domingo, julho 29, 2007

A Dama Vermelha

(fonte: http://images.epilogue.net/users/jameswolf/QUEEN_COMPLETED_(Large).jpg)



Nosso exército cruzou o último bastião do inimigo, crentes de que a guerra estava vencida. Porém, daquele ponto em diante, sofremos derrotas diárias.

Os arqueiros, sempre tão precisos, erravam seus alvos; os cavaleiros eram derribados das montarias amedrontadas; a infantaria era desbaratada por forças menores.

A guerra é feita de probabilidades numéricas: quem tem o exército mais numeroso, mais bem treinado, com melhor equipamento, derrota o adversário. Matemática simples. Mas não neste caso. Contra todas as chances, perdíamos.

Muitos dos soldados debandaram, fugiam do acampamento à noite, retornavam a suas vilas, para suas famílias. Quando recapturados, amaldiçoavam a Rainha Graidnieva por tê-los enviado para uma luta perdida, e repetiam boatos, os quais já haviam chegado aos meus ouvidos antes, de que do lado inimigo uma bruxa maligna os protegia. Para eles, éramos derrotados por magia negra.

Sou um homem simples, habituado às crendices popular, eu mesmo nasci e vivi boa parte da vida num vilarejo ao sul de Harstiet, a capital do Reino, carrego no peito um amuleto contra mau-olhado e estas inscrições do meu braço são para manter meu braço constante da batalha, mas não podia acreditar que os rumos duma guerra poderiam ser alterado por magias ou sortilégios.

No entanto, os boatos foram se avultando; propagavam que a feiticeira, cognominada a Dama Vermelha, habitava a torre mais alta da fortaleza que víamos sobre a colina, donde observava nossos movimentos, antevia nossos ataques, e preparava as defesas.

A sucessão de derrotas e baixas fez-me questionar minhas convicções e, num fim de tarde, adentrei a tenda do comandante com um plano temerário: infiltrar-nos na fortaleza, encontrar a Dama Vermelha e assassiná-la. Fossem os boatos verdadeiros ou não, poríamos termo à angústia dos soldados e levantaríamos o moral.

— Não podemos arriscar a vida dum capitão experiente como vós — respondeu-me o comandante — Escolhei homens em quem confiais e os enviai nesta missão.

— Homem algum se aventurará nesta empresa se eu não estiver com eles — retruquei; eu havia lutado ombro a ombro com meus soldados, e eles confiavam em mim cegamente.

— Voltai vivo, então...

Naquela mesma noite, eu, três soldados e dois arqueiros nos esgueiramos por entre as paliçadas inimigas e atingimos as muralhas do forte. Escalamo-lo e nos dirigimos à torre. Encontramos oposição, alguns balestreiros tentaram nos deter, derrubaram dois dos nossos, mas atingimos a entrada da torre. No interior dela, mais defensores nos atacaram e, de toda nossa comitiva, restei apenas eu.

Perfiz os lance de escadas até o topo e alcancei uma porta lacrada, à qual abri pela força da minha alabarda. Foi quando vislumbrei a esguia figura, vestida de vermelho, longos cabelos afogueados, de costas para mim, sentada diante dum livro.

Meu braço fraquejou, a garganta seca.

— Dama Vermelha?

Ela se voltou para mim, e fulminou-me com olhos rubros. Mas meu espanto foi em reconhecer nela a pessoa que menos poderia esperar, a pessoa pela qual guerreávamos, pela qual morríamos.

— Não é possível! Rainha Graidnieva?

A Dama sorriu.

— Demoraste, Helfrjiod, há quantos dias te aguardo.

— Mas quê? Por que guerreais contra vós mesma? Que significa esta encenação?

— Neste livro, Helfrjiod, está escrita a história de minha vida. Fala da maldição lançada por minha mãe quando meu padrasto se apaixonou por mim, e de que eu deveria suportar uma existência sem fim, até que, durante uma guerra, um homem que houvesse me amado lutasse contra mim e me privasse da existência.

— Por isto vós me fizestes deitar em vosso leito? Usai-me para cometer suicídio?

— Só quem vive para sempre entende este fardo... — lágrimas na face da bruxa — Fazei o que viestes fazer!

No dia seguinte, a guerra acabou, um mensageiro de nossas terras trouxe a notícia de que nossa Rainha havia sido assassinada, não havendo mais sentido prosseguir.

Somente eu sei a verdade, mesmo que inacreditável, mesmo que inconcebível, mesmo que se mescle e se confunda com a mentira.

sexta-feira, julho 27, 2007

Os Estranhos Habitantes de Soledad

A família sempre reputou minha tia-avó como louca. Mas família é família, e se faz necessário encontrar um bode-expiatório, determinar quem é a ovelha negra. Assim, tem-se farto material para fofocas quando há reuniões familiares, e o comportamento misantropo de Joaquina só favorecia esta situação.

Talvez ela fosse realmente louca, ou apenas excêntrica. A verdade é que ela — por opção? — nunca havia se casado; uma aberração, se comparada às irmãs, que não apenas se casaram, como botaram no mundo dúzias de filhos, redundando em uma centena de netos.

