domingo, outubro 21, 2007

Das Armas e Artes

(O Velho Guitarrista, de Pablo Picasso, fonte: http://www.physics.miami.edu/~chris/art/picasso/old_plyr.jpg)


O violeiro será o primeiro a morrer amanhã. Talvez, por isto, concederam-lhe o último prazer de manter sua viola.
Creio que aos próprios carcereiros aprazem o dedilhar e a cantoria do velho. Mas, desta vez, suas canções são tristes.
Nossas histórias se entrelaçam, datam de longínquos anos, duma época tão calma e ultrapassada que a memória dela quase se ofusca e se mistura com outras recordações minhas e histórias fantasiosas que ouvi pelo mundo afora.
Eu era criança quando o violeiro cego surgiu na minha vila, quase um mendicante. Comia o que lhe davam, dormia onde o abrigavam, caso carecesse de ambos, arranjava uma cabana sob o feno das alimárias e dividia a ração dos porcos. Isto apenas no começo, quando não o conhecíamos, pois, aos poucos, a voz rouca e os dedos hábeis nos cativaram. Na praça, chapéu no chão, viola na mão e na boca uma canção, o violeiro cantava os cantos da nossa raça, narrava os épicos do nosso povo. E não era apenas mais mendigo; era uma honra recebê-lo em casa e ouvir sua sabedoria em música; o suserano queria tê-lo à mesa, custeando-lhe luxo e banquetes.
Impressionava-me que um cego pudesse cantar tantas coisas que não havia visto, falar daquilo que não sabia. Meu pai reputou-lhe como um mentiroso:
— Não creias nestas baboseiras. O violeiro é apenas um bufão.
Mas o violeiro me encantava, e comumente eu negligenciava minhas tarefas domésticas para ficar ao pé do músico, apreciando suas histórias.
Uma em especial eu aprendi de cor, e apanhei muito por causa dela quando meu pai me flagrava recitando-a, um graveto a tiracolo simulando uma viola.
Se não me falha a memória, o primeiro verso era mais ou menos assim:

Alatiel trazia no peito as efígies
Do leão, da águia e do touro sem doma.
Na lâmina da espada a fama assoma:
“Aço, da Morte inglória me proteges.”

No entanto, para incompreensão de todos os vilões, o músico cego foi expulso pelo suserano, fato que apenas serviu para corroborar as afirmações de meu pai, de que o violeiro não passava dum patife.
Isto não diminuiu meu fascínio por aquela figura, tanto que tomei a resolução de seguir, se possível, uma das duas carreiras no futuro: cavaleiro, e cruzar o mundo como Alatiel, matando dragões e assediando bastiões; ou violeiro, vagamundeando a contar histórias.

Papai jamais permitiria que me tornasse músico, por isto, no intuito de me libertar de tais estapafúrdias elucubrações, ele me enviou para ser treinado por um aristocrata. Como pajem, alimentei as montarias do cavaleiro, carregava suas armas, polia sua armadura, acompanhando-o em torneios.
E foi num destes eventos que me encontrei, pela segunda vez, com o violeiro. Disputando a atenção, entre muitos outros artistas, saltimbancos, flautistas e trovadores, poucos se compadeciam do violeiro cego. Apenas eu lhe prestava alguma reverência.
Uma atroz guerra assolou, então, nossos territórios. Meu senhor, conclamado pelo suserano, se pôs a seu serviço e fomos nós, unidos a outros nobres e campesinos, para o campo de batalha. Atrás das defesas, eu e demais rapazolas nos apressávamos para munir os arqueiros de frechas e os cavaleiros de armas.
Vencemos as batalhas, mas oprimidos por devastadoras baixas.

Ao retornar ao meu vilarejo, desgraça. Toda a vila havia sido devastada pela carnificina, meus pais mortos, meus irmãos se dispersaram pelo mundo. Sem rumo, fugi para outras vilas e burgos. Roubei, enganei, mendiguei, tudo para não morrer de fome. Só não matei porque não tive oportunidade nem necessidade, mas tudo de baixo e vil realizei durante esta minha queda na vida.
Numa destas peregrinações, avistei o violeiro num mercado, cantando por miúdas moedas. Aproximei-me dele e me apresentei, relatando-o a alegria de ver um rosto conhecido após tanta desdita. O violeiro dividiu comigo um pão endurecido e me levou até o celeiro onde lhe permitiram dormir.
Despedi-me com tristeza do músico e retornei à estrada.

