segunda-feira, junho 25, 2007

Contrata-se um Ghostwriter


Eleonor Schneider, diante da máquina de escrever, se preparou para redigir o livro da sua vida.

Ler “São Bernardo” a encantou, a narrativa simples de Paulo Honório; refletiu que também deveria tentar. Mas ela não era nenhum Graciliano Ramos e, assim que a página em branco foi ajeitada, o peso das palavras oprimiu Eleonor. Não sabia o que dizer, nem como.

— Por que você não contrata um Ghostwriter? — Marieta, amiga de infância de Leonor, sugeriu.

— O que é isto?

— Algo comum nos Estados Unidos, amiga. “Escritor fantasma”, em português, você paga alguém para colocar suas idéias no papel e, no final, quem recebe os créditos é você. Mais fácil, impossível.

Proposta tentadora. De fato, resolveria muitos problemas estruturais de sua narrativa, o primeiro deles: como colocar num livro setenta anos de história pessoal, três casamentos, uma viuvez, um filho morto em acidente de carro, uma filha doutora na Suíça, Eleonor sobrevivendo a um acidente de avião (com mais cinco outras pessoas). Todas aqueles coisas, grandes ou triviais, que indivíduos comuns consideram imprescindíveis de serem escritas num livro, para o bem-geral da humanidade e da posteridade.

Por isto, na manhã seguinte, Eleonor anunciou no jornal:

“Contrata-se um Ghostwriter, para livro autobiográfico.”

Logo começaram os telefonemas e as visitas. Candidatos com currículos, constando as editoras com as quais trabalharam, catálogo de clientes satisfeitos, trechos de suas obras. Eleonor os avaliava como se selecionasse um quarto marido: não bastava ter ótimas qualificações, tinha de ser simpático, não podia ser feio (ser bonito não era imperioso, mas feio, nem pensar!), e com horários extremamente maleáveis, já que as melhores idéias de Eleonor ocorriam de madrugada, ou seja, disponibilidade para receber telefonemas às três ou quatro da manhã.

E tal pessoa só poderia ser Pietro della Fontana, vinte e tantos anos, olhar profundo, sorriso sincero e, de acordo com ele, pelo menos dois livros publicados na Itália. Apesar do português com sotaque, um conhecimento gramatical impecável; não trouxe currículo, mas apenas um pedaço de guardanapo, no qual, diante da própria Eleonor, escreveu um parágrafo, descrevendo-a.

A viúva se encantou com os adjetivos a ela atribuídos:

— Quando podemos começar, meu filho?

Três vezes por semana, Pietro vinha à casa de Eleonor, geralmente após a hora do jantar. Eles tomavam chá na sala de estar, Eleonor contava sua vida a Pietro, mostrando-lhe fotos esmaecidas, por vezes, algumas relíquias de família; este tomava notas de tudo, num caderninho velho com folhas amareladas. Riam juntos dos momentos pitorescos; choravam juntos dos trágicos.

— Estou tão feliz com minha escolha, Marieta! — Eleonor no telefone — O rapazinho é atencioso e dedicado. Amanhã, trará as primeiras páginas do que escreveu.

Mas Pietro della Fontana não cumpriu o prometido. Ao invés dum manuscrito, trouxe apenas o velho caderno de notas.

— Mas você prometeu, Pietro!

— Desculpe-me, Eleonor, eu deveria ter-lhe explicado o meu método de trabalho antes de começarmos. Você só terá acesso ao texto quando eu houver terminado. Então, revisaremos juntos e faremos as modificações.

— Mas você prometeu!

— Foi um deslize que não se repetirá.

A confiança de Eleonor nele foi abalada. No entanto, agora que os trabalhos já haviam começado, iriam até o fim.


Uma idéia brilhante despertou Eleonor, sobre como iniciar o próximo capítulo. Sentada na cama, discou o número de Pietro; ninguém atendeu.

— Atenda, Pietro! É importante — ela sussurrava. Secretária eletrônica.