Joaquina lutou pelos direitos da mulher na juventude, organizou grupos de teatro, redigiu manifestos contra o Estado Novo, foi presa, apanhou, opôs-se à Guerra Mundial e à exploração da classe trabalhadora, foi exilada no Chile e, quando retornou, finalmente obteve reconhecimento em sua carreira literária com obras de cunho feminista, se se procurar, é possível encontrar o nome dela na listagem dos Mais Vendidos da VEJA, durante o mês de setembro, em meados dos anos 80.

Com o dinheiro dos livros, Joaquina comprou um terreno no interior e construiu uma mansão. Convidou-me várias vezes para visitá-la, tinha-me em grande consideração (porém, a recíproca não era verdadeira), mas sempre encontrei escusas para me eximir da obrigação.

Mensalmente, ela me escrevia uma carta, perguntando-me como eu estava e repreendendo-me pela demora em lhe corresponder. Como um fardo, eu me forçava a mandar um cartão de felicitações nos Natais e nos aniversários dela; contudo, nos últimos cinco anos, negligenciei até esta obrigação, mas as cartas de Joaquina nunca falharam. Depois de um tempo, nem abrí-las mais eu abria. Entretanto, após o falecimento dela, aos noventa e três anos, eu me arrependi da indiferença que dispensei a ela e reli todas as cartas, que reunidas, comporiam facilmente um livro.

A minha surpresa foi quando o testamenteiro de Joaquina bateu à minha porta, informando-me de que minha tia-avó havia me legado a mansão no interior, com todos os móveis nela contidos. Minha esposa ficou particularmente entusiasmada, mas este presente de grego me preocupou. Provavelmente, a habitação deveria estar em estado lastimável, já que Joaquina vivia uma vida de reclusão eremítica, não deveria conter nada de valor, e ainda teríamos de arcar com os custos legais para transferência da propriedade para meu nome, sem sabermos se recuperaríamos este dinheiro com a venda da herdade.

Perfizemos os trâmites legais e eu já estava pronto para anunciar a venda do casarão, mas minha esposa insistiu para que eu fosse até lá e visse o que ela continha, crente de haver algo de nosso interesse. Aquiesci, afinal de contas, eu estava de férias e ainda faltavam dez dias para retornar ao trabalho, mas Elisa não poderia ir comigo, era época de provas finais no colégio e ela estava atolada com o fechamento dos livros-de-chamada.

A viagem era longa, Joaquina desejava realmente se esconder. Perdi-me várias vezes nas estradas de terra e, quando parava para pedir informação a algum carroceiro, a resposta era que deveria seguir adiante.

Finalmente, encontrei a tabuleta, despencando da cerca, com o nome da fazenda: Soledad.

Melhor nome não havia, pois o casebre mais próximo ficava a umas duas horas.

O casarão tinha dois andares e um ático, depois descobriria que havia também um porão. Como já esperava, o lugar estava entulhado de quinquilharias, com espaço restrito até para um magro como eu me movimentar. Mexi em algumas pilhas de coisas, abri armários, gavetas, nada que prestasse.

Tentei ligar para Elisa e dizer que já estava retornando, mas este fim-de-mundo era tão fim-de-mundo que nem celular funcionava. É óbvio que eu não poderia contar que houvesse telefone no casarão, muito menos conexão de banda-larga.

As nuvens carregadas me inquietaram, se desabasse a chover, o meu Gol não conseguiria ir muito longe, com aquelas estradas em péssima condição. Cumprindo o meu temor, quando havia dirigido por menos de um quilômetro, começou um temporal e a estrada se tornou intransitável.

Um capiau num trator me ajudou a desatolar o carro e retornei o mais rápido que pude ao casarão desabitado, sob um aguaceiro sem precedentes e raios caindo por todos os lados.

Outra bela surpresa a casa me reservava, com a morte da moradora, a energia havia sido cortada, então, estava eu, nunca casa abandonada, anoitecendo, e sem poder sair dali. Aproveitei o resquício de claridade do dia para procurar por velas e fósforos, e consegui encontrá-los na cozinha. Depois, puxei uma cadeira até o alpendre e fiquei observando a chuva até escurecer.

Não havia muito a ser feito e meu suprimento de velas era escasso, apenas cinco; com este pequeno lume percorri a habitação à procura dum quarto. No segundo andar, descobri o que deveria ter sido o aposento de Joaquina. Eu não acreditava em almas penadas, mas ver a cama desfeita, na penumbra, e a porta do guarda-roupas aberta me perturbou. Imaginei até que a cama desarrumada estivesse assim porque Joaquina havia morrido dormindo, e o armário aberto porque tiveram de escolher uma roupa para sepultá-la.

Recusei-me a dormir ali. Vaguei pelos outros cômodos, mas aquela era a única cama na casa, portanto, eu seria obrigado a voltar para lá e me conformar.

