sexta-feira, dezembro 19, 2008

Aqualung - e-book gratuito (mojobook)

Acabou de ser publicado e-book que escrevi para a Editora Mojo Books, inspirado no álbum Aqualung, da banda britânica Jethro Tull.

O enredo é a história da filha de um banqueiro em busca de sua própria liberdade e descobertas.

O e-book pode ser baixado gratuitamente no site da editora. Para isto, é necessário apenas realizar um rápido cadastro.

Aqualung
Baixe aqui

quinta-feira, novembro 27, 2008

Audiobook da Oficina



No mês de novembro, foi lançado o Audiobook com contos de membros da Oficina da E-TL.
O CD foi produzido por Alian Moroz.

Conteúdo

1 - "Vovô Caneco", de Alian Moroz
2 - "O Menino Binário", de Carlos Barros
3 - "Coleção de Botões", de Giselle Sato
4 - "Noite Estrelada", de Guilherme Rodrigues
5 - "A Vingança de Bento Julião", de Henry Alfred Bugalho
6 - "Os Ratos", de Joaquim Bispo
7 - "Esmeralda, Jade e Rubi", de José Espírito Santo
8 - "Fissuras Íntimas", de Leo Borges
9 - "A Palhinha", de Maria de Fátima Santos
10 - "A Última Revolta de Jesus Cristo", de Rogers Silva
11 - "Com Carinho, Isolda", de Volmar Camargo Junior

Para baixar as faixas do audiobook, clique no botão abaixo:

sexta-feira, junho 13, 2008

A Ordem do Mundo


“O mundo não tem ordem”, o monge que movimentava os sessenta e quatro discos de bronze refletiu.

O ritual era simples: no início dos tempos, quando o mundo havia sido criado, todos os discos foram colocados na primeira de três hastes, os maiores na base, os menores no topo, uma torre cônica; sempre existiu um monge com a tarefa única de movimentar os discos, o objetivo era transportar todos eles para a terceira haste, porém nunca, mas nunca mesmo, um disco menor poderia ficar abaixo dum disco maior.

Por mais simples que isto pudesse parecer, jamais alguém havia conseguido perfazer a tarefa. Segundo as profecias, no dia em que todos os sessenta e quatro discos fossem alocados na terceira haste, o mundo acabaria.

Estes mesmos monges estudaram as relações entre vogais breves e longas nos versos e estabeleceram uma seqüência métrica para composição, conhecida como matrameru.

Tanto o ritual quanto a métrica almejavam a perfeição, o supremo ideal, para os monges.

Certa manhã, Vidyacharan, após sonhos inquietos, chegou àquela conclusão: “o mundo não tem ordem”.

Não raro ele tinha pesadelos com os discos brônzeos e com o ato automático de movê-los rumo à completude. Nestes sonhos, Vidyacharan vislumbrava o fim dos tempos, mas também tudo que ocorreria antes disto.

Num destes sonhos, ele havia sido um sábio grego obcecado com o conceito de máxima generalidade, “o ser enquanto ser”; noutro, um matemático italiano, autor duma obra intitulada Liber Abaci, ou “Livro de Cálculo”, na qual ele apresentava ao mundo ocidental a importância de se adotar o sistema numérico arábico, incluindo o algarismo zero, e também a seqüência numérica inspirada nas descobertas métricas dos monges. Em outra noite, Vidyacharan era um pintor de afrescos, devastado pelo fracasso e pela busca da máxima perfeição e da mais precisa harmonia. Em outra ainda, um matemático francês que resgatava algumas descobertas do “Livro de Cálculo” e que implementava suas próprias conclusões e uma nova seqüência, através da qual obtinha, manualmente, o maior número primo conhecido.

Nas noites mais recentes, o monge havia sido um enxadrista cubano, à procura pelo adversário ideal para a realização da partida perfeita; numa bodega, conhece um marinheiro genovês que o desafia; após apenas poucos movimentos de abertura, o enxadrista se levanta, estende a mão e propõe empate. Aquele poderia ser o jogo perfeito, porém, um único deslize, uma única distração por parte dos jogadores o arruinaria. Para o enxadrista, melhor era viver a possibilidade do jogo perfeito, do que a ruína desta possibilidade.

Ele também havia sido um músico húngaro e, o mais inusitado, um autor português, que compunha livros como se fossem fórmulas matemáticas, e escrevia frases como se fossem linhas melódicas duma sinfonia, mas atormentando pelos enredos irrealizáveis que ele mesmo se propunha.

E, na noite anterior, Vidyacharan havia sido um físico americano que tentava compreender o caos e buscar ordem no aleatório. Foi então que a revelação — “o mundo não tem ordem” — o assolou.

Ele se sentou diante dos discos de bronze e, com mãos trêmulas, movimentou um deles. Toda sua formação o havia preparado para aquela tarefa, mas as visões noturnas minavam sua crença. “Seriam vislumbres de vidas futuras?”, ele se indagava.

Aterrorizado com quais sonhos as noites vindouras trariam, Vidyacharan deixou a esteira na qual tentava adormecer, adentrou o templo e acariciou os discos. Depois atou-os a seu corpo e mergulhou no rio sagrado, para sonhar o último sonho no colo de Brahma.

“O mundo não tem ordem”, pensou o monge, fundeando nas águas turvas do rio. Fechou os olhos. E constatou, para seu desespero, que estava errado, havia sim algum tipo de ordem, não compreensível, não mensurável, imprevisível, mas que unia todas as pontas dispersas, todas as perguntas sem respostas, todos os atos sem sentidos, todos os futuros não realizados, e presente nos astros, nos Vedas, nas paixões humanas e, até mesmo, nos discos brônzeos que afogavam Vidyacharan.

Escrito para a Oficina da E-TL

O Aniversário de J. S. B.



Em 1999, a revista Der Spiegel publicou um artigo intitulado “Era Bach o melhor?”; conseqüência duma exumação feita no cemitério de Leipzig. Foi quando a seguinte história veio à tona.

Durante as comemorações do aniversário de sessenta anos de Johann Sebastian Bach, um concurso foi organizado para determinar quem era o melhor organista da Europa.

Na verdade, o intuito era apenas confirmar o que todos — concorrentes, jurados e até o próprio homenageado — já sabiam: Bach era o maior dos virtuosi.
Músicos de todos os países, de todas as cidades e paróquias se congregaram em Leipzig para o festival, com duração de três dias.

Os moradores decoraram as casas e as ruas, mais cheias de vida do que nunca, invadidas pela multidão de pessoas e idiomas, artistas e curiosos.

Cada um dos concorrentes poderia praticar por algumas horas no magnífico órgão da Igreja de São Nicolau e se preparar para o embate. No entanto, Bach não conseguiu conter a ansiedade e, durante os ensaios, se escondeu num canto da igreja para ouvir e constatar a perícia dos desafiantes.

Após todos terem deitado os dedos no teclado do órgão, um dos organizadores da celebração indagou Bach:

— E então? São bons músicos?
— Todos, sem exceção. Aqui estão os melhores do mundo.

O organizador limpou com um lenço o suor que lhe escorria pelas têmporas:
— E dará tudo certo? Imagino que nenhum deles se equipare a você.
— Eu não teria tanta certeza... — Bach gaguejou — Há um jovem com um talento extraordinário, muito mais hábil do que eu.
— Impossível! Sua inspiração é divina, Sr. Bach.
— Se minha inspiração é divina, então é a própria mão de Deus que toca através daquele rapaz. Se quisermos ser justos, o título de melhor organista do mundo deverá ser dado a ele.

Os organizadores descobriram que o jovem se chamava Wolfram Benjamin, organista em Hamburgo, na casa dos trinta anos, genial e arrogante. Nem mesmo a ausência do pé esquerdo — amputado por causa dum tumor — reduzia sua desenvoltura nas pedaleiras. Além de brilhante intérprete, era um compositor incomparável. A constatação de que Bach não mentia os levou ao desespero, o festival seria arruinado.

A data do aniversário chegou e, um a um, os competidores se apresentaram. Bach assistia a tudo em silêncio, sentado na primeira fila.

Mas em nenhum dos três dias Wolfram Benjamin tocou. Ele simplesmente não compareceu ao desafio.

A última apresentação foi de Johann Sebastian Bach.

O clamor se ergueu, de boca em boca, pelas ruas de Leipzig: Bach havia vencido.

Isto até 1994, quando foram necessárias reformas no cemitério da igreja. Numa cova sem identificação, encontraram a ossada dum homem, pé esquerdo amputado.

Pesquisadores estudaram os restos mortais, vasculharam documentos da congregação, manuscritos e concluíram: aquele era Wolfram Benjamin, assassinado com um golpe de objeto rombudo no crânio.

O escândalo se instaurou no mundo da música, vários críticos, musicólogos e especialistas se posicionaram em lados distintos da disputa, alguns defendiam a genialidade de Bach, outros, a interrompida carreira dum prodígio.

O governo de Hamburgo exigiu retratação por parte do de Leipzig, além da redação duma nota pública expondo os fatos e afirmando que o organista hamburguense teria morrido por causa dum único crime — ser melhor do que Bach.

Leipzig não cedeu, alegou desconhecimento do assunto e, segundo dizem, ocultou evidências, destruiu documentos históricos, tudo para apagar quaisquer vestígios da presença de Benjamin durante o aniversário de J. S. Bach.

O artigo de Der Spiegel, poucos anos depois, reacendeu o debate. Os defensores de Benjamin requisitaram ao Kremlin o envio das partituras e do caderno de notas do organista. Alegaram que, durante a ocupação soviética, os russos apreenderam tais documentos nas dependências da igreja, mas os diretores do Kremlin negaram possuir qualquer informação sobre isto.

E a contenda prossegue, com acusações, mentiras e evidências duvidosas.

Talvez, um dia, encontremos o busto Wolfram Benjamin nas galerias da História e a epígrafe: “o melhor organista do mundo”; ou talvez sua imagem mais uma vez se desvaneça, restando apenas a imorredoura glória de J. S. B.


