quinta-feira, setembro 20, 2007

Seda Branca

(Imagem do Imperador Qinzong, Dinastia Song, fonte: http://upload.wikimedia.org/wikipedia/en/7/74/Qinzong.jpg)

Exausto, larguei armas e chapéu e meti a cara no rio. Caminhava há dias, após haver sido destacado para as fronteiras do Norte. O Imperador Qinzong temia os revoltosos que se proliferavam na região e conclamara guerreiros de todos os rincões do mundo.
Ouvi som de flauta e me pus em alerta, espalhava-se o rumor de que bandos de ladrões e assassinos se escondiam na floresta, mas avistei um senhor, cabelos agrisalhados, descendo em direção ao rio.
Saudei-o e recebi a resposta de que vinha em paz. O viajante se sentou ao meu lado e acendeu uma fogueira. Anoitecia e compartilhamos um jantar improvisado.
Decorridas horas de silêncio, o senhor falou:
Estou cansado, vivi muitas dificuldades nestes últimos meses e não encontro pouso em lugar algum. Já ouviu algo a respeito do “Homem de Branco”?
Neguei.
O nome de nascimento dele era Bai Hong-nu, filho duma família humilde, educado para ser soldado, assim como vejo que você é. Lutou em muitas guerras e caiu nas graças do Imperador. Foi promovido a general, senhor de muitos guerreiros, e venceu todas as batalhas na quais pelejou. Porém, numa noite, quando o Imperador adentrou o alojamento da concubina favorita, encontrou Hong-nu adormecido nos braços dela.
Enfurecido, o Imperador conclamou a guarda, com ordens para executar Hong-nu, porém, este, com experiência de anos a serviço do Imperador, conhecia bem o castelo e suas incontáveis passagens secretas; neste labirinto, Hong-nu se embrenhou e escapou da sanha inclemente do Imperador. Fugiu para o Norte e apagou seu passado. Vestia-se apenas de branco, na ausência dum nome, nos povoados onde passava, alcunharam-no Wán, o homem da seda branca.
Wán olvidou seu passado de guerra e, de vila em vila, evitando as grandes cidades, pregava uma inusitada mensagem de paz e perdão. Arrebanhou discípulos, que ouviam fervorosamente seus ensinamentos. E eram tantos, que fundaram um povoado.
Pessoas vinham de todas as partes para escutarem as lições de Wán e sua reputação alcançou o grande Céu. Guerreiros baixavam armas e se uniam aos acólitos de Wán, esposas abandonavam seus lares para acompanharem o sábio.
Porém, sutil e imperceptivelmente, o conteúdo da doutrina de Wán começou a mudar. Da paz, abnegação e perdão incondicionais, Wán instruía que para tudo neste mundo há exceção, de que não há claridade sem sombras, e que o mal e a guerra eram contrapartes do bem e da paz. Aos seus discípulos, propagava que o tempo de paz estava por terminar e que, em breve, quem o amava teria de brandir armas contra um poderoso oponente.
Assim, no início da primavera, Wán e um exército de cem mil combatentes se dirigiram ao Sul, com a missão de matar e destronar o Imperador Qinzong. Wán era um dissimulado, durante todo este período, ele apenas buscava uma oportunidade para se vingar do Imperador que o degradou e lhe retirou a mulher amada, à qual, diziam, Qinzong havia mandado decapitar.
Inevitavelmente, o Imperador designou tropas para deter o exército de Wán. Durante três meses, Wán desbaratou o contingente imperial, porém, a escassez de suprimentos, o cansaço e as chuvas incessantes do verão foram responsáveis pelos primeiros revezes. Recuaram para as montanhas.
Vendo a grande oportunidade para derrotar o oponente, o Imperador enviou um grande exército, que cercou Wán e seus guerreiros. Emboscados nas montanhas, o fim era evidente.
O exército de Wán tinha duas escolhas, lutar até a morte e os que fossem capturados sofreriam torturas e ultrajes inimagináveis, ou desistirem e privarem-se de suas próprias vidas.
Wán deliberou com seus capitães e concluíram que, por ser a morte inadiável, todos se matariam ao nascer do sol.
Quando os tambores do Imperador soaram e as tropas iniciaram a marcha rumo ao bastião de Wán, trinta mil sobreviventes, punhais mirados para o coração, sangraram até a morte.
As tropas imperiais não encontraram sobrevivente algum.
E você estava entre os soldados do imperador, para saber tudo isto? perguntei.
O senhor acendeu um cigarro e, com um sorriso iluminado pela claridade da fogueira, respondeu.
Não. Estive com o punhal afiado no peito, mas, no último instante, refleti: Somos muitos, não conseguiremos escapar, mas um só homem facilmente se envereda nas montanhas e some.
Sou Bai Hong-nu, conhecido como Wán, o homem da seda branca. O punhal não entrou no meu coração. Vivo e congrego um novo exército. E você será meu primeiro guerreiro.
Com que forças eu poderia resistir àquele homem, que trazia no olhar a energia do Céu, da Terra, do Fogo e dos Ventos?
A minha espada é sua, Wán. Respondi. Até a morte.

