terça-feira, maio 29, 2007

O Abraço

Como poderia me esquecer da primeira vez que vi Mariana?

Um colega de trabalho, empolgado com os rumores, me arrastou ao apartamento dela. Na cozinha, uma dezena de outros homens, silenciosos, fitando a menininha pré-adolescente, frágil, marias-chiquinhas, olhar vazio.

A mãe dela nos instigava a começarmos.

— Podem fazer o que quiser com Mariana. Eu lhes garanto que ela não sentirá nada.

Um tal de João, caminhoneiro, boné e tatuagem no braço roliço, se adiantou. Diante da menina, hesitava:

— Ô, dona, já ouvi muita histórias sobre sua filha e vim ver com meus próprios olhos. Mas não quero machucá-la.

— Vá em frente, João, ela vai agüentar. — a mãe respondeu.

O bruto estalou os dedos, e esmurrou Mariana na cara. Sem se mover, nem gemido, nem hematoma, Mariana permanecia impassível. João prosseguiu na pancadaria, socos, tapas, empurrões e chutes. Mariana, ao contrário do esperado — choros, gritos e ossos quebrados —, respondeu com apenas um erguer de braços, queria abraçar João.

O coração se apertou no meu peito. Aquela menina, com talvez onze ou doze anos, dava a mais profunda lição de cristianismo: sendo atacada, amava seu inimigo; apanhando, dava a outra face.

Ofegante, após haver espancando Mariana no chão, pisado-lhe a cabeça e o corpinho, João aguardou que ela se levantasse, completamente incólume.

— Inacreditável! — ele balbuciou.

— Quem é o próximo? — indagou a mãe contente, recebendo dez reais do caminhoneiro.

A imagem daquela menina me assombrou por dias, a cena dela apanhando dum homem atrás do outro, sempre com aquele olhar sem vida, com os braços lânguidos ensaiando um abraço, pele e ossos que pareciam borracha, invulneráveis à dor e ao dano.

Amaldiçoei meu colega por ter me levado até ela e pedi para que não me convidasse mais. Aos poucos, a recordação daquela noite foi se apagando.

Porém, um circo foi montado na cidade e prometi à minha irmã que levaria meus sobrinhos para verem o palhaço e o elefante.

— Queremos ver a menina-borracha! — meus sobrinhos gritaram em uníssono quando viram o cartaz com uma menina franzina sendo atingida pelo soco dum truculento. Mariana me escapou das trevas do inconsciente.

Pagamos os dois reais do ingresso e adentramos a tenda. Vislumbrei a mãe de Mariana num canto, ao lado do palco, e isto me deu a certeza de que a menina-borracha e Mariana eram a mesma pessoa. A demonstração circense foi muito parecida com à daquela noite na cozinha: homens fortes esmurrando uma menina indefesa, cuja única reação era um abraço irrealizável.

Creio que foi naquela noite que tomei a decisão de matá-la. Mariana não tinha um semblante triste, mas era como se ela não existisse. Talvez ela padecesse de alguma disfunção rara, que não a permitisse sentir nada, nem dor, nem prazer também. Qual sentido há em ser apenas uma pedra, sem sensações, sem toque? A vontade de matá-la era compaixão em mim. Enquanto a mãe queria explorar sua doença, eu, um estranho, queria salvá-la dela.

Posteriormente, a visão de Mariana na TV, recebendo o mesmo tratamento que a vi tendo nas vezes anterior, reforçou minha decisão.

Aguardei na rua, diante do prédio. Ao ver a mãe de Mariana saindo, corri e subi até o oitavo andar. Bati à porta e quem abriu foi Mariana, sem dizer palavra e oculta pela penumbra. As luzes estavam apagadas e a única claridade fugidia era da televisão acesa na sala.

Sem se importar comigo, Mariana caminhou em direção à sala. Entrei, fechei a porta, retirei a faca da cintura e sussurrei:

— Mariana, vim libertar você.

Ela se virou e, com um olhar mais impenetrável do que antes, me respondeu:

— Tolo! Você nunca conseguirá o que quer.