Escrito para a Oficina da E-TL

quarta-feira, maio 14, 2008

A Partilha dos Bens


A partilha dos bens de vovô foi uma grande surpresa para todos; entre os imóveis, ações da bolsa de valores, poupanças, obras de arte, automóveis e terrenos, havia um item inesperado: segundo o testamenteiro, cabia-me receber a maior jóia de todas — o Santo Graal —, guardada no cofre de vovô, atrás dum Magritte no escritório.
Obviamente, senti-me injustiçado ao ver meus tios e primos recebendo valores que se aproximavam das centenas de milhares de dólares e eu, que mal sabia o que era o Santo Graal à época — excetuando pelo que havia assistido em filmes como Excalibur —, encarei aquilo como uma piada de mal gosto, posto que sempre mantive um relação um tanto distanciada do velho.
Este impressão se confirmou quando, com a chave e combinação do cofre, abrimo-lo e ele nada continha além dum fragmento de papel, onde estava escrito: trinta dias.
Um dos meus tios, o herdeiro da mansão, nos convidou para permanecermos lá por mais algumas semanas, até que ele se habituasse com a vida de novo rico. Entre os familiares, o “meu Santo Graal” se tornou chacota. Decidi-me por partir antes do tempo, mas titio me demoveu:
— Ignore-os. Aproveite para descansar.
Acabei aceitando, com a condição de jantar às sós em meu quarto, para evitar ser alvo das brincadeiras.
Meu segundo refúgio se tornou a biblioteca, para qual eu me encaminhava de madrugada e lia até o amanhecer. Em pouco tempo, eu havia trocado o dia pela noite, assim, qualquer preocupação em me encontrar com parentes era quase nula, todos matutinos.
Nestas sessões noturnas de leitura, constatei que vovô possuía uma obsessão pelas lendas arturianas e pela busca do Santo Graal. O acervo sobre o assunto era vasto e em vários idiomas. Com meu francês rudimentar, li alguns trechos de Chretién de Troyes, optei por uma tradução em inglês de Parzival de Eschenbach, de Robert de Boron e de Perlesvaus, entre várias outras obras com que me deparei nesta pesquisa.
Este material que coletei me deixou intrigado, pois as versões eram contraditórias entre si, apresentando o Santo Graal das maneiras mais diversas — o cálice que recolheu o sangue de Cristo, uma pedra vinda do céu, uma representação do sagrado caldeirão celta, o símbolo da graça divina, a santa comunhão do cristão, o herdeiro mítico do relacionamento entre Jesus e Maria Madalena, entre inúmeras outras interpretações.
As propriedades do Santo Graal eram igualmente dúbias: para alguns autores, ele possuía a capacidade de curar qualquer enfermidade, para outros, trazia a iluminação e a elevação espiritual, ou, até mesmo, a juventude eterna.
A verdade era que ninguém sabia a verdade.
Estes meus estudos tomaram todo um mês, e cada nova leitura, cada novo autor, cada nova hipótese, crença ou dogma era um labirinto no qual eu tinha de me embrenhar, e eu nunca o deixava com uma resposta satisfatória, tampouco conseguia esclarecer a razão de tão inusitada piada feita por vovô em seu testamento.
Na minha última noite na mansão, decidi não mais evitar o confronto e desci para jantar com os demais.
— Quem é vivo sempre aparece! — disseram em coro e, crente de que eles haviam se esquecido do acontecido, sentei-me e fui servido.
— E o Santo Graal? — um dos meus primos perguntou — Conseguiu finalmente receber a sua herança?
Contive-me, beberiquei um gole d’água, e respondi:
— Olha, não sei o que o vovô queria dizer com aquilo, mas, neste tempo, descobri que para obter o Graal é necessária uma busca. Não é algo que se dá de presente, ou que se herda.
— E você acredita nesta besteira? — uma tia interveio, rindo.
— Isto não importa. Mas vovô certamente acreditava e, neste sentido, a minha herança é muito valiosa do que as porcarias que vocês receberam. Enquanto a parte de vocês será dilapidada, apodrecerá, se gastará, a minha continuará eterna, incorruptível. A de vocês é física, por isto, finita. A minha é espiritual, e demonstra o verdadeiro valor que vovô dava às coisas.
Todos se calaram, constrangidos com a minha resposta. Jantamos em silêncio e voltei rapidamente para o meu quarto.
No entanto, naquela noite, despertei incomodado com uma claridade. Entreabri os olhos, cegado por aquela luz inebriante. Protegi a vista com a mão e, aos poucos, comecei a divisar algo, planando quase na altura do teto. Meu coração palpitava com força, tamanha era a emoção.
Diante de mim, estava o Santo Graal. Era o trigésimo dia da partilha, eu havia realizado minha busca, merecia a herança de vovô.
Até hoje sou motivo de piada entre meus parentes, mas eles são motivo de piada maior para mim.
Coube-me, de fato, a melhor parte.

Escrito para a Oficina da E-TL

sexta-feira, maio 02, 2008

A Busca


Sir Morton of Buckinghamshire não era um homem das Ciências, mas o último fascículo de Proceedings of the Royal Academy of London, deixado — acidentalmente? — em sua escrivaninha por um amigo, o havia intrigado.
O artigo principal dissertava sobre o éter e suas propriedades. A questão básica, aparentemente, era entender como a luz se propagava no espaço. Segundo a compreensão de Sir Morton, o éter era uma substância, a quinta substância conhecida, que ocuparia todos os espaços do Universo, desde a vastidão do espaço sideral até o vazio entre a matéria física. O éter era o medium por onde as ondas eletromagnéticas e luminosas se propagavam, do mesmo modo que o som se propaga no ar.
Mas não eram as propriedades físicas do éter que interessavam Sir Morton, e sim este misterioso caráter de permear todas as coisas, de estar por detrás do mundo visível.
Numa rápida pesquisa, ele descobriu a origem da palavra, remontada aos gregos, filósofos naturais, que recorreram a este conceito para fundar a existência do mundo físico.
Surgiu-lhe a idéia de escrever um romance:

Um filósofo sarraceno obtém, pelas mãos de peregrinos do Ocidente, uma cópia da METÁ TÁ PHYSIKÁ de Aristóteles. Deslumbrado com os horizontes apresentados pelo sábio grego, este filósofo mouro inicia a redação duma obra em defesa do conceito de éter (a quintessência), adequado aos valores islâmicos. Contudo, quando o califa descobre o conteúdo do trabalho do filósofo, que, em muitos aspectos, distorcem a teologia do Corão, ele bane de suas terras o erudito.
Condenado a vagar pelo mundo, o filósofo passa a reconhecer nas várias culturas a necessidade desta essência primeva do mundo. Torna-se alquimista e, moldando a quintessência, obtém a elevação espiritual.

No entanto, logo no primeiro parágrafo, Sir Morton se deparou com severas dificuldades. Ele pouco conhecia da cultura islâmica para se arriscar a escrever uma obra longa verossímil; as críticas a seu último livro, ambientado na Turquia, haviam sido inclementes, e ele não queria repetir o mesmo erro.
Por isto, ele mudou alguns elementos da trama.

O filósofo sarraceno foi substituído por um monge taoísta, recolhido nas montanhas Huangshan, absorto pela missão de compreender o Tao, a relação entre os cinco elementos — metal, madeira, fogo, água e terra — e a grande dualidade do mundo, yin e yang.
Por algum grande acaso, numa das circunstâncias de descer à vila para adquirir víveres para o mosteiro, o monge conhece uma britânica, tutora do filho do governador local, e se apaixona. A eterna mutação que ele havia aprendido no I-Ching se tornava fato: dum dia para o outro, o monge era diferente, todo seu mundo havia mudado.
Eles consumam seu amor. Todas as noites, ele desce a íngreme montanha e se esgueira para dentro do palácio do governador. A ocidental e o oriental se confundem sob os lençóis, a perfeita união do yin e do yang.
A tutora ensina inglês e latim ao monge. Supre-o com livros, para que ele possa praticar os novos idiomas enquanto estiverem distantes, ela na vila, ele no mosteiro. Um destes livros, que a tutora nem sabia que estava entre suas coisas, é a história dum filósofo sarraceno obcecado pela obra de Aristóteles. O filósofo é expulso de suas terras pelo Califa e se torna alquimista.
O monge se vê espelhado na história: obcecado pelo Tao, expulso de sua paz pelo amor duma mulher, encontra na comunhão espiritual e física com ela sua libertação.

No entanto, este enredo parecia ser conhecido. Sir Morton não conseguia se recordar de onde havia surgido a inspiração. Vasculhou sua interminável biblioteca à procura deste único livro que lhe teria inculcado tão peculiar enredo.
Abandonou a redação de seu romance, obcecado pela busca desta obra singular. Meses se passaram, seu editor pressionando-o para que ele lhe entregasse um manuscrito, senão o contrato seria revogado. Mas nada mais importava a Sir Morton, nada o acalmaria a não ser achar sua fonte de inspiração. Dias, semanas, meses, perdido entre montanhas de livros, tirou das estantes todas as obras e folheou-as uma a uma.
Atolado em dívidas, ele dilapidou seu patrimônio; desfez-se de suas terras, de seus imóveis, dispensou a criadagem, vendeu o coche, penhorou as jóias da família. Por fim, até dos livros teve de se desfazer.
Com seus últimos tostões no bolso, Sir Morton embarcou num navio e viajou até Cingapura.
Haviam cruzado a costa do Sri Lanka quando uma devastadora tormenta os apanhou em alto-mar e o navio naufragou.
Sir Morton se agarrou aos destroços e, após boiar por dois dias, acabou despertando numa praia deserta.
Primeiro, desesperou-se. Sozinho num mundo desconhecido e virgem, tal qual Robinson Crusoé, que havia lido na infância.
Aos poucos, foi encontrando nas margens desta ilha — ou continente, não o sabia — despojos do naufrágio. Entre eles, uma caixa de livros. Sua única distração num mundo sem cultura.
E qual não foi sua surpresa ao descobrir, entre os livros umedecidos, aquele que o havia inspirado na redação de sua última obra. Era a história dum romancista inglês que encontra sobre sua escrivaninha um periódico científico abordando o conceito de éter, e que decide escrever uma obra sobre isto.
Sozinho, numa ilha deserta, livro aberto nas mãos, Sir Morton gargalhou. Ele era Sir Morton, um romancista inglês, mas também um filósofo sarraceno, um monge taoísta, e Sir Morton, o náufrago que descobre a si mesmo.


Escrito para a Oficina da E-TL

terça-feira, abril 15, 2008

Irrealizado


Não tenho certeza de quando foi que me apaixonei por Mariana.
Conhecíamos-nos desde sempre, ela era um pouco mais velha que eu e, desde crianças, todo fim-de-ano, vinha ficar em nossa casa no interior.
Nossos pais eram sócios e isto nos obrigava a convivermos, principalmente em se tratando deste tipo de festividades.
Quando meninote, lembro-me de haver uma certa animosidade entre nós, ou, pelo menos, entre eu e ela. Mamãe queria que eu desse atenção a Mariana, mas, para mim, era um fardo ter de brincar de bonecas ou de casinha com ela, trocar fraldas de bebês de plástico, ou fingir estar adorando bolos de barro — e eu lhes garanto, ao contrário de muitas crianças, eu jamais os comi de fato!
Ela, por sua vez, também não parecia estar interessada em brincar de carrinhos, ou daquelas brincadeiras estúpidas que nós meninos adoramos e, como ela possuía um temperamento bem mais forte que o meu, restava a mim sempre a ceder aos caprichos dela.
Assim, a cada Natal e Réveillon, o meu martírio se renovava.