Pouco tempo depois, uni-me a um grupo de mercenários. Aprendi o manejo da espada, da lança e do arco. Ensinaram-me a montar e a me defender com escudo.
Quando não assaltávamos mercadores nas estradas, lutávamos guerras alheias por preço justo. Se víamos que estávamos em desvantagem, abandonávamos o campo de guerra. Porém, se percebêssemos que tínhamos a vantagem, permanecíamos até o desfecho, para partilharmos dos despojos. Não lutávamos por honra, glória, ou até a morte, fazíamo-lo por dinheiro, e dinheiro obtivemos.
Na época devida, comprei um título nobiliário e uma quinta. Já não era mais um rapaz, desposei uma virgem e aguardava meu primogênito, quando uma nova guerra se instaurou.
Cansado de tamanha carnificina, abstive-me de integrá-la, apesar de sucessivas e insistentes convocações do suserano. Mas um viajante me trouxe a alarmante notícia de que os exércitos inimigos estavam a poucos dias da minha propriedade. Temendo que os meus caros tivessem o mesmo fim de meus pais e irmãos, reuni meus servos, minhas alimárias e equipamento de guerra, e engrossei o exército do meu senhor.
As batalhas foram encarniçadas e, no decorrer de algumas semanas, recuamos inúmeras vezes, buscando abrigo em bastiões, que caíram diante do exército adversário.
Por fim, abrigamo-nos num burgo e fomos assediados por meses. Os que não morriam nas batalhas, pereciam de fome e peste. Nossos comandantes tombaram em combate e, para minha surpresa, designaram-me como o capitão dos nossos soldados.
Eu não era nenhum principiante nas artes da guerra, assim, conquistamos algumas fugazes vitórias, mas nada que dirimisse nossa derrota. Tudo estava perdido; para nós, restavam apenas a vergonha e a cova.
No entanto, certa noite, alguém pediu admissão ao castelo. Conduziram o viajante até a tenda do suserano. Da minha barraca, pude avistar o velho violeiro cego. Meus pensamentos foram dominados por questionamentos.
O que ele fazia ali? O violeiro e o suserano não haviam cortado relações, muitos anos atrás? Que tipo de importância ele poderia ter para nossa guerra?
Mas não obtive tais respostas.
Na manhã seguinte, descobrimos que o suserano havia nos abandonado; fugido como um covarde.
O desespero se instalou entre os nossos. Se o próprio interessado nesta guerra havia evacuado, era porque não havia realmente salvação. O moral estava baixo, mas, mesmo assim, ainda agüentamos o assédio às muralhas por mais um dia.
Reuni um grupo de valorosos combatentes e preparamos um plano de fuga. À noite, desertaríamos a cidade, levando conosco todos que pudéssemos. Mandei trazer até mim o violeiro, indagando-o qual a mensagem que portava:
— Não há mensagem. Sou apenas um cantador, meu capitão, vou de vila em vila a trovar.
Só que ele mentia, e isto me doía mais, pois ele dividiu comigo seu pão, mas não dividia algo que poderia nos salvar a vida.
Tentamos realizar nosso projeto, mas fomos interceptados por tropas inimigas. Uma horrível batalha ocorreu na escuridão da noite. Às cegas, amigos cravavam suas espadas em amigos, flechas flamejantes atingiam a todos indiscriminadamente.
Levei um golpe na cabeça e tombei inconsciente.

Eu ouvia música. Desorientado, indaguei:
— Estou morto? Esta é a música dos anjos?
Uma gostosa risada ecoou pelo recinto. Abri os olhos e me encontrava numa cela, cercado por grades de ferro. Na cela ao lado, estava o violeiro, rindo, viola a melodiar.
— Ainda não morreste, capitão, mas, amanhã, nós dois seremos decapitados.
Aquela sentença de morte, vinda de maneira tão abrupta e natural, trouxe-me à mente minha esposa e o bebê que crescia no ventre dela. Tentei chorar, mas os calos no coração não deixaram.
— Que mensagem trazias ao suserano? — repeti a pergunta, agora que não havia por que ocultá-la.
Mas o violeiro respondeu com evasivas.
— Condenaram-me à morte alegando ser eu um espião, que trazia informações dos reinos inimigos ao nosso senhor, e que indiquei o modo como ele poderia fugir ao cerco.
Tal resposta meu bastou, e tudo ficou claro como o dia. As canções do violeiro eram mensagens cifradas, revelando mais do que pareciam.
— E como podes cantar sobre coisas que não viste? — surgiu-me esta questão que, desde o primeiro encontro, estava cravada em mim.
— Nem sempre fui cego, capitão, já vi e estive em muitas batalhas. Foi numa delas que me tiraram a visão e, sem ofício, encontrei amparo nesta viola.
Levantei-me e enfiei a cabeça na pequena janela quadrada. Lá embaixo, o patíbulo para nossa execução estava sendo preparado.
— Fico feliz que, dentre todos que já conheci nesta vida — eu disse —, seja ao teu lado que eu tenha de deixá-la. Tu foste, um dia, o que eu sou; e, ao mesmo tempo, és o que eu poderia me tornar. Somos da mesma têmpera; somos do mesmo mundo.
O cego libertou outra gargalhada.
— E tem certeza, capitão, de que, um dia, um outro contador de história se lembrará de nós, e ambos ainda estaremos vivos, rindo juntos nesta mesma cela. Será mentira, mas será bem contada.


