sexta-feira, junho 13, 2008

A Ordem do Mundo


“O mundo não tem ordem”, o monge que movimentava os sessenta e quatro discos de bronze refletiu.

O ritual era simples: no início dos tempos, quando o mundo havia sido criado, todos os discos foram colocados na primeira de três hastes, os maiores na base, os menores no topo, uma torre cônica; sempre existiu um monge com a tarefa única de movimentar os discos, o objetivo era transportar todos eles para a terceira haste, porém nunca, mas nunca mesmo, um disco menor poderia ficar abaixo dum disco maior.

Por mais simples que isto pudesse parecer, jamais alguém havia conseguido perfazer a tarefa. Segundo as profecias, no dia em que todos os sessenta e quatro discos fossem alocados na terceira haste, o mundo acabaria.

Estes mesmos monges estudaram as relações entre vogais breves e longas nos versos e estabeleceram uma seqüência métrica para composição, conhecida como matrameru.

Tanto o ritual quanto a métrica almejavam a perfeição, o supremo ideal, para os monges.

Certa manhã, Vidyacharan, após sonhos inquietos, chegou àquela conclusão: “o mundo não tem ordem”.

Não raro ele tinha pesadelos com os discos brônzeos e com o ato automático de movê-los rumo à completude. Nestes sonhos, Vidyacharan vislumbrava o fim dos tempos, mas também tudo que ocorreria antes disto.

Num destes sonhos, ele havia sido um sábio grego obcecado com o conceito de máxima generalidade, “o ser enquanto ser”; noutro, um matemático italiano, autor duma obra intitulada Liber Abaci, ou “Livro de Cálculo”, na qual ele apresentava ao mundo ocidental a importância de se adotar o sistema numérico arábico, incluindo o algarismo zero, e também a seqüência numérica inspirada nas descobertas métricas dos monges. Em outra noite, Vidyacharan era um pintor de afrescos, devastado pelo fracasso e pela busca da máxima perfeição e da mais precisa harmonia. Em outra ainda, um matemático francês que resgatava algumas descobertas do “Livro de Cálculo” e que implementava suas próprias conclusões e uma nova seqüência, através da qual obtinha, manualmente, o maior número primo conhecido.

Nas noites mais recentes, o monge havia sido um enxadrista cubano, à procura pelo adversário ideal para a realização da partida perfeita; numa bodega, conhece um marinheiro genovês que o desafia; após apenas poucos movimentos de abertura, o enxadrista se levanta, estende a mão e propõe empate. Aquele poderia ser o jogo perfeito, porém, um único deslize, uma única distração por parte dos jogadores o arruinaria. Para o enxadrista, melhor era viver a possibilidade do jogo perfeito, do que a ruína desta possibilidade.

Ele também havia sido um músico húngaro e, o mais inusitado, um autor português, que compunha livros como se fossem fórmulas matemáticas, e escrevia frases como se fossem linhas melódicas duma sinfonia, mas atormentando pelos enredos irrealizáveis que ele mesmo se propunha.

E, na noite anterior, Vidyacharan havia sido um físico americano que tentava compreender o caos e buscar ordem no aleatório. Foi então que a revelação — “o mundo não tem ordem” — o assolou.

Ele se sentou diante dos discos de bronze e, com mãos trêmulas, movimentou um deles. Toda sua formação o havia preparado para aquela tarefa, mas as visões noturnas minavam sua crença. “Seriam vislumbres de vidas futuras?”, ele se indagava.

Aterrorizado com quais sonhos as noites vindouras trariam, Vidyacharan deixou a esteira na qual tentava adormecer, adentrou o templo e acariciou os discos. Depois atou-os a seu corpo e mergulhou no rio sagrado, para sonhar o último sonho no colo de Brahma.

“O mundo não tem ordem”, pensou o monge, fundeando nas águas turvas do rio. Fechou os olhos. E constatou, para seu desespero, que estava errado, havia sim algum tipo de ordem, não compreensível, não mensurável, imprevisível, mas que unia todas as pontas dispersas, todas as perguntas sem respostas, todos os atos sem sentidos, todos os futuros não realizados, e presente nos astros, nos Vedas, nas paixões humanas e, até mesmo, nos discos brônzeos que afogavam Vidyacharan.

Escrito para a Oficina da E-TL

O Aniversário de J. S. B.