Eu tinha uns doze anos quando comecei a namorar “seriamente”, quer dizer, selinhos, andar de mãos dadas e trocar presentes nos dias dos namorados. Lúcia era a menina mais linda da minha classe e o término do ano letivo foi doloroso. Ela viajava para a praia e eu para a maldita casa no interior.
Carreguei comigo uma cartinha de Lúcia e vários suspiros contidos no peito. Nem a promessa de mamãe de que, naquele Natal, eu finalmente ganharia o videogame que eu tanto implorara durante os passados onze meses me animou. A saudade de Lúcia me consumia.
— O Beto está jururu assim porque está apaixonado! — papai comentou durante a ceia, e eu fui a piada do grupo até retornarmos da viagem.
Para minha surpresa, Lúcia já estava namorando com outro, deixando-me curtindo uma bela dor-de-cotovelo e meu primeiro coração partido. Esta profunda decepção amorosa coincidiu com a descoberta do sexo, ao aprender com colegas, escondidos no banheiro da escola, palavras, conceitos e atos que me fascinavam e me envergonhavam, tais como: punheta, gozar, buceta, Playboy.
Foi naquele momento que passei a viver uma vida dupla, guardando revistas de mulheres peladas em compartimentos secretos nos armários, passando longas horas no banheiro ou enrolado sob o edredon, quando até dançarinas do programa do Gugu me serviam de estímulo.
Oprimia-me uma culpa, talvez um resquício da educação católica, que condenava sexo pré-marital, masturbação e tudo aquilo que estivesse relacionado à sexualidade. Aos domingos, na missa, eu pedia perdão à Deus por todos estes segredos e pecadilhos que eu havia acumulado durante a semana, e creio que ele deve ter me absolvido.
E a grande aspiração, o grande projeto de vida, meu e dos meus amigos era “comer alguma menina”. Neste aspecto, porém, só encontrávamos decepção. As garotas da nossa idade só se interessavam por rapazes mais velhos, as mais novas, por sua vez, ainda eram crianças. Queríamos mulheres como as que víamos em revistas ou na TV, não menininhas.
No meu aniversário de treze anos, recebi em casa vários amigos, colegas de escola e, como não poderia faltar, Mariana também veio.
Ela havia crescido, deu-me um beijo no rosto e me entregou um presente. Estava bonita, com um vestido branco e reparei que ela estava usando sutiã. Aquilo foi uma revelação para mim, Mariana já era uma mulher.
Daquele ponto em diante, a imagem dela não saía da minha cabeça, o sorriso, os cabelos encaracolados, o beijo no meu rosto.
Eu não sabia à época, e também não sei hoje, se aquilo era mera atração física dum adolescente desesperado, ou se havia me apaixonado por Mariana. Resgatei alguns álbuns de fotos do baú e neles encontrei fotos dela, de todas aquelas festas nas quais estivemos juntos. Ela havia mudado bastante, desde o tempo em que eu brincava de bonecas com ela.
Tomei a resolução de que, no nosso próximo encontro, eu a conquistaria.
Mas confesso que nunca fui do tipo mais eloqüente quando se trata de galantear uma mulher e, a partir do instante em que decidi me aproximar dela, foi quando me se senti mais afastado.
Ao nos reunirmos para as festas de fim-de-ano, emudeci completamente, dominado por uma vergonha incontrolável; temia falar alguma besteira, dar alguma bola-fora. E como ninguém mais nos forçava a brincar juntos, nossa convivência se resumia às refeições e à sessão de TV à noite, quando assistíamos à novela das oito.
A grande oportunidade que encontrei foi, ao vê-la deitada numa rede na varanda lendo uma revista, me sentar perto dela e folhear um gibi. De onde eu estava, podia visualizar os pés descalços, voltados para mim, as pernas, a revista aberta, e parte das sobrancelhas que surgiam por sobre ela.
Vez ou outra, ela se movia, e eu recebia pequenos vislumbres de outras partes, das coxas, ou do tórax, ou da boca.
Insuflado por um inesperado ímpeto de coragem, levantei-me e comecei a balançar a rede:
— Quer que eu te balance? — indaguei tardiamente.
Mariana, quase com desdém, respondeu, pondo a revista no chão:
— Pode ser...
E fui recompensado com a visão que eu almejava, Mariana de corpo inteiro, em seu vestido curtíssimo donde escapava a calcinha rosa, o olhar lânguido embalado pelo balouçar da rede.
— E como está a namorada? — ela me perguntou.
— Que namorada? — retruquei.
— Aquela que te deixou triste, da vez passada.
Surpreendeu-me a memória dela, e como a imagem de Lúcia já havia quase se esvaído dos meus pensamentos, fui breve.
— Não estamos mais juntos. Ele me trocou por outro.
— É sempre assim... — ela riu — sempre gostamos de quem não gosta da gente.
E ela tinha razão; ali estava eu, literalmente aos pés dela, e não possuía qualquer expectativa de ser correspondido em meu afeto.
— Você quer ir até o riacho? — perguntei, costumávamos sempre ir lá para nadar, em outras épocas.
— Não estou com meu biquíni.
— A gente poder ir só para dar uma volta.
Mariana aceitou.
Percorremos a trilha até o ribeirão, Mariana catava flores no caminho, e eu cutucava os besouros com um graveto. Constrangia-nos um estranho silêncio, eu queria dizer tanta coisa, mas ao mesmo tempo, tinha vergonha.
A água do riacho estava gelada, Mariana mergulhou as pernas até os joelhos e eu fiz o mesmo. Ela sorriu para mim, senti um frio na barriga e meu coração disparou. Pensei que aquele era um dos momentos mais felizes da minha vida.
Mariana fez um gesto para que eu me aproximasse dela, algo me dizia que ela queria me beijar. Caminhei devagarzinho até ela e, quando estava a um palmo de distância, ela pôs as mãos sobre meus ombros e, num movimento inusitado, derrubou-me de cara na água gélida. Saiu correndo do rio, rindo como uma diabinha.
Esta brincadeira serviu para nos tornar mais íntimos nos dias seguintes. Passávamos a tarde inteira juntos, conversando, às vezes assuntos sérios — dentre todos os assuntos sérios que podem atormentar adolescentes, futura carreira, casamento, a existência de Deus —, mas quase sempre debatíamos frivolidades, brincadeiras tolas, piadas, e eu adorava ouvi-la rindo!
Como nunca antes, a semana no interior voou; assistimos lado a lado a queima de fogos do réveillon patrocinada por um tio festeiro, e foi quando constatei que só tínhamos apenas mais três dias juntos. A minha resolução de conquistar Mariana — entenda-se, transar com ela — dependia do que ocorreria nestes próximos dias.
Mas a ansiedade me impediu de avançar, continuamos agindo como bons amigos, mesmo que eu não perdesse uma única oportunidade para espiar dentro dos decotes dela, para roçar meus dedos acidentalmente em suas coxas, ou para ouvir algum segredo que ela quisesse me contar, quase encostando seus lábios em meu ouvido.
O último dia se aproximava e os convidados queriam dirigir até um haras próximo, criadouro de corredores premiados. Mariana se recusou a ir, alegou estar cansada demais por ter assistido a um filme tarde da noite. Eu também ficaria, acrescentei, para fazer companhia a ela.
E era verdade que Mariana estava cansada, pois ela se deitou no sofá da sala e adormeceu profundamente. Fiquei observando-a respirar com lentidão, e decidi que aquela era a hora.
Ajoelhei-me ao lado dela e subi sua camiseta, descobrindo os seios pequenos. Eu tremia. Beijei-os com delicadeza, receando despertá-la. Concentrei-me, então, na calça jean que ela vestia. Tentei desabotoá-la, mas de modo algum consegui libertar o botão. Inconscientemente incomodada, Mariana se virou, prendendo minha mão sob seu corpo, dedos apegados ao botão da calça.
Refleti que, em breve, ela haveria de se virar novamente, assim, eu poderia continuar o procedimento. Aproveitei este aprisionamento, para roçar meus lábios pelas costas desnudas de Mariana, mas nada de ela se virar.
Tentei erguê-la, virá-la, mas, neste esforço, a menina gemeu, reclamando. Preferi me aquietar. Uma meia hora se passou e Mariana continuava dormindo, eu quase não sentia mais minha mão.
Um novo movimento, e Mariana se virou. Eu estava livre! Desta vez, consegui desabotoar sua calça e a abaixei até a altura dos joelhos. Eu estava muito excitado, finalmente eu deixaria de ser virgem. Acomodei-me sobre ela e também abaixei a calcinha dela. Possivelmente, uma das visões mais inesquecíveis da minha vida, recordando-me bem, acho que quase chorei naquela hora.
Desabotoei minha calça e desci o zíper.
A porta da sala se abriu e, meu pai, minha mãe, os pais de Mariana e mais uns sete convidados chegaram. Haviam esquecido alguma coisa em casa e preferiram retornar. Eu, naquela posição, praticamente estuprando a Mariana adormecida, não tinha nada para alegar em minha defesa.
Meu pai me puxou pelos cabelos e me deu uns belos tabefes. A gritaria e choro fizeram com que Mariana despertasse sobressaltada. Seminua, ela se cobriu com as mãos e correu para o banheiro, aos prantos.
Passaram-me um sermão interminável, primeiro sobre como minha alma arderia no inferno — havia um ex-seminarista entre os convidados deste ano —, depois, sobre princípios morais, de que deve haver consentimento entre o homem e uma mulher, de que eu ainda era novo, que sexo era algo sagrado e que deveria ser feito com amor.
Proibiram-me de ver Mariana novamente, disseram-me que ela estava traumatizada. Eu havia arruinado todas as minhas chances. Minha segunda grande decepção amorosa na vida.

No entanto, à noite, ouvi passos nos escuro do meu quarto.
Alguém se aproximou da minha cama, uma mão tateou minha cara e recebi um beijo na boca.
— Eu também te amo — ouvi o sussurro de Mariana, que desapareceu com a mesma sutileza com que chegara.
Até pensei em chamá-la de volta, o “espera” engasgado em minha garganta, mas o vexame daquela tarde me bastava. Dormi contente, feliz, realizado.
Mariana foi embora com os pais de manhãzinha, mesmo antes de eu acordar. Não a vi mais, pois, pouco tempo depois, nossos pais desfizeram a sociedade; inclusive, tornaram-se rivais, foi o que ouvi.
Tive muitos amores depois dela, fatalmente perdi a virgindade com outra mulher, mas, às vezes, quando estou sozinho à noite, vêm-me à mente duas imagens: a primeira delas, de Mariana, adormecida no sofá, seios e sexo à mostra, a segunda, muito mais singela, muito mais inesquecível, dum breu total e de um “eu também te amo” sussurrado em meu ouvido.