Escrito para a Oficina da E-TL

sábado, outubro 06, 2007

O Trouxa


Minhas mãos tremiam ao digitar a senha no caixa eletrônico. Nunca antes a impressão dum extrato bancário pareceu ter demorado tanto (talvez apenas daquela vez em que estourei o limite do cheque especial) e, quando a máquina cuspiu o papelzinho, a minha reação foi um resmungo engasgado:
— Aquela vaca me roubou!

A vaca havia se apresentado como Elisa Sampaio. Conhecemo-nos numa sala de bate-papo na Internet, ela morava no interior, eu na capital. Elisa tinha uma conversa interessante, versava sobre quase tudo com fluência e logo deixei de dialogar com outras pretendentes, destinando exclusividade a Elisa.
Trocamos fotos por e-mail, ela não era linda, mas, como eu já estava apaixonado, fiquei radiante. Mal podia agüentar minhas férias chegarem para eu embarcar num ônibus e conhecer pessoalmente Elisa.
Porém, antes disto, recebi a maravilhosa notícia. Ela havia pedido as contas no serviço e estava se mudando para cá, seria a oportunidade para nos encontrarmos.
Na TV, notícias de crimes cometidos pela Internet: seqüestros, estupros, assassinatos. Temerosa, Elisa sugeriu para nosso primeiro encontro um local público, para segurança de ambos.
Estava ocorrendo uma feira na cidade, com parque de diversões e tudo mais. Comemos maçã do amor, andamos na roda-gigante e demos nosso primeiro beijo no trem-fantasma, tudo na maior melação amorosa. Afinal, estávamos apaixonados!
Elisa foi dura na queda, sucessivas vezes insistiu que não fazia sexo no primeiro encontro, mas, no segundo, cedeu. Quem resiste a um jantar romântico, a dois, luz de velas e um bom vinho?
Porém, nos dias seguintes, Elisa se comportou de maneira estranha. Perguntei-lhe o porquê:
— As coisas não andam fáceis, Robson, vim para cá, mas não estou conseguindo emprego. Na pensãozinha onde estou, a semana vence amanhã, e não tenho dinheiro nem para onde ir.
Na minha mente, a resposta era única e óbvia.
— Venha para minha casa!
Na mesma noite, Elisa se mudou para meu apartamento, trazendo mala e cuia.
Eu não cabia em mim de tamanha felicidade. Após tantos anos procurando uma companheira, uma mulher que sabia cozinhar e insaciável na cama era muito mais do que poderia imaginar.
Como um casalzinho novo, todo dia eu voltava com um presente para Elisa, ou um buquê de flores, beijávamo-nos ardentemente e acabávamos sob os lençóis.
Meu salário era razoável, mas, ao perceber que Elisa não estava procurando emprego, senti de deveria tomar uma providência.
— Amor, abriu uma vaga para secretária na minha empresa. Você não quer mandar um currículo pra lá?
— Ah, Robie, a nossa vida não está boa deste jeito? Tenho medo de que, se eu começar a trabalhar, nosso relacionamento mude. Sabe como é: vou chegar cansada, sem pique. Sempre sonhei em ser dona-de-casa. Poderíamos até nos casar...
Esta evolução súbita, de sexo a casamento, me assustou.
— É melhor não nos apressarmos — titubeei — Você poderia arranjar um emprego, talvez alugar um lugar aqui perto. Poderíamos aproveitar nosso namoro, casamento é um passo muito importante.
Porém, Elisa chorou, soluçando, reclamando que eu não a amava, o que estava bem longe de ser verdade. Reconciliamo-nos, e eu prometi que pensaria na proposta dela.
Creio que foi nesta semana que percebi algo estranho: dinheiro miúdo estava desaparecendo da minha carteira, às vezes eram três reais, noutras, cinco, mas, diariamente, havia menos dinheiro do que no dia anterior.
— Você está precisando de algo? — perguntei a Elisa — Se você não se incomodar, eu posso até lhe dar uma mesada. Não sou rico, mas uns cem ou duzentos reais por mês posso separar para você.
— Nunca pensei em encontrar um homem tão maravilhoso! — Elisa me abraçava e beijava, mas, mesmo assim, os trocados continuaram sumindo.
Depois, foram pequenos itens de casa: alguns talheres de prata, herança da minha vó; um candelabro de cristal, que Elisa alegou ter quebrado durante a faxina e, por fim, até meu relógio de pulso, que sempre deixava na cabeceira da cama antes de dormir, que valia umas quinhentas pratas.
Quando perguntei a Elisa se ela havia reparado nestes estranhos desaparecimentos, ela respondeu:
— Você é muito distraído, Robie. Está sempre perdendo tudo!
Só que antes de conhecê-la nada disto ocorria, e este fato me incomodava.