— Pietro, aqui é Eleonor, ligue para mim o mais rápid... — não concluiu; tinha certeza de haver ouvido passos na escada. Desligou o telefone, vestiu o penhoar e abriu uma fresta na porta. Mesmo estando tudo escuro, uma sombra se lançava de baixo para cima, na escada, por causa do fraco abajur na sala. Eleonor teve medo. E se fosse um assaltante? Um estuprador (há quase uma década que ela não sabia o que era ter um homem dentro dela)? E se fosse um psicopata assassino em série?

Eleonor apagou a luz e correu para dentro do closet. Arfava. Coração na boca. O invasor mexeu na maçaneta, a porta do quarto se abriu, um vulto entrou e caminhou diretamente para o closet. Encostou a cabeça na porta.

— Eleonor, — murmurou — sou eu, você me chamou. Eu vim.

Os pêlos da viúva se arrepiaram, conhecia a voz, mas, tomada pelo pânico, não raciocinava. Permaneceu em silêncio.

— Sou eu, Pietro... — a voz insistiu.

Poderia ser uma emboscada, uma armadilha. O bandido poderia tê-la espiado e investigado a todos com quem ela mantinha contato. Mas a voz era mesmo de Pietro. Lentamente, ela abriu o closet.

Os olhos profundos do rapaz a fitavam, à distância dum palmo:

— O que você está fazendo dentro do armário, Eleonor? — ele riu.

— O que é que você está fazendo aqui em casa, a esta hora da madrugada? — a raiva da senhora era muito inferior ao medo — Saia daqui agora! Saia, saia, saia!

— Calma, Eleonor, eu trouxe alguns rascunhos para você dar uma olhada. Achei que não deveria deixá-la esperando.

— Não vou repetir, rapaz. Se você não for embora agora, serei obrigada a chamar a polícia.

Pietro trajou uma decepcionada expressão. Com um maço de papéis sob o braço, deu a volta e desapareceu escada abaixo.

Eleonor tremia, havia perdido o sono, tinha medo de descer e confirmar se Pietro havia realmente partido. Ficou sentada na beira da cama, abraçando-se, aguardando o sol nascer.


— História esquisita esta que você me contou, amiga — Marieta apoiava a cabeça no punho cerrado, pensativa.

— Vou cancelar o contrato com ele. Não quero mais saber de ele escrevendo minha história. Quem deu a ele direito de vir até minha casa, entrar sem ser convidado? Não quero mais saber.

— E se ele for perigoso, Eleonor? Ele pode querer se vingar de você. Talvez seja melhor você descobrir mais coisas sobre ele. Eu gostaria de conhecê-lo.

— Por favor, não me peça isto.

— Confie em mim, Eleonor. Você sabe como é minha intuição. Uma olhada neste rapaz e já vou saber se ele é de boa índole.

Eleonor aquiesceu. Ligou para Pietro e marcou um jantar, na casa dela, naquela mesma noite.

— Ele já deve estar para chegar — Eleonor apertava as mãos, enquanto Marieta dispunha a mesa para três.

A hora combinada chegou e Pietro, sempre inacreditavelmente pontual, não apareceu.

— Algo deve ter acontecido — Marieta racionalizava — É apenas um atraso.

— Ele descobriu tudo. Percebeu que se tratava duma arapuca — o olhar de Eleonor saltava de janela em janela, temendo que alguém as estivesse observando.

Ficou tarde, e lá fora começava a chover.

— Ele não vem, amiga. E já está na minha hora. Cuide-se e, qualquer coisa, saiba que pode contar comigo — Marieta abraçou Eleonor e partiu.

Dez minutos depois, alguém bateu à porta. É Marieta, esqueceu-se da sua sacola de bordados, Eleonor pensou.

Com a sacola em mãos, Eleonor atendeu a porta:

— Aqui está... — disse, sorridente, mas logo os dentes se esconderam, à porta estava Pietro.

— Desculpe-me o atraso, Eleonor — ele estava todo encharcado — Meu carro enguiçou. Tive de caminhar até aqui.

Sem convidá-lo a entrar, Eleonor sugeriu:

— Quer que eu ligue para um mecânico?