O meu plano era ir e voltar para cidade no mesmo dia, por isto, eu só estava com a roupa do corpo, e este foi o meu pijama. Jantei o resto dum sanduíche que comprei na estrada, escovei os dentes com o dedo mesmo, assoprei a vela e tentei dormir.

Mas a chuva pesada na janela e o vento a gemer lá fora me despertavam a todo o momento. Numa das vezes que acordei, tive a impressão de haver visto uma silhueta, mãos apoiadas no batente da janela, braços esquálidos, cabelos brancos, olhando para fora. Eu torcia para fosse mera impressão.

Posteriormente, por volta de uma da manhã, escutei barulhos vindo dos andares inferiores. Era como se arrastassem móveis, abrissem e fechassem janelas, passos, risos, tosses.

Eu tremia sob o lençol, tal qual quando eu era criança e minha prima me contou que havia visto o pai morto, e, à noite, eu não conseguia parar de pensar nisto, fantasiando a figura do meu tio, crânio esfacelado por causa do acidente de carro, fitando-me como quem procura ajuda.

Oprimido por minha agonia e medo, juro que ouvi um sussurro:

— Que bom que você veio, Pedro. Esperei tanto tempo por isto...

E uma mão gelada se encostou na minha, com ternura, mas que me deixou em pânico. Saltei da cama, mas pouco podia ver na escuridão. Estava com medo de me aproximar do criado-mudo para pegar a caixa de fósforos; medo de que, quando eu estendesse minha mão, aquela outra mão gélida me tocasse novamente.

— Quem está aí? — resmunguei, mas implorava para que não viesse resposta — Quem está aí?

Lembrei-me do celular. Apertei um botão e ele se iluminou, luzinha fraca, mas o suficiente para me certificar de que não havia ninguém na cama. Apanhei os fósforos e acendi a vela.

Os ruídos vindo debaixo cessaram.

Não sou machão; não sou daquelas pessoas que, quando têm um problema na frente, matam no peito e seguem adiante. Na verdade, aquela situação inusitada estava me sufocando, quase me controlava para não cagar nas calças, é sério!

Mas eu já havia percebido que, naquela noite, eu não teria sossego. Talvez fossem ratos andando pela casa, o que não diminuía o asco, mas me consolava do medo. Desci vagarosamente a escada e cheguei ao primeiro andar. Nada diferente atraiu minha atenção. Desci também para o térreo, também nada. Pensei que poderia dormir no carro, desconfortável, mas não teria ratos por perto.

Esta havia sido a melhor idéia da noite, quando estava quase na porta, ouvi ruídos no porão. Eu precisava confirmar o que era; se fosse embora pensando ter sido assombrado por fantasmas, que aquela mão me tocando fosse de Joaquina, eu nunca mais teria uma noite tranqüila na vida. Era necessário eu provar para mim mesmo que eram ratos, ou alguma outra explicação racional.

Abri a portinhola que dava para o porão, de lá, vinham risos, gemidos, sussurros. Certamente, não eram ratos. Minhas pernas fraquejavam, as mãos trêmulas, garganta seca e olhos ardendo, com vontade de chorar. Degrau a degrau, desci, aos poucos iluminando a câmara. Os risos, murmúrios e gemidos se silenciaram, quem quer que estivesse ali embaixo havia me ouvido descendo. Quando a vela iluminou parte do porão, vi minha tia-avó esfaqueando um homem. Não era fisicamente ela, era quase uma névoa. Ao lado dela, pessoas observavam, numa espécie de ritual de tortura, ou execução, ou sadomasoquismo. Perdi as forças e deixei a vela cair e se apagar. Completamente no escuro, meu coração quase me afogando de tão forte que batia, os risos recomeçaram com maior força, os gritos se tornaram ensurdecedores, a voz de Joaquina berrando:

— Meu querido Pedro finalmente veio! Também quer participar!

É óbvio que eu não queria participar, independente do que fosse que aquelas aberrações estivessem fazendo, tropeçando, ofegante, engatinhando quase, subi a escada do porão e cheguei à cozinha. Então, esbarrando em tudo que havia no caminho, alcancei a porta de entrada, atravessei a varanda e, mergulhando no temporal, corri para o automóvel.

Enquanto dava ignição, percebi que, na janela do quarto no qual eu estava, no segundo andar, uma mulher apareceu, apoiou os braços no batente e, após alguns segundos, acenou para mim.

Dei a ré no carro, atingindo uma cerca e, depois, em desespero, dirigi pela estrada enlameada, afundando o Gol no barro, derrapando nas curvas, fugindo do inexplicável.

Perdi o controle da direção após uma meia hora, voando para fora da estrada, e desaparecendo no matagal. Chorava, calça mijada, em completo descontrole emocional.

Quando amanheceu, a chuva havia dado uma trégua. Caminhei pela estrada uns bons quilômetros, peguei carona num pau-de-arara e, já na beira da rodovia, liguei para minha esposa, quase implorando por ajuda.

Todo mundo riu da minha experiência. Na família, descrentes, zombaram de mim, dizendo que, se alguém um dia virasse assombração, só poderia ser a Joaquina mesmo.