Escrito para a Oficina da E-TL

quinta-feira, setembro 13, 2007

O Hóspede


Rubens e eu éramos amigos de infância. Crescemos no mesmo condomínio, nossas mães eram amigas, estudamos juntos até a oitava série e, incontáveis vezes, dormimos um na casa do outro.
“Unha e carne”, como dizem.
Na adolescência, afastamo-nos. Rubens se juntou a um bando de roqueiros, com a utópica aspiração de se tornar um guitarrista famoso; eu, não mais pé no chão do que ele, porém, mais apático e limitado em meus horizontes, queria seguir a carreira da Informática.
Já não nos falávamos com tanta freqüência e, da nossa amizade inseparável, restou apenas um tímido cumprimento quando nos cruzávamos na escada do prédio, ele com roupas pretas, cabelos compridos e carregando a case da guitarra, eu com livros e óculos fundo-de-garrafa.
Completei um curso técnico e logo passei num concurso público. Conheci Talita e nos casamos no ano seguinte. Não tivemos filhos porque nossos projetos eram vários e sempre pensamos que, para dar este passo, estabilidade era fundamental.
Alguns anos atrás, ocorreu uma mudança na diretoria do departamento onde trabalho e houve uma série de remanejamentos. Meu antigo chefe foi transferido para uma divisão no Litoral e, assim que assumiu um cargo de chefia lá, ligou-me, ciente da minha competência, inquirindo-me se eu desejava mudar-me para a praia, para compor a equipe técnica da divisão.
Eu e Talita deliberamos, ela um tanto apreensiva, pois deixaria pai e mãe na cidade, eu, entusiasmado, pois era um sonho antigo morar de frente para o mar, e concluímos que seria uma excelente oportunidade.
Alugamos um apartamentinho na Avenida Atlântica, de frente para o mar, como eu queria, dois quartos e uma cozinha conjugada; pequeno, mas confortável. Era o preço a se pagar para abrir as cortinas e dar de cara com aquela imensidão azul e gaivotas planando.
Éramos felizes. Eu passava o dia na repartição e Talita conseguiu aulas numa pré-escola. À tarde, caminhávamos no calçadão, de mãos dadas, como quando namorávamos pelas praças da cidade.
No verão, a praia enchia. Centenas, talvez milhares de banhistas de fim-de-semana ou temporada.
Nestas épocas, nosso apartamento virava hospedaria, vinha mãe, pai, tia, avó, sogro, sogra, irmão, primos. Raras vezes, nesta época, eu e Talita tínhamos a apartamento apenas para nós dois. Colchões eram espalhados pela sala e, antecipando este tipo de hóspedes, no segundo quarto, colocamos um beliche.
Num destes verões, ao comprar um coco, esbarrei-me numa figura conhecida. Ele logo me reconheceu, abrançado-me e perguntando-me como eu estava e o que fazia da vida, mas não refrescou minha memória.
— Sou eu, piá, Rubens!
Então, lembrei-me. Sem os longos cabelos, a guitarra e vestes de roqueiro, que eram minha última imagem dele, seria quase impossível para eu saber quem ele era.
Sentamo-nos num banco e descobri que, da brilhante carreira de músico, somente restava uma lembrança. Rubens havia feito escolhas ruins, desistiu da escola antes de concluir o secundário, engravidou uma menina, e agora amargava um emprego que o desgostava. Nas férias do filho, ele e a esposa aproveitavam para desceram para a praia e, por uns três ou quatro dias, com a grana contada, eles se distraíam.
Apresentei-o a Talita, que pareceu contente em conhecer um amigo de infância meu. E ele, por sua vez, ficou satisfeito em saber que eu havia seguido um caminho estável e que tinha uma vida feliz.
Trocamos telefone e combinamos de nos encontrar, da próxima vez que ele descesse ao litoral.