Escrito para a Oficina da E-TL

quarta-feira, março 12, 2008

Cemitério Russo


Havia uma crença coletiva de que o fim do mundo viria de forma súbita, talvez causado por algum asteróide se desgarrando do cinturão entre Marte e Júpiter, ou alguma explosão nuclear, resultado daquelas guerras insanas que os humanos adoram empreender, ou simplesmente os céus se abrindo e, um a um, os quatro cavaleiros do Apocalipse devastando a terra e a chegada do Anticristo e da besta com sete cabeças, dez chifres e dez diademas.
O fim do mundo seria um marco, assim como havia sido a extinção dos dinossauros; haveria uma cisão e, se alguém sobrevivesse (ou alguma futura civilização inteligente resolvesse reescrever a História), haveria uma data evidente e incontestável, na qual poderíamos anotar em nosso calendário — “eis o dia do fim do mundo, e, aqui, o dia seguinte a ele, quando começamos a reconstruir o planeta”.

Mas não foi assim.

A China, com seus bilhões de habitantes, sempre foi um celeiro para as doenças mais bizarras da Humanidade. Seus precários hábitos higiênicos contribuíam para que qualquer gonorréia ou conjuntivite se tornassem epidemias, mas, daquela vez, suspeitava-se que a enfermidade não era natural — não apenas alguma mutação duma das patologias já conhecidas —, mas alguma aberração criada em laboratório, quem sabe um malfadado projeto de arma biológica.
A batizada HR7 possuía os sintomas iniciais duma mera gripe: dores-no-corpo, cefaléia, fraqueza, ardência nos olhos e febre. Todavia, agravava-se nos dias seguintes, vômito, sangramento gengival, convulsões e desmaios. Após uma quinzena, falência múltipla dos órgãos e óbito.
O governo chinês tentou abafar o caso, mas e-mails espalharam as notícias. Em poucos meses, jornais divulgaram as primeiras estatísticas, mais de dois milhões de pessoas já haviam sido infectadas pela HR7, e havia algumas suspeitas de contágio na Coréia do Norte, na Tailândia e no Vietnã.
No entanto, tais advertências chegaram tarde demais. Num mundo globalizado, alguém espirra no Japão e lenços são oferecidos no Canadá.
Um clima de histeria coletiva se instaurou, conseqüência principal do modo de transmissão da doença: contato físico, pelo ar, pela água, através de alimentos; não havia proteção. Estar na presença de alguém enfermo era sinônimo de contágio.
Quando a pandemia já era um fato, os governos declararam estado de emergência, cidades inteiras foram isoladas, numa tentativa desesperada de limitar as terríveis conseqüências do HR7, mas isto nada adiantou, os próprios militares e especialistas envolvidos nestas operações também adoeceram e, num curto espaço de meses, não havia médicos e cientistas vivos que pudessem contribuir para dirimir a doença.
Religiões apocalípticas, messiânicas, oferecendo redenção se proliferaram e proliferaram também a enfermidade. Pessoas entravam sãs nas igrejas e morriam quinze dias depois — pelo menos, iriam para o Paraíso.

Vladimir tinha dezesseis anos quando assistiu a reportagem, na NTV Novosti, anunciando as mortes na China. Dificilmente ele se lembraria do comentário maldoso que realizou naquele dia:
— Bem que aqueles chineses imundos poderiam ser varridos do planeta.
Esta raiva derivava da sua derrota no torneio mundial de xadrez para um brilhante enxadrista taiwanês, um rapazola chamado Yeung. Pouca importância havia sido dada, neste resmungo de Vladimir, quanto à nacionalidade das vítimas: chinês ou taiwanês, qual a diferença?
Ingenuidade do jovem, pois algum tempo depois, a Rússia também passou a contabilizar seus mortos; inicialmente na Província de Khabarosk, na região fronteiriça com a China, mas logo surgiram casos em Omsk, Kursk, Novgorod, São Petersburgo e Moscou.
Assim, não apenas chineses imundos morriam, mas até parentes de Vladimir. Faleceu um tio do interior, uma prima, o marido da irmã, a irmã, a mãe e o pai. Dia após o outro, Vladimir sepultava algum de seus caros.
Recebeu uma carta do avô, agonizando em Zelenogradsky, a nordeste de Moscou, que lhe ordenava:
— Fuja, Vlad! Todos vamos morrer!
Havia sido este seu avô quem o levara, num domingo de verão, para conhecer um abrigo nuclear nos subterrâneos da capital. Ex-burocrata do partido comunista, o avô lhe contou que várias vezes, durante sua carreira, ele teve de se refugiar no subsolo, por causa de falsos alarmes de ataque nuclear. A mensagem de “Fuja!”, vindo dele, era clara — “esconda-se no abrigo”.
Vladimir apanhou uma lanterna, pilhas, alguns gibis da sua coleção de X-Men, seu tabuleiro de xadrez e um livro de aberturas. Encontrou a entrada do abrigo , acionou o antigo elevador e imergiu na escuridão das profundezas, a trinta metros abaixo do solo.
O abrigo era gigantesco, um labirinto de corredores, câmaras, salões, depósitos, espaço projetado para refugiar duas mil pessoas por alguns bocados de meses. Mas Vladimir estava sozinho, amedrontado, desorientado.
Explorou algumas galerias, encontrou um alojamento confortável e descobriu onde ficava o depósito, assim poderia obter um estoque quase infindo de pilhas e alimentos enlatados (muitos com data de vencimento de 1989). Deitou-se e leu seus gibis, depois, ensaiou algumas aberturas e variações da Ruy López e giouco piano. Adormeceu, acordou, e mais um dia se passou; na verdade, a noção de tempo de Vladimir rapidamente desapareceu, sem a luz do sol como indicador.
Foi por volta do quarto ou sexto dia que Vladimir ouviu espirros, tosses e lamentos. Os sons ricocheteavam pelas paredes das galerias e alcançavam seu quarto. Aparentemente, Vladimir não havia sido o único a descobrir o abrigo, outras pessoas, várias outras pessoas, também poderiam estar ocupando aquele complexo.
Munido de sua lanterna, o rapaz buscou a fonte do barulho. Abriu portas, vagou, percorreu inúmeras vezes os mesmos corredores (ou seriam outros?) e teve a impressão de que estava chegando perto.
O som aumentava, e com ele crescia também um odor fétido, semelhante àquele quando seu gato Rasputin desapareceu e, quase um mês depois, foi encontrado preso sob a geladeira, decomposto.
Vladimir abriu uma porta (as lamúrias provinham do outro lado) e encontrou um inferno de pessoas, amontoadas sobre as outras, pústulas sobre seus corpos, escarrando, tossindo, convulsionando, olhos fundos, membros retorcidos... O rapaz teve engulhos, afastou-se e tapou as narinas com a gola da blusa. Todos ali morriam e, se as prédicas fossem verdadeiras, se os diagnósticos fossem confiáveis, Vladimir também morreria em breve. Ninguém, mas ninguém mesmo se aproximava da peste sem ser afetado.

O vento soprou, a neve cobriu a cidade morta, o degelo, as flores, o sol. Quantas vezes a monotonia da mudança não voou sobre Moscou e sobre o mundo?
As cidades, antes superpopulosas — automóveis, escritórios, aluguéis e mercados —, agora eram silêncio apenas. Os edifícios ruíram, foram recobertos por vegetação, pelo pó, pelo gelo duma nova glaciação. Os rastros da Humanidade foram varridos, soterrados pelo amanhã.

Dez mil anos se passaram, Glitzni, chefe duma equipe de arqueólogos, havia feito uma descoberta memorável, algo que o incluiria nas galerias de grandes pesquisadoras da História.
Segundo a tradição oral, os seres humanos haviam dominado o planeta antigamente, mas uma doença dizimara quase a totalidade da raça. Alguns grupos se refugiaram nos recônditos da terra, isolando-se, salvando-se, assim, da extinção. A Humanidade se reergueu a partir do zero, redescobrindo a civilização desde o básico: agricultura, tração animal, escrita, arte, maçonaria, cerâmica, navegação, energia a vapor, Astronomia, Física Quântica, Filosofia.
Havia estes relatos sobre o passado remoto, mas, até o momento, nenhuma evidência. Contudo, escavações encontraram vestígios desta antiga civilização — uma cidade, com ruas, edifícios, teatros, praças.
O governo se entusiasmou com a descoberta, liberou mais fundos e disponibilizou o equipamento mais moderno ao projeto. Glitzni era a celebridade da vez.
As escavações atingiram extratos mais profundos, descobriram galerias subterrâneas, um engenhoso sistema de saneamento urbano e de transporte. Foram mais fundo, e este foi o verdadeiro achado.
Edifícios e artefatos eram muito estimulantes, mas cadáveres, ossadas, algo ainda mais extraordinário.
Descerraram a porta do abrigo nuclear e o bafo podre pôde deixar seu túmulo. Glitzni e seus colegas encontraram quase trezentas ossadas, sepultadas neste imenso cemitério; entre elas, estava a de Vladimir.

Ao chegar em casa, Glitzni recebeu um telefonema de Aaapnor, seu assistente imediato.
— Estou muito doente, Glitzni, acho que peguei um resfriado, não poderei comparecer às escavações amanhã.
Glitzni também se sentia assim; tomou um remédio para aplacar a febre. Recordou-se da descoberta de dias atrás, a pilha de ossadas, e temeu que talvez houvessem desencavado algo terrível.
Sobre sua escrivaninha estava o envelope que recebera naquela manhã — a tradução dum manuscrito encontrado em sítios arqueológicos no litoral de Amrka —, trabalho dum velho conhecido de faculdade.
Apesar da vista embaçada, da dor muscular, do cansaço, Glitzni leu os primeiros parágrafos da tradução:

Havia uma crença coletiva de que o fim do mundo viria de forma súbita, talvez causado por algum asteróide se desgarrando do cinturão entre Marte e Júpiter, ou alguma explosão nuclear, resultado daquelas guerras insanas que os humanos adoram empreender, ou simplesmente os céus se abrindo e, um a um, os quatro cavaleiros do Apocalipse devastando a terra e a chegada do Anticristo e da besta com sete cabeças, dez chifres e dez diademas.
O fim do mundo seria um marco, assim como havia sido a extinção dos dinossauros; haveria uma cisão e, se alguém sobrevivesse (ou alguma futura civilização inteligente resolvesse reescrever a História), haveria uma data evidente e incontestável, na qual poderíamos anotar em nosso calendário — “eis o dia do fim do mundo, e, aqui, o dia seguinte a ele, quando começamos a reconstruir o planeta”.

Mas não foi assim.



