terça-feira, janeiro 22, 2008

Síndrome de Caim


O psiquiatra bávaro Wilhelm Schröder realizou, durante sua carreira, extraordinários avanços na área de psicopatologias. Foi um dos assistentes de Otto Loewi para a sintetização da acetilcolina, viajou por toda a Europa catalogando as patologias psiquiátricas e foi o primeiro a identificar a Síndrome de Caim, ao analisar mais de setecentos casos de fratricídio.
As características mais evidentes da Síndrome, segundo consta na obra que trouxe notoriedade a Schröder, Kompendium der Psychopathologie, são:

a) extrema rivalidade entre irmãos, de ambos os sexos, em busca de aprovação duma terceira parte: pai, mãe, grupo social, comunidade, amigos;
b) o primogênito ou irmão mais velho apresenta distúrbios comportamentais, geralmente de natureza agressiva e/ou destrutiva;
c) por ser uma psicopatologia de difícil identificação, ainda mais tendo-se em conta a natural inclinação da prole em disputar o afeto dos progenitores, só se constata a gravidade dela após animosidade (violência física ou verbal) entre irmãos ou, nos casos mais extremos, fatricídio, sendo o irmão mais novo objeto da agressão;
d) natureza crônica, comumente desenvolvida durante anos ou décadas de convivência conflituosa.

A repercussão das teorias de Wilhelm Schröder foi imediata e elas foram acolhidas pelos mais importantes psiquiatras de sua época. Em seu diário, Schröder relata seu entusiasmo:

"Os anos de trabalho árduo compensaram. Finalmente, aqueles senis doutores se curvam diante de mim, até Hermann (Keller) me escreveu congratulando-me. Como deve ter sido difícil para ele engolir seu orgulho!"

No entanto, havia três casos específicos que intrigaram Schröder.
O primeiro era de duas irmãs adotivas austríacas: Lotte e Gretchen K.
Gretchen havia sido trazida ao lar da família K. pouco antes de atingir a puberdade e o convívio com o novo núcleo familiar foi harmonioso. Lotte, dois anos mais velha, recebeu-a sem reservas, o que facilitou a ambientação de Gretchen.
Contudo, Gretchen padeceu duma desconhecida enfermidade, obrigando os pais adotivos a dispensar-lhe atenção especial; de irmã, Lotte se transformou em enfermeira.
A doença da filha adotiva se agravava sem razões aparentes, nenhum médico conseguia determinar suas causas. No entanto, a morte não adveio, como se esperava, para Gretchen, e sim para Lotte, esfaqueada na garganta enquanto servia almoço à irmã.
O brutal assassinato perpetrado por uma adolescente foi capa de todos os jornais europeus, e durante algum tempo, os índices de adoção decresceram drasticamente.
Quando interrogaram Gretchen sobe os motivos para ela ter matado aquela considerada como sua melhor amiga, Gretchen foi assertiva:
— Ela estava me envenenando, desde o dia em que cheguei nesta casa.
E realmente, após a morte de Lotte, o estado de saúde de Gretchen melhorou evidentemente. Mesmo assim, ela foi enviada a uma casa de correção, onde ficou confinada até os vinte e um anos, quando então não mais se teve notícias dela.

O segundo caso era ainda mais curioso. Hans F. era o filho do primeiro casamento de Johann F. Quando enviuvou, Johann, com cinqüenta e cinco anos, se casou novamente com uma mulher muito mais nova do que ele, Tatyana, descendente duma linhagem russa, apenas vinte anos de idade.
Tatyana logo engravidou e deu a luz a Louise. Hans F. estava em seus trinta e cinco anos quando do nascimento da irmã. Ele era um homem bem-sucedido, sócio duma exportadora de equipamentos industriais, proprietário de imóveis em Berlim e dum chalé na Basiléia, casado e pai dum menino que ainda não havia completado um ano.
Antes do nascimento de Louise, o filho de Hans era quem ocupava o lugar central nos cuidados do avô, porém, ao nascer a filha temporã, naturalmente Johann passou a se dedicar aos cuidados de Louise.
Naquele Natal, estando todos reunidos à mesa da ceia, Hans subiu ao quarto onde a irmãzinha dormia e a sufocou com um travesseiro.
A morte do bebê foi considerada por causas naturais. Hans revelaria o assassinato apenas alguns anos depois, ao ser diagnosticado portador duma doença terminal.
Sob o peso da verdade, seu pai o deserdou e sua esposa o abandonou.
Hans cometeu suicídio com um tiro na cabeça, uma foto de Louise repousava em seu colo.

