sexta-feira, julho 06, 2007

O Paradoxo da Morte

— Lisa quer sair para fazer cocô, querido — era verdade, a cachorrinha estava cheirando a coleira, dependurada perto do interfone.

Antônio coçou a barriga roliça e peluda, botou o controle remoto de lado e, sôfrego, se levantou. Maria fazia as unhas na cozinha, pé apoiado na cadeira, algodão entre os dedos.

— Estou indo — ele vestiu uma camiseta e calçou as Havaianas. Engatou a guia na vira-lata e saiu,

— Vou deixar a porta aberta, ‘tá? Já voltamos.

— Só não deixe Lisa mijar em frente à pizzaria. O dono me deu uma bronca ontem.

— Lisa vai mijar onde quiser — Antônio riu, fechando a porta.

Estava quente, um pouco nublado, mas um mormaço de matar. Por isso, Antônio resolveu dar uma voltinha expressa, só ao redor do quarteirão. Lisa fez xixi na frente da pizzaria, cocô num canteiro perto da esquina. Iniciaram o caminho de volta.

Lisa tentou brigar com um buldogue no elevador, a vizinha gostosa ria, achando graça na peleja, o buldogue babava, sem achar graça alguma. Ao sair do elevador, Antônio reparou que a porta estava entreaberta. Lisa latia, em desespero. Encontrou Maria no chão da cozinha, mergulhada em sangue.

Antônio se ajoelhou na poça, segurando a cabeça da esposa, murmurando frases sem sentido como:

— Tudo vai ficar bem, amor.

— A polícia já está chegando.

— Amanhã é aniversário da Juliana, você não pode nos deixar.

Mas a mulher já estava morta, a polícia ainda não havia sido chamada e a festa de aniversário da filha teria de ser adiada indefinidamente. Lisa uivava, pranteando a dona falecida.

Antônio consultou o relógio, em meia hora, Juliana chegaria da aula de balé. Ligou para a emergência, chorando, repetia que mulher não estava respirando, deu endereço, telefone, sem muita clareza, sem muita certeza de que estava passando os dados corretamente. Em seguida, ligou para a polícia, relatou o assassinato, e conjeturou que o criminoso talvez ainda estivesse nas redondezas. Por fim, ligou para o celular da filha.

— O que aconteceu, pai?

— Ju, um acidente. Sua mãe não está nada bem. Vá para a casa da Rafaela e fique lá até eu te ligar, mais tarde, OK?

— É algo sério?

— Bem sério, mas tudo vai ficar bem. Confie em mim.

Os paramédicos chegaram e logo constataram que não podiam fazer nada. A polícia também apareceu, isolou o local e fez perguntas a Antônio. O rabecão do IML levou o corpo.

Por ser uma cena de crime, Antônio foi autorizado a juntar apenas uma muda de roupas e a cachorra. Passou pela casa de Rafaela, para conversar com Juliana.

— Como a mãe está?

— Amanhã você vai vê-la, Ju. Temos de ser fortes... — ele abraçou a filha, beijou-lhe a fronte — Durma aqui hoje à noite. Estarei na casa da tia Paula. Se precisar de alguma coisa, ligue.

De fato, na casa da irmã, Antônio só deixou a traumatizada cadelinha e voltou para a cena do crime. Subiu até seu andar e refez todos seus passos, do momento em que saiu da casa, deu a volta no quarteirão, e retornou ao apartamento. Tentou rememorar qualquer imagem inusitada, ou pessoa estranha entrando ou saindo do prédio. Mas nada.

O ideal seria aguardar a perícia policial.

Mas a polícia também não tinha nenhuma conclusão satisfatória, sem digitais, sem quaisquer indícios de arrombamento (é óbvio, a porta estava aberta), sem testemunhas, sem suspeitos, ou seja, de antemão, um crime insolúvel.

Este tipo de resposta jamais satisfaria Antônio. Sua mulher foi assassinada, porra! O mínimo que ele queria era pôr as mãos no culpado, e que ele apodrecesse na cadeia!

Naquela manhã, Juliana viu o cadáver da mãe, chorou muito. Implorou ao pai que descobrisse quem era o assassino, ele jurou que o faria, abraçaram-se.

Maria foi velada, vieram parentes de longe, primos, tios, pai, mãe; pãozinho francês com margarina sendo mastigado na copa da casa funerária, piadas sussurradas pelos cantos, rezas sobre a morta. Maria foi sepultada, os parentes voltaram para suas cidades, Juliana pra casa da tia Paula, e Antônio para seu apartamento, tentar cumprir com o que prometera à filha.

Perto da mesa de jantar, aquela mancha negra, sangue coagulado; Antônio se deitou sobre ela, na mesma posição em que encontrou a esposa; cerrou as pálpebras, respirou fundo. Há vinte anos não fazia isto, desde quando era um adolescente, crente em tudo que era esotérico ou místico. Havia praticado meditação, ioga e aspirado ao nirvana. Teve experiências estranhas, mas após se encontrar, possivelmente no plano astral, com um demônio, abandonou todas as crenças na imortalidade da alma, em reencarnação, e todas estas bobajadas que não passavam de devaneios da mente.

