segunda-feira, dezembro 24, 2007

A Mão


O som da chuva me dava vontade de fazer xixi. Eu estava rolando na cama desde a meia-noite, inquieta após haver assistido a um filme de terror. Maldita sexta-feira treze e estas sessões intermináveis de monstros e cadáveres na TV!
Mal me segurando, desenrolei-me dos lençóis e pousei os pés nus no carpete do quarto.
Foi quando o inusitado ocorreu. Não foi como se me segurassem, ou como se me apertassem, foi apenas um toque, um resvalo no meu calcanhar, vindo de sob a cama. Tenho certeza de que não era fruto da minha imaginação, a sensação foi clara o suficiente para evitar qualquer dúvida: uma mão, de sob minha cama, havia tocado meu pé.
Gritei, saltando assim como quando, na praia, ondas geladas deslizam na altura das nossas canelas, e instintivamente olhei para a fonte do meu desespero. Nada havia.
Corri para o banheiro, pois o susto aumentou ainda mais meu apuro.

Ao voltar para o quarto, entrei sem muita coragem. Acendi a luz e, a uns dois metros de distância da cama, ajoelhei-me, encostei lateralmente a cabeça no chão e tentei divisar algo. Tinha bastante entulho embaixo, mas nada que se assemelhasse a uma mão, ou a algum dono de mão querendo me dar um susto. A hipótese de ser meu irmão estava descartada.
Rastejei até lá e, no caminho, apanhei um tênis, para dar uns safanões, caso fosse algum bicho (rato?!) desgarrado. Encontrei caixas de Barbie (bonecas aposentadas há uns três anos), uma dúzia de caixas de sapatos, às quais afastei com o bico do tênis, uma meia suja recoberta de cabelos e poeira, até uma calcinha velha havia lá embaixo.
Respirei aliviada, afinal de contas, poderia ter sido minha imaginação — era mais fácil me agarrar a uma mentira —, um vento encanado, sei lá, qualquer coisa, menos uma mão.
Apaguei a luz e, no mesmo instante em que o quarto foi tomado pelo breu, um relâmpago brilhou pela cortina, lançando uma claridade azulada, e vislumbrei talvez um rosto, cabelos brancos desgrenhados, sorriso mórbido fitando-me por debaixo da cama. Acendi mais uma vez a luz, e ri sozinha, meio apavorada, mas também me convencendo de que a visão se devia a alguma configuração bizarra de luminosidade no entulho acumulado abaixo do estrado. Quando estamos com medo é isto mesmo que acontece: quantas vezes não vemos pessoas e fantasmas nas roupas dependuradas no cabide estando as luzes apagadas, ou garras ameaçadoras nas silhuetas de galhos de árvore por entre o tecido da cortina, ou o ruído do armário, dos móveis, do vento, de passos, de sussurros?
Pura obra de nossa imaginação, pois não há nada, apenas nosso medo.

Para não ficar na completa escuridão, deixei acesa a luz dum abajur. Depois, mais confiante, apaguei-a também e tentei dormir. Mas eu estava muito nervosa, coração batendo forte, pés gelados (temia que alguém viesse puxá-los), trêmula. Encolhi-me como um feto, a chuva havia engrossado, repicando na vidraça. Tive a impressão de ouvir sons debaixo de mim, alguém se arrastando, movendo a bagunça lá embaixo.
Pensei em me levantar e acender a luz, mas não tive coragem. Preferi ficar quietinha, crente de que, se eu me acalmasse, uma hora isto passaria.
Mas não foi o que aconteceu, o som aumentou, adicionado a um ranger de dentes e a um estertorar idêntico ao que ouvi de meu avô agonizando, pouco antes de morrer. E realmente, assim como tive certeza de que uma mão tocara meu calcanhar, não havia do que duvidar: alguém estava lá embaixo!

A situação era tão aterradora que se tornou insuportável, insustentável, ou eu ficava lá e morria de medo, ou fugia. Num pulo, voei para fora da cama e fui bater à porta de meus pais.
— O que foi, Silvana? — minha mãe a abriu, remelas nos olhos e cabelos despenteados.
— Mãe, estou com medo... — resmunguei.
— O que foi que aconteceu? — meu pai perguntou, também despertando.
— É a Sil... Acho que aconteceu alguma coisa.
— Estou com medo, pai.
— Porra, Silvana, até o Júnior já passou desta fase! Deixa a gente dormir porque amanhã eu acordo cedo!
Uma expressão de condescendência e compaixão surgiu no rosto de minha mãe, mas a ordem de papai era lei.
— Vai domir, Sil, vai — ela acariciou meus cabelos.
Mas como?!
Eu não entraria naquele quarto novamente, por isto, fui para a sala assistir TV. Estava tarde, e os únicos programas sendo transmitidos eram de compras por telefone, pastores tirando o diabo do corpo de crentes e um ou outro filme de terror, pois, apesar da sexta-feira treze ter oficialmente terminado, ainda estavam aproveitando o clima.
Meus olhos começaram a pesar e, em pouco tempo, adormeci no sofá.

Fui acordada por meu pai, na manhã de sábado, ele se preparando para ir ao trabalho.
— Dormiu aqui, Silvana? — ele me perguntou.
— Eu estava sem sono, pai. Vim assistir TV.
— E o que aconteceu ontem para você bater na nossa porta?
— Nada, bobeira, achei ter visto um rato.
Ele riu.
— Mulheres mesmo!

Passei o dia na casa da Camila; dançamos funk, rimos com uns vídeos na net, falamos dos gatinhos que estávamos ficando. Cheguei em casa tarde, apenas para comer um lanche e ir dormir, mas não consegui entrar no meu quarto, a simples memória de ontem à noite bastava para me impedir.
Voltei para sala e repeti o serão da noite anterior: TV e dormir no sofá.
E isto se repetiu por uns dez dias, para estranhamento de meus pais e irmão.
No entanto, numa das noites, adormecida na sala, tive a vaga impressão de que meu pai havia se levantado, apanhado-me nos braços e me conduzido à cama; lembro-me até de ter murmurado, sonolenta, algo como “Não, pai! Por favor, não!”
Eu entendo a atitude dele, devia pensar que meu medo era mero capricho, e que uma noite no meu quarto e na minha cama quentinha já seria suficiente para espantar os fantasmas da minha alma.
Realmente, ao ser coberta pelo edredom e pelos lençóis cheirosos, caí num sono profundo e devo até ter roncado, após tantas noites dormindo desconfortavelmente.
Mas fui acordada por ruídos e grunhidos. Não havia chuva para que eu me confundisse, além disto, havia um ligeiro tremor na cama. Alguém se arrastava lá embaixo, e parecia que as costas desta pessoa se chocavam contra o estrado. Eu estava meio lenta, com sono, mas não estava tendo pesadelo nem delírio, alguém tentava sair de sob a cama.
O medo fez com que o sono desaparecesse, mas, quando considerei a possibilidade de saltar para fora e me refugiar na sala, a visão duma mão, esquálida e branca, se erguendo pela borda do colchão, agarrando o edredom, dando suporte ao resto do corpo que haveria de aparecer, me fez mudar de idéia. Encolhi-me contra a parede, abraçando minhas próprias pernas, tremendo, pêlos todos eriçados.
A segunda mão apareceu, também agarrando as cobertas e, entre o espaço das mãos, uma cabeça começou a surgir, cabelos brancos, os olhos vazios, fundos, perdidos nas órbitas, repletos de angústia e cólera, a pele desta velha criatura era ressecada e apegada aos ossos duros da face, os dentes podres e enegrecidos. A criatura erigiu a parte superior do tórax, vestia uma camisola amarelecida e ensangüentada, podia-se ver as vértebras e os ossos dos ombros saltando por entre o tecido.
Ela se arrastou até mim e, quase encostando a boca no meu nariz, exalando aquele hálito pútrido, a criatura sibilou a questão:
— Onde você estava, Silvana? Eu estava apenas te esperando.

O colchão, os lençóis, as cobertas estavam todas espalhadas pelo quarto de Silvana quando seus pais foram até lá de manhã. A mãe de Silvana se desesperou, certa de que algum estuprador a tinha levado. O pai foi mais coerente, ligou para a polícia para dar queixa de desaparecimento, supunha que a filha adolescente devia ter conhecido algum rapaz na Internet e agora estava se aventurando pelo mundo, pensando que o amor lhes bastaria (havia assistido a uma notícia semelhante no telejornal durante a semana).
No entanto, apesar das suposições, dos cartazes espalhados pela vizinhança, da foto de Silvana na TV, do detetive particular contratado, das investigações policiais, nada foi descoberto. A moça havia simplesmente desaparecido sem deixar vestígios.

Anos se passaram e a família manteve o quarto da Silvana como um santuário intocado, para caso ela um dia retornasse.
No entanto, Júnior cresceu e sugeriram que ele ocupasse o quarto maior, que havia sido de Silvana; as coisas dela foram entulhadas na garagem.
A mudança de cômodo foi acompanhada de pesadelos nas noites subseqüentes. Júnior acordava suado, ofegante, com a sensação de que algo se movia sob a cama. Mas ele era corajoso, sabia que tais coisas estavam em sua imaginação.
Até a noite de sexta-feira, dia treze, quando mãos surgiram pela borda do colchão, magras, secas, e uma jovem, irreconhecível, loira, pele e osso, olhos profundos, fétida, se ergueu.
Estendeu a mão e acariciou o rosto de Júnior, paralisado pelo medo:
— Achei que você nunca se mudaria para cá, meu irmão. Agora pode vir comigo.
E o tragou para as profundezas das sombras, entre chinelos e meias.

Escrito para a Oficina da E-TL

quarta-feira, novembro 21, 2007

Terra de Ninguém



Imagine que você faz parte duma experiência de viagem no tempo, o voluntário escolhido entre centenas de candidatos. O destino é o futuro, final do século XXI, ano 2099.
Você está nervoso, tamanha responsabilidade a suas costas. Treina durante meses, aprendendo a operar os equipamentos do módulo temporal, tendo sempre em mente que não se deve alterar nada no futuro.
“O tempo é um plano muito instável”, eles lhe dizem, “qualquer alteração das partes pode significar grandes revoluções no todo”. Ninguém sabe quais as conseqüências da viagem, por isto, sua missão é ainda mais aterradora. Nem todos estão prontos para cruzarem o limiar do desconhecido.
A data do lançamento é agendada, seu coração palpita de emoção, os dias que se seguem são repletos de ansiedade, você vira alvo da imprensa, entrevistas e fotógrafos.
Você veste o macacão e adentra o módulo, aciona os mecanismos, a ordem de lançamento é dada, o portal de luz, já descrito pelos cientistas, se abre e o módulo é arremessado para dentro dele. Se você já voou num avião durante uma turbulência, então saberá qual é a sensação de se viajar no tempo — uma turbulência sem serviço de bordo. Seu corpo sacoleja, quase se soltando da poltrona, você vomita duas ou três vezes durante a viagem, resultado do medo e dos chacoalhões. Por fim, tudo se acalma, as luzes da cabine se apagam, a porta se abre.
Você está no futuro!

A primeira visão sua é uma mescla de deslumbramento e decepção. O mundo não mudou muito, a arquitetura é quase a mesma, não há carros voando, apenas automóveis nas ruas, ainda existem árvores, ainda se pode respirar. Porém, algo está errado, apesar de todas as estruturas estarem intactas, não há uma única pessoa nas ruas. Tudo permanece estático, como se o tempo houvesse parado, como se a população houvesse sido varrida do mapa.
Você vaga pelas avenidas aleatoriamente, as portas das lojas estão abertas, os carros estão parados nos cruzamentos, os semáforos prosseguem em silêncio alternando vermelho, verde e amarelo. Numa banca de jornal, você lê a notícia:

“Eles chegaram!”