Alguns meses depois, porém, já recebi uma ligação de Rubens.
— Marcos, preciso dum favorzão seu. Sinta-se à vontade para recusar, mas, se houver a possibilidade, eu queria saber se posso ficar alguns dias na sua casa.
Estávamos fora da temporada de verão e havia um acordo implícito entre Talita e eu de que não receberíamos hóspedes fora deste período.
— Irei sozinho — Rubens acrescentou.
“Ele é um amigo de infância”, refleti, “talvez seja uma boa oportunidade para reatarmos uma bela amizade”. Concordei. Na manhã seguinte, fui buscar Rubens na rodoviária.
Ele se instalou no quarto dos beliches e eu o instruí a se sentir em casa, indiquei-lhe onde ficavam os pratos e talheres e que ele poderia cozinhar, se desejasse:
— Quanto tempo pretende ficar? — indaguei.
— No máximo uma semana — a resposta de Rubens me bastou, já que eu não desejava que a presença dele interferisse em nossa rotina.

Os três primeiros dias transcorreram na maior naturalidade. Rubens continuava divertido, à tarde, descíamos para o barzinho na esquina de casa e tomávamos um chope. Até parecia que todos os anos de afastamento não haviam apagado nosso vínculo anterior.
Porém, Talita estava incomodada.
— Por quê? O que ele fez para você? — questionei.
— Eu não sei explicar, Marcos... Ele me olha dum jeito estranho. Não estou confortável com a presença dele aqui.
— É apenas por uma semana, no máximo — consolei-a, e recebi um forçoso sorriso como resposta.

A semana acabou, mas Rubens não dava sinal de que se preparava para partir.
— Apenas mais um ou dois dias, Marcos, depois volto pra casa — aquiesci, mas, no íntimo, dizia “não, já está na hora de ir”.
Sai para o trabalho e, no final do dia, ao chegar em casa, Talita me chamou para conversarmos no quarto.
— Eu quero que seu amigo vá embora, agora! — ela queria gritar, no entanto, sussurrava.
— O que aconteceu?
— Ele é um depravado! Eu tinha certeza de que havia algo de errado nele! Hoje, eu estava lavando louça, quando ele chegou por trás, segurou-me pela cintura e se encostou em mim. Ele estava de pinto duro, Marcos!
— E o que você fez? — eu estava indignado.
— Empurrei-o para trás e perguntei o que ele estava fazendo. Com a maior cara-de-pau, ele disse que havia vindo pegar um prato no armário. É um tarado!
Minhas mãos tremiam, eu estava dominado por um inusitado ciúme, mas também pela descrença, não era possível que meu amigo de infância estivesse tentando seduzir minha mulher.
Fui ao quarto de Rubens, três batidas na porta e entrei. Controlando-me, disse ao hóspede:
— Rubens, eu gostaria que você pegasse suas coisas e fosse embora. Fiquei muito feliz com sua companhia nestes dias, mas já estamos começando a sentir falta da nossa privacidade.
— Só mais um dia, amigão... — ele suplicou.
— Não — eu apanhei a mochila de Rubens — você precisa ir embora hoje.
Este, que estava deitado na cama inferior do beliche se levantou, encarando-me ameaçadoramente:
— Ponha minha mochila no chão, Marcos.
— Eu o acompanho até a porta — virei-me para deixar o quarto, mas fui agarrado por Rubens, que me puxou para dentro do quarto e me lançou contra a parede.
— Eu disse para largar minha mochila!
Obedeci.
— Só mais um dia! — ele repetiu, a centímetros do meu rosto.
Acuado, concordei. Como um covarde, retornei ao quarto. Talita me fitava, cheia de esperança.
— Amanhã, ele vai embora — resmunguei, e percebi que eu a havia decepcionado.
Ela correu até a cozinha e retornou ao quarto, com uma faca na mão. Ela a colocou dentro da gaveta do criado-mudo.
— Eu não confio neste safado! Esta faca vai ficar bem do meu lado.
Talita se deitou e eu fui para a sala, assistir a um pouco de TV. Rubens saiu e se sentou ao meu lado.
— Desculpe-me por meu comportamento, Marcos. Tenho estado muito alterado ultimamente. Eu não lhe disse antes porque tive vergonha, mas eu briguei com minha esposa e sai de casa, sou orgulhoso demais pra voltar com o rabo no meio das pernas, e ainda desconfio de que o menino não seja meu filho. Aquela mulher é uma vagabunda, sempre me enganou!
— Eu não sabia disto, sinto muito — eu disse, com genuína compaixão. Assim como Rubens, eu gostaria de encontrar amparo em meus amigos se necessitasse e, talvez movido por semelhante pensamento, ele havia vindo me procurar.
— Não importa. Amanhã à tarde, eu vou embora. Preciso tocar a vida adiante, não é?

