sábado, junho 11, 2016

A Grande Criação de Deus



Henry Alfred Bugalho

Você sabia que há duas histórias diferentes para a criação da Humanidade no Gênesis? Ela disse, segurando a taça de vinho e olhando para algum ponto sobre o ombro do marido. Para o garçom ou para o senhor grisalho com aquele terno que parecia ser caríssimo?
Do que você está falando? Ele perguntou.
De tudo. De como vocês se tornaram senhores da terra, legitimaram sua opressão sobre nós ao escolher uma destas duas histórias.
Eu não escolhi história alguma. Ele disse, mas ela não pareceu ouvi-lo.
Numa delas, Deus criou o homem e a mulher ao mesmo tempo. "Homem e mulher os criou". Na segunda, alguns versículos depois, conta-se que primeiro criou o homem, e depois a mulher a partir da costela de Adão. Ela prosseguiu.
E? Ele perguntou, sem interesse.
E isto faz toda a diferença. Se nós fomos criados ao mesmo tempo, somos iguais. Se vocês foram criados antes, são superiores.
Mas nós não viemos de Adão e Eva. Ele disse. Você sabe disto. Viemos de alguns macacos africanos...
É a imagem! Ela respondeu. As pessoas não estão nem aí para macacos africanos, mas elas se importam com Deus e com o que está na Bíblia. Pergunte pra qualquer um aí ao nosso redor o que pensam sobre isto. Pergunte a eles quem nos criou, e você verá. Deus, elas dirão.
Talvez. E daí? Ele disse.
Veja como você está reagindo. É exatamente disto que estou falando. Toda esta história justifica comportamentos como o seu. De condescendência, de superioridade. Isto não é um problema pra você porque isto não te afeta.
Está me afetando neste exato momento. Ele disse. Só quero jantar em paz.
Então não posso me expressar, é isso? Como sempre, você está tentando me calar.
Não estou tentando nada. Só quero comer em paz. E eu não conseguiria te silenciar nem se quisesse...
Eu falo demais, é isto? Ela cruzou os braços, fitando-o daquele modo que lhe dava calafrios.
Não, não é isto. Mas, desde que você começou a andar com a Sandra, tem vindo com estes papos.
É que pela primeira vez eu tenho entendido a mecânica da opressão, de como o patriarcado nos sufocou.
O mundo não é dividido entre opressores e oprimidos, porra. Ele ergueu a voz pela primeira vez naquela noite.
Isto é muito cômodo vindo da boca de um homem. Ela disse, ainda com os braços cruzados.
Ele se calou. Ela apanhou o celular.
Você quer sobremesa ou posso pedir a conta? Ele resmungou.
Os dois em silêncio no táxi. Entraram em silêncio em casa. Ele tirou o casaco e pendurou no cabide.
Ela sumiu no banheiro para remover a maquiagem. Ele se sentou em sua poltrona e ligou a TV.
Uns vinte e três minutos depois, ela parou na porta, na contraluz do quarto aceso. O rosto dela nas sombras.
Acabou. Quero ir embora. Ela disse, com uma estranha e incomum convicção.
Ele não disse nada, sequer se virou para mirá-la.
Vou embora. Ela repetiu.
E vai pra onde? Uma inútil como você vai sobreviver de quê? Ele disse, sem raiva, sem emoção evidente.
Como qualquer outra pessoa sobrevive. Ela respondeu.
É coisa da Sandra, não é?
A Sandra não tem nada a ver com isso.
Tem um amante, então. Só pode. Vi que comprou calcinhas novas, tem andado toda perfumada, indo pra academia. Acha que não percebo?
Só quero me sentir amada, respeitada. Só isso. Ela disse, com firmeza; ela não choraria desta vez. Não desta vez.
E o que o Jorginho vai dizer? Ele disse, desligando a TV, enfim se voltando para ela. Era uma mulher diferente que tinha diante de si, não era a mesma que havia dito "sim" no altar vinte anos atrás. Eles combinavam então, talvez até se amassem. Não se lembrava.
Que que tem o Jorginho? Ele já está crescido. Vai aceitar que eu preciso ser feliz, pelo menos uma vez na vida.
Sabia que tinha um amante nesta história. Ele disse, enfiando as mãos no bolso.
Você não me entenderia. Nunca entendeu. Ela disse, dando-lhe as costas e voltando para o quarto. Bateu a porta atrás de si.
Ele permaneceu ali, de pé no meio da sala, pensando no .38 guardado na gaveta da sua escravinha, que ele carregava com seis balas (por que seis se apenas uma bastava?) e enfiava na boca todas as noites antes de ir dormir, engatilhava, retirava as balas e voltava a guardar e a trancar o revólver na gaveta.
Ela era infeliz?
Pois ele também era.
Então, ocorreu-lhe que a solução talvez não fosse enfiar aquela arma em sua boca, com o medo (do quê? Da morte? Do sofrimento?) em sua mão trêmula e com o cano frio chocando-se contra seus dentes, mas descarregar nela enquanto ela dormia de bruços, com o travesseiro no meio das pernas e a cabeça apoiada sobre os braços.
E depois sair para procurar o tal amante.
O mundo não era feito de opressores e oprimidos, ele concluiu, o mundo era feito de gente infeliz. Esta havia sido a grande criação de Deus.

(Conto produzido para a Oficina Virtual de Escrita - Vlog do Escritor)