terça-feira, dezembro 13, 2016

A Ceia dos Solitários

 Henry Alfred Bugalho


O primeiro Natal sozinho. Na memória, as festas de infância com toda a família reunida. Peru. Árvore com luzes e bolas coloridas. O tio fanfarrão fantasiado de Papai Noel, provavelmente bebadaço. A primaiada correndo de um lado ao outro, e um que sempre acabava na reta da varinha de marmelo da vó.
Mas hoje é Natal. O nascimento de Jesus. Alguém dizia, mas nem isto servia para poupar das lambadas. Há quanto tempo isto? Dez, quinze anos atrás.
O primeiro Natal sozinho. Papai já havia morrido há muito. Mamãe, ano passado. Já morava fora e não fui ao velório. Minha irmã nunca me perdoou. Até hoje não nos falamos.
O primeiro Natal sozinho. Está nevando lá fora de novo. Dizem que este inverno será particularmente rigoroso, com mais nevascas previstas para janeiro.
Cidade de merda. Murmuro em pensamentos vendo os flocos brancos deslizando lentamente até a rua lá embaixo.
Pensei em voltar este ano, mas para quê? Os que não estavam mortos, já haviam morrido por dentro. Os primos todos espalhados pelo país, cada um em seus cantos, com suas respectivas famílias. Seria um Natal tão triste lá quanto aqui.
Natal branco, como nos filmes, mas ninguém conta sobre a tristeza que dá ao mergulhar na escuridão e no frio. Natal branco é morte, e muitos se suicidam nas vésperas do Natal.
Nasce o menino-Jesus, outros cortam os pulsos no chuveiro.
Não vou ficar aqui pensando em tais coisas. Hoje não. Porque não.
Visto meu casaco e saio porta afora, correndo escada abaixo e encarando o vento gélido e atolando os pés em trinta centímetros de neve.
Há um bar a três quadras de casa. É pra lá que vou. Uma meia dúzia de gatos pingados se perde na meia luz, alguns sozinhos nas mesas, outros sozinhos no balcão. O que nos une é a solidão.
Peço uma Lager e o bartender logo enche o caneco. Dou um gole e, quando pouso a bebida no balcão, meu olhar encontra os dela do outro lado.
Uma alemã típica, meio corpulenta, loura e rugas ao redor dos olhos azuis. Tem uns vinte anos a mais do que eu, calculo. Não faz bem o meu tipo, mas, mesmo assim, sorrio pra ela.
Sem hesitar, ela se levanta e senta-se ao meu lado, mas, por vários minutos, não diz nada. Nem eu, sem reação, um pouco intimidado, confesso.
Este será o meu último Natal. Ela diz, por fim. O último.
Permanecemos quietos, eu com o “Warum?” entalado nas entranhas.
Me deram mais três meses apenas. Depois, acabou. Ela disse.
Era tão nova. Fitei-a com cuidado agora, quase descaradamente.
Sei o que você está pensando… Câncer. E ela deslizou a mão por sobre o seio. Assim como a minha mãe. Ela disse.
Sinto muito. Respondi. Sinto muito…
Obrigada. Ela disse, repousando a mão dela sobre a minha.
Estremeci. Ela não fazia o meu tipo, e reconheço que tive um pouco de medo, como se a morte estivesse pairando sobre nós dois naquele momento.
Quer vir para a minha casa? Perguntei, num impulso, sem nem bem entender por quê. Tinha pena, sem dúvida alguma, mas não havia sido apenas isto.
E ela veio.