E, numa foto colorida, centenas de luzes surgindo num céu crepuscular. O jornal foi publicado uns cinco ou seis dias antes de sua chegada neste tempo. Por menos de uma semana, você perdeu o que pode ter sido o maior, e possivelmente o último, grande evento da Humanidade.
Você se interroga sobre o que ocorreu neste período: houve uma guerra? Mas a tranqüilidade do cenário inviabiliza esta hipótese. O que quer que tenha ocorrido, foi de maneira inadvertida, inesperada e súbita. Os humanos haviam desaparecido, não fugiram ou foram dizimados, apenas desapareceram.
Sua viagem parece ter sido em vão; sua missão fracassara. Mas você não desiste, perambula pela cidade, numa outra tentativa para encontrar vida e obter informações sobre esta civilização.
As sombras dos edifícios se alongam, anoitece. Você ouve sussurros e passos, uma ponta de esperança surge em sua mente, talvez sejam os habitantes desta cidade-fantasma. Mas toda vez que você corre em direção aos sons, adentrando uma casa ou loja, nada encontra, ninguém, somente o silêncio.
O sol se esconde no poente, as luzes dos postes não se acendem, a única claridade para você é a da lua cheia. Os sussurros e passos aumentam, circundam-no, contornam-no, estão à sua espreita; você está cercado e não tem idéia do que tais seres querem ou pretendem.
Você corre, corre até suas forças o abandonarem, mas eles estão atrás de você, cuidando-no. Sabendo-se encurralado, você abre a tampa do esgoto e se embrenha nas galerias subterrâneas, por entre as artérias da cidade morta. Porém, os passos continuam no seu encalço, passos, sussurros e, agora, rosnados e grunhidos. Você faz curvas e contornos, perde-se nas trevas dos canais, ora parece que seus perseguidores estão na sua cola, ora parece que eles o emboscam na dianteira.
Pela primeira vez, você se lembra da pistola no coldre. Mal sabe manejá-la, era o pior na classe de tiro; escolheram-no por sua inteligência e não por sua habilidade em combate, certamente, nenhum dos cientistas contava com o mundo que você encontrou. No pente há nove balas. Durante o treinamento, a instrução era enigmática: “Em caso de combate, oito disparos são para os inimigos, o nono será para você”. Mas ninguém esperava esta situação.
De relance, você vislumbra uma das criaturas, toda negra, braços (quatro, até onde conseguiu contá-los) compridos e tentaculares, olhos dum vermelho cintilante.
Você adentra uma câmara, a água suja bate-lhe na altura do peito, sua respiração é ofegante, suas mãos tremem. Você sabe que morrerá, tais criaturas devem ser inclementes, pois, pelo que tudo indica, devastaram toda uma civilização. Seus pensamentos vagam, lembra-se de sua esposa, de seus pais, do mundo e da época no qual viveu, pensa na missão que lhe foi designada. Naquele instante, há cem anos no passado, um grupo enorme de pesquisadores e cientistas aguarda seu retorno, à espera das informações e dados que você trará. Num derradeiro gesto de altruísmo, você armazena sua história num gravador de voz. Foi tomado por aquela sensação humana de sobreviver a sua própria morte, de que sua mensagem prevaleça. Você não sabe se um dia alguém encontrará seu registro, mas o faz mesmo assim.
Agora é hora de encerrar a gravação, os passos estão pertos, a pistola está destravada, os cientistas continuarão esperando seu retorno, sua mulher não terá um corpo para chorar.
E não se esqueça: o nono disparo é para você.

Escrito para a Oficina da E-TL

domingo, outubro 21, 2007

Das Armas e Artes

(O Velho Guitarrista, de Pablo Picasso, fonte: http://www.physics.miami.edu/~chris/art/picasso/old_plyr.jpg)


O violeiro será o primeiro a morrer amanhã. Talvez, por isto, concederam-lhe o último prazer de manter sua viola.
Creio que aos próprios carcereiros aprazem o dedilhar e a cantoria do velho. Mas, desta vez, suas canções são tristes.
Nossas histórias se entrelaçam, datam de longínquos anos, duma época tão calma e ultrapassada que a memória dela quase se ofusca e se mistura com outras recordações minhas e histórias fantasiosas que ouvi pelo mundo afora.
Eu era criança quando o violeiro cego surgiu na minha vila, quase um mendicante. Comia o que lhe davam, dormia onde o abrigavam, caso carecesse de ambos, arranjava uma cabana sob o feno das alimárias e dividia a ração dos porcos. Isto apenas no começo, quando não o conhecíamos, pois, aos poucos, a voz rouca e os dedos hábeis nos cativaram. Na praça, chapéu no chão, viola na mão e na boca uma canção, o violeiro cantava os cantos da nossa raça, narrava os épicos do nosso povo. E não era apenas mais mendigo; era uma honra recebê-lo em casa e ouvir sua sabedoria em música; o suserano queria tê-lo à mesa, custeando-lhe luxo e banquetes.
Impressionava-me que um cego pudesse cantar tantas coisas que não havia visto, falar daquilo que não sabia. Meu pai reputou-lhe como um mentiroso:
— Não creias nestas baboseiras. O violeiro é apenas um bufão.
Mas o violeiro me encantava, e comumente eu negligenciava minhas tarefas domésticas para ficar ao pé do músico, apreciando suas histórias.
Uma em especial eu aprendi de cor, e apanhei muito por causa dela quando meu pai me flagrava recitando-a, um graveto a tiracolo simulando uma viola.
Se não me falha a memória, o primeiro verso era mais ou menos assim:

Alatiel trazia no peito as efígies
Do leão, da águia e do touro sem doma.
Na lâmina da espada a fama assoma:
“Aço, da Morte inglória me proteges.”

No entanto, para incompreensão de todos os vilões, o músico cego foi expulso pelo suserano, fato que apenas serviu para corroborar as afirmações de meu pai, de que o violeiro não passava dum patife.
Isto não diminuiu meu fascínio por aquela figura, tanto que tomei a resolução de seguir, se possível, uma das duas carreiras no futuro: cavaleiro, e cruzar o mundo como Alatiel, matando dragões e assediando bastiões; ou violeiro, vagamundeando a contar histórias.

Papai jamais permitiria que me tornasse músico, por isto, no intuito de me libertar de tais estapafúrdias elucubrações, ele me enviou para ser treinado por um aristocrata. Como pajem, alimentei as montarias do cavaleiro, carregava suas armas, polia sua armadura, acompanhando-o em torneios.
E foi num destes eventos que me encontrei, pela segunda vez, com o violeiro. Disputando a atenção, entre muitos outros artistas, saltimbancos, flautistas e trovadores, poucos se compadeciam do violeiro cego. Apenas eu lhe prestava alguma reverência.
Uma atroz guerra assolou, então, nossos territórios. Meu senhor, conclamado pelo suserano, se pôs a seu serviço e fomos nós, unidos a outros nobres e campesinos, para o campo de batalha. Atrás das defesas, eu e demais rapazolas nos apressávamos para munir os arqueiros de frechas e os cavaleiros de armas.
Vencemos as batalhas, mas oprimidos por devastadoras baixas.

Ao retornar ao meu vilarejo, desgraça. Toda a vila havia sido devastada pela carnificina, meus pais mortos, meus irmãos se dispersaram pelo mundo. Sem rumo, fugi para outras vilas e burgos. Roubei, enganei, mendiguei, tudo para não morrer de fome. Só não matei porque não tive oportunidade nem necessidade, mas tudo de baixo e vil realizei durante esta minha queda na vida.
Numa destas peregrinações, avistei o violeiro num mercado, cantando por miúdas moedas. Aproximei-me dele e me apresentei, relatando-o a alegria de ver um rosto conhecido após tanta desdita. O violeiro dividiu comigo um pão endurecido e me levou até o celeiro onde lhe permitiram dormir.
Despedi-me com tristeza do músico e retornei à estrada.

Pouco tempo depois, uni-me a um grupo de mercenários. Aprendi o manejo da espada, da lança e do arco. Ensinaram-me a montar e a me defender com escudo.
Quando não assaltávamos mercadores nas estradas, lutávamos guerras alheias por preço justo. Se víamos que estávamos em desvantagem, abandonávamos o campo de guerra. Porém, se percebêssemos que tínhamos a vantagem, permanecíamos até o desfecho, para partilharmos dos despojos. Não lutávamos por honra, glória, ou até a morte, fazíamo-lo por dinheiro, e dinheiro obtivemos.
Na época devida, comprei um título nobiliário e uma quinta. Já não era mais um rapaz, desposei uma virgem e aguardava meu primogênito, quando uma nova guerra se instaurou.
Cansado de tamanha carnificina, abstive-me de integrá-la, apesar de sucessivas e insistentes convocações do suserano. Mas um viajante me trouxe a alarmante notícia de que os exércitos inimigos estavam a poucos dias da minha propriedade. Temendo que os meus caros tivessem o mesmo fim de meus pais e irmãos, reuni meus servos, minhas alimárias e equipamento de guerra, e engrossei o exército do meu senhor.
As batalhas foram encarniçadas e, no decorrer de algumas semanas, recuamos inúmeras vezes, buscando abrigo em bastiões, que caíram diante do exército adversário.
Por fim, abrigamo-nos num burgo e fomos assediados por meses. Os que não morriam nas batalhas, pereciam de fome e peste. Nossos comandantes tombaram em combate e, para minha surpresa, designaram-me como o capitão dos nossos soldados.
Eu não era nenhum principiante nas artes da guerra, assim, conquistamos algumas fugazes vitórias, mas nada que dirimisse nossa derrota. Tudo estava perdido; para nós, restavam apenas a vergonha e a cova.
No entanto, certa noite, alguém pediu admissão ao castelo. Conduziram o viajante até a tenda do suserano. Da minha barraca, pude avistar o velho violeiro cego. Meus pensamentos foram dominados por questionamentos.
O que ele fazia ali? O violeiro e o suserano não haviam cortado relações, muitos anos atrás? Que tipo de importância ele poderia ter para nossa guerra?
Mas não obtive tais respostas.
Na manhã seguinte, descobrimos que o suserano havia nos abandonado; fugido como um covarde.
O desespero se instalou entre os nossos. Se o próprio interessado nesta guerra havia evacuado, era porque não havia realmente salvação. O moral estava baixo, mas, mesmo assim, ainda agüentamos o assédio às muralhas por mais um dia.
Reuni um grupo de valorosos combatentes e preparamos um plano de fuga. À noite, desertaríamos a cidade, levando conosco todos que pudéssemos. Mandei trazer até mim o violeiro, indagando-o qual a mensagem que portava:
— Não há mensagem. Sou apenas um cantador, meu capitão, vou de vila em vila a trovar.
Só que ele mentia, e isto me doía mais, pois ele dividiu comigo seu pão, mas não dividia algo que poderia nos salvar a vida.
Tentamos realizar nosso projeto, mas fomos interceptados por tropas inimigas. Uma horrível batalha ocorreu na escuridão da noite. Às cegas, amigos cravavam suas espadas em amigos, flechas flamejantes atingiam a todos indiscriminadamente.
Levei um golpe na cabeça e tombei inconsciente.

Eu ouvia música. Desorientado, indaguei:
— Estou morto? Esta é a música dos anjos?
Uma gostosa risada ecoou pelo recinto. Abri os olhos e me encontrava numa cela, cercado por grades de ferro. Na cela ao lado, estava o violeiro, rindo, viola a melodiar.
— Ainda não morreste, capitão, mas, amanhã, nós dois seremos decapitados.
Aquela sentença de morte, vinda de maneira tão abrupta e natural, trouxe-me à mente minha esposa e o bebê que crescia no ventre dela. Tentei chorar, mas os calos no coração não deixaram.
— Que mensagem trazias ao suserano? — repeti a pergunta, agora que não havia por que ocultá-la.
Mas o violeiro respondeu com evasivas.
— Condenaram-me à morte alegando ser eu um espião, que trazia informações dos reinos inimigos ao nosso senhor, e que indiquei o modo como ele poderia fugir ao cerco.
Tal resposta meu bastou, e tudo ficou claro como o dia. As canções do violeiro eram mensagens cifradas, revelando mais do que pareciam.
— E como podes cantar sobre coisas que não viste? — surgiu-me esta questão que, desde o primeiro encontro, estava cravada em mim.
— Nem sempre fui cego, capitão, já vi e estive em muitas batalhas. Foi numa delas que me tiraram a visão e, sem ofício, encontrei amparo nesta viola.
Levantei-me e enfiei a cabeça na pequena janela quadrada. Lá embaixo, o patíbulo para nossa execução estava sendo preparado.
— Fico feliz que, dentre todos que já conheci nesta vida — eu disse —, seja ao teu lado que eu tenha de deixá-la. Tu foste, um dia, o que eu sou; e, ao mesmo tempo, és o que eu poderia me tornar. Somos da mesma têmpera; somos do mesmo mundo.
O cego libertou outra gargalhada.
— E tem certeza, capitão, de que, um dia, um outro contador de história se lembrará de nós, e ambos ainda estaremos vivos, rindo juntos nesta mesma cela. Será mentira, mas será bem contada.