Escrito para a Oficina da E-TL

sexta-feira, fevereiro 22, 2008

Autobiografia


Eu tinha talento, isto ninguém poderia negar.
Meu primeiro professor de piano surgiu na porta de casa quando eu tinha apenas quatro anos, época na qual eu pouco entendia a serventia daquele trambolho na sala e que tudo, inclusive martelar as teclas brancas e pretas, não passava duma grande brincadeira. Aprendi Bach e Czerny, e meu professor se estarreceu diante do meu brilhantismo instantâneo.
A cidade em que eu morava, atolada num provincianismo sufocante, era pequena demais para mim, mas por medo, ou em parte por dominação materna — mamãe sempre me quis a seu lado —, eu jamais pude deixá-la. Um gênio aprisionado à mediocridade.
Os planos para mim também eram mesquinhos, papai queria que eu me tornasse advogado como ele, e assumisse um posto em seu escritório. Cresci dividido entre a minha paixão por música e a obrigação do trabalho burocrático. Todos sabiam exatamente qual deveria ser meu futuro, mas jamais me perguntaram quais sonhos habitavam em mim.
A recusa em cursar a faculdade de Direito foi o motivo da cisma entre mim e papai. Jurou que não queria mais me ver, bastardo que o envergonhara. Mamãe tentou me proteger, mas ela terminou se encolhendo diante da cólera de meu pai.
Expulsou-me de casa, obrigando-me a me refugiar na casa da minha irmã mais velha, contrariando o desgosto que meu cunhado nutria por mim. Ganhei uns trocos tocando em bares, no entanto, logo minhas aspirações de juventude ressurgiram em meus pensamentos, impelindo-me a partir.
— Um parente nosso mora em Nova York, irmã se empolgou com a idéia, aproveitando-se da situação para ver-se livre de mim e fazer as pazes com o marido — É um primo de nosso avô, talvez de segundo grau, não tenho certeza. Um milionário. Talvez até se alegre em recebê-lo na casa dele. Sabe como são estes velhos, sempre desejam companhia.
Conseguimos o endereço deste parente com vovô, num dos poucos momentos de sanidade dele, na casa de repouso onde o haviam despejado.
Correspondi-me com este parente, Leonard Morrison, e, para minha felicidade, recebi a resposta. Sr. Morrison manifestou alguma alegria com a possibilidade de ter-me ao redor, prometendo-me hospedagem, tal qual minha irmã havia previsto.
Parti numa terça-feira, carregando na mala partituras de Rachmaninov e delírios de sucesso. Ninguém foi se despedir de mim na rodoviária. Finalmente, viam-se livres do estorvo.
Deslumbrei-me ao avistar os arranha-céus iluminados da metrópole cheia de vida. Eu estava no coração do mundo, um menino caipira, tímido, talentoso, mas quantos grandes talentos não perambulavam pelas ruas daquela cidade?
O motorista do Sr. Morrison buscou-me numa limusine; um sorriso bobo na cara, imaginei qual seria a reação de meus amigos de infância se me vissem através da janela entreaberta do carro, cruzando o turbilhão da Times Square.
Leonard Morrison morava numa casa de três andares, orçada, creio eu, em algumas dezenas de milhões, fui recebido por este parente no que deveria ser uma sala de leitura, ele fumava um charuto, olhos cerrados:
— Seja bem-vindo, ele murmurou sem remover o charuto da boca, você não imagina que prazer será ter um jovem por perto para me fazer companhia.
— Aposto que o senhor tem muitos amigos, respondi, tentando agradá-lo.
— Você não sabe o que fala. O dinheiro nos afasta das pessoas, sou uma pessoa solitária. Tudo que não preciso é de pessoas me bajulando por causa do que tenho.
Em poucos minutos, eu já começava a me arrepender de estar ali, com aquele velho rancoroso e amargo, mas pensei que talvez ele quisesse me mostrar seu pior, pois, se eu pudesse conviver com isto, eu conseguiria suportar todo o resto.
Fui conduzido a meu quarto pelo mordomo, secundado por Sr. Morrison.
— Você ficará no terceiro andar. Os quartos do segundo andar estão fechados, a casa é grande e não vejo necessidade de manter todos os cômodos mobiliados. Nem sei porque ainda continuo morando aqui e não me mudo para um apartamento menor, mais adequado para mim.
A verdade é que toda a casa estava decadente e mal cuidada. A iluminação era fraca, quase como se as lâmpadas estivessem para queimar, e o papel de parede dos corredores estava descascando.
— Há um piano lá embaixo, toque-o quando quiser. Trará alegria para mim, Sr. Morrison acrescentou, deixando-me a sós no meu quarto, para que eu pudesse descansar da viagem.
O cômodo era pequeno, havia uma cama de solteiro, um abajur, um armário e uma cadeira sem propósito evidente. Não desfiz minhas malas, deitei-me na cama e refleti. O arrependimento havia passado; meu pensamento agora era de que eu havia feito a escolha correta, mas um medo sem propósito foi tomando conta do meu ser. Levantei-me e tentei trancar a porta, mas a chave girava na fechadura sem resultados. Utilizei a cadeira para obstruir a entrada.
Não desliguei o abajur e, um sono leve foi interrompido sucessivas vezes por sons de sirenes e guinchos, que imaginei serem de ratos. Sobre ratos eu já havia sido advertido, a cidade era infestada deles.
No entanto, quando um choro de bebê ecoou pelo corredor da mansão, bem adiante do meu quarto, eu não pude me controlar. Levantei-me e, na ponta dos pés, aproximei-me da porta. A criança chorava.
Não tive coragem de abrir a porta, mas espiei pelo vão, na altura do assoalho, e avistei as mãozinhas e os joelhos se arrastando. Sem dúvida, meus ouvidos não me enganavam, um bebê engatinhava e chorava diante da minha porta.
Retirei a cadeira do trinco e abri uma fresta, mas, incompreensivelmente, o bebê já não estava ali. Estendi a cabeça para fora do quarto e encontrei-o mais adiante, engatinhando pelo corredor.
— Vem aqui, bebê... murmurei, Cadê sua mãe? Mas o bebê prosseguiu em seu caminho, contornando para subir a escada até o terraço.
— Não, não, não! Saí de meu quarto e corri em direção a ele. Contudo, ao chegar na escada, o bebê já havia atingido o último degrau e, com sua pequena mão, abria a porta para o telhado. Neste momento, o bebê olhou em minha direção, convidando-me a segui-lo.
Eu estava diante dum daqueles momentos de decisão absurda: voltar para meu quarto e me esconder debaixo dos lençóis, ou seguir uma criança chorona até o telhado às duas horas da manhã?
Não tenho explicação para isto, mas acredito que haja um senso de perigo, uma curiosidade existencial no ser humano, que nos impele a optarmos pelo mais idiota e inverossímil.
Segui o bebê, escalando o lance de escadas. Não mais o via, deveria estar se arrastando pelo terraço, mas, quando estava na metade do trajeto, ouvi o Sr. Morrison me chamando.
— Onde diabos você está indo? Ele me fitava do corredor lá embaixo.
— Há uma criança no telhado. Receio que ela possa se machucar.
— Uma criança? Não seja ridículo!
Pensei em replicar, mas Sr. Morrison prosseguiu.
– Volte para seu quarto e não saia de lá! E nada de subir no telhado, rapaz, é perigoso, você pode cair e quebrar o pescoço, e, quando desci, ele veio em minha direção e tocou-me, um toque gélido e asqueroso, a nuca — E não quereríamos isto, não é?

Os dias seguintes foram tranqüilos e até harmoniosos. De manhã, eu tomava o café-da-manhã na companhia do Sr. Morrison, em seguida, descia ao piano e ensaiava até o horário do almoço, também na presença de meu anfitrião. Depois, eu tinha o dia todo livre, período no qual Leonard Morrison desaparecia no casarão. Só o reencontraria à noite, quando ele se sentava para fumar seu charuto na sala de leitura.
Nestas tardes de ócio, eu aproveitava para perambular pela cidade, assistir a algum musical da Broadway, ou sentava-me numa praça e observava as pessoas, naqueles dias quentes de verão.
O desconforto inicial havia desaparecido e eu já me acostumara à rispidez de Morrison, inclusive, tinha a impressão de que ele me queria bem; prometeu-me que, no dia propício, ele me apresentaria a alguns contatos dele, certo de que poderiam alavancar minha carreira musical. Esta promessa tornou minhas noites longas, sonhando com o estrelato e com a multidão me aplaudindo. Foi nestas noites insones que voltei a ouvir choros de bebês e um ruído estranho no telhado, alguém caminhando, passos que estalavam, mas o Sr. Morrison havia me proibido de subir lá, então eu me continha, rolando sem sono na cama.
Após várias noites sendo atormentado por estes sons, resolvi desvendar quem e o que esta pessoa fazia no telhado. Aguardei, ouvido colado no buraco da fechadura, até identificar passos que subiam a escada. Uns quinze minutos depois, deixei meu quarto e, vagarosamente, escalei os degraus.
O vento fazia com que a porta para o terraço oscilasse. Foi através deste abre e fecha que vislumbrei Leonard Morrison, acocorado, lanterna numa das mãos e caneta hidrográfica na outra, escrevia algo no piso do telhado.
Como se intuísse minha presença, Sr. Morrison olhou na direção da porta, mas recuei, permanecendo estático, oprimido pelo uivo do vento que vinha de fora e pelo silêncio que assombrava de dentro. Tive medo de que o Sr. Morrison viesse até onde eu estava e me encontrasse ali, espiando-o, mas isto não ocorreu. Ouvi o som da caneta cantando contra o chão rugoso.
Cuidadosamente, retornei ao meu quarto, ainda mais perturbado com a cena que havia flagrado.

— Você acredita em Deus, rapaz? — Sr. Morrison me indagou, enquanto líamos na biblioteca.
— Claro que sim! — respondi, convicto.
— E como você explicaria a existência de tanto mal no mundo? — ele me fitava com olhar frio.
— Não sei... Talvez precisamos do mal para reconhecermos o bem.
— Será que Deus não criou o mal para aterrorizar suas criaturas? Para passar-lhes a seguinte mensagem: Eu sou o Todo-Poderoso, encolha-se diante de mim, senão esmago-te.
— Isto não faz sentido, Sr. Morrison, pelo menos não é o que está na Bíblia.
— Ah, a Bíblia, tolices! Se você soubesse qual é o verdadeiro livro... — ele se calou, senti que algo o incomodava.
— O senhor está bem?
— Não, rapaz, estou ficando cego. As trevas estão me consumindo.
— Sinto muito, eu não sabia, aproximei-me dele e me ajoelhei ao lado da poltrona onde ele estava sentado.
— Jamais poderei concluir minha autobiografia. O nada, o breu me dominará antes disto.
— Mas isto não é culpa de Deus, resmunguei.
Sr. Morrison segurou minha mão com força, com uma potência desproporcional a seu frágil corpo, e retrucou.
— Se Ele existir, tudo é culpa Dele.