Aquela conversa me aliviou, pois a reação agressiva de Rubens havia me deixado apreensivo. Mas havia uma razão e me pus no lugar dele.
Cheguei no trabalho e, como o habitual, iniciei a leitura do jornal. Ao chegar na seção policial, deparei-me com a seguinte manchete:

Marido mata mulher e filho, depois foge

E, sob este título, a foto da mulher, com um menino pequeno na cama, ensangüentados, acompanhada da legenda “Os corpos estavam enterrados no quintal da casa”, e, ao lado, numa foto menor, o retrato do assassino. Imediatamente reconheci Rubens. Naquele instante, era como se o tempo havia parado, meus olhos fixos na foto do assassino, as mãos suadas segurando o jornal aberto, a respiração suspensa, a mente divagando, lembrando-me do temor que Talita tinha deste nosso hóspede.
Ela havia acordado indisposta naquela manhã, ligou para a escola e pediu uma dispensa por aquele dia, ou seja, Talita estava sozinha em casa com um assassino procurado. Irracionalmente, sem avisar ninguém aonde eu ia, levantei-me e desci os sete andares até a garagem do prédio. Dirigi em alta velocidade, quase atingindo uma Kombi a uns dois quarteirões de casa.
O elevador parecia demorar uma eternidade para chegar ao térreo e, dentro dele, outro milhar de anos para chegar ao meu piso. Fui direto para o quarto, a porta estava entreaberta, pude ver Talita deitada, de bruços, e meu coração se encolheu no peito, tomado por uma dor que nunca, mas nunca mesmo, eu havia sentido antes; meus olhos se encheram d’água, as pernas perderam sustentação. Prostrei-me, afogado pelo desespero. Eu precisava urrar, liberar toda a dor que me consumia, mas não havia voz, não havia gestos, que pudessem expressar o que eu sentia.
Uma voz atrás de mim:
— Desculpe-me, Marcos, eu não queria machucá-la...
Rubens tinha uma faca ensangüentada na mão, a mesma que Talita havia guardado no criado-mudo.
— Eu estava partindo, e fui avisar sua esposa disto, bati na porta, mas ela não respondeu. Girei a maçaneta, e ela estava deitada, só de calcinha... Eu não agüentei, sou homem, sabe como é. Me aproximei e abaixei meu zíper, quando tentei tirar a calcinha dela, sua mulher acordou e começou a gritar. Eu disse para ela ficar quieta, porra! Tentei tapar-lhe a boca, mas ele me mordia, me arranhava, enfiou a mão na gaveta e tirou esta faca; queria me matar! Você teria feito o mesmo que eu, sei que teria. Era eu, ou ela...
Dizem que, diante de situações extremas, o ser humano possui duas reações, a primeira delas é a de fugir do perigo, a segunda, é enfrentá-lo. Existem relatos de mães africanas que abriram bocas de leões para salvarem de suas presas os filhos. Não sou um homem corajoso, nunca fui; apanhava dos colegas no colégio e, certa vez, com quinze anos, mijei nas calças assistindo um filme de terror. Não sou um homem corajoso, mas, naquela circunstância, acuado como estava, minha mulher embebida no próprio sangue a poucos metros de mim, uma força brutal me invadiu. Ergui-me e todo meu corpo era ódio. Precipitei-me contra Rubens, ambas as mãos em sua garganta e mergulhamos contra a parede. Rubens emitia grunhidos, sufocando, em reação, deslizou a faca por minha perna, mas não senti dor, apenas ódio. Somente após matá-lo, meu espírito sossegaria.
A faca caiu dos braços lânguidos de Rubens, e eu já o considerava derrotado. Mas ele, também buscando um resquício de vigor, unhou-me a cara e, subjugando-me (era muito maior do que eu), se livrou do meu estrangulamento. Derrubou-me e me esmurrou sucessivas vezes, até me levar à inconsciência.