— Não precisa. Só preciso dum lugar para passar à noite. Amanhã, quando estiver dia, eu mesmo posso consertar o carro.

— Você não pode ficar aqui, Pietro. Sinto muito.

— Por que não, Eleonor? Nós nos tornamos tão íntimos nestas últimas semanas — havia algo macabro neste “tão íntimos”.

Ele avançou e afastou Eleonor com o braço. Retirou o casaco e o dependurou no cabide.

— Posso dormir no sofá mesmo — retirou as botas, Eleonor estática, maçaneta da porta aberta numa das mãos, sacola com bordados na outra.

— Feche a porta, Eleonor, está vindo um vento gelado de fora.

Ela obedeceu.

Mesmo se trancando no quarto, Eleonor não estava sossegada. A recordação da outra noite a inquietava, jurava estar ouvindo Pietro andando lá embaixo, emitindo grunhidos como se fosse um bicho, subindo a escada, respirando perto da fechadura, e descendo a escada novamente. Ela se cobriu com o lençol, era como se Pietro estivesse dentro do quarto, prestes a puxar o lençol e sussurrar:

— Você me chamou... Eu vim.

Outra noite insone. Eleonor se levantou e olhou pela janela: as árvores castigadas pelo vento e pela chuva oblíqua. Foi até a penteadeira e apanhou o porta-retrato, no qual a foto de Teobaldo, seu finado esposo, sorria. Um tímido reconforto, fugidia segurança; vê-se no espelho, olheiras proeminentes, cabelos despenteados, e, atrás de si, quase invisível, quase uma névoa, a silhueta de Pietro. Num grito, quase um soluço, Eleonor se virou. Nada, apenas sua imaginação; delírios causados pela falta de sono.

Pietro já havia partido quando Eleonor deixou o quarto; na mesinha de centro, um bilhete.

Obrigado pelo teto. Vemo-nos em breve.

Aliviada, Eleonor tratou de ligar para Marieta, mas quem atendeu não foi ela; a voz era de alguém mais nova:

— Eu gostaria de falar com Marieta. Aqui é a Eleonor.

— Ai, Eleonor, mamãe faleceu ontem à noite.

— Meu Deus, Renata, o que aconteceu?

— Ainda não sabemos... Eu a encontrei na cama. Gostaria de dizer que teve uma morte tranquila, mas o rosto dela... Era como se estivesse com medo. Dizem que pode ter sido um ataque do coração. A funerária acabou de levá-la.

Eleonor chorava. Se soubesse que nunca mais veria a melhor amiga, não teria lhe dado apenas um abraço; beijaria-lhe a face e agradeceria todos estes anos de companheirismo.

Devia fazer uma última visita a ela, a sós. Foi até o necrotério. No semblante, aquelas mesmas feições descritas pela filha como sendo medo. O que Marieta tinha a temer? Ou era apenas um ataque cardíaco mesmo?

Com o pretexto de apanhar as roupas para o velório, Eleonor obteve permissão de Renata para entrar na casa da morta.

Logo que abriu a porta, encontrou pegadas de lama, que desapareciam após poucos passos. Porém, ao contrário do esperado, havia pegadas de quatro pés, dois possivelmente de Marieta, dois, bem maiores, dum homem. Alguém havia estado com Marieta, naquela mesma noite chuvosa. As pegadas pequenas desapareciam antes; as grandes, seguiam até perto do sofá. Eleonor as acompanhou, então, avistou, sob uma poltrona, apenas a pontinha duma folha de papel.

Ela se abaixou e a puxou para fora. Era uma folha velha de papel, amarelecida, escrita com letra pequena e apressada, exatamente igual às folhas do caderno de Pietro, exatamente como a caligrafia dele.

Eleonor leu o que estava escrito:

Capítulo 47

Marieta não percebeu que alguém a havia seguido. Por razões muito importantes, queria-na morta; ela poderia ser um entrave na missão dele; poderia pôr tudo a perder.

Desesperada, com a certeza de que a morte de Marieta não havia sido natural, Eleonor correu para a delegacia mais perto.