Aquele diálogo havia sido insólito. Seria a escrita noturna no telhado a autobiografia de Leonard Morrison?
Decidi-me que descobriria o segredo do meu anfitrião, por isto, numa tarde, quando Sr. Morrison saiu sendo guiado pelo motorista, corri para o telhado e obtive a revelação: todo o terraço, duma ponta a outra, estava povoado de caracteres, palavras, frases, parágrafos. A narrativa começava no canto superior esquerdo, em sentido noroeste, e se estendia, em colunas. Havia apenas um trecho sem preenchimento, com uns dois metros quadrados. Imaginei que aquelas eram as “páginas” que faltavam ser escritas para o fim do livro.
Iniciei a leitura, em ordem cronológica. Leonard Morrison não era um grande prosador e as primeiras duas colunas foram dedicadas à infância e adolescência dele, filho dum banqueiro milionário, discriminado pelos colegas de escola por sua franzina constituição e pelos óculos de largas lentes. Perdi um par de horas lendo este trecho, mas ouvi o som dum automóvel estacionando e, de sobre o telhado, constatei que era o dono do casarão quem chegava.
Fui até a sala do piano e fingi estar absorto em meus estudos, tudo que não queria era levantar suspeitas e, até aquele momento, sucedi.

Anoiteceu.
Desci até a despensa e encontrei uma lanterna. Fui ao telhado e rompendo a escuridão com meu feixe de luz, prossegui na leitura. Foi me dado conhecer que Leonard Morrison foi iniciado no sexo durante uma viagem às Filipinas, instigado por seu pai. Ele viajou o mundo, primeiro na companhia de seus pais, depois, amparado pela fortuna da família, por conta própria — percorreu a Ásia, a África e toda a Europa, morou em Paris, Londres, Barcelona e Istambul —, casou-se três vezes, mas estéril, jamais teve um herdeiro.
Eu tinha trinta anos quando conheci Eudora, a mulher que dominou meu desejo e meus pensamentos.

Foi Eudora quem apresentou Leonard Morrison aos membros da Sociedade do Pentagrama Argênteo.
Meu pai era um cético, cientista meticuloso, cérebro inquieto, foi ele quem me instigou a questionar todas as verdades, todas as crenças estúpidas. Minha mãe era devota de São Patrício, mas ia à Igreja às escondidas, com medo da reação do marido. Foi muito mais fácil seguir o exemplo de meu pai, não acreditar. No entanto, o que meus olhos viram na companhia dos meus confrades da Sociedade não suportaria descrença. Deus não se manifestou, mas toda a sorte de criaturas infernais, demônios, íncubus, aparições fantasmagóricas estiveram presentes em nossas reuniões. Fundando-me numa lógica simples, concluí: se estas criaturas diabólicas existem, ergo Deus também existe.

Mas Leonard Morrison não viu razão para adorar a Deus, a atração do mal era muito maior, segundo suas palavras. Deus concedia amor aos Homens, o Diabo proporcionava riquezas, satisfação sexual, poder... A promessa de Deus era para além da morte; a promessa de Satanás era para esta vida. Para ele, não houve dúvida sobre qual deveria escolher.

Nesta mesma casa, eu e meus confrades imolamos nossa primeira oferenda a nosso senhor. Ludwig me instruiu a calar o bebê com fita isolante, para que os vizinhos não ouvissem o choro na madrugada. Que prazer tive ao cravar o punhal no peito nu do infante! Era como se o próprio senhor guiasse minha mão.

Aquilo me estarreceu. Se o relato fosse verdadeiro, eu estava numa casa onde sacrifícios humanos haviam sido perpetrados. Veio-me a lembrança do bebê no corredor e todos os pêlos do meu corpo se eriçaram.
Ajoelhei-me no chão, não sabia o que fazer, tremia, não queria continuar lendo a história, tinha medo do que estava por vir. Amanhã mesmo eu juntaria meus trapos e voltaria para casa. Amanhã? Que nada, agora!
Todavia, antes de partir, resolvi ler os últimos trechos da autobiografia, e encontrei meu nome lá.

Meu corpo está fraco, minha alma está morrendo, o senhor me chama. Vivi tudo que poderia ter vivido, ele foi bom comigo. Este rapaz será meu sucessor. Preciso instruí-lo antes que meu tempo se esgote. Talvez ele relute, mas toda a glória que meu senhor pode lhe proporcionar o convencerá.
Ouvi a porta do terraço se abrindo. Fixei a luz da lanterna naquela direção e revelei Leonard Morrison.
— Então você descobriu, mas ele não parecia surpreso. Isto me poupará trabalho. Agora que sabe, decida-se.
— Você é louco? — gritei. Você matou crianças, seu desgraçado!
— Que diferença isto faz? — ele me perguntou — Modifica alguma coisa na sua existência saber que crianças morrem de fome todos os dias na Nigéria? Que, na China, meninas são largadas em becos para a morte? Que, no Afeganistão, crianças que mal andam sucumbem a tiros de fuzil? Pelo menos, as que se esvaíram em minhas mãos tiveram alguma serventia.
— Serventia? Seu doente! — avancei na direção dele, decidido a apanhar minhas tralhas e ir embora daquele antro, mas fui detido pelo gesto de Morrison, ele revelou um punhal que trazia.
— Daqui, você só sai morto, ele me disse, e, mesmo ele sendo um velho, temi confrontá-lo. Leonard Morrison caminhou até mim, mas recuei, até atingir a borda do telhado.
— Deixe-me ir... — eu quase chorava, mas nada o dissuadiria, ele continuou se aproximando. A minha única reação foi enfrentá-lo. Tentei segurar-lhe o braço, talvez desarmá-lo, mas ele era forte e, com dedos esquálidos quais garras, ele atacou minha garganta, sufocando-me. Ambos caímos no chão, ele largou a adaga, que desapareceu nas trevas, Morrison sibilava, parecia estar possuído por alguma entidade demoníaca. Defendi-me com todas minhas forças, ele me arranhou o rosto, eu esmurrei-lhe a cara. Levantamo-nos, ainda engalfinhados, empurrei Morrison, que se desequilibrou e se projetou para além da beirada do terraço.
O grito dele se tornou distante, até desaparecer.
Na calçada diante do casarão, o corpo de Leornad Morrison embebido em sangue, as mãos em garra, o olhar morto como que fixo em mim.

Fui interrogado exaustivamente pela polícia, eles tiraram inúmeras fotos da autobiografia de Leonard Morrison, abriram os quartos que estavam lacrados e encontraram indícios de sangue. Liguei para meu pai e relatei o que havia acontecido. Ele me prometeu que viria até a cidade e me ajudaria; como advogado, assegurou-me eu havia agido em legítima defesa. Havia me perdoado, nesta hora de grandes dificuldades.
Quando a polícia me liberou, hospedei-me num hotelzinho barato na rua 38 com a Lexington.
Estava tão aquebrantado que, mesmo apesar da experiência terrível, logo caí no sono. Num estado de semiconsciência, tive a impressão de ouvir alguns sons, semelhantes ao de alguém escrevendo a bico de pena numa folha em branco. O cansaço me impedia de acordar, talvez fosse um pesadelo, mas que me atormentou durante toda a noite.
O telefone do quarto tocou, o recepcionista me avisava que meu pai estava no saguão.
— Fale para ele subir.
Descobri-me dos lençóis.
Perdi a respiração, meu coração quase em suspensão, meus membros trêmulos, e, quem me visse, repararia nos meus olhos desesperados, percorrendo as paredes do meu quarto. Cada centímetro, da parede ao teto, no chão, estava recoberto por letras, palavras, frases. E não somente isto, em meu corpo, a autobiografia de Leonard Morrison também havia sido escrita, em meus braços, pernas, torso, costas, no rosto.
A promessa do demônio a quem ele servira vigorava para além da vida. Acredito que lhe foi concedido um último pedido antes da morte: concluir sua obra.
E esta obra — satânica, macabra, terrível — sou eu.

Escrito para a Oficina da E-TL

quinta-feira, fevereiro 14, 2008

A Jornada de Wilson


Dizem que num planetinha gelado no braço da galáxia, para lá da nebulosa do Cavalo, entre Zorg e Castrolândia, mora um homem que sabe tudo sobre todas as coisas. Ele sabe tantas coisas que chamam-no “Esperidião, o Sabichão”.
Peregrinos de todo o Universo, quando dominados por uma pergunta aparentemente sem resposta, realizam uma jornada para se encontrarem com “O Sabichão”; jornada semelhante à que Wilson realizaria.

Wilson arrumou suas trouxas, fugiu de casa pela janela e entrou de gaiato num cargueiro interestelar. Ao constatar que ia para a direção errada, saltou no meio do caminho, apanhou carona na nave duma família de Xsorianos e, após alguns dias, chegou à região da nebulosa do Cavalo.
O piloto da nave de coleta de lixo sideral teve pena de Wilson e o deixou acompanhá-lo até Zorg. De lá, foi fácil chegar ao planeta do “Sabichão”, infiltrando-se num ônibus espacial escolar.
O território era inóspito e montanhoso. Os cumes nevados estavam por todos os lados, mas Wilson não desistiria; escalou a mais alta das montanhas e encontrou a caverna onde habitava o sábio.
Atravessou um labirinto de galerias escuras, povoadas por criaturas parecidas a morcegos. Perdeu-se, tentou retornar, encontrou a saída, embrenhou-se nas entradas da montanha mais uma vez e se perdeu de novo.
Sozinho, no escuro, Wilson ouviu uma cantoria, que ecoava pelas cavernas. Seguiu o som que se multiplicava, confundia-se, reverberava, e logo pôde ver uma claridade. Chegou a uma câmara e encontrou um velho barbudo, magricela, vestido com farrapos, sentado numa espécie de trono, apoiava-se num cajado.
— Esperidião, o Sabichão! — Wilson exclamou.
— Sim, meu filho. Qual é sua pergunta para mim?
O coração de Wilson batia forte, ele se preparou para falar, mas foi interrompido pelo sábio.
— Calma, meu jovem, já sei qual é sua dúvida: você quer saber qual é o sentido da vida, não é?
— Hum... — Wilson negou com a cabeça.
— Calma, calma — o Sabichão afagou a barba — você quer saber se existe vida após a morte!
— Não senhor... — o menino resmungou.
— Já sei! Você quer saber se Deus existe! — mas quando Wilson também negou, o sábio prosseguiu: — Se o Universo sempre existiu ou se foi criado? O que veio primeiro, o ovo ou a galinha? Com quantos paus se faz uma canoa?
Mas nenhuma destas era a indagação de Wilson.
— Então desembucha, menino! — o velho berrou, repleto de frustração — Fale qual é sua dúvida, que parece ser mais importante do que todas as questões básicas do Universo.
— Sabe, senhor Sabichão, eu comprei um jogo de videogame uns dois meses atrás, e não consigo chegar ao final. A minha pergunta é: para matar o último monstro, tenho de acertá-lo na barriga ou no olho?

