água nestas bandas de cá?

— Lá no tanque lá embaixo.

Ela desceu até a represa e encheu dois baldes com água para os viandantes se saciarem. Os tropeiros desmontaram das bestas e armaram pouso.

Rosa ouviu sua mãe chamando-a e a adolescente enrubeceu diante dos másculos tropeiros que riam.

— Não deixes tua mãe preocupada, guria. Vá-te que a noite já desce.

Na manhã seguinte, Rosa correu até o encosto para ver aqueles homens mais uma vez antes de eles partirem para os pampas longínquos. Um deles a avistou e se despediu retirando da cabeça o chapéu de abas largas. Era jovem, mas endurecido pela lida.

Naquele gesto cavalheiresco — o primeiro que Rosa recebia em sua vida — o tropeiro arrebatou consigo o amor daquela menina.

Meses se passaram com Rosa debruçada sobre os cotovelos na janela da choça. Homens, cavalos, mulas, bois, vacas, bezerros passavam, porém, o tropeiro gentil não.

Numa manhã gélida, com os prados cobertos com a fina geada do inverno, uma constelação de gado surgiu ruidosa no horizonte. Rosa despertou sobressaltada, como sempre ocorria quando ela ouvia o rumor de tropas vindas do sul. Ela correu para fora de casa e avistou o cavaleiro ao qual ela esperava. Rosa sorriu e recebeu um tímido sorriso em resposta. Eles se saudaram como velhos conhecidos, apartados por anos de dura separação. Contudo, a tropa não parou, prosseguiu em marcha forçada rumo a São Paulo.

Então, o belo cavaleiro de Rosa não mais apareceu.

Ela se casou, teve filhos; viu a rota de tropeiros tornar-se uma estrada e ser dominada por barulhentas caminhonetes; viu seu marido morrer; viu seus filhos e filhas se casarem; viu os netos nascerem; viu a estrada de terra ser asfaltada e os gigantes caminhões que por ela transitavam. Vez ou outra, uma carroça puxada por cavalos relembrava os antigos peregrinos que por ali passavam e traziam à mente de Rosa as alegrias de outrora.

Um dia, porém, um velho carcomido despontou, montado num pobre pangaré. Ele veio à casa de Rosa e pediu um copo d’água. Ela o convidou para entrar.

— Não, dona. Não entro em casa de viúva em respeito ao finado.

Rosa entrou e voltou trazendo um jarro de água. O velho sorveu vários copos e, por fim, demonstrou sua inquietação por partir. Ele retirou da cabeça o chapéu de abas largas e se despediu de Rosa, que então o reconheceu.

O homem que havia levado consigo seu coração, agora retornava para trazê-lo de volta.

Ela abriu um sorriso de dentes podres e se alegrou, pois o mundo havia mudado, mas o amor daquela mulher não.

Sexto colocado no Concurso de Contos Cataratas 2005.