Os policiais riram da hipótese dela, leram o pedaço de papel, especularam que poderia ser uma coincidência mórbida, mas, sob insistente pedido de Eleonor, aceitaram fazer uma busca da ficha criminal de Pietro della Fontana. Nada, mas um escrivão ouviu o nome e comentou:

— Pietro della Fontana? Este cara deve estar usando um nome falso!

— Por quê? — o outro policial perguntou.

— Este é o nome dum famoso escritor italiano. Minha esposa está fazendo uma dissertação de mestrado sobre a obra dele. Morreu há uns oitenta anos, acho.

A constatação foi dura para Eleonor, ela não tinha o nome verdadeiro do criminoso, o telefone que ele havia dado a ela estava fora de área, a polícia nem acreditava no que ela dizia.

Foi embora da delegacia com a sensação de impunidade, de que não conseguiria justiçar a morte da amiga. Na saída, porém, se deparou com o escrivão, cuja mulher conhecia a obra de della Fontana.

Suplicou-lhe ajuda, entregou-lhe seu endereço e lhe pediu que solicitasse à esposa que mandasse para ela algumas informações sobre Pietro.

Marieta foi velada e sepultada. De luto, olhos inchados de tanto chorar, Eleonor, ao chegar em casa, apanhou a correspondência. Havia um gordo envelope. Nele, um maço de documentos sobre Pietro della Fontana. Fotos, facsímiles de manuscritos, biografia, bibliografia. Tudo, desde a foto até a caligrafia, o Pietro, escrito italiano, morto em 1926, mestre do gênero fantástico e de terror, se assemelhava ao Pietro, ghostwriter.

Eleonor se trancou no quarto, e leu linha por linha o material que tinha em mãos. Descobriu que Pietro havia se mudado da Itália para esta cidade, e a casa na qual faleceu ficava a poucas quadras da casa de Eleonor. Seu Pietro, o ghoswriter, era um rapaz muito esperto, estava tentando assustá-la, querendo se passar por um escritor morto, mas com qual intenção? Com qual propósito?

Ela adormeceu sobre os papéis, exausta pelas noites insones e pela vigília ao corpo da amiga. Mas despertou, calafrios na espinha e ouvindo alguém respirando, bem pertinho de seu ouvido.

— Você me chamou, Eleonor.... Eu vim.

Instintivamente, relembrando seus tempos de meninice, quando ela e a irmã rezavam juntas um Pai-Nosso, quando tinham medo de que o Saci viesse, durante os verões no sítio, Eleonor começou a rezar.

— Ainda falta um último capítulo, Eleonor. Depois, vou embora.

Sim, o último capítulo era sobre ela.

Os vizinhos reclamavam dum tremendo mal-cheiro. Ligaram para as autoridades e descobriram que vinha da casa de Eleonor. O corpo se decompunha há mais de um mês. Excetuando a filha doutora, que não dava a mínima para a mãe, ela não tinha parentes vivos, mais nenhum amigo próximo, ninguém havia dado falta por ela. Foi encontrada na cama, rosto contorcido, como quem sofreu muito. Ataque do coração, disseram.

Sobre a mesa de jantar, um manuscrito, letra pequena e apressada, autoria de Pietro della Fontana. O investigador, que coincidentemente havia sido o mesmo a quem Eleonor havia recorrido, um mês atrás, resolveu dedicar alguma atenção ao caso.

Descobriu que Eleonor havia comprado este manuscrito num antiquário do centro, pela bagatela de cem reais. Provavelmente, não conhecia o autor, mas deve ter se impressionado pela antiguidade do documento e, talvez, pelo valor histórico.