Em 1999, a revista Der Spiegel publicou um artigo intitulado “Era Bach o melhor?”; conseqüência duma exumação feita no cemitério de Leipzig. Foi quando a seguinte história veio à tona.

Durante as comemorações do aniversário de sessenta anos de Johann Sebastian Bach, um concurso foi organizado para determinar quem era o melhor organista da Europa.

Na verdade, o intuito era apenas confirmar o que todos — concorrentes, jurados e até o próprio homenageado — já sabiam: Bach era o maior dos virtuosi.
Músicos de todos os países, de todas as cidades e paróquias se congregaram em Leipzig para o festival, com duração de três dias.

Os moradores decoraram as casas e as ruas, mais cheias de vida do que nunca, invadidas pela multidão de pessoas e idiomas, artistas e curiosos.

Cada um dos concorrentes poderia praticar por algumas horas no magnífico órgão da Igreja de São Nicolau e se preparar para o embate. No entanto, Bach não conseguiu conter a ansiedade e, durante os ensaios, se escondeu num canto da igreja para ouvir e constatar a perícia dos desafiantes.

Após todos terem deitado os dedos no teclado do órgão, um dos organizadores da celebração indagou Bach:

— E então? São bons músicos?
— Todos, sem exceção. Aqui estão os melhores do mundo.

O organizador limpou com um lenço o suor que lhe escorria pelas têmporas:
— E dará tudo certo? Imagino que nenhum deles se equipare a você.
— Eu não teria tanta certeza... — Bach gaguejou — Há um jovem com um talento extraordinário, muito mais hábil do que eu.
— Impossível! Sua inspiração é divina, Sr. Bach.
— Se minha inspiração é divina, então é a própria mão de Deus que toca através daquele rapaz. Se quisermos ser justos, o título de melhor organista do mundo deverá ser dado a ele.

Os organizadores descobriram que o jovem se chamava Wolfram Benjamin, organista em Hamburgo, na casa dos trinta anos, genial e arrogante. Nem mesmo a ausência do pé esquerdo — amputado por causa dum tumor — reduzia sua desenvoltura nas pedaleiras. Além de brilhante intérprete, era um compositor incomparável. A constatação de que Bach não mentia os levou ao desespero, o festival seria arruinado.

A data do aniversário chegou e, um a um, os competidores se apresentaram. Bach assistia a tudo em silêncio, sentado na primeira fila.

Mas em nenhum dos três dias Wolfram Benjamin tocou. Ele simplesmente não compareceu ao desafio.

A última apresentação foi de Johann Sebastian Bach.

O clamor se ergueu, de boca em boca, pelas ruas de Leipzig: Bach havia vencido.

Isto até 1994, quando foram necessárias reformas no cemitério da igreja. Numa cova sem identificação, encontraram a ossada dum homem, pé esquerdo amputado.

Pesquisadores estudaram os restos mortais, vasculharam documentos da congregação, manuscritos e concluíram: aquele era Wolfram Benjamin, assassinado com um golpe de objeto rombudo no crânio.

O escândalo se instaurou no mundo da música, vários críticos, musicólogos e especialistas se posicionaram em lados distintos da disputa, alguns defendiam a genialidade de Bach, outros, a interrompida carreira dum prodígio.

O governo de Hamburgo exigiu retratação por parte do de Leipzig, além da redação duma nota pública expondo os fatos e afirmando que o organista hamburguense teria morrido por causa dum único crime — ser melhor do que Bach.

Leipzig não cedeu, alegou desconhecimento do assunto e, segundo dizem, ocultou evidências, destruiu documentos históricos, tudo para apagar quaisquer vestígios da presença de Benjamin durante o aniversário de J. S. Bach.

O artigo de Der Spiegel, poucos anos depois, reacendeu o debate. Os defensores de Benjamin requisitaram ao Kremlin o envio das partituras e do caderno de notas do organista. Alegaram que, durante a ocupação soviética, os russos apreenderam tais documentos nas dependências da igreja, mas os diretores do Kremlin negaram possuir qualquer informação sobre isto.

E a contenda prossegue, com acusações, mentiras e evidências duvidosas.

Talvez, um dia, encontremos o busto Wolfram Benjamin nas galerias da História e a epígrafe: “o melhor organista do mundo”; ou talvez sua imagem mais uma vez se desvaneça, restando apenas a imorredoura glória de J. S. B.


Escrito para a Oficina da E-TL