quarta-feira, maio 14, 2008

A Partilha dos Bens


A partilha dos bens de vovô foi uma grande surpresa para todos; entre os imóveis, ações da bolsa de valores, poupanças, obras de arte, automóveis e terrenos, havia um item inesperado: segundo o testamenteiro, cabia-me receber a maior jóia de todas — o Santo Graal —, guardada no cofre de vovô, atrás dum Magritte no escritório.
Obviamente, senti-me injustiçado ao ver meus tios e primos recebendo valores que se aproximavam das centenas de milhares de dólares e eu, que mal sabia o que era o Santo Graal à época — excetuando pelo que havia assistido em filmes como Excalibur —, encarei aquilo como uma piada de mal gosto, posto que sempre mantive um relação um tanto distanciada do velho.
Este impressão se confirmou quando, com a chave e combinação do cofre, abrimo-lo e ele nada continha além dum fragmento de papel, onde estava escrito: trinta dias.
Um dos meus tios, o herdeiro da mansão, nos convidou para permanecermos lá por mais algumas semanas, até que ele se habituasse com a vida de novo rico. Entre os familiares, o “meu Santo Graal” se tornou chacota. Decidi-me por partir antes do tempo, mas titio me demoveu:
— Ignore-os. Aproveite para descansar.
Acabei aceitando, com a condição de jantar às sós em meu quarto, para evitar ser alvo das brincadeiras.
Meu segundo refúgio se tornou a biblioteca, para qual eu me encaminhava de madrugada e lia até o amanhecer. Em pouco tempo, eu havia trocado o dia pela noite, assim, qualquer preocupação em me encontrar com parentes era quase nula, todos matutinos.
Nestas sessões noturnas de leitura, constatei que vovô possuía uma obsessão pelas lendas arturianas e pela busca do Santo Graal. O acervo sobre o assunto era vasto e em vários idiomas. Com meu francês rudimentar, li alguns trechos de Chretién de Troyes, optei por uma tradução em inglês de Parzival de Eschenbach, de Robert de Boron e de Perlesvaus, entre várias outras obras com que me deparei nesta pesquisa.
Este material que coletei me deixou intrigado, pois as versões eram contraditórias entre si, apresentando o Santo Graal das maneiras mais diversas — o cálice que recolheu o sangue de Cristo, uma pedra vinda do céu, uma representação do sagrado caldeirão celta, o símbolo da graça divina, a santa comunhão do cristão, o herdeiro mítico do relacionamento entre Jesus e Maria Madalena, entre inúmeras outras interpretações.
As propriedades do Santo Graal eram igualmente dúbias: para alguns autores, ele possuía a capacidade de curar qualquer enfermidade, para outros, trazia a iluminação e a elevação espiritual, ou, até mesmo, a juventude eterna.
A verdade era que ninguém sabia a verdade.
Estes meus estudos tomaram todo um mês, e cada nova leitura, cada novo autor, cada nova hipótese, crença ou dogma era um labirinto no qual eu tinha de me embrenhar, e eu nunca o deixava com uma resposta satisfatória, tampouco conseguia esclarecer a razão de tão inusitada piada feita por vovô em seu testamento.
Na minha última noite na mansão, decidi não mais evitar o confronto e desci para jantar com os demais.
— Quem é vivo sempre aparece! — disseram em coro e, crente de que eles haviam se esquecido do acontecido, sentei-me e fui servido.
— E o Santo Graal? — um dos meus primos perguntou — Conseguiu finalmente receber a sua herança?
Contive-me, beberiquei um gole d’água, e respondi:
— Olha, não sei o que o vovô queria dizer com aquilo, mas, neste tempo, descobri que para obter o Graal é necessária uma busca. Não é algo que se dá de presente, ou que se herda.
— E você acredita nesta besteira? — uma tia interveio, rindo.
— Isto não importa. Mas vovô certamente acreditava e, neste sentido, a minha herança é muito valiosa do que as porcarias que vocês receberam. Enquanto a parte de vocês será dilapidada, apodrecerá, se gastará, a minha continuará eterna, incorruptível. A de vocês é física, por isto, finita. A minha é espiritual, e demonstra o verdadeiro valor que vovô dava às coisas.
Todos se calaram, constrangidos com a minha resposta. Jantamos em silêncio e voltei rapidamente para o meu quarto.
No entanto, naquela noite, despertei incomodado com uma claridade. Entreabri os olhos, cegado por aquela luz inebriante. Protegi a vista com a mão e, aos poucos, comecei a divisar algo, planando quase na altura do teto. Meu coração palpitava com força, tamanha era a emoção.
Diante de mim, estava o Santo Graal. Era o trigésimo dia da partilha, eu havia realizado minha busca, merecia a herança de vovô.
Até hoje sou motivo de piada entre meus parentes, mas eles são motivo de piada maior para mim.
Coube-me, de fato, a melhor parte.

Escrito para a Oficina da E-TL

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