Ouvir sua voz fez minhas pernas tremerem. Aquela não era voz dum ser humano, muito menos duma menininha de doze anos. Tive medo, mas, mesmo assim, caminhei em direção a ela. Ao ver-me me aproximando, Mariana estendeu os braços, aquele abraço que sempre considerei como sendo uma resposta de amor extremo, mas eu sabia, agora, que aquele era um abraço de ódio. Mariana não tinha doença alguma, ela não era humana; se existisse o diabo, ou alguma entidade malévola, Mariana seria a encarnação dele.

Acertei a primeira facada no pescoço da menina. Ela abraçou minha cintura. Esfaqueei-a na cabeça, mas, assim como acontecia com socos, não consegui machucá-la; por outro lado, o abraço dela era forte, tão forte que eu quase perdia o fôlego. E quanto mais eu tentava feri-la, mais forte ela apertava. Mariana me fitava com os olhos vazios e, pela única vez desde que eu a conheci, ela me deu um sorriso. Eu havia vindo para libertá-la, mas o aprisionado era eu. Mariana não era o reflexo do amor incondicional, ela era a expressão do ódio.

Na manhã seguinte, a mãe de Mariana me encontrou, sem vida, nos braços dela, coluna vertebral estraçalhada, órgãos esmagados. A perícia policial foi conclusiva em favor de Mariana, legítima defesa — faca com minhas digitais.

Todos sabiam do poder que a menina tinha para resistir aos ataques, mas ninguém conhecia a força sobrenatural dela. Por isso, daquele dia em diante, nas demonstrações públicas de Mariana, as mãos delas eram amarradas nas costas. Os abraços cristãos enquanto apanhava, não mais.

terça-feira, maio 22, 2007

Capítulos 1


Elijah Abramanoviecz, cumulado de anos, decidiu contar sua história, desde criança em Varsóvia, pelo gueto e humilhação do Reich, até a fuga para a América e os filhos que lá teve.

Sentou-se para escrever seu livro, começando pelo começo e traçando toda a genealogia que conhecia de sua família. Como rabi Solomon Abramanón, seu mais antigo antepassado, foi perseguido em Madri no século XVI pelo Santo Ofício e como, muitos séculos mais tarde, seu pai, Isaac Abramanoviecz cuidava de sua barbearia e, um dia, conhecera Rebeca Steinberg, filha de um industrial alemão, com a qual se casaria posteriormente e, de cujo amor, ele, Elijah, nasceria.

Mas aquele longo capítulo, não o satisfez. Mais uma catalogação de memórias pretéritas do que um livro autobiográfico, o ritmo moroso e a abundância de detalhes enfadariam os supostos leitores.

Contar pelo fim pareceu ser a melhor opção: relatar como ele, Elijah, cabalista de Nova York, tomou a resolução de abrir o livro de sua vida para os outros. De todo o esforço davídico por conquistar o universo das palavras e expor, com toda a sinceridade de seu ser, as lições que aprendera da vida.

No entanto, este princípio, que prenunciava um longo flashback no qual sua história se desenrolaria, também não o agradou.

Rascunhou um novo capítulo, desde o momento em que ele leu pela primeira vez o Sepher Yetzerah e, ainda jovem, recém-saído de seu bar Mitzva, iniciou seus estudos dos sephirots e dos nomes de Deus.

Um princípio tão hermético e abstruso, detalhando anos de aprendizado cabalístico, mais se assemelhava a um dos milhares de livros sobre ocultismo do que o que Elijah realmente pretendia.

Tentou novos começos, e a cada tentativa novos obstáculos e objeções surgiam. Nem o relato de seu matrimônio, nem os anos na escola torânica, nem os medos em Treblinka, nem a cegueira parcial, nem a infância tranqüila, nem o deslumbramento na Big Apple da década de cinqüenta. A cada novo começo, um novo fracasso.

Então, ao reler as setecentas páginas que havia composto nos últimos sete meses, Elijah Abramanoviecz constatou que toda sua vida esta ali. Não somente como ele a relembrava, linearmente, como o grande projeto de Yahweh para os homens, mas ciclicamente, com falsos começos e finais mentirosos, tal qual os projetos irrealizados dos homens, que quando fazem uma escolha, deixam para trás um leque de outras perdidas, como o projetar-se existencial de Heidegger, e como os círculos concêntricos de rememoração, os mesmos que motivaram Proust e Henri Bergson; aqueles círculos que se afastam de nós e, quando retornam, vêem como se não mais nossos fossem, estranhos a nós, apesar de nos pertencer.