Não tenho nada para preparar para nós. Eu disse, abrindo os armários da cozinha.
Qualquer coisa está bom. Ela respondeu, sentada no sofá da sala. Só não queria ficar só. Esta é uma época muito triste, mas é muito pior quando não temos mais ninguém. Onde está sua família?
No Brasil. Eu disse. Mas não quero falar sobre isto.
Preparei umas salsichas e um espaguete. Comemos em silêncio, escutando o ruído delicado da neve na vidraça e os sons das bocas mastigando.
Por que me trouxe pra cá? Ela perguntou.
Não sei. Acho que também não queria estar só esta noite.
Vai dormir comigo? Ela perguntou, e me desarmou.
Se quiser… Respondi.
Não quero. Não como um homem e uma mulher, pelo menos, mas como pessoas, como os seres humanos que somos. Você podia simplesmente se deitar comigo e me abraçar bem forte e sussurrar no meu ouvido que tudo ficará bem, que eu não sofrerei, que o fim será plácido como um pôr do sol, então eu adormecerei e este terá sido um bom dia; um dia a menos, um dia mais próximo do fim, menos um dentre os noventa dias que me restam. Faria isto por mim?
Eu a puxei pela mão até o meu quarto, sempre muito bagunçado, com livros, meias e cuecas no chão; sem ordem nem propósito como a vida.
Você é apenas um rapaz… Ela disse. Ainda verá e viverá muitas coisas estranhas. Esta noite terá sido apenas uma delas.
Nós nos deitamos um do lado do outro e eu a abracei por trás. Ela puxou a minha mão para o seio dela – o do câncer, suponho – e ficamos assim por sabe-se lá quanto tempo.
Ela adormeceu, então me levantei e fui para a sala levemente iluminada pelas luzes de fora que atravessavam a janela.
Ainda nevava. Não estava mais sozinho. No quarto, dormia uma mulher cujo nem o nome eu sabia. Ela morreria em breve. Eu morrerei um dia. Tudo vai ficar bem. Sussurei. Tudo vai ficar bem.

Alcalá de Henares

Dezembro de 2016

quarta-feira, novembro 16, 2016

A Metamorfose

Henry Alfred Bugalho

Certa manhã, após sonhos inquietantes, Luís de Almeida Neto despertou metamorfoseado num repugnante trabalhador braçal. Ao seu lado na cama não havia nenhuma modelo capa da última edição da Vogue, nenhuma ex-coelhinha da Playboy, mas sim Jurema, uma mulata descabelada que o chacoalhava com desprezo e, talvez, até com um pouco de ódio.

Não acredito que você vai se atrasar de novo pro trabalho, Claudomir! Andou bebendo de novo, seu desgraçado? Se você for despedido mais uma vez, juro que vou me embora. Juro por Deus.
Luís, agora conhecido como Claudomir, se levantou e cambaleou até a cozinha, ainda se adaptando àquele novo corpo bronzeado e àquelas mãos grossas e calejadas.
Não tinha café na cama trazido por uma empregada. Era café preto e pão com margarina, sempre sob o olhar severo de Jurema.
Seu bêbado desgramado… Ela sibilava.

Na porta do casebre, não havia nenhum Aston Martin, mas sim um esgoto à céu aberto. Pelo que Jurema lhe dissera, ainda tinha de pegar três conduções e o sol começava a despontar no horizonte.
Projetou-se para o interior do ônibus lotado, todos espremidos, coagidos a enfrentar o sovaco alheio. Roubaram os dez reais que Claudomir tinha no bolso, mas pelo menos deixaram os documentos.
No canteiro de obras, todo estabanado, Claudomir levou uma comida de rabo atrás da outra.
O que que tá acontecendo contigo hoje, homem? Tá parecendo uma dondoca carregando estes sacos de cimento. Vai lá, cabra, apure nisto aí.
E Luís, agora chamado de Claudomir, trabalhou duro como nunca antes na vida. Queria chorar. Queria ligar para o pai que agora devia estar nas Bahamas em seu veleiro. Mas Claudomir não tinha papaizinho milionário, o dele tinha sido morto numa troca de tiro entre polícia e traficantes, evento que até foi noticiado nos jornais.
Na hora do almoço, sentou para comer sua marmita e lhe bateu uma profunda tristeza.
Tá de bode, é? Um dos colegas de trabalho perguntou.
Você já sentiu como se estivesse vivendo a vida errada, como se fosse outra pessoa e estivesse dentro de um corpo que não é seu? Claudomir tentou expressar a estranha experiência, mas as frases lhe saíram entrecortadas e confusas.
Todos os dias. Na verdade, sou o Brad Pitt, mas nasci no lugar errado. O colega riu. Porra, Claudomir, cala esta tua boca e come! Desde quando você deu para filosofar?
E a tristeza foi se aprofundando ao longo dia, até um ponto insuportável. Claudomir se sentia pequeno, insignificante e vazio.

A primeira coisa que fez ao sair do serviço foi passar no boteco e beber com os amigos. Chegou tarde da noite em casa e Jurema o recebeu com aquela cara de cu.
O que foi, porra? Um homem não pode ter um pouco de alegria nesta vida de merda? Ele gritou.
Cê não muda nada mesmo. Um dia, me perde e verá falta que faço.