Escrito para a Oficina da E-TL

sábado, outubro 06, 2007

O Trouxa


Minhas mãos tremiam ao digitar a senha no caixa eletrônico. Nunca antes a impressão dum extrato bancário pareceu ter demorado tanto (talvez apenas daquela vez em que estourei o limite do cheque especial) e, quando a máquina cuspiu o papelzinho, a minha reação foi um resmungo engasgado:
— Aquela vaca me roubou!

A vaca havia se apresentado como Elisa Sampaio. Conhecemo-nos numa sala de bate-papo na Internet, ela morava no interior, eu na capital. Elisa tinha uma conversa interessante, versava sobre quase tudo com fluência e logo deixei de dialogar com outras pretendentes, destinando exclusividade a Elisa.
Trocamos fotos por e-mail, ela não era linda, mas, como eu já estava apaixonado, fiquei radiante. Mal podia agüentar minhas férias chegarem para eu embarcar num ônibus e conhecer pessoalmente Elisa.
Porém, antes disto, recebi a maravilhosa notícia. Ela havia pedido as contas no serviço e estava se mudando para cá, seria a oportunidade para nos encontrarmos.
Na TV, notícias de crimes cometidos pela Internet: seqüestros, estupros, assassinatos. Temerosa, Elisa sugeriu para nosso primeiro encontro um local público, para segurança de ambos.
Estava ocorrendo uma feira na cidade, com parque de diversões e tudo mais. Comemos maçã do amor, andamos na roda-gigante e demos nosso primeiro beijo no trem-fantasma, tudo na maior melação amorosa. Afinal, estávamos apaixonados!
Elisa foi dura na queda, sucessivas vezes insistiu que não fazia sexo no primeiro encontro, mas, no segundo, cedeu. Quem resiste a um jantar romântico, a dois, luz de velas e um bom vinho?
Porém, nos dias seguintes, Elisa se comportou de maneira estranha. Perguntei-lhe o porquê:
— As coisas não andam fáceis, Robson, vim para cá, mas não estou conseguindo emprego. Na pensãozinha onde estou, a semana vence amanhã, e não tenho dinheiro nem para onde ir.
Na minha mente, a resposta era única e óbvia.
— Venha para minha casa!
Na mesma noite, Elisa se mudou para meu apartamento, trazendo mala e cuia.
Eu não cabia em mim de tamanha felicidade. Após tantos anos procurando uma companheira, uma mulher que sabia cozinhar e insaciável na cama era muito mais do que poderia imaginar.
Como um casalzinho novo, todo dia eu voltava com um presente para Elisa, ou um buquê de flores, beijávamo-nos ardentemente e acabávamos sob os lençóis.
Meu salário era razoável, mas, ao perceber que Elisa não estava procurando emprego, senti de deveria tomar uma providência.
— Amor, abriu uma vaga para secretária na minha empresa. Você não quer mandar um currículo pra lá?
— Ah, Robie, a nossa vida não está boa deste jeito? Tenho medo de que, se eu começar a trabalhar, nosso relacionamento mude. Sabe como é: vou chegar cansada, sem pique. Sempre sonhei em ser dona-de-casa. Poderíamos até nos casar...
Esta evolução súbita, de sexo a casamento, me assustou.
— É melhor não nos apressarmos — titubeei — Você poderia arranjar um emprego, talvez alugar um lugar aqui perto. Poderíamos aproveitar nosso namoro, casamento é um passo muito importante.
Porém, Elisa chorou, soluçando, reclamando que eu não a amava, o que estava bem longe de ser verdade. Reconciliamo-nos, e eu prometi que pensaria na proposta dela.
Creio que foi nesta semana que percebi algo estranho: dinheiro miúdo estava desaparecendo da minha carteira, às vezes eram três reais, noutras, cinco, mas, diariamente, havia menos dinheiro do que no dia anterior.
— Você está precisando de algo? — perguntei a Elisa — Se você não se incomodar, eu posso até lhe dar uma mesada. Não sou rico, mas uns cem ou duzentos reais por mês posso separar para você.
— Nunca pensei em encontrar um homem tão maravilhoso! — Elisa me abraçava e beijava, mas, mesmo assim, os trocados continuaram sumindo.
Depois, foram pequenos itens de casa: alguns talheres de prata, herança da minha vó; um candelabro de cristal, que Elisa alegou ter quebrado durante a faxina e, por fim, até meu relógio de pulso, que sempre deixava na cabeceira da cama antes de dormir, que valia umas quinhentas pratas.
Quando perguntei a Elisa se ela havia reparado nestes estranhos desaparecimentos, ela respondeu:
— Você é muito distraído, Robie. Está sempre perdendo tudo!
Só que antes de conhecê-la nada disto ocorria, e este fato me incomodava.

— Não passou pela sua cabeça que ela possa ser uma vigarista, uma contista? — um amigo me advertiu — Já ouvi histórias semelhantes. Daqui a pouco, você volta pra casa e esta mulher limpou tudo.
Que boca maldita! Foi nesta mesma tarde que descobri que limparam minha conta no banco, e, ao chegar em casa, só o vazio, nem um único móvel, nem uma única peça de roupa havia restado. A desgraçada me deixou com a roupa do corpo e um apartamento onde até meu choro ecoava pelos cômodos nus.

Elisa Sampaio não deixou rastros, na polícia, informaram-me que mesmo o nome dela deveria ser falso, que caí num bem articulado conto-do-vigário e que não deveria me penitenciar por causa disto, muita gente bem mais inteligente do que eu (esta sentença feriu meus brios) também já havia dado uma de pato.

Mas decidi virar o jogo.
Voltei à Internet, mas quem ostentava agora um nome falso era eu. Vaguei pelas salas de bate-papo, conversando com dezenas de mulheres, tentando reencontrar Elisa. Suspeitei de duas, depois descobri que não eram ela. E meu peito doía de desespero, sentindo-me o mais trouxa dos trouxas.
Não a descobri na rede e acabei desistindo. Desistindo, mas não esquecendo, principalmente quando, ao chegar em casa à noite, eu era obrigado a me recolher ao meu quarto, onde havia apenas um colchonete. Porém, consolava-me a mim mesmo, com aquele mesmo argumento das velhas beatas:
— “Se não há justiça dos homens, haverá pelo menos de Deus”.
O que me fazia sentir um tolo, ao recorrer a um Deus que há anos não mais acreditava.

No entanto, numa manhã de sábado, ao ir à compra de roupas novas, de relance, vi uma mulher, cheia de jóias, vestido justíssimo, desfilando para dentro dum carro com motorista.
A voz ficou presa, eu queria berrar, xingá-la com todos os palavrões que eu conhecia, mas só arrotei um:
— Elisa?
Alucinado, corri até meu automóvel, estacionado do outro lado da rua, e segui aquele onde estava Elisa.
Chegaram a um bairro de alta classe e cruzaram os portões duma mansão. Anotei o endereço e prometi a mim mesmo que desmascaria esta vadia.

O que se sucedeu nos dias seguintes é confuso na minha mente: fiquei de tocaia diante do casarão, segui-a até um shopping center, abordei-a quando ela foi ao toalete, pronto para me vingar dela, porém, a antiga flama dum amor pretérito se reacendeu, quando Elisa me suplicou para acreditar nela, alegando que tudo que ela fez contra mim foi sob coação, que ela ainda me amava, que nunca havia me esquecido. Transamos no banheiro no shopping, eu mais feliz do que nunca por tê-la reencontrado e descobrir que meu amor era correspondido.
O verdadeiro canalha era o dono daquela mansão, pelo que Elisa me contou. Pablo era um extorsionário profissional. Havia praticado golpes ao redor do mundo, desde Santa Fé de Bogotá, donde ele provinha, passando por Mônaco até chegar ao Brasil, reconhecidamente a pátria da impunidade.
Elisa me pediu ajuda para se livrar deste pústula, que a mantinha sob vigilância constante, utilizando-a para realizar seus trambiques. Juntos, maquinamos um plano infalível, roubaríamos a fortuna dele e fugiríamos do país. Mais simples, impossível.
Num quarto de hotel, poucas horas antes de perpetrarmos nosso projeto, fizemos sexo selvagem, Elisa me pedindo para estapear-lhe a cara, arranhando-me a costas, como se fôssemos animais.
A minha comparsa facilitou-me o acesso à mansão e, à noite, entrei na casa adormecida. Elisa me encontrou ao rés-do-chão e, aos sussurros, me instruiu:
— Fique aqui embaixo vigiando, que eu vou subir para abrir o cofre. Se alguém aparecer, você sobe e me avisa.
E, para minha surpresa, me entregou uma pistola, à qual eu não sabia nem como empunhar.
Elisa subiu ao primeiro andar. Eu estava tão ansioso que andava dum lado ao outro, consultando o relógio a cada cinco segundos. Elisa estava demorando uma eternidade para voltar.
Haveria acontecido algo?
Mas eu me continha.
Porém, após meia hora, achei mais prudente verificar se tudo estava bem. Vaguei pelos cômodos do primeiro andar, mas não a encontrei. Passei pelo escritório de Pablo, todo revirado, cofre aberto, mas lá Elisa também não estava. Por fim, cheguei a um quarto, porta entreaberta.
Empurrei-a um pouco e adentrei o aposento na penumbra. Alguém estava deitado na cama, supus ser Pablo, e o medo me paralisou. Temia que ele despertasse e eu tivesse de usar a arma; temia que ele acordasse, gritasse, e uma merda acontecesse. No entanto, algo estava esquisito. Assim que meus olhos se acostumaram com a escuridão, percebi que ele estava deitado de bruços, mãos atadas nas costas, um capuz na cabeça. Aterrorizado, afastei-me e acendi a luz. Foi quando descobri que Pablo estava morto, havia levado um tiro nos miolos.
Sem saber o que fazer, deixei a pistola cair e corri pelos cômodos, procurando Elisa novamente, chamando-a em sussurros. Eu tremia, minhas pernas estavam fracas, entrei num lavabo e comecei a chorar. Ouvi som de sirenes, a polícia havia sido chamada.

Fui preso, interrogado, queriam saber onde eu havia escondido o dinheiro de Pablo, o honesto e dedicado dono duma rede de panificadoras. Recusei-me a responder as perguntas, enquanto aguardava meu advogado.
Mas minha maior surpresa foi quando me puseram numa saleta envidraçada. Policiais apareceram, escoltando uma mulher. Era Elisa.
Os policiais perguntaram a ela:
— Foi este homem que invadiu sua casa e a violentou?
Soluçando, Elisa respondeu:
— Sim, sim, foi ele! — e desviou o olhar de mim.
Descontrolei-me e amaldiçoei até a quinta geração da desgraçada, mas os policiais me contiveram e ainda tive de ouvir do delegado:
— Se acalme aí, mocinha, pois, na penitenciária eles vão se fartar com estupradores como você!

Fui julgado por júri popular, condenado a quarenta anos de prisão por homicídio doloso, estupro, lesão corporal, roubo, e outras acusações menores. Fui enviado a uma penitenciária estadual, feito de mulherzinha, contraí HIV e quase fui morto na última rebelião.
Na semana passada, no dia da visita, chamaram-me, dizendo que alguém havia vindo me ver. Evento extraordinário, já que todos meus amigos e parentes desapareceram após a condenação.
Cheguei ao pátio e vi uma mulher sentada, absorta em pensamentos. Foi difícil reconhecê-la, após tantos meses, ela havia tingido e cortados os cabelos. Elisa me olhou e sorriu. Primeiro, pensei em saltar sobre ela e matá-la com o canivete que escondia nas calças. Seria a vingança que tanto almejei. Entretanto, não tive coragem, sentei-me ao lado dela e perguntei o que ela estava fazendo aqui.
— Pensei muito em você nestes últimos tempos — ela me disse.
Conversamos e eu a perdoei. Uma vez por semana, ela vem me visitar.
Por incrível que pareça, Elisa (se este for realmente o nome dela) é, e sempre será, meu grande amor.