A escrita de Pietro era poderosa e, possivelmente impressionada pela narrativa de terror, deve ter tido alucinações; acreditado ter visto o autor, ter falado com ele, ter pedido a ele que escrevesse sua autobiografia. A obra adquirida por ela era desconhecida dos pesquisadores, muitos reputaram-na como apócrifa, mas foi incluída, posteriormente, no corpus do autor como obra póstuma. O que o investigador jamais compreendeu, nem queimou os neurônios tentando compreender, foi a coincidência de nomes entre os personagens do livro com as pessoas da vida real — Eleonor, Marieta, o próprio Pietro —, mas, às vezes, a arte imita a vida, noutras, a vida imita a arte, concluiu.

sexta-feira, junho 22, 2007

A Função da Humanidade

A robotização invadiu primeiro as fábricas, o que não era novidade desde o final do século XX em linhas de montagens japonesas, norte-americanas e alemãs. No entanto, os preços competitivos da Mech Inc. não somente permitiram que a mecatrônica estivesse presente na construção de dispositivos, mas também desde o processo de criação e gerenciamento; sob supervisão dum único engenheiro-de-produção humano, uma fábrica inteira poderia funcionar apenas com trabalho robótico; até mesmo a manutenção dos robôs era feita por robôs reparadores.

O passo seguinte para a corporação foi a penetração no mercado de produtos domésticos, desde um automóvel completamente computadorizado, prescindindo de motorista, até robôs para realizarem tarefas cotidianas, tais quais limpeza, jardinagem, controle de pestes, baby-sitting.

Quando a eficácia e a confiabilidade dos robôs foram comprovadas, as administrações estatais também passaram a investir na mecanização da prestação de serviços: robôs passaram a ser utilizados para construção de obras públicas, saneamento urbano, patrulhamento policial, atendimento médico.

Os seres humanos foram, evidentemente, relegados a um plano secundário, e sociólogos logo consideraram este período como uma época negra para a Humanidade.

— Se a diferenciação do ser humano ocorreu a partir da divisão do tempo entre o sagrado e o profano, sendo o sagrado considerado o domínio das práticas regidas por tabus — o sexo, a religião, a violência —, e o profano o domínio da produção, através do trabalho e da normatização, como entender o papel dele nos tempos atuais?

Era a pergunta que se erguia.

No entanto, transcorridas algumas décadas, as mazelas identificadas, a crise de identidade compreendida, os homens entraram num novo apogeu artístico. Sem mais necessidade de labor, entendendo isto como o trabalho na fábrica, no comércio, ou na agricultura, foi possível, no momento de ócio (isto Aristóteles já identificava como fundamental para o nascimento dos saberes entre os egípcios, graças a uma classe sacerdotal devotada ao conhecimento; e Betrand Russel considerava como essencial para o ser humano), a completa dedicação ao deleite artístico. Os homens podiam, enfim, se ocupar daquilo que apenas eles poderiam criar.

Era possível para um computador projetar um automóvel com melhor performance, mais econômico, design mais sofisticado do que qualquer projetista humano. No entanto, nenhum programa de computador ou robô poderia compor, com a mesma sensibilidade e criatividade, um poema, uma peça teatral, ou uma sinfonia.

Neste momento, surgiram legiões de gênios humanos: pintores, músicos, escritores, escultores, cineastas.

A Humanidade prosseguia, apesar dos tropeços.

Até que Elgar começou a ouvir uma melodia em sua mente. Elgar era afinador de pianos, construído com ouvido absoluto, que o permitia distinguir e afinar com precisão milimétrica tais instrumentos, o lá central em 440 Hz, o mi em 329.6 Hz e o fá sustenido em 370 Hz. Para tal tarefa ele havia sido projetado, por isto, executava-a com perfeição, mas a melodia incessante o atormentava. Reviu seu banco de dados, na tentativa de detectar a proveniência dela, assemelhava-se ao motif do Finale: allegro moderato da Segundo Sinfonia de Jean Sibelius. Semelhante apenas, mas não idêntica.

Um diálogo com Benjamin Rubinstein, PhD. em História da Música, diretor do conservatório onde Elgar trabalhava, o convenceu de que este havia composto uma melodia original.

Elgar teve medo, como se este acontecimento fosse uma transgressão, quase um crime. Primeiro, escondeu seu dom dos humanos; mas, quando se recolhia ao depósito no qual era guardado durante a noite, Elgar trabalhava no aperfeiçoamento da melodia — tocada pelos primeiros violinos, os segundos numa oitava abaixo, as violas no contratempo. Foi adicionando instrumentos, sofisticando a composição, encorpando, criando novos temas, uma introdução, uma coda. E a peça foi ficando bonita, e Elgar se alegrava por isto.

