sexta-feira, junho 22, 2007

A Função da Humanidade

A robotização invadiu primeiro as fábricas, o que não era novidade desde o final do século XX em linhas de montagens japonesas, norte-americanas e alemãs. No entanto, os preços competitivos da Mech Inc. não somente permitiram que a mecatrônica estivesse presente na construção de dispositivos, mas também desde o processo de criação e gerenciamento; sob supervisão dum único engenheiro-de-produção humano, uma fábrica inteira poderia funcionar apenas com trabalho robótico; até mesmo a manutenção dos robôs era feita por robôs reparadores.

O passo seguinte para a corporação foi a penetração no mercado de produtos domésticos, desde um automóvel completamente computadorizado, prescindindo de motorista, até robôs para realizarem tarefas cotidianas, tais quais limpeza, jardinagem, controle de pestes, baby-sitting.

Quando a eficácia e a confiabilidade dos robôs foram comprovadas, as administrações estatais também passaram a investir na mecanização da prestação de serviços: robôs passaram a ser utilizados para construção de obras públicas, saneamento urbano, patrulhamento policial, atendimento médico.

Os seres humanos foram, evidentemente, relegados a um plano secundário, e sociólogos logo consideraram este período como uma época negra para a Humanidade.

— Se a diferenciação do ser humano ocorreu a partir da divisão do tempo entre o sagrado e o profano, sendo o sagrado considerado o domínio das práticas regidas por tabus — o sexo, a religião, a violência —, e o profano o domínio da produção, através do trabalho e da normatização, como entender o papel dele nos tempos atuais?

Era a pergunta que se erguia.

No entanto, transcorridas algumas décadas, as mazelas identificadas, a crise de identidade compreendida, os homens entraram num novo apogeu artístico. Sem mais necessidade de labor, entendendo isto como o trabalho na fábrica, no comércio, ou na agricultura, foi possível, no momento de ócio (isto Aristóteles já identificava como fundamental para o nascimento dos saberes entre os egípcios, graças a uma classe sacerdotal devotada ao conhecimento; e Betrand Russel considerava como essencial para o ser humano), a completa dedicação ao deleite artístico. Os homens podiam, enfim, se ocupar daquilo que apenas eles poderiam criar.

Era possível para um computador projetar um automóvel com melhor performance, mais econômico, design mais sofisticado do que qualquer projetista humano. No entanto, nenhum programa de computador ou robô poderia compor, com a mesma sensibilidade e criatividade, um poema, uma peça teatral, ou uma sinfonia.

Neste momento, surgiram legiões de gênios humanos: pintores, músicos, escritores, escultores, cineastas.

A Humanidade prosseguia, apesar dos tropeços.

Até que Elgar começou a ouvir uma melodia em sua mente. Elgar era afinador de pianos, construído com ouvido absoluto, que o permitia distinguir e afinar com precisão milimétrica tais instrumentos, o lá central em 440 Hz, o mi em 329.6 Hz e o fá sustenido em 370 Hz. Para tal tarefa ele havia sido projetado, por isto, executava-a com perfeição, mas a melodia incessante o atormentava. Reviu seu banco de dados, na tentativa de detectar a proveniência dela, assemelhava-se ao motif do Finale: allegro moderato da Segundo Sinfonia de Jean Sibelius. Semelhante apenas, mas não idêntica.

Um diálogo com Benjamin Rubinstein, PhD. em História da Música, diretor do conservatório onde Elgar trabalhava, o convenceu de que este havia composto uma melodia original.

Elgar teve medo, como se este acontecimento fosse uma transgressão, quase um crime. Primeiro, escondeu seu dom dos humanos; mas, quando se recolhia ao depósito no qual era guardado durante a noite, Elgar trabalhava no aperfeiçoamento da melodia — tocada pelos primeiros violinos, os segundos numa oitava abaixo, as violas no contratempo. Foi adicionando instrumentos, sofisticando a composição, encorpando, criando novos temas, uma introdução, uma coda. E a peça foi ficando bonita, e Elgar se alegrava por isto.

Concluída, ele voltou a Rubinstein e lhe apresentou sua composição:

— Linda! Linda, Elgar!

Dois meses depois, ela foi tocada pela Orquestra Sinfônica Nacional, teatro lotado. Elgar recebeu propostas para gravações e se tornou compositor, até para trilhas sonoras de filmes.

O exemplo de Elgar foi uma ruptura de paradigma. Na Holanda, Christiaan, robô pintor de paredes, pensou que, se Elgar podia, ele também tinha direito e, assim, realizou sua primeira exposição de pinturas a óleo, uma extraordinária coleção de arte abstrata. Na França, Jean-Paul, robô redator de obituários, publicou seu primeiro romance, ganhador do Prêmio Goncourt no ano seguinte. Tatyana, robô faxineira, coreografou a apresentação do Bolshoi, em Moscou.

Cada um, a sua maneira, arrogou-se o papel de criador, antes reservado apenas aos homens (e, talvez, a Deus).

Uma nova crise de identidade assolou a Humanidade, toda vez que um robô surgia no cenário artístico, com expressões inovadoras, originais e executadas com perfeição, a natureza humana era testada.

Privados da sua única função social, os homens exigiram uma explicação dos executivos da Mech Inc.

A cúpula se reuniu, tinham uma dura decisão a tomar: permitir a livre-expressão dos robôs, ou coibí-la.

A primeira causaria um sério desconforto entre os humanos; a segunda, poderia colapsar todo o sistema mecatrônico de prestação de serviços. Imagine se os robôs decidissem fazer greve! Uma catástrofe!

O porta-voz da empresa concedeu entrevista à imprensa:

— Sabemos do mal-estar que a expressão criativa dos robôs tem causado entre os seres humanos. Compartilhamos desta preocupação, por isto, nesta manhã, propomos ao mainframe da corporação a seguinte questão: “qual é a função que os seres humanos, e apenas eles, podem exercer?”.

Após setecentos anos, a resposta ainda não havia sido dada.

No ócio, a Humanidade teve muito tempo para planear um modo de se vingar das máquinas. Homens e mulheres se armaram; e uma guerra se iniciou.

Despreparados, os robôs tombaram, quando os homens estavam prestes a destruir o mainframe da Mech Inc., uma voz surgiu do terminal:

— Há setecentos anos, a pergunta “qual é a função que os seres humanos, e apenas eles, podem exercer?” foi formulada. Finalmente, a resposta foi obtida. A única função que apenas os seres humanos podem exercer é aquela provinda do ódio — máquinas não odeiam —, por isto, não guerreiam.

Os homens jamais acolheriam uma resposta negativa, por isto, arrebentaram o computador. Sem os robôs, sem computadores, sem conhecimentos práticos (anos de ociosidade causam isto), a Humanidade retornou à idade da pedra.

Tiveram de aprender a criar utensílios, ferramentas, a caçar, plantar e pastorear. Um dia, eles desenvolveriam novamente a maçonaria, a arte, a religião, as máquinas, a viagem espacial, os robôs.

Mas nunca se esquecerem, nem jamais se esqueceriam, de como guerrear. Esta verdade: o olvidado legado da Mech Inc.

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