Resolvi vender o terreno, mas demolir a casa primeiro. Não desejava que outra pessoa passasse pelo mesmo desespero que eu. Porém, um funcionário da empresa de demolição me ligou enraivecido, xingando-me por ter pregado um trote neles, pois eles haviam se metido no meio do nada e não havia casa alguma para ser demolida.

De cagão, minha reputação passou a ser de mentiroso e de lunático.

Mas, um dia, eu crio coragem e volto a Soledad, para confirmar a existência daquela casa maldita, habitada por seres malditos.

quinta-feira, julho 26, 2007

O Livro dos Hereges

Sei do que sou acusado. Nestes últimos dias, vocês viram quantas mentiras disseram sobre mim, de que sempre fui um homem violento, de que havia ameaçado minha mulher várias vezes antes. Mentiras! Mentiras!

Vejo a minha cunhada ali, sentada, me fulminando com o olhar. Foi o ódio dela por mim que me arrastou ao tribunal, a querer minha execução. Eu a entendo, também quereria a mesma coisa se minha irmã fosse assassinada; também adoraria ver meu cunhado morto, se cresse ser ele o culpado.

Mas sou inocente, juro, ouçam-me e julguem por si próprios.

Todos aqui conhecem minha reputação como bibliófilo. Não me estenderei muito sobre o assunto, mas é notório que há na minha biblioteca a primeira edição de “O Contrato Social” de Rousseau, uma Bíblia do século XII, o manuscrito de Die Welt als Wille und Vorstellung de Schopenhauer, entre milhares de outras raridades, inveja para colecionadores ao redor do globo.

Ano passado, empreendi uma viagem de negócios a Istambul; vagando pelas ruas da cidade, adentrei um antiquário. Entre inúmeros artigos interessantes, chamou-me a atenção um códice em grego bizantino, com belíssimas ilustrações e iluminuras, que adquiri pela bagatela de cinqüenta libras.

Em meio a tantas aquisições desta viagem, malas e mais malas, mal me recordava do códice. Mas, há um mês, organizando minha biblioteca, descobri este incrível exemplar e comecei a estudá-lo. Talvez vocês não saibam, mas o grego bizantino não é muito diferente do koiné, o grego bíblico, do qual possuo razoável domínio.

O material não era muito interessante por si, um relato da fundação e queda duma seita herética na Capadócia, entre os séculos X e XII, que acreditavam que Jesus fosse, na verdade, um enviado de Satanás. O argumento dos hereges não era dos mais convincentes: por ser Satanás o senhor do mundo material (Jó 1: 7), apenas ele poderia conceder poder a um mortal para curar doenças, multiplicar alimento, caminhar sobre as águas; para sustentar tal crença, eles se baseavam num documento apócrifo, conhecido como “O Evangelho de Iscariotes”, relatando que a traição de Judas Iscariotes havia se fundado na descoberta de que a trajetória do nazareno não passava duma encenação, na tentativa de associá-lo ao Messias das profecias torânicas, e arrebanhar o apoio da ala reformista da comunidade farisaica. Além disto, Judas constatou que havia severas distorções da Lei nas pregações de Jesus, e que muitas delas podiam ser associadas ao culto de Baal.

Apesar de improvável, narra-se que os hereges foram erradicados por uma campanha maciça de assassinatos coordenada pela Igreja Ortodoxa.

Pode parece frívola esta minha descrição do conteúdo do códice, porém, após dedicar dias examinando o exemplar, deparei-me com uma sentença inusitada, descontextualizada, como se houvesse sido escrita diretamente a mim. Sem adicionar palavras ou omití-las, a tradução da sentença era a seguinte:

William Turner, na oitava noite de março, virei buscar tua esposa.

O pasmo no olhar de vocês era tal qual o meu assombro. Como meu nome aparecia, em grego bizantino, num códice medieval? E o que significava tais palavras? Quem viria buscar minha esposa? Por quê?

Tive dificuldades para dormir, atormentado pela macabra profecia. A cada dia que passava, minha angústia crescia, oito de março se aproximava e, em pouco tempo, eu confirmaria ou não a veracidade da ameaça.

Lembro-me bem daquela data, eu e Margareth acordamos cedo e cavalgamos pela propriedade; almoçamos na casa dos meus sogros, passamos a tarde na biblioteca, Margareth lendo Jane Austen, eu jogando xadrez com o sogro. Às sete, retornamos para casa, ceamos e nos recolhemos. Eu estava apaziguado, o dia estava quase concluído e ninguém, nem nada, havia vindo buscar Margareth.

Timidamente, ouvi o relógio do átrio anunciando que faltavam quinze minutos para a meia noite. Margareth dormia tranqüila, por isto, levantei-me e desci até a biblioteca, procurei pelo códice, mas ele não estava na prateleira onde eu o havia deixado. Isto me enfureceu, ninguém tinha autorização para entrar e mexer nos meus livros; na manhã seguinte, os criados receberiam uma bela reprimenda.