Escrito para a Oficina da E-TL

quinta-feira, setembro 20, 2007

Seda Branca

(Imagem do Imperador Qinzong, Dinastia Song, fonte: http://upload.wikimedia.org/wikipedia/en/7/74/Qinzong.jpg)

Exausto, larguei armas e chapéu e meti a cara no rio. Caminhava há dias, após haver sido destacado para as fronteiras do Norte. O Imperador Qinzong temia os revoltosos que se proliferavam na região e conclamara guerreiros de todos os rincões do mundo.
Ouvi som de flauta e me pus em alerta, espalhava-se o rumor de que bandos de ladrões e assassinos se escondiam na floresta, mas avistei um senhor, cabelos agrisalhados, descendo em direção ao rio.
Saudei-o e recebi a resposta de que vinha em paz. O viajante se sentou ao meu lado e acendeu uma fogueira. Anoitecia e compartilhamos um jantar improvisado.
Decorridas horas de silêncio, o senhor falou:
Estou cansado, vivi muitas dificuldades nestes últimos meses e não encontro pouso em lugar algum. Já ouviu algo a respeito do “Homem de Branco”?
Neguei.
O nome de nascimento dele era Bai Hong-nu, filho duma família humilde, educado para ser soldado, assim como vejo que você é. Lutou em muitas guerras e caiu nas graças do Imperador. Foi promovido a general, senhor de muitos guerreiros, e venceu todas as batalhas na quais pelejou. Porém, numa noite, quando o Imperador adentrou o alojamento da concubina favorita, encontrou Hong-nu adormecido nos braços dela.
Enfurecido, o Imperador conclamou a guarda, com ordens para executar Hong-nu, porém, este, com experiência de anos a serviço do Imperador, conhecia bem o castelo e suas incontáveis passagens secretas; neste labirinto, Hong-nu se embrenhou e escapou da sanha inclemente do Imperador. Fugiu para o Norte e apagou seu passado. Vestia-se apenas de branco, na ausência dum nome, nos povoados onde passava, alcunharam-no Wán, o homem da seda branca.
Wán olvidou seu passado de guerra e, de vila em vila, evitando as grandes cidades, pregava uma inusitada mensagem de paz e perdão. Arrebanhou discípulos, que ouviam fervorosamente seus ensinamentos. E eram tantos, que fundaram um povoado.
Pessoas vinham de todas as partes para escutarem as lições de Wán e sua reputação alcançou o grande Céu. Guerreiros baixavam armas e se uniam aos acólitos de Wán, esposas abandonavam seus lares para acompanharem o sábio.
Porém, sutil e imperceptivelmente, o conteúdo da doutrina de Wán começou a mudar. Da paz, abnegação e perdão incondicionais, Wán instruía que para tudo neste mundo há exceção, de que não há claridade sem sombras, e que o mal e a guerra eram contrapartes do bem e da paz. Aos seus discípulos, propagava que o tempo de paz estava por terminar e que, em breve, quem o amava teria de brandir armas contra um poderoso oponente.
Assim, no início da primavera, Wán e um exército de cem mil combatentes se dirigiram ao Sul, com a missão de matar e destronar o Imperador Qinzong. Wán era um dissimulado, durante todo este período, ele apenas buscava uma oportunidade para se vingar do Imperador que o degradou e lhe retirou a mulher amada, à qual, diziam, Qinzong havia mandado decapitar.
Inevitavelmente, o Imperador designou tropas para deter o exército de Wán. Durante três meses, Wán desbaratou o contingente imperial, porém, a escassez de suprimentos, o cansaço e as chuvas incessantes do verão foram responsáveis pelos primeiros revezes. Recuaram para as montanhas.
Vendo a grande oportunidade para derrotar o oponente, o Imperador enviou um grande exército, que cercou Wán e seus guerreiros. Emboscados nas montanhas, o fim era evidente.
O exército de Wán tinha duas escolhas, lutar até a morte e os que fossem capturados sofreriam torturas e ultrajes inimagináveis, ou desistirem e privarem-se de suas próprias vidas.
Wán deliberou com seus capitães e concluíram que, por ser a morte inadiável, todos se matariam ao nascer do sol.
Quando os tambores do Imperador soaram e as tropas iniciaram a marcha rumo ao bastião de Wán, trinta mil sobreviventes, punhais mirados para o coração, sangraram até a morte.
As tropas imperiais não encontraram sobrevivente algum.
E você estava entre os soldados do imperador, para saber tudo isto? perguntei.
O senhor acendeu um cigarro e, com um sorriso iluminado pela claridade da fogueira, respondeu.
Não. Estive com o punhal afiado no peito, mas, no último instante, refleti: Somos muitos, não conseguiremos escapar, mas um só homem facilmente se envereda nas montanhas e some.
Sou Bai Hong-nu, conhecido como Wán, o homem da seda branca. O punhal não entrou no meu coração. Vivo e congrego um novo exército. E você será meu primeiro guerreiro.
Com que forças eu poderia resistir àquele homem, que trazia no olhar a energia do Céu, da Terra, do Fogo e dos Ventos?
A minha espada é sua, Wán. Respondi. Até a morte.

Escrito para a Oficina da E-TL

quinta-feira, setembro 13, 2007

O Hóspede


Rubens e eu éramos amigos de infância. Crescemos no mesmo condomínio, nossas mães eram amigas, estudamos juntos até a oitava série e, incontáveis vezes, dormimos um na casa do outro.
“Unha e carne”, como dizem.
Na adolescência, afastamo-nos. Rubens se juntou a um bando de roqueiros, com a utópica aspiração de se tornar um guitarrista famoso; eu, não mais pé no chão do que ele, porém, mais apático e limitado em meus horizontes, queria seguir a carreira da Informática.
Já não nos falávamos com tanta freqüência e, da nossa amizade inseparável, restou apenas um tímido cumprimento quando nos cruzávamos na escada do prédio, ele com roupas pretas, cabelos compridos e carregando a case da guitarra, eu com livros e óculos fundo-de-garrafa.
Completei um curso técnico e logo passei num concurso público. Conheci Talita e nos casamos no ano seguinte. Não tivemos filhos porque nossos projetos eram vários e sempre pensamos que, para dar este passo, estabilidade era fundamental.
Alguns anos atrás, ocorreu uma mudança na diretoria do departamento onde trabalho e houve uma série de remanejamentos. Meu antigo chefe foi transferido para uma divisão no Litoral e, assim que assumiu um cargo de chefia lá, ligou-me, ciente da minha competência, inquirindo-me se eu desejava mudar-me para a praia, para compor a equipe técnica da divisão.
Eu e Talita deliberamos, ela um tanto apreensiva, pois deixaria pai e mãe na cidade, eu, entusiasmado, pois era um sonho antigo morar de frente para o mar, e concluímos que seria uma excelente oportunidade.
Alugamos um apartamentinho na Avenida Atlântica, de frente para o mar, como eu queria, dois quartos e uma cozinha conjugada; pequeno, mas confortável. Era o preço a se pagar para abrir as cortinas e dar de cara com aquela imensidão azul e gaivotas planando.
Éramos felizes. Eu passava o dia na repartição e Talita conseguiu aulas numa pré-escola. À tarde, caminhávamos no calçadão, de mãos dadas, como quando namorávamos pelas praças da cidade.
No verão, a praia enchia. Centenas, talvez milhares de banhistas de fim-de-semana ou temporada.
Nestas épocas, nosso apartamento virava hospedaria, vinha mãe, pai, tia, avó, sogro, sogra, irmão, primos. Raras vezes, nesta época, eu e Talita tínhamos a apartamento apenas para nós dois. Colchões eram espalhados pela sala e, antecipando este tipo de hóspedes, no segundo quarto, colocamos um beliche.
Num destes verões, ao comprar um coco, esbarrei-me numa figura conhecida. Ele logo me reconheceu, abrançado-me e perguntando-me como eu estava e o que fazia da vida, mas não refrescou minha memória.
— Sou eu, piá, Rubens!
Então, lembrei-me. Sem os longos cabelos, a guitarra e vestes de roqueiro, que eram minha última imagem dele, seria quase impossível para eu saber quem ele era.
Sentamo-nos num banco e descobri que, da brilhante carreira de músico, somente restava uma lembrança. Rubens havia feito escolhas ruins, desistiu da escola antes de concluir o secundário, engravidou uma menina, e agora amargava um emprego que o desgostava. Nas férias do filho, ele e a esposa aproveitavam para desceram para a praia e, por uns três ou quatro dias, com a grana contada, eles se distraíam.
Apresentei-o a Talita, que pareceu contente em conhecer um amigo de infância meu. E ele, por sua vez, ficou satisfeito em saber que eu havia seguido um caminho estável e que tinha uma vida feliz.
Trocamos telefone e combinamos de nos encontrar, da próxima vez que ele descesse ao litoral.

Alguns meses depois, porém, já recebi uma ligação de Rubens.
— Marcos, preciso dum favorzão seu. Sinta-se à vontade para recusar, mas, se houver a possibilidade, eu queria saber se posso ficar alguns dias na sua casa.
Estávamos fora da temporada de verão e havia um acordo implícito entre Talita e eu de que não receberíamos hóspedes fora deste período.
— Irei sozinho — Rubens acrescentou.
“Ele é um amigo de infância”, refleti, “talvez seja uma boa oportunidade para reatarmos uma bela amizade”. Concordei. Na manhã seguinte, fui buscar Rubens na rodoviária.
Ele se instalou no quarto dos beliches e eu o instruí a se sentir em casa, indiquei-lhe onde ficavam os pratos e talheres e que ele poderia cozinhar, se desejasse:
— Quanto tempo pretende ficar? — indaguei.
— No máximo uma semana — a resposta de Rubens me bastou, já que eu não desejava que a presença dele interferisse em nossa rotina.

Os três primeiros dias transcorreram na maior naturalidade. Rubens continuava divertido, à tarde, descíamos para o barzinho na esquina de casa e tomávamos um chope. Até parecia que todos os anos de afastamento não haviam apagado nosso vínculo anterior.
Porém, Talita estava incomodada.
— Por quê? O que ele fez para você? — questionei.
— Eu não sei explicar, Marcos... Ele me olha dum jeito estranho. Não estou confortável com a presença dele aqui.
— É apenas por uma semana, no máximo — consolei-a, e recebi um forçoso sorriso como resposta.

A semana acabou, mas Rubens não dava sinal de que se preparava para partir.
— Apenas mais um ou dois dias, Marcos, depois volto pra casa — aquiesci, mas, no íntimo, dizia “não, já está na hora de ir”.
Sai para o trabalho e, no final do dia, ao chegar em casa, Talita me chamou para conversarmos no quarto.
— Eu quero que seu amigo vá embora, agora! — ela queria gritar, no entanto, sussurrava.
— O que aconteceu?
— Ele é um depravado! Eu tinha certeza de que havia algo de errado nele! Hoje, eu estava lavando louça, quando ele chegou por trás, segurou-me pela cintura e se encostou em mim. Ele estava de pinto duro, Marcos!
— E o que você fez? — eu estava indignado.
— Empurrei-o para trás e perguntei o que ele estava fazendo. Com a maior cara-de-pau, ele disse que havia vindo pegar um prato no armário. É um tarado!
Minhas mãos tremiam, eu estava dominado por um inusitado ciúme, mas também pela descrença, não era possível que meu amigo de infância estivesse tentando seduzir minha mulher.
Fui ao quarto de Rubens, três batidas na porta e entrei. Controlando-me, disse ao hóspede:
— Rubens, eu gostaria que você pegasse suas coisas e fosse embora. Fiquei muito feliz com sua companhia nestes dias, mas já estamos começando a sentir falta da nossa privacidade.
— Só mais um dia, amigão... — ele suplicou.
— Não — eu apanhei a mochila de Rubens — você precisa ir embora hoje.
Este, que estava deitado na cama inferior do beliche se levantou, encarando-me ameaçadoramente:
— Ponha minha mochila no chão, Marcos.
— Eu o acompanho até a porta — virei-me para deixar o quarto, mas fui agarrado por Rubens, que me puxou para dentro do quarto e me lançou contra a parede.
— Eu disse para largar minha mochila!
Obedeci.
— Só mais um dia! — ele repetiu, a centímetros do meu rosto.
Acuado, concordei. Como um covarde, retornei ao quarto. Talita me fitava, cheia de esperança.
— Amanhã, ele vai embora — resmunguei, e percebi que eu a havia decepcionado.
Ela correu até a cozinha e retornou ao quarto, com uma faca na mão. Ela a colocou dentro da gaveta do criado-mudo.
— Eu não confio neste safado! Esta faca vai ficar bem do meu lado.
Talita se deitou e eu fui para a sala, assistir a um pouco de TV. Rubens saiu e se sentou ao meu lado.
— Desculpe-me por meu comportamento, Marcos. Tenho estado muito alterado ultimamente. Eu não lhe disse antes porque tive vergonha, mas eu briguei com minha esposa e sai de casa, sou orgulhoso demais pra voltar com o rabo no meio das pernas, e ainda desconfio de que o menino não seja meu filho. Aquela mulher é uma vagabunda, sempre me enganou!
— Eu não sabia disto, sinto muito — eu disse, com genuína compaixão. Assim como Rubens, eu gostaria de encontrar amparo em meus amigos se necessitasse e, talvez movido por semelhante pensamento, ele havia vindo me procurar.
— Não importa. Amanhã à tarde, eu vou embora. Preciso tocar a vida adiante, não é?

