quinta-feira, janeiro 10, 2008

13 segundos


Depois de acionada a dobra espacial, levam exatamente sete minutos e quarenta e três segundos para a espaçonave atingir a velocidade da luz.
Nos primeiros seis minutos, a nave é circundada por um feixe de energia, é o que mantém sua integridade. No um minuto e trinta segundo restantes, a trajetória é transferida da base para o computador de bordo. Nos treze segundos finais, os motores são acionados, e a nave desaparece no espaço infinito.
Mas não foi este o caso naquele dia, ao invés do infinito, a espaçonave explodiu num clarão azulado que, além de matar os três tripulantes, devastou tudo ao seu redor, incluindo a estação espacial que comandava a operação.

Boris Kiryakov era engenheiro de vôo, experiente, trabalhou em Marte, Lampsan e Cretora. Quando iniciou sua carreira de cosmonauta, a viagem mais rápida de que a luz ainda não existia, foi um dos primeiros a integrar o projeto Hòng (Infinito) da Administração Espacial Nacional da China. Hoje, é possível viajar da Terra a Júpiter em menos de um minuto, até a estrela mais próxima, em quinze dias.
Contudo, nada poderia preparar Kiryakov para aquela data. O procedimento foi o costumaz, todos os preparativos foram realizados. Os três tripulantes adentraram a espaçonave e a desacoplaram da estação espacial.
O capitão Zhou Jiang Wei recebeu a autorização do controle da operação e acionou a dobra. O co-piloto realizou a checagem da cabine, enquanto Kiryakov conferia o funcionamento dos sistemas da nave.
A rota foi recebida, Zhou acionou os motores. O momento dos treze segundos finais. Depois deste ponto, o manual indica que há apenas cinco segundos para abortar a dobra.
Mas naquele momento não havia razões para considerar um aborto, até que a nave explodiu.

Boris Kiryakov estava sentado em seu assento, a nítida lembrança de algo ter dado errado, conferiu o relógio: treze segundos para a dobra. À sua frente, o capitão e o co-piloto. A nave iniciou o movimento, então, no painel, uma falha, e a explosão.

Boris Kiryakov conferiu o relógio: treze segundos para a dobra.
Não entendia o que estava ocorrendo, mas gritou:
— Aborte a operação, capitão!
Instintivamente, o dedo de Zhou pairou sobre o quadrado vermelho. O manual determinava que a decisão final sobre abortar uma operação estava a critério do capitão, mas Zhou hesitou, então tempo para isto não mais havia.
A nave se pôs em movimento e explodiu.

Boris Kiryakov gritou:
— A nave explodirá, capitão. Aborte!
O dedo de Zhou se posicionou sobre o botão, mas não o apertou; o capitão olhou para o co-piloto que, franzindo o cenho, reforçou a impressão de Zhou de que Kiryakov não tinha fundamentos para realizar tal afirmação.
E, assim que começou a se movimentar, a nave explodiu.

Boris Kiryakov desafivelou seu cinto. Lançou-se em direção ao painel de controle, tentou alcançar o botão para abortar a dobra. Num reflexo, Zhou se interpôs entre o engenheiro flutuando em gravidade zero e o botão:
— O que você está fazendo?
— A nave vai explodir! — Kiryakov se desesperou. Mas o tempo para cancelar a operação havia transcorrido. O co-piloto também se livrou dos cintos e tentou conter o engenheiro.
— Sentem-se agora! — Zhou ordenou — Vocês vão se machucar.
Então a nave explodiu.

A situação se repetiu incessantes vezes: Kiryalov tentou todas as alternativas. Zhou não abortaria a viagem, isto era certo; ele não alcançaria o painel a tempo, isto também era certo; de onde estava, não tinha como fazer nada.
Tentou ejetar, mas a explosão da nave o desintegrou enquanto boiava no vácuo.
Ingeriu o temido comprimido letal, para acabar com seu martírio e encerrar este ciclo infindo, mas em vão, a morte por envenenamento poderia demorar até um minuto, tempo suficiente para tudo começar novamente.
Kiryalov esperou e refletiu. Viu a espaçonave se movimentando e explodindo umas trezentas vezes. Imaginou todas as possibilidades e tentou-as todas, mas inutilmente. Depois, passou a se questionar sobre as razões de ser ele o único a ter consciência do aprisionamento naquela parcela de tempo. Por algum motivo enigmático e cruel, a Boris Kiryalov fora designada a tarefa de salvar a si próprio e a seus colegas.
Surgiu-lhe uma idéia impossível, improvável, quase o mesmo que ganhar na loteria, mas a única alternativa para se livrar do círculo em que estavam. No bolso do seu casaco, na altura do peito, havia uma caneta. Se ele conseguisse apanhá-la, arremessá-la e acertar o botão, ele conseguiria abortar a dobra e todos sobreviveriam.
O botão era pequeno, cinco centímetros quadrados, Kiryakov estava distante dele uns dois metros. Não era necessário ser perito em Estatística para reconhecer que as probabilidades eram mínimas. No entanto, a cada novo retorno, Kiryakov realizava uma tentativa. A ausência de inércia e gravidade ajudava um pouco, pois garantia velocidade constante e trajetória retilínea.
Numas das vezes, Kiryakov quase acertou o botão, noutra, ele conseguiu acertá-lo, mas havia se atrapalhado e, quando arremessou a caneta, os cinco segundos já se haviam esgotado.
Kiryakov tentou, tentou e tentou. De todos modos, arremessando a caneta lateralmente, como se fosse uma bola de beisebol, por baixo, tal qual uma bola de boliche, por cima, como um dardo. Perdeu as contas de quantas vezes viu aquela cena se repetir, poderia ser umas três mil vezes, ou cem mil, impossível de distinguir.
Kiryakov desistiu e esperou a morte chegar, mas voltou a tentar, gritou, chorou, e voltou a tentar.
Por fim, num instante que se poderia chamar de milagre, quando a mão de Deus guia nossos movimentos, Boris Kiryakov lançou a caneta e atingiu em cheio o alvo.
O feixe de energia ao redor da nave se esvaiu, as luzes da cabine diminuíram de intensidade e o alarme de emergência soou. No controle, ninguém entendeu o que estava ocorrendo, acreditavam ser um defeito.
Zhou voltou a cabeça e fitou Kiryakov:
— O que foi isto?
Exausto, Boris mal conseguia articular palavra.
Módulos de manutenção abordaram a espaçonave e a rebocaram até a estação; os cosmonautas foram interrogados.
A primeira versão de Boris Kiryakov foi fiel à verdade: explicou o círculo temporal e todos os esforços feitos para se livrar dele. Mas não acreditaram no que ele dizia; um dos cientistas admitiu, hipoteticamente, a possibilidade disto, mas aceitar o fato na prática era um assunto completamente diferente. Diante da descrença, Kiryakov mudou a versão, defendeu que havia detectado uma falha crítica no sistema e por isto abortou a operação, mas foi difícil convencer o comando do porquê de ter utilizado uma caneta para isto, e não verbalmente, para que o capitão, responsável por isto, pudesse tomar uma decisão.
Consideraram-no um caso psiquiátrico e o confinaram, sedado, em sua câmara. Boris Kiryakov adormeceu, sonhos nada tranqüilos, pesadelos terríveis relacionados àquele dia.

Quando despertou, Boris Kiryakov estava sentado, cinto afivelado, um pouco atordoado ainda por causa dos sedativos.
À sua frente, o capitão e o co-piloto; em seu relógio, treze intermináveis segundos.

Escrito para a Oficina da E-TL

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