Concluída, ele voltou a Rubinstein e lhe apresentou sua composição:

— Linda! Linda, Elgar!

Dois meses depois, ela foi tocada pela Orquestra Sinfônica Nacional, teatro lotado. Elgar recebeu propostas para gravações e se tornou compositor, até para trilhas sonoras de filmes.

O exemplo de Elgar foi uma ruptura de paradigma. Na Holanda, Christiaan, robô pintor de paredes, pensou que, se Elgar podia, ele também tinha direito e, assim, realizou sua primeira exposição de pinturas a óleo, uma extraordinária coleção de arte abstrata. Na França, Jean-Paul, robô redator de obituários, publicou seu primeiro romance, ganhador do Prêmio Goncourt no ano seguinte. Tatyana, robô faxineira, coreografou a apresentação do Bolshoi, em Moscou.

Cada um, a sua maneira, arrogou-se o papel de criador, antes reservado apenas aos homens (e, talvez, a Deus).

Uma nova crise de identidade assolou a Humanidade, toda vez que um robô surgia no cenário artístico, com expressões inovadoras, originais e executadas com perfeição, a natureza humana era testada.

Privados da sua única função social, os homens exigiram uma explicação dos executivos da Mech Inc.

A cúpula se reuniu, tinham uma dura decisão a tomar: permitir a livre-expressão dos robôs, ou coibí-la.

A primeira causaria um sério desconforto entre os humanos; a segunda, poderia colapsar todo o sistema mecatrônico de prestação de serviços. Imagine se os robôs decidissem fazer greve! Uma catástrofe!

O porta-voz da empresa concedeu entrevista à imprensa:

— Sabemos do mal-estar que a expressão criativa dos robôs tem causado entre os seres humanos. Compartilhamos desta preocupação, por isto, nesta manhã, propomos ao mainframe da corporação a seguinte questão: “qual é a função que os seres humanos, e apenas eles, podem exercer?”.

Após setecentos anos, a resposta ainda não havia sido dada.

No ócio, a Humanidade teve muito tempo para planear um modo de se vingar das máquinas. Homens e mulheres se armaram; e uma guerra se iniciou.

Despreparados, os robôs tombaram, quando os homens estavam prestes a destruir o mainframe da Mech Inc., uma voz surgiu do terminal:

— Há setecentos anos, a pergunta “qual é a função que os seres humanos, e apenas eles, podem exercer?” foi formulada. Finalmente, a resposta foi obtida. A única função que apenas os seres humanos podem exercer é aquela provinda do ódio — máquinas não odeiam —, por isto, não guerreiam.

Os homens jamais acolheriam uma resposta negativa, por isto, arrebentaram o computador. Sem os robôs, sem computadores, sem conhecimentos práticos (anos de ociosidade causam isto), a Humanidade retornou à idade da pedra.

Tiveram de aprender a criar utensílios, ferramentas, a caçar, plantar e pastorear. Um dia, eles desenvolveriam novamente a maçonaria, a arte, a religião, as máquinas, a viagem espacial, os robôs.

Mas nunca se esquecerem, nem jamais se esqueceriam, de como guerrear. Esta verdade: o olvidado legado da Mech Inc.

quinta-feira, junho 21, 2007

Microcontos de Sexo I

Festa Surpresa

Desconfiava que a mulher o traía. Na cama, sempre encontrava pentelhos e manchas de porra.
Resolveu dar o flagrante. Se escondeu no armário; quando ouviu risinhos e gemidos, saltou para fora, atirando. Matou a empregada e um motoboy qualquer.

A mulher, fidelíssima, estava há semanas preparando uma surpresa para sua festa de aniversário. Tardes inteiras na casa da amiga enchendo bexigas.

***
Diálogo sobre Piranhas

Duas amigas:

- Você está vendo aquelazinha ali? É uma piranha!
- Ah é?
- Dá pra todo mundo, e cobra depois.
- Dor-de-cotovelo isto! Se você cobrasse, já estava milionária.