A polícia me encontrou desmaiado no chão da sala. Um vizinho havia lido a reportagem no jornal, reconheceu meu hóspede e ligou para a polícia. Talita foi levada ao IML, havia sido esfaqueada inúmeras vezes e, posteriormente, violentada. Rubens estava foragido.
Vendi o apartamento na praia e voltei para a cidade, morar com meus pais. Tenho medo de sair na rua, de esbarrar em Rubens. A memória de Talita nunca me deixa. Minha janela dá para um espigão, tão cinza e sujo quanto meu interior.
Por muito tempo, fiz as escolhas certas na vida, mas bastou uma única escolha errada para foder tudo.

sexta-feira, setembro 07, 2007

O Dilema do Morto-Vivo


— Sinto muito, senhor Jorge, mas não podemos liberar o seu auxílio-doença. Consta em nossos bancos de dados que o senhor está morto — a funcionária do INSS fitava a tela do computador.
— Mas, minha filha, eu ‘tô vivo! Bem aqui na tua frente!
— Não há nada que eu possa fazer, seu Jorge.
Desorientado, Jorge deixou o posto do INSS e foi para casa.

— Maria, você não sabe da última — Jorge resmungou.
— Fala, meu véio... — Maria lavava roupa no tanque.
— Não vou recebeu o dinheiro da licença-médica. ‘Tão falando que estou morto.
— Como assim, Jorge?
— Não sei, só disseram que eu havia morrido.
— Amanhã, você volta lá e confirma esta história — e foi o que Jorge fez, na manhã seguinte, retornou ao INSS, porém, obteve a mesma resposta.

— Estranho, não? — Maria coçava a cabeça.
No entanto, Jorge não respondeu, absorto em pensamentos. Passou o dia calado, não quis assistir à novela, foi dormir cedo. Mas o sono não veio, Jorge rolava na cama, atormentando com a idéia de que eles estivessem certo.
— E se eu estiver morto, Maria? — ele perguntou.
— Deixa disto, Jorge, você ‘tá vivo! — Maria retrucou, dormitando.

— Você tem que ir a um cartório, Jorge. Lá eles podem dizer se você está morto ou vivo. Se estiver morto, eles vão ter um atestado de óbito, com seu nome e data de falecimento — Luizão do boteco assegurou.
Jorge seguiu o conselho. Foi ao cartório e perguntou ao notário se havia um documento atestando sua morte.
— Que disparate, senhor! Se você está vivo, como espera que eu encontre algo provando seu falecimento?
— É o que dizem por aí! Só quero confirmar.
O tabelião se conformou, procurou e encontro a prova que Jorge ansiava.
— Em que dia morri? — Jorge indagou, curioso.
— 15 de setembro de 1980.
— Quando eu tinha vinte anos — Jorge concluiu.

Em 15 de setembro de 1980, Jorge voltava de viagem com seu pai, sua mãe e a irmã caçula. O pai, caminhoneiro, os havia levado a Aparecida do Norte, cumprir uma promessa. Na contramão, um motorista de ônibus bêbado perdeu a direção e atingiu o caminhão onde Jorge e sua família estavam.
Todos morreram.