E assim se transcorreu um mês. Claudomir acordando cedo, pão com margarina, três conduções, trabalho duro na obra, marmita, aguardente e as brigas, algumas violentas, com Jurema.
Então, algo mudou dentro de Claudomir, talvez a constatação do inexorável destino que havia recaído sobre si. Ele jamais voltaria a ser Luís de Almeida Neto, aquela era uma página virada em sua vida, talvez fosse até um devaneio, talvez nunca houvesse sido outra pessoa de fato, mas sim e sempre Claudomir Silva, aquele pobre diabo sem futuro. E esta dura constatação foi libertadora. Se ele era aquilo e não havia solução, por que se entristecer?
Assim, aos poucos, Claudomir foi se tornando cada vez mais Claudomir, e a memória de Luís de Almeida Neto foi desvanecendo, até sumir por completo. A metamoforse havia sido integralmente internalizada.
Então, numa noite de sexta-feira, Claudomir chegou à casa com um ramalhete de flores.
São pra você, Jurema. Tinha uma coisa errada comigo aqui dentro. Algum demônio tentando me convencer que isto aqui não era real. Mas ele se foi…
Eles se amaram naquela noite como há muito não faziam.

Então, por um instante, Claudomir se deu conta de que, bem no fundinho, ele era feliz. Uma felicidade oprimida e tímida, que surgia pelas brechas do sofrimento, mas felicidade mesmo assim.

Felicidade apesar de.

Conto para o ciclo 6 da Oficina de Contos Temáticos do Vlog do Escritor

quarta-feira, julho 13, 2016

A Saia de Maria Rita

Henry Alfred Bugalho

Na mesa de Jürgen havia uma foto dele em Porto de Galinhas. Mais novo. Só dezoito aninhos então e um porção de sonhos naquela mochila que carregou por todo o país.
Ficou fascinado, aprendeu a arranhar o violão e prometeu: um dia volto e abro uma pousada.
O que não aconteceu, evidentemente. Acabou a faculdade, foi contratado pela Siemens e a memória do Brasil ficou resguardada apenas nas fotografias e nas melodias que tirava no violão.
Isto até um colega o convidar para uma festa num galpão escondido em Kreuzberg.
Vai estar cheio de mulatas. Ele havia dito.
Como você sabe? Jürgen perguntou.
Mas é evidente. Uma festa de brasileiros.

Fato: tinha algumas mulatas, a maioria já casada com alemães. Haviam se conhecido no Brasil e eles as trouxeram para cá. Algumas deviam ser putas, sem sombra de dúvida. Não que Jürgen tivesse algum problema com isto. Havia se divertido pra caralho com os amigos da última vez que estiveram em Amsterdã. Havia conhecido algumas putas brasileiras lá também.
Os branquelos dançavam, sempre desengonçados, com as mulatas. Samba. Pagode. Funk. Cerveja alemã e caipirinha.
No meio da roda, dançava Maria Rita, girando como um pião, segurando com uma das mãos a barra da sua saia comprida.
Era a alma da festa. Solteira, nenhum alemão a tiracolo. Não tinha cara de puta. Pelo contrário, era trabalhadeira, acordando às cinco da manhã todos os dias. Camareira num hotel bacana. Para a grã-finada da Europa. De primeiros-ministros a presidentes.
Viste, era o Hollande? Uma colega portuguesa a cutucou enquanto passavam o aspirador no carpete daquele corredor interminável.
Quem? Maria Rita apertou a vista. Era meio míope, mas bem pouco.
O presidente da França!
Ah. Não conhecia.
Queria ter visto o Lula ou a Dilma, os que tiraram da miséria milhões de pessoas. Que lhe importava o presidente da França, que não lhe havia feito nada? Aliás, detestava franceses, com aquela sovaqueira da porra.

O olhar de Jürgen, quarenta anos e engenheiro da Siemens, se encontrou com o de Maria Rita, vinte e dois anos e camareira.
Ela procurava um alemão pamonha para chamar de seu (problemas de imigração, sabe como é?), e ele por uma mulata brasileira para chamar de sua (as alemãs são todas umas frígidas).
Se você acreditar em destino, dirá que foi isto. Prefiro pensar que foi um encontro de interesses.
Não transaram na primeira noite, pois Maria Rita era uma mulher que se dava o respeito, mas também porque Jürgen era meio lentão; talvez optasse por se chamar de um "homem respeitador".
Ela se mudou para a casa dele algumas semanas depois. Não havia sido convidada, simplesmente veio, mas Jürgen não se opôs. Mulher ordeira e carinhosa. Estavam felizes.
Queria que conhecesse meus pais. Maria Rita jogou a ideia uma noite, antes de irem dormir.
Jürgen varou a madrugada se revirando na cama. Ansiedade. Era um pedido sério, de compromisso, mas também tinha a empolgação de voltar para aquele lugar maravilhoso, uma explosão de vida e cores. O paraíso na terra.

