domingo, janeiro 15, 2006

Liberdade Duradoura


(Hoje, ao assistir Fahrenheit 11/9, lembrei-me desse conto, escrito há dois anos atrás)

O sargento Stevenson (nome de batismo William Stevenson) sentia, de sobre o jipe de reconhecimento, o bafo quente do deserto iraquiano contra o rosto. Eles haviam deixado, há três horas atrás, Karbalah, rumo a Najaf, para ajudar a conter um grupo de guerrilheiros que já haviam causado severas baixas nas milícias americanas naquela cidade.

Bill Stevenson não compreendia porque o mundo odiava tanto a América. Justamente a América, o lar da liberdade. Haviam sido os ideais humanistas dos iluministas franceses que motivaram a guerra de independência dos Estados Unidos da América e que haviam movido as mãos dos redatores da Declaração de Independência de 1776, na qual todos os homens seriam livres e iguais. Seria a busca pela liberdade que conduziria à Guerra Civil; uma luta pelos direitos humanos e abolição da escravatura. A liberdade americana havia proporcionado a grandes cientistas e artistas a possibilidade de crescimento e notoriedade; a valorização das conquistas dos americanos era também um modo de libertação. Libertar a Europa das mãos dos nazistas e fascistas também foi o argumento que fez com que os americanos deixassem sua amada pátria, cruzassem o Atlântico para combaterem os destacamentos alemães e navegassem o Pacífico para bombardearem as frotas e cidades japonesas. Foi em prol da liberdade mundial que Hiroshima e Nagasaki foram varridas do mapa por bombas atômicas. Em seguida, décadas de luta pela liberdade conteram a ameaça vermelha que se irradiava de Moscou. Livres também estavam os países latino-americanos, com a ajuda da CIA para derrubar governantes populistas. Os Estados Unidos haviam libertado a Coréia, o Afeganistão e agora libertavam o Iraque.

É claro que, nesta longa história de glória, houve momentos de decepção e amargura. Nem o Vietnam, nem a Baía dos Porcos em Cuba, conheceram o significado da liberdade americana. O 11 de setembro foi a amostra de que, mais do que nunca, o mundo precisava compreender a beleza e a magnitude de se viver num país democrático e livre. Pois o sargento Stevenson era um voluntário para estar no Iraque; ninguém o obrigava a defender sua amada América (não a América pobre e mestiça dos latino-americanos, nem a América desconhecida dos Grandes Lagos e da polícia montada canadense, nem a América negra e excluída dos guetos). Ele estava em solo inimigo porque acreditava com todo coração nas palavras do presidente, as quais diziam que o ditador iraquiano deposto era uma ameaça iminente. Mas onde estavam as armas químicas e biológicas? Ele não sabia, mas ainda as encontrariam.

Naquela manhã, do dia 5 de Muharram, cinco dias antes da maior festividade sagrada dos xiitas, o sargento Stevenson e seus companheiros foram emboscados e encontraram a liberdade sob o fogo de antigos fuzis soviéticos, nas mãos de esfomeados guerrilheiros iraquianos.

Curitiba, 2004.

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