No entanto, o que mais surpreendeu Elijah é que, em meio a todos aqueles capítulos um, havia um que ele sequer se recordava de haver redigido, aquele no qual ele narrava sua própria morte e aqueles que ao seu funeral atenderiam e como ele voltaria a fazer parte do mistério cósmico que um dia o concebeu, deixando de ser o cabalista de Nova York e tornando-se aquele que pode escrever o próprio futuro.

quarta-feira, maio 16, 2007

A Pirâmide do Mundo

Tudo não passou de uma questão de espaço.

As cidades cresceram, lançando seus braços de asfalto por todas as direções, fábricas, comércios, residências, metrôs, trens, aeroportos. Cresceram tanto que se fundiram, confundiam-se, não se podia mais definir onde uma acabava e outra começava.

A primeira megalópole surgiu no Japão, também conhecida como Tokyoto (a aglomeração das cidades de Tóquio, Nagoya, Osaka, Kobe e Kyoto). Tal fenômeno logo se reproduziu na costa leste dos Estados Unidos — quando Boston, Nova York, Filadélfia, Baltimore e Washington deixaram de ser consideradas como cidades individuais e adotaram a nova nomenclatura de BosWash —, na Europa ocidental, nas margens do Rio Indo, Xangai e na Coréia do Sul.

Mesmo com o meio de transporte mais veloz, ainda se levava mais de três horas para cruzar tais cidades de um extremo ao outro.

Quando a expansão horizontal não se tornou mais possível, tanto por limites geográficos quanto pela conclusão de que o crescimento populacional jamais poderia ser detido, qualquer um familiarizado com a teoria malthusiana conhece as noções de progressão geométrica da população, engenheiros deliberaram que o melhor seria iniciar as construções de arcologias, um dos sonhos mais bizarros e fascinantes da ficção científica. Grandes monstruosidades de concreto, aço e vidro se ergueram em meio às intermináveis cidades.

O que se pretendia como sendo uma solução, demonstrou ser mais um agravante ao problema. Uma atrás do outra, as arcologias se ergueram e, ao invés de reduzir o espaço que as cidades ocupavam, passaram a arrebanhar mais habitantes e, das dezenas de milhões, tais megalópoles atingiram, facilmente, a marca de centenas de milhões de habitantes. E, quando não havia mais espaço para se construir arcologias, a solução foi adicionar novos andares, novos subsolos, aos já existentes, até o ponto em que nem isto mais foi possível, ao risco da estrutura não suportar o próprio peso.

Mesmo assim, a população não deixou de aumentar. As arcologias, tão belas, sistemáticas e organizadas no princípio, se tornaram superlotadas. Andares que acomodavam, no máximo, cinqüenta mil moradores, recebiam cento e cinqüenta, duzentos mil.

Em certo momento, a população das arcologias se tornou tão numerosa que eles, os edifícios, receberam o estatuto de cidades; posteriormente, os andares, por causa de suas imensas populações, também se tornaram cidades, enquanto os edifícios, estados.

Os moradores dos andares altos, das suntuosas coberturas, solicitavam à administração estadual mais espaço, queriam desalojar os moradores duma cidade inteira — entenda-se andar — para construírem um campo de golfe.

Quando a autorização foi dada pela administração e a ordem de despejo afixada nas portas de todas as habitações, a revolta se instaurou.

— Para onde eles iriam?

Certamente, uma pergunta sem resposta, pois não havia mais espaço.

O exército foi acionado, mas encontrou resistência. Mais tropas enviadas, porém, os rebeldes receberam reforços de outros andares inferiores, que temiam que a gana expansionista dos andares superiores também os atingissem, num negro futuro não muito distante. Isto era a guerra civil.

Os combates duraram anos. Desesperados com as derrotas, os ricos tomaram uma decisão drástica — toneladas de explosivos foram estrategicamente alocados nos andares inferiores e, com uma ordem do Comando Geral de Guerra, detonados.

Como uma resolução tão estúpida foi considerada e executada é um mistério sepultado com a arcologia, que implodiu com seus vários milhões de moradores.

Nenhum campo de golfe jamais foi construído.