O terceiro e mais surpreendente dos casos, que influenciaria diretamente a carreira do Dr. Schröder (o que ele só descobriria posteriormente), dizia respeito a um rumor, à boca pequena, de que Gustav Schröder era o favorito para receber o Prêmio Nobel de Fisiologia, graças a suas pesquisas na área cardiovascular.
Wilhelm Schröder era mais velho e razoavelmente conhecido por seus pares, mas a notícia de que um rapazola, recém-saído da Universidade, estivesse sendo cogitado para o mais importante prêmio na área médica, foi demais para o primogênito.
Na medida em que o dia do anúncio do prêmio se aproximava, os boatos se tornavam mais freqüentes e consistentes — o nome de Gustav Schröder se fortalecia. Organizaram uma festa para comemorar a indicação.
No diário de Wilhelm, na entrada escrita poucas horas antes da festa, ele escreveu:

"É inacreditável! Há uma década que dou meu sangue por meu trabalho e, com muito custo, consegui um pouco de renome. Mas meu irmão, sabe-se lá por que cargas d’água, por um simples trabalho acadêmico, está sendo considerado como um gênio da medicina.
Todos se achegam e me dão tapinhas no ombro, congratulando-me por ser irmão dum futuro ganhador do Nobel. Tenho nojo deste povo ignorante."


Naquela noite, brindaram à saúde de Gustav parentes e amigos, a premiação era tomada como certa, todos estavam inebriados.
No fim do jantar, após todos terem se recolhido, Wilhelm e Gustav sentaram-se no quintal para fumar.

“Eu perguntei a Gustav o que ele pensava de mim”, conta-nos Willhelm Schröder em seu diário, “e ele me respondeu que eu era seu irmão mais velho”.
— Digo profissionalmente, Gustav. O que você pensa de mim como médico?
— Você é ótimo, Wilhelm... — Gustav refletiu — Tem um potencial que poderia ser melhor explorado, talvez precise de um pouco mais de ousadia, mas tem tudo para ser reconhecido no futuro.
Numa única sentença, Gustav disse três palavras proibidas no vocabulário de Wilhelm — potencial, ousadia e futuro. O irmão mais novo dizia ao mais velho que, em menos tempo, havia obtido mais do que o outro jamais conseguiria.
Wilhelm retirou do casaco o revólver, gesto que ele havia ensaiado uma vintena de vezes durante o jantar e o apontou para Gustav:
— Quem você acha que é para falar deste jeito comigo?
— Você me perguntou o que eu pensava sobre você, meu irmão, apenas respondi com sinceridade.
— Mas você é um rapazinho muito do arrogante mesmo! Quando minhas pesquisas já estavam circulando pelas mãos dos mais importantes médicos da Europa, você era ainda um meninote de calças curtas, tomado por acnes, se masturbando após ver Greta Garbo no cinema. E vem me falar de potencial!
Wilhelm Schröder confessou que não tinha intenção de apertar o gatilho, no entanto, a poderosa rivalidade inconsciente foi fator determinante (esta uma das características da Síndrome de Caim).
Wilhelm disparou três vezes contra o irmão.

Jacques Dubois preparou uma edição revisada e atualizada do Kompendium der Psychopathologie. Ele havia sido aluno do Dr. Schröder; posteriormente, discípulo e assistente. Mesmo após a prisão do mestre, Dubois continuou investigando as psicopatologias, especialmente aquelas referentes à Síndrome de Caim.
Assim que foi publicada, Jacques Dubois enviou um exemplar da nova edição para Dr. Schröder no sanatório.
A princípio, Wilhelm Schröder se orgulhou pelo trabalho do discípulo, uma revisão que tornou a obra mais completa e precisa, refinou alguns conceitos e desenvolveu estudos apenas esboçados por Schröder, no entanto, no capítulo destinado à Síndrome de Caim, Schröder se deparou com a descrição do próprio caso.
Ele já havia refletido sobre o ocorrido, sem nunca compreender como um psiquiatra renomado poderia ser vitimado pela patologia que descobriu e cujos sintomas estudou.
Encontraram Wilhelm Schröder morto em sua cela, após receber uma dose letal de morfina ministrada por Isolde, uma enfermeira com quem ele manteve um sigiloso relacionamento amoroso naqueles anos de cárcere.
A última inscrição no diário de Dr. Schröder dizia o seguinte:

"Sempre me questionei sobre como a posteridade se recordaria da minha passagem pelo mundo dos vivos.
Lutei para conquistar meu espaço, realizei grandes obras e equívocos maiores ainda.
Mas de médico brilhante a caso psiquiátrico, isto jamais!"