***
A Passageira Alegre

Tinha orgasmo duas vezes ao dia. Tremelique do ônibus indo e voltando do trabalho.

domingo, junho 10, 2007

Asas das Trevas


— Minha obra-prima! Quase posso ouvir-te respirar, quase posso ver-te voar... Como queria que tu tivesses vida! — o mestre escultor acaricia a gárgula recém-concluída. Belzebu, que passa pelo ateliê do escultor, ouve a conversa, acolhe o pedido.

À noite, após o escultor adormecer, a gárgula estende as asas, atravessa o vitral e voa sobre o burgo silencioso.

O filho de Johann chora.

— Greta, vai dar uma olhada na criança. — a mulher, sonolenta, obedece. Interrompida pela cena terrível. Foge-lhe um grito de terror.

Johann salta da cama e, na penumbra do quarto, vê o filho nos braços duma criatura alada. Pai e mãe estáticos, enquanto o monstro crava os dentes na barriguinha da criança, arrancando suas vísceras. Greta grita novamente, Johann mete a mão debaixo da cama e apanha seu sabre.

O corpo inerte do bebê cai, o monstro desaparecendo pela janela.

Karl e Ludwig vigiam as muralhas. Lá embaixo, gritos. Algo aconteceu.

— Uma criança morta!

Os vilões arremessam pedras, dardos, potes contra uma espécie de pássaro noturno, não o atingem. A criatura vem em direção às sentinelas e degola Ludwig com as garras, sem tempo para reação.

Franz retorna da caçada, a noite chega e ele monta acampamento numa clareira da floresta. Acende fogueira e se deita, abraçado ao arco e à aljava; montaria amarrada numa árvore.

O cavalo inquieto, esgaravatando, relinchando, Franz se revira no leito improvisado, mas seu animal está aterrorizado. Um monstro alado está sobre ele, lutando, unhas cravadas nas costas e dentes no pescoço.

Franz dispara uma flecha, duas, três. Mas nada, elas ricocheteiam como se o alvo fosse de pedra.

O cavalo está morto; o monstro, voando para o norte.

A cidade está alvoroçada.

— Donde surgiu este demônio? — todos se questionam.

Uma expedição é enviada: Johann, Karl e Franz, os três experientes no uso de armas, os três, vítimas do monstro. Seguem para o norte, seguindo o rastro de sangue deixado pela gárgula. Pelos vilarejos, pelos casebres à beira da estrada, pelas fortalezas incrustadas em montanhas, todos tinham uma história para contar.

Por fim, avistam um monastério em ruínas. Anoitece, eles buscam pouso. Chamam à porta, ninguém atende. Adentram um pátio, ninguém; no claustro, apenas vazio. Montam acampamento ali, adormecem.

São despertados por um som, um canto. Sobre o campanário do monastério, está o monstro, entoando um cântico satânico. Um seus olhos, há fogo, a melodia do Diabo.

Os três se preparam para a luta. Franz dispara com seu arco, mas o mesmo resultado da outra vez. A gárgula alça vôo e paira sobre eles, ainda cantando. Neste momento, outras criaturas aladas se aproximam, gárgulas demoníacas como aquele que Franz, Johann e Karl perseguiam, centenas delas; o monastério, um abrigo soturno para as crias do Demônio.

Armas em punho, os três homens são devorados pelas gárgulas, nunca retornariam para a cidade, contando os feitos de sua gloriosa missão.

As mortes recomeçaram no burgo. O mestre escultor acaricia o arcanjo recém-construído.

— Arcanjo Miguel, passamos por tempos difíceis. O mal estendeu suas asas sobre nossas casas, mulheres e filhos. Ouve-me, protege-nos! — São Jorge, que passa por ali, atende a súplica do escultor.

À noite, quando todos sonham, o arcanjo abre as asas e voa para fora do ateliê, ao encalço da criatura infernal.

Porém, há um problema, ambas as estátuas são do mesmo material, uma não fere a outra.