— Não passou pela sua cabeça que ela possa ser uma vigarista, uma contista? — um amigo me advertiu — Já ouvi histórias semelhantes. Daqui a pouco, você volta pra casa e esta mulher limpou tudo.
Que boca maldita! Foi nesta mesma tarde que descobri que limparam minha conta no banco, e, ao chegar em casa, só o vazio, nem um único móvel, nem uma única peça de roupa havia restado. A desgraçada me deixou com a roupa do corpo e um apartamento onde até meu choro ecoava pelos cômodos nus.

Elisa Sampaio não deixou rastros, na polícia, informaram-me que mesmo o nome dela deveria ser falso, que caí num bem articulado conto-do-vigário e que não deveria me penitenciar por causa disto, muita gente bem mais inteligente do que eu (esta sentença feriu meus brios) também já havia dado uma de pato.

Mas decidi virar o jogo.
Voltei à Internet, mas quem ostentava agora um nome falso era eu. Vaguei pelas salas de bate-papo, conversando com dezenas de mulheres, tentando reencontrar Elisa. Suspeitei de duas, depois descobri que não eram ela. E meu peito doía de desespero, sentindo-me o mais trouxa dos trouxas.
Não a descobri na rede e acabei desistindo. Desistindo, mas não esquecendo, principalmente quando, ao chegar em casa à noite, eu era obrigado a me recolher ao meu quarto, onde havia apenas um colchonete. Porém, consolava-me a mim mesmo, com aquele mesmo argumento das velhas beatas:
— “Se não há justiça dos homens, haverá pelo menos de Deus”.
O que me fazia sentir um tolo, ao recorrer a um Deus que há anos não mais acreditava.

No entanto, numa manhã de sábado, ao ir à compra de roupas novas, de relance, vi uma mulher, cheia de jóias, vestido justíssimo, desfilando para dentro dum carro com motorista.
A voz ficou presa, eu queria berrar, xingá-la com todos os palavrões que eu conhecia, mas só arrotei um:
— Elisa?
Alucinado, corri até meu automóvel, estacionado do outro lado da rua, e segui aquele onde estava Elisa.
Chegaram a um bairro de alta classe e cruzaram os portões duma mansão. Anotei o endereço e prometi a mim mesmo que desmascaria esta vadia.

