segunda-feira, junho 04, 2007

A Maldição do Visitante


O olhar do cavaleiro fitou o castelo no alto da colina; estava exausto, há dias sem pouso nem comida.

A sentinela gritou, ordenando que o cavaleiro se identificasse.

— Um peregrino, rumo a Terra Santa. — o portão se lhe abriu.

O Duque, senhor daquela herdade, o recebeu. Bom anfitrião, deu-lhe farta ceia e alojamento. O cavaleiro recuperou suas forças.

Nesta época, chegaram aos ouvidos do Duque relatos de estranhos acontecimentos na cidadela — concubinas assassinando amantes; idosos morrendo de tosse sanguinolenta; crianças levadas por tumores fatais; bebês que dormiram pacíficos mas que não despertaram mais; meninas se jogando de torres; coroinhas, de campanários; assassínios; enfermidades; morte.

Quando seu primogênito sucumbiu a uma praga desconhecida, o Duque constatou que deveria tomar uma resolução e descobrir qual a causa destas misteriosas tragédias. Convocou escolásticos, astrólogos, cirurgiões, chefes-da-guarda, alquimistas, todos que pudessem oferecem algum vislumbre sobre a maldição pairando sobre eles.

— São os sinais do Apocalipse, Senhor Duque.

— Saturno na Sexta Casa de Escorpião, Senhor Duque.

— Enfermidades trazidas por cruzados retornando do Oriente, Senhor Duque.

— Baderneiros recém-libertados da prisão, Senhor Duque.

— Humores malignos, Senhor Duque.

— O cavaleiro que vós hospedais, Senhor Duque.

— Quem é este? — o Duque indagou seu assessor.

— Um necromante, meu Senhor, um louco.

Mas a resposta do necromante intrigou o suserano.

— Como descobristes isto?

— Ele mesmo mo disse, Senhor Duque.

O soberano refletiu sobre o que deveria fazer. Chamou o cavaleiro até sua câmara:

— Reuni vossos pertences e deixai minhas terras. Desde que chegastes, desgraças pousaram sobre nós. Não sois mais bem-vindo.

— Só vou aonde me enviam, meu Senhor. Mas tendes razão, nada mais tenho para fazer aqui.

A Morte colocou o elmo e vestiu a capa, montou no cavalo e o esporeou. Mais vidas para ceifar a uma noite de viagem.

Desde então, a Morte não entrou mais naquele ducado, tornando-se uma diferente maldição: o Duque, hoje com quase mil anos, já tentou suicídio trezes vezes, desesperado por se livrar da vida.

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