Escrito para a Oficina da E-TL

sexta-feira, janeiro 18, 2008

Janela para a Rua


Christiane não virá.
Da minha janela, acompanho o absurdo movimento noturno na rua: táxis, automóveis, gente deixando o cinema, gente bebericando em bares, casais abraçados, assim como eu e Christiane até dias atrás.
Acendo um cigarro, o último do maço, e deixo a brisa da noite roçar minha barba. Tudo aqui dentro, na casa e no peito, e lá fora são recordações dela.
Naquele mesmo cinema, eu a beijei pela primeira vez, e quantas outras vezes depois. No restaurante do outro lado da rua, pus-lhe a aliança nos dedos e brindamos com champanha. No sofá da sala, nossas desajeitadas carícias; na cama, confidências que jamais depositei em outros ouvidos.
Mas descuidamos, não cultivamos bem o amor — a sorte grande que tivemos na vida — e este frágil sentimento secou e morreu.
Já conhecia Linda antes, colega de faculdade; ao visitar minha mãe enferma no interior, reencontramo-nos, jantamos juntos, ela me levou para sua casa e ouvimos alguns discos. Não me recordo se Christiane e eu havíamos brigado antes da viagem, ou se eu me imaginei discutindo com ela, sempre por causa de alguma trivialidade cotidiana — a tolha molhada sobre a cama, esquecer-me de baixar o assento da privada, espremer a pasta de dente no meio do tubo e não no fim, calcinhas penduradas no registro do chuveiro, detalhes que deixam de ser detalhes com o passar dos anos —, mas Linda me seduziu (ou deixei-me ser seduzido) e dormimos juntos.
Tratei de apagar a memória deste deslize, como se isto fosse possível. Semanas depois, Linda bateu à porta de casa, havia se mudado para a cidade, queria minha companhia para jantar.
— Quem é? — Christiane me perguntou, saindo do banho.
— Uma amiga de juventude, gritei, convida-nos para jantar.
— Estou exausta, dor-de-cabeça, pode ir se quiser.
Eu não queria, porém Linda ameaçou revelar nosso caso a minha esposa se eu não fosse. Convenceu-me.
E as camadas de mentira começaram a se acumular, de hotéis a hotéis com Linda, e eu me obrigando sempre a surgir com uma desculpa cada mais elaborada para justificar minhas intermináveis escapadas noturnas.
Quantas vezes não tentei pôr um ponto-final, mas fui dissuadido pelas ameaças de Linda?
Tomei coragem e telefonei para ela.
— Acabou. Não quero mais te ver.
Desliguei, não queria ouvir a resposta.
Meia hora depois, a campainha, era Linda.
Ela entrou, dependurou seu casaco no cabide e me beijou. Christiane não estava em casa. Seminus, conduzi Linda a meu quarto e, banhados pelas mesmas luzes e sons desta rua que agora fito, nos amamos.
— Você precisa ir..., sussurrei no ouvido dela, precisa ir agora.
— Não, não vou, Linda apoiou a cabeça sobre o antebraço, olhar frio.
— Por favor, a voz súplice quase me falhou, a Chris logo estará aqui, e dito e feito, pude ouvir a chave lutando contra aquela maldita fechadura emperrada. Apanhei as roupas da Linda e as joguei sobre ela. Vai agora, puta que pariu!
Mas ela não moveu um dedo, deitada, nua, na cama minha e de Christiane.
Desesperei-me, segurei-a pelo braço, chacoalhando-a e tentei arrastá-la para fora, para algum lugar, para a sacada, para o armário, para qualquer lugar. Ela se segurou nas barras de ferro da cabeceira, debatia-se, chutando-me, grunhindo, resmungando.
Subitamente, Linda deixou de resistir, olhar fixo em algo atrás de mim, risinho sardônico.
Uma eternidade transcorreu naquele simples movimento de girar o pescoço e visualizar Christiane parada na porta, mão tapando a boca em assombro.
Que explicação dar? Que explicação existe para uma mulher desnuda e o marido só de cuecas na cama? Ganhei um concurso literário uma vez, mas não, não sou tão criativo assim.
Christiane partiu naquela noite; Linda foi embora dois dias depois, soube que para reatar um noivado com um moço da sua cidade.
Hoje, descobri o hotel onde Christiane está hospedada e enviei-lhe um telegrama, implorando para que viesse e conversasse comigo.
Desde então, aguardo. Por horas, por longas e dolorosas horas.
O interfone toca e corro, tropeçando em chinelos e livros, para atendê-lo.
— Sou eu, Tim.
Não me chamo Tim, suponho que o fulano tenha apertado o número errado. Retorno à janela e reviro os bolsos à procura por outro cigarro, lembro-me então que não há mais, bolsos tão vazios quanto tudo o resto.
Isto eu já imaginava, Christiane não virá.