Escrito para a Oficina da E-TL

terça-feira, janeiro 22, 2008

Síndrome de Caim


O psiquiatra bávaro Wilhelm Schröder realizou, durante sua carreira, extraordinários avanços na área de psicopatologias. Foi um dos assistentes de Otto Loewi para a sintetização da acetilcolina, viajou por toda a Europa catalogando as patologias psiquiátricas e foi o primeiro a identificar a Síndrome de Caim, ao analisar mais de setecentos casos de fratricídio.
As características mais evidentes da Síndrome, segundo consta na obra que trouxe notoriedade a Schröder, Kompendium der Psychopathologie, são:

a) extrema rivalidade entre irmãos, de ambos os sexos, em busca de aprovação duma terceira parte: pai, mãe, grupo social, comunidade, amigos;
b) o primogênito ou irmão mais velho apresenta distúrbios comportamentais, geralmente de natureza agressiva e/ou destrutiva;
c) por ser uma psicopatologia de difícil identificação, ainda mais tendo-se em conta a natural inclinação da prole em disputar o afeto dos progenitores, só se constata a gravidade dela após animosidade (violência física ou verbal) entre irmãos ou, nos casos mais extremos, fatricídio, sendo o irmão mais novo objeto da agressão;
d) natureza crônica, comumente desenvolvida durante anos ou décadas de convivência conflituosa.

A repercussão das teorias de Wilhelm Schröder foi imediata e elas foram acolhidas pelos mais importantes psiquiatras de sua época. Em seu diário, Schröder relata seu entusiasmo:

"Os anos de trabalho árduo compensaram. Finalmente, aqueles senis doutores se curvam diante de mim, até Hermann (Keller) me escreveu congratulando-me. Como deve ter sido difícil para ele engolir seu orgulho!"

No entanto, havia três casos específicos que intrigaram Schröder.
O primeiro era de duas irmãs adotivas austríacas: Lotte e Gretchen K.
Gretchen havia sido trazida ao lar da família K. pouco antes de atingir a puberdade e o convívio com o novo núcleo familiar foi harmonioso. Lotte, dois anos mais velha, recebeu-a sem reservas, o que facilitou a ambientação de Gretchen.
Contudo, Gretchen padeceu duma desconhecida enfermidade, obrigando os pais adotivos a dispensar-lhe atenção especial; de irmã, Lotte se transformou em enfermeira.
A doença da filha adotiva se agravava sem razões aparentes, nenhum médico conseguia determinar suas causas. No entanto, a morte não adveio, como se esperava, para Gretchen, e sim para Lotte, esfaqueada na garganta enquanto servia almoço à irmã.
O brutal assassinato perpetrado por uma adolescente foi capa de todos os jornais europeus, e durante algum tempo, os índices de adoção decresceram drasticamente.
Quando interrogaram Gretchen sobe os motivos para ela ter matado aquela considerada como sua melhor amiga, Gretchen foi assertiva:
— Ela estava me envenenando, desde o dia em que cheguei nesta casa.
E realmente, após a morte de Lotte, o estado de saúde de Gretchen melhorou evidentemente. Mesmo assim, ela foi enviada a uma casa de correção, onde ficou confinada até os vinte e um anos, quando então não mais se teve notícias dela.

O segundo caso era ainda mais curioso. Hans F. era o filho do primeiro casamento de Johann F. Quando enviuvou, Johann, com cinqüenta e cinco anos, se casou novamente com uma mulher muito mais nova do que ele, Tatyana, descendente duma linhagem russa, apenas vinte anos de idade.
Tatyana logo engravidou e deu a luz a Louise. Hans F. estava em seus trinta e cinco anos quando do nascimento da irmã. Ele era um homem bem-sucedido, sócio duma exportadora de equipamentos industriais, proprietário de imóveis em Berlim e dum chalé na Basiléia, casado e pai dum menino que ainda não havia completado um ano.
Antes do nascimento de Louise, o filho de Hans era quem ocupava o lugar central nos cuidados do avô, porém, ao nascer a filha temporã, naturalmente Johann passou a se dedicar aos cuidados de Louise.
Naquele Natal, estando todos reunidos à mesa da ceia, Hans subiu ao quarto onde a irmãzinha dormia e a sufocou com um travesseiro.
A morte do bebê foi considerada por causas naturais. Hans revelaria o assassinato apenas alguns anos depois, ao ser diagnosticado portador duma doença terminal.
Sob o peso da verdade, seu pai o deserdou e sua esposa o abandonou.
Hans cometeu suicídio com um tiro na cabeça, uma foto de Louise repousava em seu colo.

O terceiro e mais surpreendente dos casos, que influenciaria diretamente a carreira do Dr. Schröder (o que ele só descobriria posteriormente), dizia respeito a um rumor, à boca pequena, de que Gustav Schröder era o favorito para receber o Prêmio Nobel de Fisiologia, graças a suas pesquisas na área cardiovascular.
Wilhelm Schröder era mais velho e razoavelmente conhecido por seus pares, mas a notícia de que um rapazola, recém-saído da Universidade, estivesse sendo cogitado para o mais importante prêmio na área médica, foi demais para o primogênito.
Na medida em que o dia do anúncio do prêmio se aproximava, os boatos se tornavam mais freqüentes e consistentes — o nome de Gustav Schröder se fortalecia. Organizaram uma festa para comemorar a indicação.
No diário de Wilhelm, na entrada escrita poucas horas antes da festa, ele escreveu:

"É inacreditável! Há uma década que dou meu sangue por meu trabalho e, com muito custo, consegui um pouco de renome. Mas meu irmão, sabe-se lá por que cargas d’água, por um simples trabalho acadêmico, está sendo considerado como um gênio da medicina.
Todos se achegam e me dão tapinhas no ombro, congratulando-me por ser irmão dum futuro ganhador do Nobel. Tenho nojo deste povo ignorante."


Naquela noite, brindaram à saúde de Gustav parentes e amigos, a premiação era tomada como certa, todos estavam inebriados.
No fim do jantar, após todos terem se recolhido, Wilhelm e Gustav sentaram-se no quintal para fumar.

“Eu perguntei a Gustav o que ele pensava de mim”, conta-nos Willhelm Schröder em seu diário, “e ele me respondeu que eu era seu irmão mais velho”.
— Digo profissionalmente, Gustav. O que você pensa de mim como médico?
— Você é ótimo, Wilhelm... — Gustav refletiu — Tem um potencial que poderia ser melhor explorado, talvez precise de um pouco mais de ousadia, mas tem tudo para ser reconhecido no futuro.
Numa única sentença, Gustav disse três palavras proibidas no vocabulário de Wilhelm — potencial, ousadia e futuro. O irmão mais novo dizia ao mais velho que, em menos tempo, havia obtido mais do que o outro jamais conseguiria.
Wilhelm retirou do casaco o revólver, gesto que ele havia ensaiado uma vintena de vezes durante o jantar e o apontou para Gustav:
— Quem você acha que é para falar deste jeito comigo?
— Você me perguntou o que eu pensava sobre você, meu irmão, apenas respondi com sinceridade.
— Mas você é um rapazinho muito do arrogante mesmo! Quando minhas pesquisas já estavam circulando pelas mãos dos mais importantes médicos da Europa, você era ainda um meninote de calças curtas, tomado por acnes, se masturbando após ver Greta Garbo no cinema. E vem me falar de potencial!
Wilhelm Schröder confessou que não tinha intenção de apertar o gatilho, no entanto, a poderosa rivalidade inconsciente foi fator determinante (esta uma das características da Síndrome de Caim).
Wilhelm disparou três vezes contra o irmão.

Jacques Dubois preparou uma edição revisada e atualizada do Kompendium der Psychopathologie. Ele havia sido aluno do Dr. Schröder; posteriormente, discípulo e assistente. Mesmo após a prisão do mestre, Dubois continuou investigando as psicopatologias, especialmente aquelas referentes à Síndrome de Caim.
Assim que foi publicada, Jacques Dubois enviou um exemplar da nova edição para Dr. Schröder no sanatório.
A princípio, Wilhelm Schröder se orgulhou pelo trabalho do discípulo, uma revisão que tornou a obra mais completa e precisa, refinou alguns conceitos e desenvolveu estudos apenas esboçados por Schröder, no entanto, no capítulo destinado à Síndrome de Caim, Schröder se deparou com a descrição do próprio caso.
Ele já havia refletido sobre o ocorrido, sem nunca compreender como um psiquiatra renomado poderia ser vitimado pela patologia que descobriu e cujos sintomas estudou.
Encontraram Wilhelm Schröder morto em sua cela, após receber uma dose letal de morfina ministrada por Isolde, uma enfermeira com quem ele manteve um sigiloso relacionamento amoroso naqueles anos de cárcere.
A última inscrição no diário de Dr. Schröder dizia o seguinte:

"Sempre me questionei sobre como a posteridade se recordaria da minha passagem pelo mundo dos vivos.
Lutei para conquistar meu espaço, realizei grandes obras e equívocos maiores ainda.
Mas de médico brilhante a caso psiquiátrico, isto jamais!"