Aquela conversa me aliviou, pois a reação agressiva de Rubens havia me deixado apreensivo. Mas havia uma razão e me pus no lugar dele.
Cheguei no trabalho e, como o habitual, iniciei a leitura do jornal. Ao chegar na seção policial, deparei-me com a seguinte manchete:

Marido mata mulher e filho, depois foge

E, sob este título, a foto da mulher, com um menino pequeno na cama, ensangüentados, acompanhada da legenda “Os corpos estavam enterrados no quintal da casa”, e, ao lado, numa foto menor, o retrato do assassino. Imediatamente reconheci Rubens. Naquele instante, era como se o tempo havia parado, meus olhos fixos na foto do assassino, as mãos suadas segurando o jornal aberto, a respiração suspensa, a mente divagando, lembrando-me do temor que Talita tinha deste nosso hóspede.
Ela havia acordado indisposta naquela manhã, ligou para a escola e pediu uma dispensa por aquele dia, ou seja, Talita estava sozinha em casa com um assassino procurado. Irracionalmente, sem avisar ninguém aonde eu ia, levantei-me e desci os sete andares até a garagem do prédio. Dirigi em alta velocidade, quase atingindo uma Kombi a uns dois quarteirões de casa.
O elevador parecia demorar uma eternidade para chegar ao térreo e, dentro dele, outro milhar de anos para chegar ao meu piso. Fui direto para o quarto, a porta estava entreaberta, pude ver Talita deitada, de bruços, e meu coração se encolheu no peito, tomado por uma dor que nunca, mas nunca mesmo, eu havia sentido antes; meus olhos se encheram d’água, as pernas perderam sustentação. Prostrei-me, afogado pelo desespero. Eu precisava urrar, liberar toda a dor que me consumia, mas não havia voz, não havia gestos, que pudessem expressar o que eu sentia.
Uma voz atrás de mim:
— Desculpe-me, Marcos, eu não queria machucá-la...
Rubens tinha uma faca ensangüentada na mão, a mesma que Talita havia guardado no criado-mudo.
— Eu estava partindo, e fui avisar sua esposa disto, bati na porta, mas ela não respondeu. Girei a maçaneta, e ela estava deitada, só de calcinha... Eu não agüentei, sou homem, sabe como é. Me aproximei e abaixei meu zíper, quando tentei tirar a calcinha dela, sua mulher acordou e começou a gritar. Eu disse para ela ficar quieta, porra! Tentei tapar-lhe a boca, mas ele me mordia, me arranhava, enfiou a mão na gaveta e tirou esta faca; queria me matar! Você teria feito o mesmo que eu, sei que teria. Era eu, ou ela...
Dizem que, diante de situações extremas, o ser humano possui duas reações, a primeira delas é a de fugir do perigo, a segunda, é enfrentá-lo. Existem relatos de mães africanas que abriram bocas de leões para salvarem de suas presas os filhos. Não sou um homem corajoso, nunca fui; apanhava dos colegas no colégio e, certa vez, com quinze anos, mijei nas calças assistindo um filme de terror. Não sou um homem corajoso, mas, naquela circunstância, acuado como estava, minha mulher embebida no próprio sangue a poucos metros de mim, uma força brutal me invadiu. Ergui-me e todo meu corpo era ódio. Precipitei-me contra Rubens, ambas as mãos em sua garganta e mergulhamos contra a parede. Rubens emitia grunhidos, sufocando, em reação, deslizou a faca por minha perna, mas não senti dor, apenas ódio. Somente após matá-lo, meu espírito sossegaria.
A faca caiu dos braços lânguidos de Rubens, e eu já o considerava derrotado. Mas ele, também buscando um resquício de vigor, unhou-me a cara e, subjugando-me (era muito maior do que eu), se livrou do meu estrangulamento. Derrubou-me e me esmurrou sucessivas vezes, até me levar à inconsciência.

A polícia me encontrou desmaiado no chão da sala. Um vizinho havia lido a reportagem no jornal, reconheceu meu hóspede e ligou para a polícia. Talita foi levada ao IML, havia sido esfaqueada inúmeras vezes e, posteriormente, violentada. Rubens estava foragido.
Vendi o apartamento na praia e voltei para a cidade, morar com meus pais. Tenho medo de sair na rua, de esbarrar em Rubens. A memória de Talita nunca me deixa. Minha janela dá para um espigão, tão cinza e sujo quanto meu interior.
Por muito tempo, fiz as escolhas certas na vida, mas bastou uma única escolha errada para foder tudo.

sexta-feira, setembro 07, 2007

O Dilema do Morto-Vivo


— Sinto muito, senhor Jorge, mas não podemos liberar o seu auxílio-doença. Consta em nossos bancos de dados que o senhor está morto — a funcionária do INSS fitava a tela do computador.
— Mas, minha filha, eu ‘tô vivo! Bem aqui na tua frente!
— Não há nada que eu possa fazer, seu Jorge.
Desorientado, Jorge deixou o posto do INSS e foi para casa.

— Maria, você não sabe da última — Jorge resmungou.
— Fala, meu véio... — Maria lavava roupa no tanque.
— Não vou recebeu o dinheiro da licença-médica. ‘Tão falando que estou morto.
— Como assim, Jorge?
— Não sei, só disseram que eu havia morrido.
— Amanhã, você volta lá e confirma esta história — e foi o que Jorge fez, na manhã seguinte, retornou ao INSS, porém, obteve a mesma resposta.

— Estranho, não? — Maria coçava a cabeça.
No entanto, Jorge não respondeu, absorto em pensamentos. Passou o dia calado, não quis assistir à novela, foi dormir cedo. Mas o sono não veio, Jorge rolava na cama, atormentando com a idéia de que eles estivessem certo.
— E se eu estiver morto, Maria? — ele perguntou.
— Deixa disto, Jorge, você ‘tá vivo! — Maria retrucou, dormitando.

— Você tem que ir a um cartório, Jorge. Lá eles podem dizer se você está morto ou vivo. Se estiver morto, eles vão ter um atestado de óbito, com seu nome e data de falecimento — Luizão do boteco assegurou.
Jorge seguiu o conselho. Foi ao cartório e perguntou ao notário se havia um documento atestando sua morte.
— Que disparate, senhor! Se você está vivo, como espera que eu encontre algo provando seu falecimento?
— É o que dizem por aí! Só quero confirmar.
O tabelião se conformou, procurou e encontro a prova que Jorge ansiava.
— Em que dia morri? — Jorge indagou, curioso.
— 15 de setembro de 1980.
— Quando eu tinha vinte anos — Jorge concluiu.

Em 15 de setembro de 1980, Jorge voltava de viagem com seu pai, sua mãe e a irmã caçula. O pai, caminhoneiro, os havia levado a Aparecida do Norte, cumprir uma promessa. Na contramão, um motorista de ônibus bêbado perdeu a direção e atingiu o caminhão onde Jorge e sua família estavam.
Todos morreram.

Jorge cuidava os túmulos onde ele e seus parentes estavam sepultados. Inequivocadamente, estava escrito “Jorge de Lima”, data de nascimento e morte. Não havia dúvidas.
Algo macabro havia ocorrido para que Jorge estivesse andando por aí, houvesse se casado com Maria, tido filhos, arranjado emprego. Se ele estivesse morto, como tudo indicava, qual explicação haveria?
Coisa do diabo? Ou um milagre de Jesus?

— Maria, tomei uma decisão... — Jorge estava triste — Não gosto nada desta situação. Um defunto não pode ficar perambulando pelas ruas. Vocês vão ter que me enterrar.
Contrataram os serviços duma funerária e organizaram o velório. Jorge se deitou no caixão e, quando chegava algum dos seus amigos para ver o finado, ele lhes dava uma piscadela.
O padre fez um sermão, mas os rapazes não queriam fechar o esquife.
— Vai pessoal, estou morto há quase trinta anos, só falta completar o serviço!
Levaram o caixão para o cemitério, Maria chorava, os coveiros cobriram de terra o ataúde. Um dia muito triste pra todos.

— Dona Maria, não podemos liberar a pensão do seu marido — disse a funcionária do INSS. Nossos bancos de dados indicam que seu marido está vivo.
— Não, moça, ele ‘tá morto. Morreu trinta anos atrás.
— Há um Jorge de Lima falecido aqui, mas é outra pessoa. Sinto muito, mas não há nada que eu possa fazer.


Escrito para a Oficina da E-TL

quarta-feira, setembro 05, 2007

Cotó Descobre a Liberdade

Num canto esquecido no quintal da minha vó, atrás das bananeiras, agitava-se Cotó. Amarrado com uma corda de varal no chiqueiro, ele latia desesperado, suplicando atenção, uma mão para afagá-lo.
Mas nós não chegávamos perto, e nem era por causa das sarnas e carrapatos, ou da baba constante a escorrer, ou das demais perebas que não víamos, era apenas para não sujar a roupa limpinha, que Cotó insistia em macular com suas patas avermelhadas de terra.
Eu até gostaria de brincar com ele, desatar-lhe o nó que feria sua garganta e vê-lo correndo livre pelo quintal, latindo de felicidade, não a mendigar carinho, mas vovó não deixava. Nossa obrigação era apenas jogar a vasilha com angu diante de Cotó e voltar pra casa.
À noite, Cotó chorava. Eu não podia vê-lo pela janela, mas escutá-lo era uma dor no coração. Revoltei-me, deixei a casa de pijamas, no escuro, e fui até o cativeiro de Cotó, ousei me aproximar e recebi patadas na altura do peito e lambidas na cara, acarinhei-lhe o pescoço e o desprendi da amarra. Cotó ficou como que paralisado, nunca havia sido livre antes, não entendia o significado disto; a ausência de laço o amedrontava.
— Vai, Cotó, vai embora!
Mas o burro do cachorro apenas me olhava, pedindo carinho.
Foi quando tive a brilhante idéia, apanhei um pedaço de pau e mostrei a Cotó:
— Pega, Cotó! — e arremessei o pau, o mais longe que pude. Instintivamente, Cotó se precipitou atrás do brinquedo. Segundos depois, retornava, objeto na boca, toco de rabo abanando.
— Vai, Cotó, pega! — e, com mais força, lancei a madeira, que desapareceu na escuridão. Esperei alguns minutos, mas Cotó não voltava. Finalmente, ele havia sentido o gosto da liberdade e fugira pelo mundo afora, descobrindo coisas que nunca havia imaginado.
Na manhã seguinte, ouvi minha vó conversando com alguém na cozinha:
— Era um cachorro desgramado mesmo!
Foi quando descobri que Cotó, na noite anterior, ao encalçar o pau, havia corrido para a rua e acabou atropelado por um Fusca.
De libertador, passei assassino. Daquele dia em diante, comecei a entender Robespierres, Napoleões, Che Guevaras e Cristos; o fardo da liberdade é grande.

sexta-feira, agosto 10, 2007

O Cãozinho


O filhotinho veio dentro duma caixa, as crianças pulavam de alegria.
— Você comprou, mãe! Obrigado!
Mas Susana deixou bem claro aos filhos:
— São vocês que vão cuidar dele.
Batizaram o cãozinho de Lúcio, um vira-lata preto. Lúcio era carinhoso, lambia as orelhas dos meninos, corria trôpego pela sala.
Crescia, e foi aí que começaram os problemas. O temperamento de Lúcio mudava, já não era mais tão carinhoso, latia o dia inteiro e rosnava para as visitas. Um dia, mordeu a mão de Susana quando ela tentava tirar um osso de galinha da boca dele.
As crianças o defendiam:
— É só um cachorro, mãe.
Porém, quando elas saíam para a escola, Lúcio se transformava; seguia Susana pela casa, intimidando-a; se ela lhe desse uma ordem, ele desobedecia; se ela queria assistir TV, ele se deitava no sofá (havia crescido bastante) e mostrava os dentes; se ela tentava enxotá-lo para o quintal, ele avançava contra ela e, se a agarrasse em suas presas, o estrago seria grande.
— Temos de dar o Lúcio — ela insistia, mas, sob apelos desesperados das crianças, Susana acabava mudando de idéia, mesmo sabendo que suas tardes seriam um inferno, com Lúcio a seguindo e a ameaçando o tempo todo.