Escrito para a Oficina da E-TL

quinta-feira, janeiro 10, 2008

13 segundos


Depois de acionada a dobra espacial, levam exatamente sete minutos e quarenta e três segundos para a espaçonave atingir a velocidade da luz.
Nos primeiros seis minutos, a nave é circundada por um feixe de energia, é o que mantém sua integridade. No um minuto e trinta segundo restantes, a trajetória é transferida da base para o computador de bordo. Nos treze segundos finais, os motores são acionados, e a nave desaparece no espaço infinito.
Mas não foi este o caso naquele dia, ao invés do infinito, a espaçonave explodiu num clarão azulado que, além de matar os três tripulantes, devastou tudo ao seu redor, incluindo a estação espacial que comandava a operação.

Boris Kiryakov era engenheiro de vôo, experiente, trabalhou em Marte, Lampsan e Cretora. Quando iniciou sua carreira de cosmonauta, a viagem mais rápida de que a luz ainda não existia, foi um dos primeiros a integrar o projeto Hòng (Infinito) da Administração Espacial Nacional da China. Hoje, é possível viajar da Terra a Júpiter em menos de um minuto, até a estrela mais próxima, em quinze dias.
Contudo, nada poderia preparar Kiryakov para aquela data. O procedimento foi o costumaz, todos os preparativos foram realizados. Os três tripulantes adentraram a espaçonave e a desacoplaram da estação espacial.
O capitão Zhou Jiang Wei recebeu a autorização do controle da operação e acionou a dobra. O co-piloto realizou a checagem da cabine, enquanto Kiryakov conferia o funcionamento dos sistemas da nave.
A rota foi recebida, Zhou acionou os motores. O momento dos treze segundos finais. Depois deste ponto, o manual indica que há apenas cinco segundos para abortar a dobra.
Mas naquele momento não havia razões para considerar um aborto, até que a nave explodiu.

Boris Kiryakov estava sentado em seu assento, a nítida lembrança de algo ter dado errado, conferiu o relógio: treze segundos para a dobra. À sua frente, o capitão e o co-piloto. A nave iniciou o movimento, então, no painel, uma falha, e a explosão.

Boris Kiryakov conferiu o relógio: treze segundos para a dobra.
Não entendia o que estava ocorrendo, mas gritou:
— Aborte a operação, capitão!
Instintivamente, o dedo de Zhou pairou sobre o quadrado vermelho. O manual determinava que a decisão final sobre abortar uma operação estava a critério do capitão, mas Zhou hesitou, então tempo para isto não mais havia.
A nave se pôs em movimento e explodiu.

Boris Kiryakov gritou:
— A nave explodirá, capitão. Aborte!
O dedo de Zhou se posicionou sobre o botão, mas não o apertou; o capitão olhou para o co-piloto que, franzindo o cenho, reforçou a impressão de Zhou de que Kiryakov não tinha fundamentos para realizar tal afirmação.
E, assim que começou a se movimentar, a nave explodiu.

Boris Kiryakov desafivelou seu cinto. Lançou-se em direção ao painel de controle, tentou alcançar o botão para abortar a dobra. Num reflexo, Zhou se interpôs entre o engenheiro flutuando em gravidade zero e o botão:
— O que você está fazendo?
— A nave vai explodir! — Kiryakov se desesperou. Mas o tempo para cancelar a operação havia transcorrido. O co-piloto também se livrou dos cintos e tentou conter o engenheiro.
— Sentem-se agora! — Zhou ordenou — Vocês vão se machucar.
Então a nave explodiu.