Escrito para a Oficina da E-TL

sexta-feira, janeiro 18, 2008

Janela para a Rua


Christiane não virá.
Da minha janela, acompanho o absurdo movimento noturno na rua: táxis, automóveis, gente deixando o cinema, gente bebericando em bares, casais abraçados, assim como eu e Christiane até dias atrás.
Acendo um cigarro, o último do maço, e deixo a brisa da noite roçar minha barba. Tudo aqui dentro, na casa e no peito, e lá fora são recordações dela.
Naquele mesmo cinema, eu a beijei pela primeira vez, e quantas outras vezes depois. No restaurante do outro lado da rua, pus-lhe a aliança nos dedos e brindamos com champanha. No sofá da sala, nossas desajeitadas carícias; na cama, confidências que jamais depositei em outros ouvidos.
Mas descuidamos, não cultivamos bem o amor — a sorte grande que tivemos na vida — e este frágil sentimento secou e morreu.
Já conhecia Linda antes, colega de faculdade; ao visitar minha mãe enferma no interior, reencontramo-nos, jantamos juntos, ela me levou para sua casa e ouvimos alguns discos. Não me recordo se Christiane e eu havíamos brigado antes da viagem, ou se eu me imaginei discutindo com ela, sempre por causa de alguma trivialidade cotidiana — a tolha molhada sobre a cama, esquecer-me de baixar o assento da privada, espremer a pasta de dente no meio do tubo e não no fim, calcinhas penduradas no registro do chuveiro, detalhes que deixam de ser detalhes com o passar dos anos —, mas Linda me seduziu (ou deixei-me ser seduzido) e dormimos juntos.
Tratei de apagar a memória deste deslize, como se isto fosse possível. Semanas depois, Linda bateu à porta de casa, havia se mudado para a cidade, queria minha companhia para jantar.
— Quem é? — Christiane me perguntou, saindo do banho.
— Uma amiga de juventude, gritei, convida-nos para jantar.
— Estou exausta, dor-de-cabeça, pode ir se quiser.
Eu não queria, porém Linda ameaçou revelar nosso caso a minha esposa se eu não fosse. Convenceu-me.
E as camadas de mentira começaram a se acumular, de hotéis a hotéis com Linda, e eu me obrigando sempre a surgir com uma desculpa cada mais elaborada para justificar minhas intermináveis escapadas noturnas.
Quantas vezes não tentei pôr um ponto-final, mas fui dissuadido pelas ameaças de Linda?
Tomei coragem e telefonei para ela.
— Acabou. Não quero mais te ver.
Desliguei, não queria ouvir a resposta.
Meia hora depois, a campainha, era Linda.
Ela entrou, dependurou seu casaco no cabide e me beijou. Christiane não estava em casa. Seminus, conduzi Linda a meu quarto e, banhados pelas mesmas luzes e sons desta rua que agora fito, nos amamos.
— Você precisa ir..., sussurrei no ouvido dela, precisa ir agora.
— Não, não vou, Linda apoiou a cabeça sobre o antebraço, olhar frio.
— Por favor, a voz súplice quase me falhou, a Chris logo estará aqui, e dito e feito, pude ouvir a chave lutando contra aquela maldita fechadura emperrada. Apanhei as roupas da Linda e as joguei sobre ela. Vai agora, puta que pariu!
Mas ela não moveu um dedo, deitada, nua, na cama minha e de Christiane.
Desesperei-me, segurei-a pelo braço, chacoalhando-a e tentei arrastá-la para fora, para algum lugar, para a sacada, para o armário, para qualquer lugar. Ela se segurou nas barras de ferro da cabeceira, debatia-se, chutando-me, grunhindo, resmungando.
Subitamente, Linda deixou de resistir, olhar fixo em algo atrás de mim, risinho sardônico.
Uma eternidade transcorreu naquele simples movimento de girar o pescoço e visualizar Christiane parada na porta, mão tapando a boca em assombro.
Que explicação dar? Que explicação existe para uma mulher desnuda e o marido só de cuecas na cama? Ganhei um concurso literário uma vez, mas não, não sou tão criativo assim.
Christiane partiu naquela noite; Linda foi embora dois dias depois, soube que para reatar um noivado com um moço da sua cidade.
Hoje, descobri o hotel onde Christiane está hospedada e enviei-lhe um telegrama, implorando para que viesse e conversasse comigo.
Desde então, aguardo. Por horas, por longas e dolorosas horas.
O interfone toca e corro, tropeçando em chinelos e livros, para atendê-lo.
— Sou eu, Tim.
Não me chamo Tim, suponho que o fulano tenha apertado o número errado. Retorno à janela e reviro os bolsos à procura por outro cigarro, lembro-me então que não há mais, bolsos tão vazios quanto tudo o resto.
Isto eu já imaginava, Christiane não virá.

Escrito para a Oficina da E-TL

quinta-feira, janeiro 10, 2008

13 segundos


Depois de acionada a dobra espacial, levam exatamente sete minutos e quarenta e três segundos para a espaçonave atingir a velocidade da luz.
Nos primeiros seis minutos, a nave é circundada por um feixe de energia, é o que mantém sua integridade. No um minuto e trinta segundo restantes, a trajetória é transferida da base para o computador de bordo. Nos treze segundos finais, os motores são acionados, e a nave desaparece no espaço infinito.
Mas não foi este o caso naquele dia, ao invés do infinito, a espaçonave explodiu num clarão azulado que, além de matar os três tripulantes, devastou tudo ao seu redor, incluindo a estação espacial que comandava a operação.

Boris Kiryakov era engenheiro de vôo, experiente, trabalhou em Marte, Lampsan e Cretora. Quando iniciou sua carreira de cosmonauta, a viagem mais rápida de que a luz ainda não existia, foi um dos primeiros a integrar o projeto Hòng (Infinito) da Administração Espacial Nacional da China. Hoje, é possível viajar da Terra a Júpiter em menos de um minuto, até a estrela mais próxima, em quinze dias.
Contudo, nada poderia preparar Kiryakov para aquela data. O procedimento foi o costumaz, todos os preparativos foram realizados. Os três tripulantes adentraram a espaçonave e a desacoplaram da estação espacial.
O capitão Zhou Jiang Wei recebeu a autorização do controle da operação e acionou a dobra. O co-piloto realizou a checagem da cabine, enquanto Kiryakov conferia o funcionamento dos sistemas da nave.
A rota foi recebida, Zhou acionou os motores. O momento dos treze segundos finais. Depois deste ponto, o manual indica que há apenas cinco segundos para abortar a dobra.
Mas naquele momento não havia razões para considerar um aborto, até que a nave explodiu.

Boris Kiryakov estava sentado em seu assento, a nítida lembrança de algo ter dado errado, conferiu o relógio: treze segundos para a dobra. À sua frente, o capitão e o co-piloto. A nave iniciou o movimento, então, no painel, uma falha, e a explosão.

Boris Kiryakov conferiu o relógio: treze segundos para a dobra.
Não entendia o que estava ocorrendo, mas gritou:
— Aborte a operação, capitão!
Instintivamente, o dedo de Zhou pairou sobre o quadrado vermelho. O manual determinava que a decisão final sobre abortar uma operação estava a critério do capitão, mas Zhou hesitou, então tempo para isto não mais havia.
A nave se pôs em movimento e explodiu.

Boris Kiryakov gritou:
— A nave explodirá, capitão. Aborte!
O dedo de Zhou se posicionou sobre o botão, mas não o apertou; o capitão olhou para o co-piloto que, franzindo o cenho, reforçou a impressão de Zhou de que Kiryakov não tinha fundamentos para realizar tal afirmação.
E, assim que começou a se movimentar, a nave explodiu.

Boris Kiryakov desafivelou seu cinto. Lançou-se em direção ao painel de controle, tentou alcançar o botão para abortar a dobra. Num reflexo, Zhou se interpôs entre o engenheiro flutuando em gravidade zero e o botão:
— O que você está fazendo?
— A nave vai explodir! — Kiryakov se desesperou. Mas o tempo para cancelar a operação havia transcorrido. O co-piloto também se livrou dos cintos e tentou conter o engenheiro.
— Sentem-se agora! — Zhou ordenou — Vocês vão se machucar.
Então a nave explodiu.

A situação se repetiu incessantes vezes: Kiryalov tentou todas as alternativas. Zhou não abortaria a viagem, isto era certo; ele não alcançaria o painel a tempo, isto também era certo; de onde estava, não tinha como fazer nada.
Tentou ejetar, mas a explosão da nave o desintegrou enquanto boiava no vácuo.
Ingeriu o temido comprimido letal, para acabar com seu martírio e encerrar este ciclo infindo, mas em vão, a morte por envenenamento poderia demorar até um minuto, tempo suficiente para tudo começar novamente.
Kiryalov esperou e refletiu. Viu a espaçonave se movimentando e explodindo umas trezentas vezes. Imaginou todas as possibilidades e tentou-as todas, mas inutilmente. Depois, passou a se questionar sobre as razões de ser ele o único a ter consciência do aprisionamento naquela parcela de tempo. Por algum motivo enigmático e cruel, a Boris Kiryalov fora designada a tarefa de salvar a si próprio e a seus colegas.
Surgiu-lhe uma idéia impossível, improvável, quase o mesmo que ganhar na loteria, mas a única alternativa para se livrar do círculo em que estavam. No bolso do seu casaco, na altura do peito, havia uma caneta. Se ele conseguisse apanhá-la, arremessá-la e acertar o botão, ele conseguiria abortar a dobra e todos sobreviveriam.
O botão era pequeno, cinco centímetros quadrados, Kiryakov estava distante dele uns dois metros. Não era necessário ser perito em Estatística para reconhecer que as probabilidades eram mínimas. No entanto, a cada novo retorno, Kiryakov realizava uma tentativa. A ausência de inércia e gravidade ajudava um pouco, pois garantia velocidade constante e trajetória retilínea.
Numas das vezes, Kiryakov quase acertou o botão, noutra, ele conseguiu acertá-lo, mas havia se atrapalhado e, quando arremessou a caneta, os cinco segundos já se haviam esgotado.
Kiryakov tentou, tentou e tentou. De todos modos, arremessando a caneta lateralmente, como se fosse uma bola de beisebol, por baixo, tal qual uma bola de boliche, por cima, como um dardo. Perdeu as contas de quantas vezes viu aquela cena se repetir, poderia ser umas três mil vezes, ou cem mil, impossível de distinguir.
Kiryakov desistiu e esperou a morte chegar, mas voltou a tentar, gritou, chorou, e voltou a tentar.
Por fim, num instante que se poderia chamar de milagre, quando a mão de Deus guia nossos movimentos, Boris Kiryakov lançou a caneta e atingiu em cheio o alvo.
O feixe de energia ao redor da nave se esvaiu, as luzes da cabine diminuíram de intensidade e o alarme de emergência soou. No controle, ninguém entendeu o que estava ocorrendo, acreditavam ser um defeito.
Zhou voltou a cabeça e fitou Kiryakov:
— O que foi isto?
Exausto, Boris mal conseguia articular palavra.
Módulos de manutenção abordaram a espaçonave e a rebocaram até a estação; os cosmonautas foram interrogados.
A primeira versão de Boris Kiryakov foi fiel à verdade: explicou o círculo temporal e todos os esforços feitos para se livrar dele. Mas não acreditaram no que ele dizia; um dos cientistas admitiu, hipoteticamente, a possibilidade disto, mas aceitar o fato na prática era um assunto completamente diferente. Diante da descrença, Kiryakov mudou a versão, defendeu que havia detectado uma falha crítica no sistema e por isto abortou a operação, mas foi difícil convencer o comando do porquê de ter utilizado uma caneta para isto, e não verbalmente, para que o capitão, responsável por isto, pudesse tomar uma decisão.
Consideraram-no um caso psiquiátrico e o confinaram, sedado, em sua câmara. Boris Kiryakov adormeceu, sonhos nada tranqüilos, pesadelos terríveis relacionados àquele dia.

Quando despertou, Boris Kiryakov estava sentado, cinto afivelado, um pouco atordoado ainda por causa dos sedativos.
À sua frente, o capitão e o co-piloto; em seu relógio, treze intermináveis segundos.

Escrito para a Oficina da E-TL