Mas que não eram devaneios porcaria nenhuma.

Ouvindo sua respiração, livrando-se dos pensamentos, aquietando a angústia de seu coração, Antônio começou a voltar, mentalmente, no tempo.

Uma hora atrás, a poça no chão.

Duas horas atrás, a poça no chão.

Um dia atrás, a poça no chão.

Dois dias atrás, ele, ao lado da esposa morta.

Minutos antes, Maria, esvaindo-se em sangue, agonizando.

Antes, um homem, mascarado, luvas, faca na mão, degolando Maria.

Antes, ele, pondo a guia em Lisa e saindo.

Antes, ele, coçando o saco diante da TV.

Antes, o casal almoçando.

Antes, Juliana saindo de casa para ir ao balé.

Antes, Maria e Antônio se espreguiçando na cama.

Antes, Antônio roncando, Maria se masturbando em silêncio.

Antônio abriu os olhos, donde lágrimas escorriam. O sol nascia pela persiana da janela da sala; olhou ao seu redor, e a cozinha estava diferente de quando ele havia chegado; a mancha no chão, havia desaparecido. Ele se levantou, caminhou até o quarto e gentilmente abriu a porta, ele e Maria dormiam.

Não era sua mente que havia voltado no tempo apenas, era ele, em pessoa, que havia voltado. O coração de Antônio saltou no peito. Estava aí uma oportunidade não somente para descobrir o assassino, como para também evitar o crime.

Ele tinha de descobrir um lugar para se esconder, naquele apartamento minúsculo.

Lembrou-se que Juliana sairia de casa antes que ele e Maria deixassem o quarto. Por isto, sentou-se em silêncio na sala, pegou um livro com capa reluzente (nunca sequer havia sido folheado antes) e fingiu ler.

A porta do quarto de Juliana se abriu e a menina saiu, pijamas e remelas:

— Nossa, pai, você está lendo? E nestas horas da manhã!

— Sempre há hora para se começar a criar o hábito. Talvez você também devesse tentar.

— Sai fora, pai! — Juliana riu, e desapareceu no banheiro, xixizinho e escovar de dentes.

A menina se trocou e saiu, bolsa com vestido e sapatilhas a tiracolo.

— Tchau, pai, te amo!

— Eu também, Ju, se cuida.

Aproveitou e se atocaiou no quarto da filha, ele e a esposa nunca entravam lá, então, seria um bom esconderijo para aguardar até o momento do crime. Conferiu o relógio, faltava bastante tempo ainda.

Olhou pela janela, o mundo corria normalmente lá fora, o tempo em seu ritmo normal, realmente não era devaneio, Antônio havia voltado. Ele sorriu.

Ouviu ruídos na cozinha, Maria preparava o almoço. A televisão foi ligada, era ele assistindo TV. Ruído de talheres, almoçavam. Arroto na sala, Antônio coçava o saco na sala. Lisa acordou, raspava na porta do quarto de Juliana.

— Amor, o que a Lisa quer ali? — Antônio perguntou.

— Não sei. Dá um biscoito que ela esquece — dito e feito, Lisa não mais arranhou a porta.

Alguns minutos depois, Antônio ouviu a voz de Maria falando para Antônio:

— Lisa quer sair para fazer cocô, querido.

Antônio na sala de levantou, preguiçoso; Antônio, escondido no quarto, encostou o ouvido na porta; Antônio pôs a guia na cadela, saía.

— Vou deixar a porta aberta, ‘tá? Já voltamos — disse Antônio.

Maria pediu que Antônio não deixasse Lisa mijar em frente à pizzaria, Antônio respondeu que ela mijaria onde quisesse. Saiu.

Antônio, no quarto da filha, abriu uma fresta na porta. Agora, vinha a questão, o assassino estava armado, ele, mãos nuas. Percorreu o quarto de Juliana à procura duma arma: o porquinho de moedas? Não! Os patins roller? Não! A raquete de tênis? Aí estávamos começando a conversar.

Antônio se pôs à espreita, raquete na mão, aguardando o momento certo.

Alguém entrou no apartamento.

— Amor, já voltou? — Maria perguntou da cozinha.

O bandido botou a faca no pescoço de Maria:

— Não grita não, moça! É só abrir as pernas, é rapidinho.

Enfurecido, Antônio correu para fora do quarto, raquete pronta para atingir a cabeça do bandido.

O criminoso deslizou a faca no pescoço de Maria, sangue escorreu. Num malfadado golpe, Antônio atingiu o ombro do assassino, este respondeu metendo a faca no bucho de Antônio. Ele caiu; o assassino fugiu.

Antônio, agonizando, abraçou Maria, agonizando. Morreram, juntos.

Antônio volta do rápido passeio com Lisa, abre a porta e encontra dois corpos, um da sua esposa, o outro, dele mesmo.

Desaba a chorar, mas não sabe se pela esposa morta, ou se por ver-se morto estando vivo.

2 comentários:

Bruno disse...

Boa narrativa.

Marco Fortezza disse...

Gostei, vou passar por aqui de vez em quando.