O que se sucedeu nos dias seguintes é confuso na minha mente: fiquei de tocaia diante do casarão, segui-a até um shopping center, abordei-a quando ela foi ao toalete, pronto para me vingar dela, porém, a antiga flama dum amor pretérito se reacendeu, quando Elisa me suplicou para acreditar nela, alegando que tudo que ela fez contra mim foi sob coação, que ela ainda me amava, que nunca havia me esquecido. Transamos no banheiro no shopping, eu mais feliz do que nunca por tê-la reencontrado e descobrir que meu amor era correspondido.
O verdadeiro canalha era o dono daquela mansão, pelo que Elisa me contou. Pablo era um extorsionário profissional. Havia praticado golpes ao redor do mundo, desde Santa Fé de Bogotá, donde ele provinha, passando por Mônaco até chegar ao Brasil, reconhecidamente a pátria da impunidade.
Elisa me pediu ajuda para se livrar deste pústula, que a mantinha sob vigilância constante, utilizando-a para realizar seus trambiques. Juntos, maquinamos um plano infalível, roubaríamos a fortuna dele e fugiríamos do país. Mais simples, impossível.
Num quarto de hotel, poucas horas antes de perpetrarmos nosso projeto, fizemos sexo selvagem, Elisa me pedindo para estapear-lhe a cara, arranhando-me a costas, como se fôssemos animais.
A minha comparsa facilitou-me o acesso à mansão e, à noite, entrei na casa adormecida. Elisa me encontrou ao rés-do-chão e, aos sussurros, me instruiu:
— Fique aqui embaixo vigiando, que eu vou subir para abrir o cofre. Se alguém aparecer, você sobe e me avisa.
E, para minha surpresa, me entregou uma pistola, à qual eu não sabia nem como empunhar.
Elisa subiu ao primeiro andar. Eu estava tão ansioso que andava dum lado ao outro, consultando o relógio a cada cinco segundos. Elisa estava demorando uma eternidade para voltar.
Haveria acontecido algo?
Mas eu me continha.
Porém, após meia hora, achei mais prudente verificar se tudo estava bem. Vaguei pelos cômodos do primeiro andar, mas não a encontrei. Passei pelo escritório de Pablo, todo revirado, cofre aberto, mas lá Elisa também não estava. Por fim, cheguei a um quarto, porta entreaberta.
Empurrei-a um pouco e adentrei o aposento na penumbra. Alguém estava deitado na cama, supus ser Pablo, e o medo me paralisou. Temia que ele despertasse e eu tivesse de usar a arma; temia que ele acordasse, gritasse, e uma merda acontecesse. No entanto, algo estava esquisito. Assim que meus olhos se acostumaram com a escuridão, percebi que ele estava deitado de bruços, mãos atadas nas costas, um capuz na cabeça. Aterrorizado, afastei-me e acendi a luz. Foi quando descobri que Pablo estava morto, havia levado um tiro nos miolos.
Sem saber o que fazer, deixei a pistola cair e corri pelos cômodos, procurando Elisa novamente, chamando-a em sussurros. Eu tremia, minhas pernas estavam fracas, entrei num lavabo e comecei a chorar. Ouvi som de sirenes, a polícia havia sido chamada.

Fui preso, interrogado, queriam saber onde eu havia escondido o dinheiro de Pablo, o honesto e dedicado dono duma rede de panificadoras. Recusei-me a responder as perguntas, enquanto aguardava meu advogado.
Mas minha maior surpresa foi quando me puseram numa saleta envidraçada. Policiais apareceram, escoltando uma mulher. Era Elisa.
Os policiais perguntaram a ela:
— Foi este homem que invadiu sua casa e a violentou?
Soluçando, Elisa respondeu:
— Sim, sim, foi ele! — e desviou o olhar de mim.
Descontrolei-me e amaldiçoei até a quinta geração da desgraçada, mas os policiais me contiveram e ainda tive de ouvir do delegado:
— Se acalme aí, mocinha, pois, na penitenciária eles vão se fartar com estupradores como você!

Fui julgado por júri popular, condenado a quarenta anos de prisão por homicídio doloso, estupro, lesão corporal, roubo, e outras acusações menores. Fui enviado a uma penitenciária estadual, feito de mulherzinha, contraí HIV e quase fui morto na última rebelião.
Na semana passada, no dia da visita, chamaram-me, dizendo que alguém havia vindo me ver. Evento extraordinário, já que todos meus amigos e parentes desapareceram após a condenação.
Cheguei ao pátio e vi uma mulher sentada, absorta em pensamentos. Foi difícil reconhecê-la, após tantos meses, ela havia tingido e cortados os cabelos. Elisa me olhou e sorriu. Primeiro, pensei em saltar sobre ela e matá-la com o canivete que escondia nas calças. Seria a vingança que tanto almejei. Entretanto, não tive coragem, sentei-me ao lado dela e perguntei o que ela estava fazendo aqui.
— Pensei muito em você nestes últimos tempos — ela me disse.
Conversamos e eu a perdoei. Uma vez por semana, ela vem me visitar.
Por incrível que pareça, Elisa (se este for realmente o nome dela) é, e sempre será, meu grande amor.


Escrito para a Oficina da E-TL