sexta-feira, janeiro 18, 2008

Janela para a Rua


Christiane não virá.
Da minha janela, acompanho o absurdo movimento noturno na rua: táxis, automóveis, gente deixando o cinema, gente bebericando em bares, casais abraçados, assim como eu e Christiane até dias atrás.
Acendo um cigarro, o último do maço, e deixo a brisa da noite roçar minha barba. Tudo aqui dentro, na casa e no peito, e lá fora são recordações dela.
Naquele mesmo cinema, eu a beijei pela primeira vez, e quantas outras vezes depois. No restaurante do outro lado da rua, pus-lhe a aliança nos dedos e brindamos com champanha. No sofá da sala, nossas desajeitadas carícias; na cama, confidências que jamais depositei em outros ouvidos.
Mas descuidamos, não cultivamos bem o amor — a sorte grande que tivemos na vida — e este frágil sentimento secou e morreu.
Já conhecia Linda antes, colega de faculdade; ao visitar minha mãe enferma no interior, reencontramo-nos, jantamos juntos, ela me levou para sua casa e ouvimos alguns discos. Não me recordo se Christiane e eu havíamos brigado antes da viagem, ou se eu me imaginei discutindo com ela, sempre por causa de alguma trivialidade cotidiana — a tolha molhada sobre a cama, esquecer-me de baixar o assento da privada, espremer a pasta de dente no meio do tubo e não no fim, calcinhas penduradas no registro do chuveiro, detalhes que deixam de ser detalhes com o passar dos anos —, mas Linda me seduziu (ou deixei-me ser seduzido) e dormimos juntos.
Tratei de apagar a memória deste deslize, como se isto fosse possível. Semanas depois, Linda bateu à porta de casa, havia se mudado para a cidade, queria minha companhia para jantar.
— Quem é? — Christiane me perguntou, saindo do banho.
— Uma amiga de juventude, gritei, convida-nos para jantar.
— Estou exausta, dor-de-cabeça, pode ir se quiser.
Eu não queria, porém Linda ameaçou revelar nosso caso a minha esposa se eu não fosse. Convenceu-me.
E as camadas de mentira começaram a se acumular, de hotéis a hotéis com Linda, e eu me obrigando sempre a surgir com uma desculpa cada mais elaborada para justificar minhas intermináveis escapadas noturnas.
Quantas vezes não tentei pôr um ponto-final, mas fui dissuadido pelas ameaças de Linda?
Tomei coragem e telefonei para ela.
— Acabou. Não quero mais te ver.
Desliguei, não queria ouvir a resposta.
Meia hora depois, a campainha, era Linda.
Ela entrou, dependurou seu casaco no cabide e me beijou. Christiane não estava em casa. Seminus, conduzi Linda a meu quarto e, banhados pelas mesmas luzes e sons desta rua que agora fito, nos amamos.
— Você precisa ir..., sussurrei no ouvido dela, precisa ir agora.
— Não, não vou, Linda apoiou a cabeça sobre o antebraço, olhar frio.
— Por favor, a voz súplice quase me falhou, a Chris logo estará aqui, e dito e feito, pude ouvir a chave lutando contra aquela maldita fechadura emperrada. Apanhei as roupas da Linda e as joguei sobre ela. Vai agora, puta que pariu!
Mas ela não moveu um dedo, deitada, nua, na cama minha e de Christiane.
Desesperei-me, segurei-a pelo braço, chacoalhando-a e tentei arrastá-la para fora, para algum lugar, para a sacada, para o armário, para qualquer lugar. Ela se segurou nas barras de ferro da cabeceira, debatia-se, chutando-me, grunhindo, resmungando.
Subitamente, Linda deixou de resistir, olhar fixo em algo atrás de mim, risinho sardônico.
Uma eternidade transcorreu naquele simples movimento de girar o pescoço e visualizar Christiane parada na porta, mão tapando a boca em assombro.
Que explicação dar? Que explicação existe para uma mulher desnuda e o marido só de cuecas na cama? Ganhei um concurso literário uma vez, mas não, não sou tão criativo assim.
Christiane partiu naquela noite; Linda foi embora dois dias depois, soube que para reatar um noivado com um moço da sua cidade.
Hoje, descobri o hotel onde Christiane está hospedada e enviei-lhe um telegrama, implorando para que viesse e conversasse comigo.
Desde então, aguardo. Por horas, por longas e dolorosas horas.
O interfone toca e corro, tropeçando em chinelos e livros, para atendê-lo.
— Sou eu, Tim.
Não me chamo Tim, suponho que o fulano tenha apertado o número errado. Retorno à janela e reviro os bolsos à procura por outro cigarro, lembro-me então que não há mais, bolsos tão vazios quanto tudo o resto.
Isto eu já imaginava, Christiane não virá.

Escrito para a Oficina da E-TL

2 comentários:

simone santana disse...

A partir de um fato tão comum, você consegue pintar o quadro da complexidade que é viver... Gostei muito de ler.

Beijo!!!

Henry Alfred disse...

Oi, Simone.

Obrigado pela visita e pelo comentário. Está aí um tipo de texto que não estou muito habituado a escrever, também fiquei satisfeito com o resultado.

Abraços.