Mas logo avistei o códice caído no canto da biblioteca, aberto. Com ele em mãos, tentei encontrar a passagem e, quem sabe, zombar dela agora. Folheei-o, mas não conseguia encontrá-la. Eu havia marcado a página, mas alguém, deliberadamente, havia feito questão de retirar a indicação.

Foi quando senti uma presença no cômodo. Mesmo a biblioteca estando completamente iluminada, tive a impressão de estar nas trevas, um forte cheiro me cercou, meus pêlos se eriçaram. Involuntariamente, minhas mãos tremiam, o códice balançando nelas. Meus olhos encontraram a passagem, mas esta já não era a mesma.

William Turner, estou aqui.

Não sei o que me aconteceu, mas, quando voltei a mim, minhas mãos estavam ensangüentadas, o punhal birmanês cravado no peito de Margareth, faltando poucos instantes para a meia-noite. Se fiz algo, fi-lo dominado por alguma força demoníaca. Não sou culpado!

O tribunal não acreditou em palavra alguma de William Turner e o condenou à forca.

Mas o magistrado desejava ver o códice mencionado pelo réu. Um oficial foi até a propriedade do condenado, vasculhou a biblioteca e encontrou o volume.

O juiz Smith havia aprendido koiné com seu pai, padre da Igreja Anglicana e tradutor, nas horas vagas, de versículos bíblicos. Abriu o livro aleatoriamente e, por aquelas ironias do acaso, encontrou a sentença, acompanhada de calafrios, odor de enxofre e trevas:

Edward Smith, estou aqui.

domingo, julho 22, 2007

Microcontos de Sexo II

Precavida

Sentia-se mulher uma vez por ano, quando ia ao ginecologista.

***

Bons amigos

- Pára, por favor!
- ...
- Você sabe que sou um homem casado. Mulher e filha me esperando em casa.
- Aham.
- Tira a mão daí! Eu tenho que ir embora.
- É só uma punhetinha.
- 'Tá bem. Mas faz rápido, Sérgio.

***

A Coelhinha e o fã

O leitor da playboy, revista em mãos, para a coelhinha de outubro:

- Nossa, quem te vê na revista nem imagina o bagulho que você é de perto!



Coelhinha de outubro para o leitor da Playboy com revista em mãos:

- E será que tua mãe, mesmo com Photoshop, deixa de ser bagulho?



sexta-feira, julho 06, 2007

O Paradoxo da Morte

— Lisa quer sair para fazer cocô, querido — era verdade, a cachorrinha estava cheirando a coleira, dependurada perto do interfone.

Antônio coçou a barriga roliça e peluda, botou o controle remoto de lado e, sôfrego, se levantou. Maria fazia as unhas na cozinha, pé apoiado na cadeira, algodão entre os dedos.

— Estou indo — ele vestiu uma camiseta e calçou as Havaianas. Engatou a guia na vira-lata e saiu,

— Vou deixar a porta aberta, ‘tá? Já voltamos.

— Só não deixe Lisa mijar em frente à pizzaria. O dono me deu uma bronca ontem.

— Lisa vai mijar onde quiser — Antônio riu, fechando a porta.

Estava quente, um pouco nublado, mas um mormaço de matar. Por isso, Antônio resolveu dar uma voltinha expressa, só ao redor do quarteirão. Lisa fez xixi na frente da pizzaria, cocô num canteiro perto da esquina. Iniciaram o caminho de volta.

Lisa tentou brigar com um buldogue no elevador, a vizinha gostosa ria, achando graça na peleja, o buldogue babava, sem achar graça alguma. Ao sair do elevador, Antônio reparou que a porta estava entreaberta. Lisa latia, em desespero. Encontrou Maria no chão da cozinha, mergulhada em sangue.

Antônio se ajoelhou na poça, segurando a cabeça da esposa, murmurando frases sem sentido como:

— Tudo vai ficar bem, amor.

— A polícia já está chegando.

— Amanhã é aniversário da Juliana, você não pode nos deixar.

Mas a mulher já estava morta, a polícia ainda não havia sido chamada e a festa de aniversário da filha teria de ser adiada indefinidamente. Lisa uivava, pranteando a dona falecida.

Antônio consultou o relógio, em meia hora, Juliana chegaria da aula de balé. Ligou para a emergência, chorando, repetia que mulher não estava respirando, deu endereço, telefone, sem muita clareza, sem muita certeza de que estava passando os dados corretamente. Em seguida, ligou para a polícia, relatou o assassinato, e conjeturou que o criminoso talvez ainda estivesse nas redondezas. Por fim, ligou para o celular da filha.

— O que aconteceu, pai?

— Ju, um acidente. Sua mãe não está nada bem. Vá para a casa da Rafaela e fique lá até eu te ligar, mais tarde, OK?

— É algo sério?

— Bem sério, mas tudo vai ficar bem. Confie em mim.

Os paramédicos chegaram e logo constataram que não podiam fazer nada. A polícia também apareceu, isolou o local e fez perguntas a Antônio. O rabecão do IML levou o corpo.

Por ser uma cena de crime, Antônio foi autorizado a juntar apenas uma muda de roupas e a cachorra. Passou pela casa de Rafaela, para conversar com Juliana.