A situação se repetiu incessantes vezes: Kiryalov tentou todas as alternativas. Zhou não abortaria a viagem, isto era certo; ele não alcançaria o painel a tempo, isto também era certo; de onde estava, não tinha como fazer nada.
Tentou ejetar, mas a explosão da nave o desintegrou enquanto boiava no vácuo.
Ingeriu o temido comprimido letal, para acabar com seu martírio e encerrar este ciclo infindo, mas em vão, a morte por envenenamento poderia demorar até um minuto, tempo suficiente para tudo começar novamente.
Kiryalov esperou e refletiu. Viu a espaçonave se movimentando e explodindo umas trezentas vezes. Imaginou todas as possibilidades e tentou-as todas, mas inutilmente. Depois, passou a se questionar sobre as razões de ser ele o único a ter consciência do aprisionamento naquela parcela de tempo. Por algum motivo enigmático e cruel, a Boris Kiryalov fora designada a tarefa de salvar a si próprio e a seus colegas.
Surgiu-lhe uma idéia impossível, improvável, quase o mesmo que ganhar na loteria, mas a única alternativa para se livrar do círculo em que estavam. No bolso do seu casaco, na altura do peito, havia uma caneta. Se ele conseguisse apanhá-la, arremessá-la e acertar o botão, ele conseguiria abortar a dobra e todos sobreviveriam.
O botão era pequeno, cinco centímetros quadrados, Kiryakov estava distante dele uns dois metros. Não era necessário ser perito em Estatística para reconhecer que as probabilidades eram mínimas. No entanto, a cada novo retorno, Kiryakov realizava uma tentativa. A ausência de inércia e gravidade ajudava um pouco, pois garantia velocidade constante e trajetória retilínea.
Numas das vezes, Kiryakov quase acertou o botão, noutra, ele conseguiu acertá-lo, mas havia se atrapalhado e, quando arremessou a caneta, os cinco segundos já se haviam esgotado.
Kiryakov tentou, tentou e tentou. De todos modos, arremessando a caneta lateralmente, como se fosse uma bola de beisebol, por baixo, tal qual uma bola de boliche, por cima, como um dardo. Perdeu as contas de quantas vezes viu aquela cena se repetir, poderia ser umas três mil vezes, ou cem mil, impossível de distinguir.
Kiryakov desistiu e esperou a morte chegar, mas voltou a tentar, gritou, chorou, e voltou a tentar.
Por fim, num instante que se poderia chamar de milagre, quando a mão de Deus guia nossos movimentos, Boris Kiryakov lançou a caneta e atingiu em cheio o alvo.
O feixe de energia ao redor da nave se esvaiu, as luzes da cabine diminuíram de intensidade e o alarme de emergência soou. No controle, ninguém entendeu o que estava ocorrendo, acreditavam ser um defeito.
Zhou voltou a cabeça e fitou Kiryakov:
— O que foi isto?
Exausto, Boris mal conseguia articular palavra.
Módulos de manutenção abordaram a espaçonave e a rebocaram até a estação; os cosmonautas foram interrogados.
A primeira versão de Boris Kiryakov foi fiel à verdade: explicou o círculo temporal e todos os esforços feitos para se livrar dele. Mas não acreditaram no que ele dizia; um dos cientistas admitiu, hipoteticamente, a possibilidade disto, mas aceitar o fato na prática era um assunto completamente diferente. Diante da descrença, Kiryakov mudou a versão, defendeu que havia detectado uma falha crítica no sistema e por isto abortou a operação, mas foi difícil convencer o comando do porquê de ter utilizado uma caneta para isto, e não verbalmente, para que o capitão, responsável por isto, pudesse tomar uma decisão.
Consideraram-no um caso psiquiátrico e o confinaram, sedado, em sua câmara. Boris Kiryakov adormeceu, sonhos nada tranqüilos, pesadelos terríveis relacionados àquele dia.

Quando despertou, Boris Kiryakov estava sentado, cinto afivelado, um pouco atordoado ainda por causa dos sedativos.
À sua frente, o capitão e o co-piloto; em seu relógio, treze intermináveis segundos.

Escrito para a Oficina da E-TL