Susana temperava um bife para o jantar, Lúcio deu o bote e o arrancou de Susana, ferindo-a no pulso. Assustada, enquanto o cão devorava a posta, ela o trancou na cozinha e correu para o quarto. Refletia um modo para se livrar do cachorro, sem que as crianças sofressem com isto. Lúcio, confinado à cozinha, uivava.
Exausta e com medo, Susana se deitou, tentava cochilar. Os uivos cessaram, porém, ela ouvia outra espécie de ruídos, algo arranhava a porta do quarto. Lúcio havia escapado. As arranhadas se converteram em patadas, o animal queria entrar de qualquer maneira. Rosnava.
— Sai daqui! — Susana gritava, mas, ao invés de acalmar a fera, seus gritos apenas o estimulavam mais, seu medo o alimentava.
Inesperadamente, as investidas de Lúcio pararam; som nenhum se podia ouvir. Trêmula, crente de que Lúcio havia encontrado outra diversão, Susana entreabriu a porta, apenas para encontrar os olhos flamejantes da besta, dentes afiados à mostra. Ele se precipitou sobre ela, jogando-a no chão. Com as patas sobre o tórax de Susana, Lúcio a dominava, baba escorrendo sobre o rosto dela, presas a poucos centímetros de seus olhos, com fúria de quem estava disposto a trucidá-la.
Risos na sala de estar dissiparam a ira de Lúcio que correu, rabo abanando, para saudar as crianças que retornavam do colégio.

No dia seguinte, Susana preparou a comida de Lúcio, que se refestelou, sem nunca tirar os olhos enfurecidos da mulher, depois, ele se deitou no sofá. Durante horas, ficou lá, sob a vigilância de Susana, que aguardava o efeito do veneno de rato. No entanto, Lúcio continuava vivo, muito vivo.

— Veja, mamãe, tem uma coisa no pescoço do Lúcio! — um dos meninos havia encontrado uma marca, um símbolo, gravado na garganta do cachorro. Susana se aproximou e viu um pentagrama, invertido, como uma cicatriz.
— O que isto significa? — as crianças perguntaram.
Susana não sabia, mas ao vasculhar, na Biblioteca, um tratado de simbologia, ela descobriu que o pentagrama invertido havia sido adotado como o símbolo de Satanás.
Mais do que nunca, livrar-se de Lúcio se tornava crucial.

Religiosidade não era o forte de Susana, mas ela entrou numa igreja antes de voltar para casa. A igreja estava vazia; ela procurou pelo padre, mas não o encontrou. Porém, na sacristia, um crucifixo dourado chamou sua atenção; apesar do sacrilégio, Susana o retirou da parede e o guardou na bolsa.
Em casa, logo ao entrar, Susana se armou com o crucifixo. Deparou-se com Lúcio na cozinha e, quando o animal avistou o símbolo sagrado, começou a urrar, não como um cão, mas como um homem em agonia. Susana se aproximava dele, brandindo o artefato. Lúcio recuava para um canto, presas à mostra, olhar enfurecido.
— Afasta isto de mim, mulher! — uma voz rouca brotou de Lúcio.
A mão de Susana tremia, ela fraquejava, mas este confronto era necessário.
— Vai embora! — ela gaguejava.
— Não, não! Eu vou ficar — a voz rouca retrucou.
— Vai embora, demônio! — Susana berrava, quase encostando o crucifixo na testa de Lúcio.
A batalha esta perdida para a criatura, o cão se desvencilhou, estilhaçou uma vidraça e abandonou a casa de Susana.
As crianças ficaram tristes com a fuga de Lúcio, puseram cartazes de “Cão perdido” nos postes, mas não o encontraram.

Numa noite, Susana voltava da casa duma vizinha e teve a sensação de estar sendo vigiada. Olhou para trás e avistou uma sombra, esgueirando-se por entre os carros estacionados. Ela se apressou, mas, antes de cruzar o portão, viu um cão negro, olhos de fogo, rondando-a.
Por isto, apenas por garantia, o crucifixo roubado se tornou enfeite sobre a mesa de jantar. Deus certamente a perdoaria por este pecado.

quinta-feira, agosto 09, 2007

O Filho Morto

(fonte: http://paranormal.about.com/library/graphics/best_baby_lg.jpg)


Quando Luiz morreu, minha esposa ficou em choque por dias. Talvez eu não tenha sido tão afetado quanto ela pelo simples fato de que, quando algo como isto ocorre, alguém tem de manter o equilíbrio. Se todos desabam, que rumo resta a ser tomado? Ou talvez eu apenas não tenha assimilado a desgraça, fingindo que tudo continuava como antes.
À noite, enquanto Tatiana permanecia no quarto, sedada, eu me levantava e ia até o quarto de Luiz, ler histórias para ele dormir. Apesar da cama vazia, eu tinha a plena sensação de que ele estava ali, rindo das fábulas, as pálpebras pesadas, lutando contra o sono.
A culpa que Tatiana alimentava não era de todo infundada, Luiz estava com ela quando tudo ocorreu, cruzavam a rua, o sinal aberto para os carros, mas Tatiana jura que não havia perigo. Luiz deixou cair a chupeta, sua mãozinha se soltou da de Tatiana, e ele voltou para buscá-la.
Nenhum pai deveria passar pelo que passei, ir ao necrotério e ver o pequeno corpo do filho estraçalhado, o crânio esfacelado, rosto desfigurado, quase nenhum osso intacto, após ter sido atropelado por um ônibus. Nenhum!
E tantas memórias surgem naquele momento, entre aqueles segundos em que a porta se abre e, num relance, já se pode ver o corpo embalado num saco preto, e torcendo para que, quando o médico abrisse o zíper, fosse o filho de outro, fosse uma outra criança de três anos, dominado por este egoísmo que nos faz esquecermos de que as outras pessoas também sofrem. Mas não era o filho de outro, não era um Pedro, nem um João, era o meu Luiz, quase irreconhecível com o rosto ocultado pela crosta de sangue coagulado. E as memórias nos afogam, retornando ao primeiro instante, Tatiana me ligando no celular, choro de alegria na voz, mal articulando a simples frase “Você vai ser papai!”, o coração batendo mais forte e, contagiado pela alegria dela, choramos juntos pelo telefone, e como nos maravilhávamos ao vermos aqueles borrões do ultra-som que insistiam em dizer que era o coraçãozinho do bebê, o pintinho dele, ele chupando o dedo, e a angústia do parto, todo aquele sangue saindo da minha mulher, e aquela criatura cabeçuda, enrugada, chorando e tremendo, e as recordações das primeiras noites, nós embasbacados, postados ao lado do berço, admirando o ser que havíamos concebido, e o primeiro sorriso, as primeiras palavras, o engatinhar, os primeiros passos. Tudo encerrado ao se abrir o zíper, Luiz morto; não, não era o filho de outro.
Tatiana foi para a casa da mãe. Eu estava encarregado da triste tarefa de retirar os pertences de Luiz de casa, dá-los a alguém, jogá-los fora, qualquer coisa. Mas não consegui, ao abrir a porta, vi Luiz sentado na cama, pernas balançando, olhinhos brilhando:
— Vamos brincar, papai?
Passei a tarde brincando com Luiz, mesmo sabendo que o corpo dele estava na casa funerária, sendo preparado para o velório, mesmo sabendo que Tatiana estava devastada e que adoraria estar comigo agora, brincando com nosso fiho. Como eu poderia me livrar do quarto de Luiz, se ele ainda estava lá?
Tranquei o cômodo, todos os móveis dentro.
Minha esposa retornou para casa, ainda sob influência de calmantes. Porém, durante a sedação, ela resmungava:
— Afonso, você está ouvindo? Você está ouvindo o riso de Luiz?
E eu acarinhava os cabelos dela, aquiescendo:
— É claro que sim, Tati, ele está no quarto dele, brincando.
Pois o cadáver de Luiz já havia sido sepultado, mas ele ainda estava conosco. O que era uma grande alegria para nós, mais do que mero consolo.
Aos poucos, Tatiana se recuperou e, ao invés de ir sozinho contar histórias para Luiz, agora Tatiana me acompanhava. Ficávamos até de madrugada, mesmo após Luiz ter adormecido, sentados na cama dele, admirando-o, agradecidos pela segunda chance que Deus nos havia dado.

No entanto, numa tarde, ao chegar em casa do trabalho, Tatiana estava sentada na cozinha, pernas unidas, mãos entrelaçadas, olhar desesperado.
— O que aconteceu? — perguntei.
— Algo não está certo... — Tatiana hesitava — algo não está certo com Luiz.
— Como assim?
Sem muita confiança, ela me pegou pelo braço e me levou até o quarto do nosso filho. Eu abri a porta, mas o clima alegre, pueril, que costumava predominar havia desaparecido. O quarto estava na penumbra, um cheiro de carne apodrecida, e Luiz de pé, voltado para a parede, num dos cantos.
— Algum problema, Luiz? — gaguejei.
Ele se virou e todo meu corpo começou a tremer; aquele menino não era o Luiz que eu conhecia, pelo menos não aquele ao qual contei fábulas nas noites anteriores. O rosto estava magro e ressecado, o olhar fundo, os braços e pernas contorcidos, o crânio afundado.
— Vocês precisam me deixar ir embora — ele disse.
— Mas você não pode — gemi — Você é o nosso filhinho.
Sem sustentação dos membros fraturados, ele cambaleou até a cama e se deitou. Fiz menção de me aproximar, para cobri-lo com o lençol, mas ele me repeliu com um olhar de ódio.
— Não, — ele disse — eu quero ir embora. Meu verdadeiro pai me chama.
— Quem é o seu verdadeiro pai? — indaguei.
Os olhos de Luiz miraram um ponto ao pé da cama, instintivamente, eu também olhei pra lá e, por um segundo, tive a impressão de que um vulto ou sombra estava de pé ali. Recuei para a porta.
— Mas não queremos que você vá, meu filho — Tatiana choramingava.
— Eu preciso — e, ao dizer isto, Luiz se virou da cama, insinuando que pretendia dormir.

Depois desta noite, eventos mórbidos passaram a nos atormentar. Até aquele momento, nosso filhinho nunca havia deixado seu quarto, mas, agora que ele queria partir, Luiz fazia questão de incomodar nossa rotina. Certa vez, enquanto eu tomava banho, ouvi um risinho do outro lado da cortina, e uma silhueta que se aproximava. Abri uma fresta, Luiz me encarava, tapava a boca, ria.
Noutra vez, Tatiana cozinhava, o som duma gaveta se abrindo. Era Luiz, faca afiada na mão, apontando para minha esposa:
— Posso te ajudar, mamãe?
Mas o pior foi quando eu e Tatiana fazíamos amor, ela sobre mim, olhos fechados, minhas mãos nos seios dela, e meus pêlos todos se arrepiaram, senti a presença de alguém e avistei, nas sombras, num canto, o crânio afundado de Luiz. Brochei e, ao mesmo tempo, tomei uma resolução:
— Tatiana, precisamos nos livrar deste menino!

Naquela mesma noite, fomos ao quarto do Luiz e o informamos:
— Você nos pediu para o deixarmos partir. Pode ir, quando quiser.
Mas a resposta do nosso filho foi enigmática:
— Não é tão simples, papai. Vocês têm de me deixar ir.

Não entendemos. Desde a mudança de comportamento dele, tudo que mais desejávamos era que ele fosse embora, deixasse-nos em paz. Mas ele não ia, continuava nos pregando sustos, espionando-nos, abrindo gavetas e portas de armários.
A herança católica de Tatiana falou mais alto, ela correu para a igreja que não freqüentava há anos e implorou auxílio ao padre. Este veio, passeou por nosso apartamento, requisitou entrada no quarto de Luiz, por fim, emitiu seu parecer:
— Não vejo nada de extraordinário aqui, minha filha. Isto não é obra de demônio.
Mas, mesmo assim, sob súplicas de Tatiana, ele concordou em benzer nossa casa, espargindo água-benta por todos os cômodos.
De nada adiantou, Luiz continuava lá e, agora, zombava de nossos esforços para nos livrarmos dele. Ele estava muito transformado, pouco recordava aquele menino doce que havia sido nosso filho, era apenas um ser diabólico, uma criatura deformada e irônica.
Após o padre, realizamos uma sucessão de “profissionais” na área da paranormalidade, um médium espírita, um pai-de-santo, um pastor, mas ninguém conseguia nos ajudar.
Na TV, vimos um programa no qual aparecia uma mulher que dizia falar com os mortos, conversou ao telefone com telespectadores e revelou informações impressionantes sobre eles. Esta entrevista nos convenceu a ligarmos para esta mulher e a chamarmos para nos auxiliar com Luiz.
Ela veio, entrou sozinha no quarto e saiu dele assustadíssima.
— Eu conversei com seu filho — ela nos disse — com o ser que um dia foi ele, quero dizer. Ele quer partir, mas vocês não deixam. Luiz está acorrentado a esta casa.
— O que devemos fazer? — eu me desesperava.
— Não é nada simples. Enquanto o corpo e a memória de Luiz estiverem vivos, ele não partirá. Façam o que eu digo e tenho certeza de que tudo ficará bem.