— Como a mãe está?

— Amanhã você vai vê-la, Ju. Temos de ser fortes... — ele abraçou a filha, beijou-lhe a fronte — Durma aqui hoje à noite. Estarei na casa da tia Paula. Se precisar de alguma coisa, ligue.

De fato, na casa da irmã, Antônio só deixou a traumatizada cadelinha e voltou para a cena do crime. Subiu até seu andar e refez todos seus passos, do momento em que saiu da casa, deu a volta no quarteirão, e retornou ao apartamento. Tentou rememorar qualquer imagem inusitada, ou pessoa estranha entrando ou saindo do prédio. Mas nada.

O ideal seria aguardar a perícia policial.

Mas a polícia também não tinha nenhuma conclusão satisfatória, sem digitais, sem quaisquer indícios de arrombamento (é óbvio, a porta estava aberta), sem testemunhas, sem suspeitos, ou seja, de antemão, um crime insolúvel.

Este tipo de resposta jamais satisfaria Antônio. Sua mulher foi assassinada, porra! O mínimo que ele queria era pôr as mãos no culpado, e que ele apodrecesse na cadeia!

Naquela manhã, Juliana viu o cadáver da mãe, chorou muito. Implorou ao pai que descobrisse quem era o assassino, ele jurou que o faria, abraçaram-se.

Maria foi velada, vieram parentes de longe, primos, tios, pai, mãe; pãozinho francês com margarina sendo mastigado na copa da casa funerária, piadas sussurradas pelos cantos, rezas sobre a morta. Maria foi sepultada, os parentes voltaram para suas cidades, Juliana pra casa da tia Paula, e Antônio para seu apartamento, tentar cumprir com o que prometera à filha.

Perto da mesa de jantar, aquela mancha negra, sangue coagulado; Antônio se deitou sobre ela, na mesma posição em que encontrou a esposa; cerrou as pálpebras, respirou fundo. Há vinte anos não fazia isto, desde quando era um adolescente, crente em tudo que era esotérico ou místico. Havia praticado meditação, ioga e aspirado ao nirvana. Teve experiências estranhas, mas após se encontrar, possivelmente no plano astral, com um demônio, abandonou todas as crenças na imortalidade da alma, em reencarnação, e todas estas bobajadas que não passavam de devaneios da mente.

Mas que não eram devaneios porcaria nenhuma.

Ouvindo sua respiração, livrando-se dos pensamentos, aquietando a angústia de seu coração, Antônio começou a voltar, mentalmente, no tempo.

Uma hora atrás, a poça no chão.

Duas horas atrás, a poça no chão.

Um dia atrás, a poça no chão.

Dois dias atrás, ele, ao lado da esposa morta.

Minutos antes, Maria, esvaindo-se em sangue, agonizando.

Antes, um homem, mascarado, luvas, faca na mão, degolando Maria.

Antes, ele, pondo a guia em Lisa e saindo.

Antes, ele, coçando o saco diante da TV.

Antes, o casal almoçando.

Antes, Juliana saindo de casa para ir ao balé.

Antes, Maria e Antônio se espreguiçando na cama.

Antes, Antônio roncando, Maria se masturbando em silêncio.

Antônio abriu os olhos, donde lágrimas escorriam. O sol nascia pela persiana da janela da sala; olhou ao seu redor, e a cozinha estava diferente de quando ele havia chegado; a mancha no chão, havia desaparecido. Ele se levantou, caminhou até o quarto e gentilmente abriu a porta, ele e Maria dormiam.

Não era sua mente que havia voltado no tempo apenas, era ele, em pessoa, que havia voltado. O coração de Antônio saltou no peito. Estava aí uma oportunidade não somente para descobrir o assassino, como para também evitar o crime.

Ele tinha de descobrir um lugar para se esconder, naquele apartamento minúsculo.

Lembrou-se que Juliana sairia de casa antes que ele e Maria deixassem o quarto. Por isto, sentou-se em silêncio na sala, pegou um livro com capa reluzente (nunca sequer havia sido folheado antes) e fingiu ler.

A porta do quarto de Juliana se abriu e a menina saiu, pijamas e remelas:

— Nossa, pai, você está lendo? E nestas horas da manhã!

— Sempre há hora para se começar a criar o hábito. Talvez você também devesse tentar.

— Sai fora, pai! — Juliana riu, e desapareceu no banheiro, xixizinho e escovar de dentes.

A menina se trocou e saiu, bolsa com vestido e sapatilhas a tiracolo.

— Tchau, pai, te amo!

— Eu também, Ju, se cuida.

Aproveitou e se atocaiou no quarto da filha, ele e a esposa nunca entravam lá, então, seria um bom esconderijo para aguardar até o momento do crime. Conferiu o relógio, faltava bastante tempo ainda.

Olhou pela janela, o mundo corria normalmente lá fora, o tempo em seu ritmo normal, realmente não era devaneio, Antônio havia voltado. Ele sorriu.

