segunda-feira, março 13, 2017

Os Colonos

O ano era 1877, eu tinha somente vinte e seis anos, uma esposa, três filhos e duzentos e trinta e dois livros.
Primeiro, fomos para uma colônia nova, junto a outros alemães, ucranianos e alguns austríacos. Assim como em minhas divagações, paramos no meio do mato. A cidade mais próxima ficava a quilômetros, e mesmo esta cidade era apenas um vilarejo com algumas centenas de moradores.
Começamos tudo do zero e eu, que nunca havia feito um trabalho braçal antes, vi-me pegando no machado e na enxada. Envergonhava-me muito quando Mine saía de nosso casebre improvisado, com Julia no colo, e me observava, emudecida, com desespero no semblante. Envergonhava-me, mas a companhia daqueles outros colonos, todos homens rústicos e simples, também me insuflava de orgulho; eu me sentia mais vivo, mais másculo.
Minhas mãos, desde sempre acostumadas aos livros, à caneta, a papéis e mata-borrões, estavam cheias de feridas, que se tornaram calos, que se tornaram mãos de um homem de verdade.
Mine nada dizia. Nenhuma reclamação, nenhuma reprimenda. Uma noite, lendo para as crianças, ela deparou-se a seguinte frase do livro de Staden:
Dann man da im landl nicht viel mehr hat, dann was auß der wiltnus kompt (Pois naquele país não há muita coisa mais além do que há no mato).
Ela se silenciou, tapando a boca com a mão e segurou o choro.
»Está tudo bem?« perguntei.
»Johann está doente. Não melhora nunca. Acho que devem ser as enfermidades daqui.«
»O que quer que eu faça?« e pude ler na expressão dela a frase que ela não tinha coragem de enunciar: "leve-me embora daqui." Mas Mine nunca disse isto.
Primeiro, o exótico o fascina, depois o repele; por fim, o exótico o mata. Foi o que pensei. Não queria ver meus filhos morrerem no meio do mato por minha causa.
Então nos mudamos para outra colônia, nos arredores de Curitiba, onde estaríamos mais próximos do que se entende por civilização. Já era uma colônia estabelecida, assim não teríamos de lutar contra a mata selvagem, os predadores, os insetos e os índios. Mine se alegrou um pouco.
Contrataram-me para a escola dos colonos e, durante um par de anos, ocupei-me desta tarefa. Entretanto, aquilo não me bastava, reproduzindo o que eu já era na Prússia naquelas novas terras. Eu precisava me reinventar, libertar-me do Siegfried que eu havia sido, despir-me dos meus títulos e da minha formação e recriar-me.
»Fundarei um periódico,« eu disse a Mine.
»E falará sobre o quê?« ela me perguntou.
»Sobre qualquer coisa, assuntos de interesse dos colonos. Qualquer coisa.«
Alugamos uma casinha não muito longe da nossa e arrendei os equipamentos da tipografia. Não sabia nada sobre isto, mas eu vinha da terra de Gutenberg, então esta arte devia estar, de algum modo, em meu sangue. Contratei dois moços e Lourenço para me auxiliarem, escrevi alguns artigos e, após algumas semanas, foi impresso o primeiro fascículo do Deutsche Zeitung, pela S. Schäffer Typographia Alemã.

Eu estava muito orgulhoso comigo mesmo. Eu estava feliz.