Jorge cuidava os túmulos onde ele e seus parentes estavam sepultados. Inequivocadamente, estava escrito “Jorge de Lima”, data de nascimento e morte. Não havia dúvidas.
Algo macabro havia ocorrido para que Jorge estivesse andando por aí, houvesse se casado com Maria, tido filhos, arranjado emprego. Se ele estivesse morto, como tudo indicava, qual explicação haveria?
Coisa do diabo? Ou um milagre de Jesus?

— Maria, tomei uma decisão... — Jorge estava triste — Não gosto nada desta situação. Um defunto não pode ficar perambulando pelas ruas. Vocês vão ter que me enterrar.
Contrataram os serviços duma funerária e organizaram o velório. Jorge se deitou no caixão e, quando chegava algum dos seus amigos para ver o finado, ele lhes dava uma piscadela.
O padre fez um sermão, mas os rapazes não queriam fechar o esquife.
— Vai pessoal, estou morto há quase trinta anos, só falta completar o serviço!
Levaram o caixão para o cemitério, Maria chorava, os coveiros cobriram de terra o ataúde. Um dia muito triste pra todos.

— Dona Maria, não podemos liberar a pensão do seu marido — disse a funcionária do INSS. Nossos bancos de dados indicam que seu marido está vivo.
— Não, moça, ele ‘tá morto. Morreu trinta anos atrás.
— Há um Jorge de Lima falecido aqui, mas é outra pessoa. Sinto muito, mas não há nada que eu possa fazer.


Escrito para a Oficina da E-TL

quarta-feira, setembro 05, 2007

Cotó Descobre a Liberdade

Num canto esquecido no quintal da minha vó, atrás das bananeiras, agitava-se Cotó. Amarrado com uma corda de varal no chiqueiro, ele latia desesperado, suplicando atenção, uma mão para afagá-lo.
Mas nós não chegávamos perto, e nem era por causa das sarnas e carrapatos, ou da baba constante a escorrer, ou das demais perebas que não víamos, era apenas para não sujar a roupa limpinha, que Cotó insistia em macular com suas patas avermelhadas de terra.
Eu até gostaria de brincar com ele, desatar-lhe o nó que feria sua garganta e vê-lo correndo livre pelo quintal, latindo de felicidade, não a mendigar carinho, mas vovó não deixava. Nossa obrigação era apenas jogar a vasilha com angu diante de Cotó e voltar pra casa.
À noite, Cotó chorava. Eu não podia vê-lo pela janela, mas escutá-lo era uma dor no coração. Revoltei-me, deixei a casa de pijamas, no escuro, e fui até o cativeiro de Cotó, ousei me aproximar e recebi patadas na altura do peito e lambidas na cara, acarinhei-lhe o pescoço e o desprendi da amarra. Cotó ficou como que paralisado, nunca havia sido livre antes, não entendia o significado disto; a ausência de laço o amedrontava.
— Vai, Cotó, vai embora!
Mas o burro do cachorro apenas me olhava, pedindo carinho.
Foi quando tive a brilhante idéia, apanhei um pedaço de pau e mostrei a Cotó:
— Pega, Cotó! — e arremessei o pau, o mais longe que pude. Instintivamente, Cotó se precipitou atrás do brinquedo. Segundos depois, retornava, objeto na boca, toco de rabo abanando.
— Vai, Cotó, pega! — e, com mais força, lancei a madeira, que desapareceu na escuridão. Esperei alguns minutos, mas Cotó não voltava. Finalmente, ele havia sentido o gosto da liberdade e fugira pelo mundo afora, descobrindo coisas que nunca havia imaginado.
Na manhã seguinte, ouvi minha vó conversando com alguém na cozinha:
— Era um cachorro desgramado mesmo!
Foi quando descobri que Cotó, na noite anterior, ao encalçar o pau, havia corrido para a rua e acabou atropelado por um Fusca.
De libertador, passei assassino. Daquele dia em diante, comecei a entender Robespierres, Napoleões, Che Guevaras e Cristos; o fardo da liberdade é grande.