Ouviu ruídos na cozinha, Maria preparava o almoço. A televisão foi ligada, era ele assistindo TV. Ruído de talheres, almoçavam. Arroto na sala, Antônio coçava o saco na sala. Lisa acordou, raspava na porta do quarto de Juliana.

— Amor, o que a Lisa quer ali? — Antônio perguntou.

— Não sei. Dá um biscoito que ela esquece — dito e feito, Lisa não mais arranhou a porta.

Alguns minutos depois, Antônio ouviu a voz de Maria falando para Antônio:

— Lisa quer sair para fazer cocô, querido.

Antônio na sala de levantou, preguiçoso; Antônio, escondido no quarto, encostou o ouvido na porta; Antônio pôs a guia na cadela, saía.

— Vou deixar a porta aberta, ‘tá? Já voltamos — disse Antônio.

Maria pediu que Antônio não deixasse Lisa mijar em frente à pizzaria, Antônio respondeu que ela mijaria onde quisesse. Saiu.

Antônio, no quarto da filha, abriu uma fresta na porta. Agora, vinha a questão, o assassino estava armado, ele, mãos nuas. Percorreu o quarto de Juliana à procura duma arma: o porquinho de moedas? Não! Os patins roller? Não! A raquete de tênis? Aí estávamos começando a conversar.

Antônio se pôs à espreita, raquete na mão, aguardando o momento certo.

Alguém entrou no apartamento.

— Amor, já voltou? — Maria perguntou da cozinha.

O bandido botou a faca no pescoço de Maria:

— Não grita não, moça! É só abrir as pernas, é rapidinho.

Enfurecido, Antônio correu para fora do quarto, raquete pronta para atingir a cabeça do bandido.

O criminoso deslizou a faca no pescoço de Maria, sangue escorreu. Num malfadado golpe, Antônio atingiu o ombro do assassino, este respondeu metendo a faca no bucho de Antônio. Ele caiu; o assassino fugiu.

Antônio, agonizando, abraçou Maria, agonizando. Morreram, juntos.

Antônio volta do rápido passeio com Lisa, abre a porta e encontra dois corpos, um da sua esposa, o outro, dele mesmo.

Desaba a chorar, mas não sabe se pela esposa morta, ou se por ver-se morto estando vivo.

segunda-feira, julho 02, 2007

Caçador de Vampiros? Não, é sobrevivência!

Na terceira página do tablóide AM New York de 2 de julho de 2007, aparece, numa nota discreta, com título “Pássaro ‘vampiro’ atacado”, uma reportagem sobre um pavão agredido por um jovem.

O tipo de notícia que passa despercebido por aqueles que não conhecem o drama de Jim, como chamaremos o rapaz para preservar seu anonimato, morador de Staten Island, NY, Ensino Médio recém-concluído.

Jim não é diferente de mim ou de você; lê X-Men e gosta de filmes de terror, quanto mais trash melhor. Recentemente, completou sua coleção de “A Hora do Pesadelo” e tem procurado no EBay e com colecionadores o raro filme dirigido James T. Flocker, “Ghosts The Still Walk”. Tem suas manias, seus hábitos, seus medos, como todos nós.

Porém, desde o começo deste ano, Jim acreditava que uma vampira o perseguia. Conheceu-a numa festa na casa dum amigo, conversaram pouco, sobre Igrejas Góticas e a invasão dos godos ao Império Romano, mas a menina deixou a festa com outro jovem, gótico como ela.

Ao interrogar colegas, descobriu seu nome e e-mail. Ele era tímido, por isto, muito mais fácil dizer o que pensava através da palavra escrita do que em diálogos, e logo a troca de mensagens eletrônicas esquentou.

No MSN, fizeram sexo virtual, mas Jim mal se agüentava para fazer sexo real com Suzanne para, finalmente, aos dezessete anos, perder a virgindade.

Combinaram uma data, Jim emprestou o carro da mãe e, após buscar Suzanne em casa, dirigiu até uma área desabitada.

Beijos e amassos, mão dentro da calcinha, chupões no pescoço; Suzanne se interessava particularmente pelo pescoço. Chupava, chupava até doer.

— Tenho outra coisa para você chupar... — Jim baixou o zíper da calça, lembrando-se da fala de algum vídeo pornô que vira na Internet. Não convenceu a menina, que continuava grudada em sua jugular. Constrangido, e talvez assustado, Jim tentou afastá-la, não conseguiu, sua mão, cheia de sangue. Apesar de sua fixação por filmes de terror, Jim era o tipo de pessoa que não podia ver sangue. Desde quando caiu de bibicleta, aos dez anos, e sofreu uma fratura exposta no fêmur, qualquer machucadinho com sangue era suficiente para fazê-lo desmaiar. Sangue na mão? Jim apagou.

Acordou sozinho, no banco do motorista. Torcicolo e zíper aberto. Sangue coagulado na gola da camiseta e na palma da mão. No retrovisor, dois buraquinhos na garganta. Suzanne era uma maldita vampira!, não havia conclusão mais óbvia.