Saíram da escuridão e da neve berlinense para o tórrido verão carioca.
Você se lembrou de passar filtro solar? Maria Rita perguntou a Jürgen.
É claro. Ele resmungou, mas mentia. Havia se esquecido e, no final do dia, já estava ardido e vermelho como um pimentão.
A família de Maria Rita o saudou como a um filho, beijando e abraçando, com seus corpos suados e grudentos. Feijoada, churrasco e futebol na TV.
E assim se passaram os primeiros dias.
Então, Maria Rita ficou calada e pensativa, sem aquela energia vital e contagiante tão característica dela.
O que foi? Alguma coisa errada? Jürgen perguntou.
Nada. Só bateu uma tristeza.
E ele entendia bem esta melancolia dela, também sentiria falta desta terra maravilhosa quando houvessem de partir de novo para a pátria fria e opaca onde nascera.
Mas não era isto que afligia Maria Rita. Antes fosse.

Numa noite, quando Jürgen e Maria Rita subiam o morro de braços dados após um lindo passeio por Copacabana, um grupo de rapazes os cercou numa quebrada, todos moleques de quinze ou dezesseis anos, alguns armados com pistolas e outros com fuzis.
Então apareceu o Zoião e agarrou Maria Rita pelos cabelos, enquanto os demais meteram uns chutes no cu do branquelo.
Voltou é, vagabunda? Que coragem, heim!
Deixa a gente em paz. Ela disse, chorando.
Nada disso, mulé. Cê tá pensando o quê? Aqui quem manda sou eu, porra, aqui eu sou a lei.
Maria Rita e Zoião haviam sido namorados alguns anos antes, mas quebravam demais o pau. Ele batia nela, e tudo o mais. Maria Rita fugiu (ou foi afugentada) para a Alemanha, enquanto Zoião cresceu e apareceu e se tornou o dono do morro. E ela torcendo para que ele já estivesse há muito morto, fuzilado pelo BOPE em alguma viela ou por alguma facção rival.
Este encontro só podia dar merda.
Jürgen nãn entendia palavra, mas não precisava ser nenhum gênio para compreender que sua vida estava por um fio. Maria Rita e Zoião gritavam. O cano do revólver em sua testa.
Vou morrer. Jürgen se recordou de sua viagem quase vinte anos antes, e de como tudo lhe pareceu incrível e deslumbrante, até mesmo as contradições e violências do país. Mas, agora, com as calças mijadas e todo trêmulo, só queria voltar para sua terra opaca.


Retirou a foto da sua escrivaninha e não tocava mais violão. De vez em quando, chorava sozinho no chuveiro sem nem saber bem por quê. Talvez fosse o medo, a proximidade da morte, a constatação de quão frágil era a sua existência, mas bem podia ser a recordação da mulata que deixou no Brasil nas mãos de um bandido assassino, que havia apostado o futuro e a felicidade dela para que ele pudesse estar ali, vivo, chorando no chuveiro. Era o sacrifício de Maria Rita que doía mais.
Era isto.