Seguindo as indicações da médium, dirigi-me a uma casa de ferragens; em casa, Tatiana estava incumbida de esvaziar o quarto de Luiz, queimar as roupas deles e todos os objetos e brinquedos que lhe eram caros.
Para não ser apanhado, esperei anoitecer, pulei o muro do cemitério e, auxiliado por uma lanterna, encontrei o túmulo de Luiz. Com uma picareta, derrubei a abertura inferior do túmulo, retirando os tijolos. Avistei o caixãozinho dele e já podia puxá-lo para fora.
Ainda com a picareta, abri a tampa do caixão, revelando o esverdeado corpo apodrecido de Luiz, porém, eu estava tão acostumado com este aspecto dele, pois era assim que ele se manifestava a nós, que nem me impressionei. Abracei o cadáver e o tirei do esquife, jogando-o sobre um lençol, no qual o enrolei.
Reinseri o caixão vazio no túmulo, lancei o corpo embrulhado no ombro e me apressei a deixar o cemitério, arremessando Luiz por sobre o muro, secundando-o sem demora.
Dirigi por horas, até chegar a uma estrada de terra. Na madrugada, enveredei-me por uma trilha no matagal. Quando atingi um local que considerei seguro, estacionei e removi o cadáver do porta-malas.
Este seria o momento mais difícil, seguir passo-a-passo as prescrições da médium. Utilizando-me duma agulha para couro e um grosso barbante, costurei a boca de Luiz; em seguida, com um serrote, separei a cabeça do corpo; por fim, embebi o defunto em querosene e ateei fogo.
Levei muito tempo alimentando as chamas, até que os restos mortais se tornassem irreconhecíveis. Cavei uma cova com quase um metro de profundidade e sepultei Luiz.
O sol estava nascendo.

Voltei para casa arrebentado. Cheguei e fui direto para o quarto do Luiz, completamente vazio, as cortinas abertas, um local bem diferente, renovado, luminoso. Tomei um banho e fui me deitar, ronquei até, pelo que Tatiana me contou. Sentíamos bem, um peso havia sido erguido de nossas costas, prometíamos a nós mesmos que nos esqueceríamos de tudo e, talvez, um dia, até riríamos do que aconteceu.
Assistíamos televisão no quarto, ouvi um ruído vindo de fora. Tatiana segurou minha mão.
— O que foi isto, Afonso?
— Não sei — levantei-me, fui até a porta e a abri um pouco. Espiei, não vi nada, mas o ruído continuava, no quarto que havia sido do Luiz.
Na ponta dos pés, caminhei até lá e entrei. O terror me dominou, absurdamente, incompreensivelmente, o quarto de Luiz estava todo reconstruído, os móveis, os brinquedos, a decoração, e, sentado no chão, estava um ser carbonizado, costuras na boca e a cabeça se equilibrando sobre o pescoço.
A criatura me fitou com olhos ensangüentados e murmurou por entre as costuras:
— Por que você não me deixa ir, papai?

Desde então, somos obrigados a conviver com esta aberração. Mantemos o quarto sempre fechado, fingimos não percebermos quando Luiz nos espia, ou passa correndo, derrubando algum objeto da sala. É difícil, mas somente assim conseguimos manter a sanidade e continuar nossas vidas.
Este é o nosso segredo, meu e de Tatiana, e, às vezes, me angustia a certeza de que Luiz só sossegará quando eu e ela também estivermos mortos. Somente assim, ele poderá partir.

domingo, julho 29, 2007

A Dama Vermelha

(fonte: http://images.epilogue.net/users/jameswolf/QUEEN_COMPLETED_(Large).jpg)



Nosso exército cruzou o último bastião do inimigo, crentes de que a guerra estava vencida. Porém, daquele ponto em diante, sofremos derrotas diárias.

Os arqueiros, sempre tão precisos, erravam seus alvos; os cavaleiros eram derribados das montarias amedrontadas; a infantaria era desbaratada por forças menores.

A guerra é feita de probabilidades numéricas: quem tem o exército mais numeroso, mais bem treinado, com melhor equipamento, derrota o adversário. Matemática simples. Mas não neste caso. Contra todas as chances, perdíamos.

Muitos dos soldados debandaram, fugiam do acampamento à noite, retornavam a suas vilas, para suas famílias. Quando recapturados, amaldiçoavam a Rainha Graidnieva por tê-los enviado para uma luta perdida, e repetiam boatos, os quais já haviam chegado aos meus ouvidos antes, de que do lado inimigo uma bruxa maligna os protegia. Para eles, éramos derrotados por magia negra.

Sou um homem simples, habituado às crendices popular, eu mesmo nasci e vivi boa parte da vida num vilarejo ao sul de Harstiet, a capital do Reino, carrego no peito um amuleto contra mau-olhado e estas inscrições do meu braço são para manter meu braço constante da batalha, mas não podia acreditar que os rumos duma guerra poderiam ser alterado por magias ou sortilégios.

No entanto, os boatos foram se avultando; propagavam que a feiticeira, cognominada a Dama Vermelha, habitava a torre mais alta da fortaleza que víamos sobre a colina, donde observava nossos movimentos, antevia nossos ataques, e preparava as defesas.

A sucessão de derrotas e baixas fez-me questionar minhas convicções e, num fim de tarde, adentrei a tenda do comandante com um plano temerário: infiltrar-nos na fortaleza, encontrar a Dama Vermelha e assassiná-la. Fossem os boatos verdadeiros ou não, poríamos termo à angústia dos soldados e levantaríamos o moral.

— Não podemos arriscar a vida dum capitão experiente como vós — respondeu-me o comandante — Escolhei homens em quem confiais e os enviai nesta missão.

— Homem algum se aventurará nesta empresa se eu não estiver com eles — retruquei; eu havia lutado ombro a ombro com meus soldados, e eles confiavam em mim cegamente.

— Voltai vivo, então...

Naquela mesma noite, eu, três soldados e dois arqueiros nos esgueiramos por entre as paliçadas inimigas e atingimos as muralhas do forte. Escalamo-lo e nos dirigimos à torre. Encontramos oposição, alguns balestreiros tentaram nos deter, derrubaram dois dos nossos, mas atingimos a entrada da torre. No interior dela, mais defensores nos atacaram e, de toda nossa comitiva, restei apenas eu.

Perfiz os lance de escadas até o topo e alcancei uma porta lacrada, à qual abri pela força da minha alabarda. Foi quando vislumbrei a esguia figura, vestida de vermelho, longos cabelos afogueados, de costas para mim, sentada diante dum livro.

Meu braço fraquejou, a garganta seca.

— Dama Vermelha?

Ela se voltou para mim, e fulminou-me com olhos rubros. Mas meu espanto foi em reconhecer nela a pessoa que menos poderia esperar, a pessoa pela qual guerreávamos, pela qual morríamos.

— Não é possível! Rainha Graidnieva?

A Dama sorriu.

— Demoraste, Helfrjiod, há quantos dias te aguardo.

— Mas quê? Por que guerreais contra vós mesma? Que significa esta encenação?

— Neste livro, Helfrjiod, está escrita a história de minha vida. Fala da maldição lançada por minha mãe quando meu padrasto se apaixonou por mim, e de que eu deveria suportar uma existência sem fim, até que, durante uma guerra, um homem que houvesse me amado lutasse contra mim e me privasse da existência.

— Por isto vós me fizestes deitar em vosso leito? Usai-me para cometer suicídio?

— Só quem vive para sempre entende este fardo... — lágrimas na face da bruxa — Fazei o que viestes fazer!

No dia seguinte, a guerra acabou, um mensageiro de nossas terras trouxe a notícia de que nossa Rainha havia sido assassinada, não havendo mais sentido prosseguir.

Somente eu sei a verdade, mesmo que inacreditável, mesmo que inconcebível, mesmo que se mescle e se confunda com a mentira.

sexta-feira, julho 27, 2007

Os Estranhos Habitantes de Soledad

A família sempre reputou minha tia-avó como louca. Mas família é família, e se faz necessário encontrar um bode-expiatório, determinar quem é a ovelha negra. Assim, tem-se farto material para fofocas quando há reuniões familiares, e o comportamento misantropo de Joaquina só favorecia esta situação.

Talvez ela fosse realmente louca, ou apenas excêntrica. A verdade é que ela — por opção? — nunca havia se casado; uma aberração, se comparada às irmãs, que não apenas se casaram, como botaram no mundo dúzias de filhos, redundando em uma centena de netos.

Joaquina lutou pelos direitos da mulher na juventude, organizou grupos de teatro, redigiu manifestos contra o Estado Novo, foi presa, apanhou, opôs-se à Guerra Mundial e à exploração da classe trabalhadora, foi exilada no Chile e, quando retornou, finalmente obteve reconhecimento em sua carreira literária com obras de cunho feminista, se se procurar, é possível encontrar o nome dela na listagem dos Mais Vendidos da VEJA, durante o mês de setembro, em meados dos anos 80.

Com o dinheiro dos livros, Joaquina comprou um terreno no interior e construiu uma mansão. Convidou-me várias vezes para visitá-la, tinha-me em grande consideração (porém, a recíproca não era verdadeira), mas sempre encontrei escusas para me eximir da obrigação.

Mensalmente, ela me escrevia uma carta, perguntando-me como eu estava e repreendendo-me pela demora em lhe corresponder. Como um fardo, eu me forçava a mandar um cartão de felicitações nos Natais e nos aniversários dela; contudo, nos últimos cinco anos, negligenciei até esta obrigação, mas as cartas de Joaquina nunca falharam. Depois de um tempo, nem abrí-las mais eu abria. Entretanto, após o falecimento dela, aos noventa e três anos, eu me arrependi da indiferença que dispensei a ela e reli todas as cartas, que reunidas, comporiam facilmente um livro.

A minha surpresa foi quando o testamenteiro de Joaquina bateu à minha porta, informando-me de que minha tia-avó havia me legado a mansão no interior, com todos os móveis nela contidos. Minha esposa ficou particularmente entusiasmada, mas este presente de grego me preocupou. Provavelmente, a habitação deveria estar em estado lastimável, já que Joaquina vivia uma vida de reclusão eremítica, não deveria conter nada de valor, e ainda teríamos de arcar com os custos legais para transferência da propriedade para meu nome, sem sabermos se recuperaríamos este dinheiro com a venda da herdade.

Perfizemos os trâmites legais e eu já estava pronto para anunciar a venda do casarão, mas minha esposa insistiu para que eu fosse até lá e visse o que ela continha, crente de haver algo de nosso interesse. Aquiesci, afinal de contas, eu estava de férias e ainda faltavam dez dias para retornar ao trabalho, mas Elisa não poderia ir comigo, era época de provas finais no colégio e ela estava atolada com o fechamento dos livros-de-chamada.

A viagem era longa, Joaquina desejava realmente se esconder. Perdi-me várias vezes nas estradas de terra e, quando parava para pedir informação a algum carroceiro, a resposta era que deveria seguir adiante.

Finalmente, encontrei a tabuleta, despencando da cerca, com o nome da fazenda: Soledad.

Melhor nome não havia, pois o casebre mais próximo ficava a umas duas horas.

O casarão tinha dois andares e um ático, depois descobriria que havia também um porão. Como já esperava, o lugar estava entulhado de quinquilharias, com espaço restrito até para um magro como eu me movimentar. Mexi em algumas pilhas de coisas, abri armários, gavetas, nada que prestasse.

Tentei ligar para Elisa e dizer que já estava retornando, mas este fim-de-mundo era tão fim-de-mundo que nem celular funcionava. É óbvio que eu não poderia contar que houvesse telefone no casarão, muito menos conexão de banda-larga.

As nuvens carregadas me inquietaram, se desabasse a chover, o meu Gol não conseguiria ir muito longe, com aquelas estradas em péssima condição. Cumprindo o meu temor, quando havia dirigido por menos de um quilômetro, começou um temporal e a estrada se tornou intransitável.

Um capiau num trator me ajudou a desatolar o carro e retornei o mais rápido que pude ao casarão desabitado, sob um aguaceiro sem precedentes e raios caindo por todos os lados.