Cortou relações com a menina, não respondia e-mails, não ia a festas nas quais sabia que ela estaria, instruiu sua mãe a dizer que ele estava doente, caso uma menina de cabelos lisos, delineador nos olhos, Ankh dependurada no peito e roupas pretas procurasse por ele.

Após um mês insistindo, Suzanne aparentemente desistiu de Jim.

No entanto, numa noite, após Jim haver assistido a uma reprise de “A Hora do Espanto”, filme escroto, mas divertido, ele teve a impressão de ouvir ruídos na janela. Abriu a cortina e só viu a copa das árvores, e, do outro lado da cerca, as luzes apagadas dos vizinhos que dormiam.

Não estava com sono; na Internet, procurou por fotos eróticas. Batia uma punheta quando novamente ouviu ruídos na janela. Ergueu os shorts do pijama e fiscalizou mais uma vez o que poderia estar acontecendo. Nada. Subiu a janela, enfiou a cabeça pra fora. Nada. Estendeu os braços para baixar a janela, quando um morcego, mocho, ou outra ave noturna, voou por baixo de seu sovaco e entrou no quarto.

Jim se apavorou. Não tinha medo de passarinhos, que isso! Mas levou um baita susto quando aquele bicho passou raspando por ele. Deixou a janela aberta e vasculhou o quarto. Acendeu a luz, mas não conseguiu encontrar a ave. Talvez fosse apenas uma corujinha, ou até mesmo uma mariposa. De mariposas não tinha medo, só nojo. Mas nada que o impedisse de dormir.

Preferia deixar a janela aberta, caso o bicho decidisse partir, mas estava frio, por isto, foi obrigado a fechá-la, desligou o computador (o pinto já estava mole mesmo), apagou a luz e se deitou. Dormiu um sono leve, acordou várias vezes, sempre com a estranha sensação de estar sendo observado.

Num reflexo, cobriu-se com o lençol. Quando criança, tinha medo de que o monstro do armário saísse e pegasse seu pé. Não havia agonia maior do que cobrir a cabeça com o lençol, e descobrir os pés. Sempre o temor de que o bicho viesse e pegasse uma de suas partes. Jim se lembrou disto, encolhido debaixo do lençol.

Então, barulho de asas. A ave estava dentro de seu quarto, talvez sobrevoando-o. Jim tremia, suava até. O bater de asas cessou, alguém estava no pé da cama, uma mão segurou o lençol e começou a puxá-lo. Jim lutou para se manter coberto, aquela frágil proteção contra o mal, 75% algodão, 25% poliéster, mas foi derrotado. O lençol lhe foi arrancado. Suzanne o observava, olhos em brasa, dentes afiados. A vampiresa avançou, detendo Jim, que se debatia, segurando-lhe com força desmedida. Dentes direto no pescoço; Jim perdeu a consciência.

Os amigos de Jim riram da cara dele quando ele lhes contou a história.

— Culpa destas merdas de filme que você assiste — lhe responderam. E Jim nem poderia contar com o auxílio deles para a matar a desgraçada da sanguessuga.

E, a cada dia que passava, Jim se tornava mais servo de Suzanne. O sangue que dele ela sugava, enfraquecia a mente dele, turvava-lhe o raciocínio. Como que hipnotizado, toda noite, ele abria a janela e permitia a entrada de Suzanne, que o dominaria, o delibitaria. E ela sempre assumia formas diversas, morcego, coruja, um cão negro ou lobo, da vez quando Jim foi acampar com amigos na floresta e, sozinho na mata, foi surpreendido por Suzanne, que nunca o deixava em paz.

A sensação de inescapabilidade, de que Suzanne só descansaria quando ele houvesse morrido, ou se tornado uma criatura repugnante como ela, o fez assumir uma postura de macho.

Abriu a janela, como o usual, e aguardou até que Suzanne, metamorfoseada em morcego, entrasse no quarto. Armado com um bastão de beisebol, passou a investir contra ela, acertando duros golpes e repelindo-a para fora.

— Agora sim vou lhe ensinar uma lição!

Jim correu para fora de casa e acompanhou do vôo atordoado do morcego, que passou por cima do telhado duma casa, desaparecendo na direção do Burguer King. Ainda empunhando o bastão, Jim alcançou o estacionamento da lanchonete, viu um pavão e teve certeza de que Suzanne havia mudado de forma para enganá-lo.

Arrebentou o pavão, que não morreu, mas foi eutanasiado dias depois pelo Centro de Controle de Animais.

Felicia Finnegan, atendente do Burguer King, apressou-se para fora.

— O que você está fazendo? — perguntou a Jim.

— Estou matando um vampiro! — Jim respondeu.

A polícia foi chamada, mas Jim, com medo da punição e de que ninguém, como ocorreu com seus amigos, acreditasse nele, fugiu.

Hoje à noite, descobri que Jim foi encontrado morto na floresta, feridas abertas no pescoço. Disseram ter sido presa dum raro morcego-vampiro. Mas quem acreditaria em mim se eu resolvesse contar a verdade?

E Suzanne está por aí, dançando nas festas de adolescentes, à procura dum novo namorado.