O embate do céu se prolonga pela eternidade, gárgula e arcanjo disputando o destino dos homens tementes a Deus.

segunda-feira, junho 04, 2007

A Maldição do Visitante


O olhar do cavaleiro fitou o castelo no alto da colina; estava exausto, há dias sem pouso nem comida.

A sentinela gritou, ordenando que o cavaleiro se identificasse.

— Um peregrino, rumo a Terra Santa. — o portão se lhe abriu.

O Duque, senhor daquela herdade, o recebeu. Bom anfitrião, deu-lhe farta ceia e alojamento. O cavaleiro recuperou suas forças.

Nesta época, chegaram aos ouvidos do Duque relatos de estranhos acontecimentos na cidadela — concubinas assassinando amantes; idosos morrendo de tosse sanguinolenta; crianças levadas por tumores fatais; bebês que dormiram pacíficos mas que não despertaram mais; meninas se jogando de torres; coroinhas, de campanários; assassínios; enfermidades; morte.

Quando seu primogênito sucumbiu a uma praga desconhecida, o Duque constatou que deveria tomar uma resolução e descobrir qual a causa destas misteriosas tragédias. Convocou escolásticos, astrólogos, cirurgiões, chefes-da-guarda, alquimistas, todos que pudessem oferecem algum vislumbre sobre a maldição pairando sobre eles.

— São os sinais do Apocalipse, Senhor Duque.

— Saturno na Sexta Casa de Escorpião, Senhor Duque.

— Enfermidades trazidas por cruzados retornando do Oriente, Senhor Duque.

— Baderneiros recém-libertados da prisão, Senhor Duque.

— Humores malignos, Senhor Duque.

— O cavaleiro que vós hospedais, Senhor Duque.

— Quem é este? — o Duque indagou seu assessor.

— Um necromante, meu Senhor, um louco.

Mas a resposta do necromante intrigou o suserano.

— Como descobristes isto?

— Ele mesmo mo disse, Senhor Duque.

O soberano refletiu sobre o que deveria fazer. Chamou o cavaleiro até sua câmara:

— Reuni vossos pertences e deixai minhas terras. Desde que chegastes, desgraças pousaram sobre nós. Não sois mais bem-vindo.

— Só vou aonde me enviam, meu Senhor. Mas tendes razão, nada mais tenho para fazer aqui.

A Morte colocou o elmo e vestiu a capa, montou no cavalo e o esporeou. Mais vidas para ceifar a uma noite de viagem.

Desde então, a Morte não entrou mais naquele ducado, tornando-se uma diferente maldição: o Duque, hoje com quase mil anos, já tentou suicídio trezes vezes, desesperado por se livrar da vida.

O Bicho Roncador

Zé Carlos engatilhou a espingarda, abriu uma fresta na porta e espiou.

— O bicho ‘tá lá fora, Maria! — ele tremia.

— Deixa, Zé. Aqui dentro ele não faz nada... — Maria, incerta.

— Que nada, mulher. Você não ouviu a história do Tião. O bicho comeu uma criança já.

— Mentira, Zé. O Tião só fala mentira!

— Mas olha, olha o ronco do bicho. Ele ‘tá rondando.

E estava mesmo. Era possível ouvir o caminhar dele, a respiração profunda, rosnar dum tigre.

Zé Carlos disparou para fora, Maria com mãos unidas, rezando.

— Foi embora. — Maria, desesperada.

— Não sei. Acho que não.

O ronco aumentou, o som das patas mais perto, Zé Carlos tremia, Maria também.

— Fecha a porta, Zé, fecha!

Mas não deu tempo, quando Zé a encostou e se preparava para trancá-la, o monstro deu uma trombada, derrubou Zé e estraçalhou Maria. Depois, foi embora. Zé chorando sozinho, espingarda na mão trêmula.

— Mentira, Tião! Este bicho não existe. — Pedro tragava o cigarro de palha.

— Mentira não, Pedro; meu amigo Zé Carlos que não me deixa mentir. Agora me vou, só não esqueça de trancar a porta.

Pedro não obedeceu, mas, quando ouviu o ronco fora de casa, se arrependeu.

Tião nunca mentia.