Outra bela surpresa a casa me reservava, com a morte da moradora, a energia havia sido cortada, então, estava eu, nunca casa abandonada, anoitecendo, e sem poder sair dali. Aproveitei o resquício de claridade do dia para procurar por velas e fósforos, e consegui encontrá-los na cozinha. Depois, puxei uma cadeira até o alpendre e fiquei observando a chuva até escurecer.

Não havia muito a ser feito e meu suprimento de velas era escasso, apenas cinco; com este pequeno lume percorri a habitação à procura dum quarto. No segundo andar, descobri o que deveria ter sido o aposento de Joaquina. Eu não acreditava em almas penadas, mas ver a cama desfeita, na penumbra, e a porta do guarda-roupas aberta me perturbou. Imaginei até que a cama desarrumada estivesse assim porque Joaquina havia morrido dormindo, e o armário aberto porque tiveram de escolher uma roupa para sepultá-la.

Recusei-me a dormir ali. Vaguei pelos outros cômodos, mas aquela era a única cama na casa, portanto, eu seria obrigado a voltar para lá e me conformar.

O meu plano era ir e voltar para cidade no mesmo dia, por isto, eu só estava com a roupa do corpo, e este foi o meu pijama. Jantei o resto dum sanduíche que comprei na estrada, escovei os dentes com o dedo mesmo, assoprei a vela e tentei dormir.

Mas a chuva pesada na janela e o vento a gemer lá fora me despertavam a todo o momento. Numa das vezes que acordei, tive a impressão de haver visto uma silhueta, mãos apoiadas no batente da janela, braços esquálidos, cabelos brancos, olhando para fora. Eu torcia para fosse mera impressão.

Posteriormente, por volta de uma da manhã, escutei barulhos vindo dos andares inferiores. Era como se arrastassem móveis, abrissem e fechassem janelas, passos, risos, tosses.

Eu tremia sob o lençol, tal qual quando eu era criança e minha prima me contou que havia visto o pai morto, e, à noite, eu não conseguia parar de pensar nisto, fantasiando a figura do meu tio, crânio esfacelado por causa do acidente de carro, fitando-me como quem procura ajuda.

Oprimido por minha agonia e medo, juro que ouvi um sussurro:

— Que bom que você veio, Pedro. Esperei tanto tempo por isto...

E uma mão gelada se encostou na minha, com ternura, mas que me deixou em pânico. Saltei da cama, mas pouco podia ver na escuridão. Estava com medo de me aproximar do criado-mudo para pegar a caixa de fósforos; medo de que, quando eu estendesse minha mão, aquela outra mão gélida me tocasse novamente.

— Quem está aí? — resmunguei, mas implorava para que não viesse resposta — Quem está aí?

Lembrei-me do celular. Apertei um botão e ele se iluminou, luzinha fraca, mas o suficiente para me certificar de que não havia ninguém na cama. Apanhei os fósforos e acendi a vela.

Os ruídos vindo debaixo cessaram.

Não sou machão; não sou daquelas pessoas que, quando têm um problema na frente, matam no peito e seguem adiante. Na verdade, aquela situação inusitada estava me sufocando, quase me controlava para não cagar nas calças, é sério!

Mas eu já havia percebido que, naquela noite, eu não teria sossego. Talvez fossem ratos andando pela casa, o que não diminuía o asco, mas me consolava do medo. Desci vagarosamente a escada e cheguei ao primeiro andar. Nada diferente atraiu minha atenção. Desci também para o térreo, também nada. Pensei que poderia dormir no carro, desconfortável, mas não teria ratos por perto.

Esta havia sido a melhor idéia da noite, quando estava quase na porta, ouvi ruídos no porão. Eu precisava confirmar o que era; se fosse embora pensando ter sido assombrado por fantasmas, que aquela mão me tocando fosse de Joaquina, eu nunca mais teria uma noite tranqüila na vida. Era necessário eu provar para mim mesmo que eram ratos, ou alguma outra explicação racional.

Abri a portinhola que dava para o porão, de lá, vinham risos, gemidos, sussurros. Certamente, não eram ratos. Minhas pernas fraquejavam, as mãos trêmulas, garganta seca e olhos ardendo, com vontade de chorar. Degrau a degrau, desci, aos poucos iluminando a câmara. Os risos, murmúrios e gemidos se silenciaram, quem quer que estivesse ali embaixo havia me ouvido descendo. Quando a vela iluminou parte do porão, vi minha tia-avó esfaqueando um homem. Não era fisicamente ela, era quase uma névoa. Ao lado dela, pessoas observavam, numa espécie de ritual de tortura, ou execução, ou sadomasoquismo. Perdi as forças e deixei a vela cair e se apagar. Completamente no escuro, meu coração quase me afogando de tão forte que batia, os risos recomeçaram com maior força, os gritos se tornaram ensurdecedores, a voz de Joaquina berrando:

— Meu querido Pedro finalmente veio! Também quer participar!

É óbvio que eu não queria participar, independente do que fosse que aquelas aberrações estivessem fazendo, tropeçando, ofegante, engatinhando quase, subi a escada do porão e cheguei à cozinha. Então, esbarrando em tudo que havia no caminho, alcancei a porta de entrada, atravessei a varanda e, mergulhando no temporal, corri para o automóvel.

Enquanto dava ignição, percebi que, na janela do quarto no qual eu estava, no segundo andar, uma mulher apareceu, apoiou os braços no batente e, após alguns segundos, acenou para mim.

Dei a ré no carro, atingindo uma cerca e, depois, em desespero, dirigi pela estrada enlameada, afundando o Gol no barro, derrapando nas curvas, fugindo do inexplicável.

Perdi o controle da direção após uma meia hora, voando para fora da estrada, e desaparecendo no matagal. Chorava, calça mijada, em completo descontrole emocional.

Quando amanheceu, a chuva havia dado uma trégua. Caminhei pela estrada uns bons quilômetros, peguei carona num pau-de-arara e, já na beira da rodovia, liguei para minha esposa, quase implorando por ajuda.

Todo mundo riu da minha experiência. Na família, descrentes, zombaram de mim, dizendo que, se alguém um dia virasse assombração, só poderia ser a Joaquina mesmo.

Resolvi vender o terreno, mas demolir a casa primeiro. Não desejava que outra pessoa passasse pelo mesmo desespero que eu. Porém, um funcionário da empresa de demolição me ligou enraivecido, xingando-me por ter pregado um trote neles, pois eles haviam se metido no meio do nada e não havia casa alguma para ser demolida.

De cagão, minha reputação passou a ser de mentiroso e de lunático.

Mas, um dia, eu crio coragem e volto a Soledad, para confirmar a existência daquela casa maldita, habitada por seres malditos.

quinta-feira, julho 26, 2007

O Livro dos Hereges

Sei do que sou acusado. Nestes últimos dias, vocês viram quantas mentiras disseram sobre mim, de que sempre fui um homem violento, de que havia ameaçado minha mulher várias vezes antes. Mentiras! Mentiras!

Vejo a minha cunhada ali, sentada, me fulminando com o olhar. Foi o ódio dela por mim que me arrastou ao tribunal, a querer minha execução. Eu a entendo, também quereria a mesma coisa se minha irmã fosse assassinada; também adoraria ver meu cunhado morto, se cresse ser ele o culpado.

Mas sou inocente, juro, ouçam-me e julguem por si próprios.

Todos aqui conhecem minha reputação como bibliófilo. Não me estenderei muito sobre o assunto, mas é notório que há na minha biblioteca a primeira edição de “O Contrato Social” de Rousseau, uma Bíblia do século XII, o manuscrito de Die Welt als Wille und Vorstellung de Schopenhauer, entre milhares de outras raridades, inveja para colecionadores ao redor do globo.

Ano passado, empreendi uma viagem de negócios a Istambul; vagando pelas ruas da cidade, adentrei um antiquário. Entre inúmeros artigos interessantes, chamou-me a atenção um códice em grego bizantino, com belíssimas ilustrações e iluminuras, que adquiri pela bagatela de cinqüenta libras.

Em meio a tantas aquisições desta viagem, malas e mais malas, mal me recordava do códice. Mas, há um mês, organizando minha biblioteca, descobri este incrível exemplar e comecei a estudá-lo. Talvez vocês não saibam, mas o grego bizantino não é muito diferente do koiné, o grego bíblico, do qual possuo razoável domínio.

O material não era muito interessante por si, um relato da fundação e queda duma seita herética na Capadócia, entre os séculos X e XII, que acreditavam que Jesus fosse, na verdade, um enviado de Satanás. O argumento dos hereges não era dos mais convincentes: por ser Satanás o senhor do mundo material (Jó 1: 7), apenas ele poderia conceder poder a um mortal para curar doenças, multiplicar alimento, caminhar sobre as águas; para sustentar tal crença, eles se baseavam num documento apócrifo, conhecido como “O Evangelho de Iscariotes”, relatando que a traição de Judas Iscariotes havia se fundado na descoberta de que a trajetória do nazareno não passava duma encenação, na tentativa de associá-lo ao Messias das profecias torânicas, e arrebanhar o apoio da ala reformista da comunidade farisaica. Além disto, Judas constatou que havia severas distorções da Lei nas pregações de Jesus, e que muitas delas podiam ser associadas ao culto de Baal.

Apesar de improvável, narra-se que os hereges foram erradicados por uma campanha maciça de assassinatos coordenada pela Igreja Ortodoxa.

Pode parece frívola esta minha descrição do conteúdo do códice, porém, após dedicar dias examinando o exemplar, deparei-me com uma sentença inusitada, descontextualizada, como se houvesse sido escrita diretamente a mim. Sem adicionar palavras ou omití-las, a tradução da sentença era a seguinte:

William Turner, na oitava noite de março, virei buscar tua esposa.

O pasmo no olhar de vocês era tal qual o meu assombro. Como meu nome aparecia, em grego bizantino, num códice medieval? E o que significava tais palavras? Quem viria buscar minha esposa? Por quê?

Tive dificuldades para dormir, atormentado pela macabra profecia. A cada dia que passava, minha angústia crescia, oito de março se aproximava e, em pouco tempo, eu confirmaria ou não a veracidade da ameaça.

Lembro-me bem daquela data, eu e Margareth acordamos cedo e cavalgamos pela propriedade; almoçamos na casa dos meus sogros, passamos a tarde na biblioteca, Margareth lendo Jane Austen, eu jogando xadrez com o sogro. Às sete, retornamos para casa, ceamos e nos recolhemos. Eu estava apaziguado, o dia estava quase concluído e ninguém, nem nada, havia vindo buscar Margareth.

Timidamente, ouvi o relógio do átrio anunciando que faltavam quinze minutos para a meia noite. Margareth dormia tranqüila, por isto, levantei-me e desci até a biblioteca, procurei pelo códice, mas ele não estava na prateleira onde eu o havia deixado. Isto me enfureceu, ninguém tinha autorização para entrar e mexer nos meus livros; na manhã seguinte, os criados receberiam uma bela reprimenda.

Mas logo avistei o códice caído no canto da biblioteca, aberto. Com ele em mãos, tentei encontrar a passagem e, quem sabe, zombar dela agora. Folheei-o, mas não conseguia encontrá-la. Eu havia marcado a página, mas alguém, deliberadamente, havia feito questão de retirar a indicação.

Foi quando senti uma presença no cômodo. Mesmo a biblioteca estando completamente iluminada, tive a impressão de estar nas trevas, um forte cheiro me cercou, meus pêlos se eriçaram. Involuntariamente, minhas mãos tremiam, o códice balançando nelas. Meus olhos encontraram a passagem, mas esta já não era a mesma.

William Turner, estou aqui.

Não sei o que me aconteceu, mas, quando voltei a mim, minhas mãos estavam ensangüentadas, o punhal birmanês cravado no peito de Margareth, faltando poucos instantes para a meia-noite. Se fiz algo, fi-lo dominado por alguma força demoníaca. Não sou culpado!

O tribunal não acreditou em palavra alguma de William Turner e o condenou à forca.

Mas o magistrado desejava ver o códice mencionado pelo réu. Um oficial foi até a propriedade do condenado, vasculhou a biblioteca e encontrou o volume.

O juiz Smith havia aprendido koiné com seu pai, padre da Igreja Anglicana e tradutor, nas horas vagas, de versículos bíblicos. Abriu o livro aleatoriamente e, por aquelas ironias do acaso, encontrou a sentença, acompanhada de calafrios, odor de enxofre e trevas:

Edward Smith, estou aqui.