sábado, junho 11, 2016

A Grande Criação de Deus



Henry Alfred Bugalho

Você sabia que há duas histórias diferentes para a criação da Humanidade no Gênesis? Ela disse, segurando a taça de vinho e olhando para algum ponto sobre o ombro do marido. Para o garçom ou para o senhor grisalho com aquele terno que parecia ser caríssimo?
Do que você está falando? Ele perguntou.
De tudo. De como vocês se tornaram senhores da terra, legitimaram sua opressão sobre nós ao escolher uma destas duas histórias.
Eu não escolhi história alguma. Ele disse, mas ela não pareceu ouvi-lo.
Numa delas, Deus criou o homem e a mulher ao mesmo tempo. "Homem e mulher os criou". Na segunda, alguns versículos depois, conta-se que primeiro criou o homem, e depois a mulher a partir da costela de Adão. Ela prosseguiu.
E? Ele perguntou, sem interesse.
E isto faz toda a diferença. Se nós fomos criados ao mesmo tempo, somos iguais. Se vocês foram criados antes, são superiores.
Mas nós não viemos de Adão e Eva. Ele disse. Você sabe disto. Viemos de alguns macacos africanos...
É a imagem! Ela respondeu. As pessoas não estão nem aí para macacos africanos, mas elas se importam com Deus e com o que está na Bíblia. Pergunte pra qualquer um aí ao nosso redor o que pensam sobre isto. Pergunte a eles quem nos criou, e você verá. Deus, elas dirão.
Talvez. E daí? Ele disse.
Veja como você está reagindo. É exatamente disto que estou falando. Toda esta história justifica comportamentos como o seu. De condescendência, de superioridade. Isto não é um problema pra você porque isto não te afeta.
Está me afetando neste exato momento. Ele disse. Só quero jantar em paz.
Então não posso me expressar, é isso? Como sempre, você está tentando me calar.
Não estou tentando nada. Só quero comer em paz. E eu não conseguiria te silenciar nem se quisesse...
Eu falo demais, é isto? Ela cruzou os braços, fitando-o daquele modo que lhe dava calafrios.
Não, não é isto. Mas, desde que você começou a andar com a Sandra, tem vindo com estes papos.
É que pela primeira vez eu tenho entendido a mecânica da opressão, de como o patriarcado nos sufocou.
O mundo não é dividido entre opressores e oprimidos, porra. Ele ergueu a voz pela primeira vez naquela noite.
Isto é muito cômodo vindo da boca de um homem. Ela disse, ainda com os braços cruzados.
Ele se calou. Ela apanhou o celular.
Você quer sobremesa ou posso pedir a conta? Ele resmungou.
Os dois em silêncio no táxi. Entraram em silêncio em casa. Ele tirou o casaco e pendurou no cabide.
Ela sumiu no banheiro para remover a maquiagem. Ele se sentou em sua poltrona e ligou a TV.
Uns vinte e três minutos depois, ela parou na porta, na contraluz do quarto aceso. O rosto dela nas sombras.
Acabou. Quero ir embora. Ela disse, com uma estranha e incomum convicção.
Ele não disse nada, sequer se virou para mirá-la.
Vou embora. Ela repetiu.
E vai pra onde? Uma inútil como você vai sobreviver de quê? Ele disse, sem raiva, sem emoção evidente.
Como qualquer outra pessoa sobrevive. Ela respondeu.
É coisa da Sandra, não é?
A Sandra não tem nada a ver com isso.
Tem um amante, então. Só pode. Vi que comprou calcinhas novas, tem andado toda perfumada, indo pra academia. Acha que não percebo?
Só quero me sentir amada, respeitada. Só isso. Ela disse, com firmeza; ela não choraria desta vez. Não desta vez.
E o que o Jorginho vai dizer? Ele disse, desligando a TV, enfim se voltando para ela. Era uma mulher diferente que tinha diante de si, não era a mesma que havia dito "sim" no altar vinte anos atrás. Eles combinavam então, talvez até se amassem. Não se lembrava.
Que que tem o Jorginho? Ele já está crescido. Vai aceitar que eu preciso ser feliz, pelo menos uma vez na vida.
Sabia que tinha um amante nesta história. Ele disse, enfiando as mãos no bolso.
Você não me entenderia. Nunca entendeu. Ela disse, dando-lhe as costas e voltando para o quarto. Bateu a porta atrás de si.
Ele permaneceu ali, de pé no meio da sala, pensando no .38 guardado na gaveta da sua escravinha, que ele carregava com seis balas (por que seis se apenas uma bastava?) e enfiava na boca todas as noites antes de ir dormir, engatilhava, retirava as balas e voltava a guardar e a trancar o revólver na gaveta.
Ela era infeliz?
Pois ele também era.
Então, ocorreu-lhe que a solução talvez não fosse enfiar aquela arma em sua boca, com o medo (do quê? Da morte? Do sofrimento?) em sua mão trêmula e com o cano frio chocando-se contra seus dentes, mas descarregar nela enquanto ela dormia de bruços, com o travesseiro no meio das pernas e a cabeça apoiada sobre os braços.
E depois sair para procurar o tal amante.
O mundo não era feito de opressores e oprimidos, ele concluiu, o mundo era feito de gente infeliz. Esta havia sido a grande criação de Deus.

(Conto produzido para a Oficina Virtual de Escrita - Vlog do Escritor)